segunda-feira, janeiro 30, 2006

Reposição quase hormonal

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Meu raciocínio não anda muito claro. É o período do mês em que é tão difícil ser mulher (e em que eu sinto, mais do que nunca, saudades das minhas duas gravidezes, quando esse período tortuoso NÃO acontecia. Tudo bem que eu enjoava horrores e vomitei até o dia em que dei à luz, mas não se pode ter tudo nessa vida :o)
Voltando. Há muito tempo que eu não tenho TPM (como é aquela história? Homem nervoso no trabalho é estresse, mulher nervosa no trabalho é TPM.)
Estou fugindo de novo. Então. Não é a TPM, que eu há muito não tenho. Fico sensível, volto a chorar quando lembro da mãe do Bambi, etc e tal. Minha pele dói, meus seios incham, tenho uma dor de cabeça fininha e chata, pareço que tenho reumatismo em último grau.
Assustou? Pois espera aí. Sabe o que mais eu odeio nesse período? É só querer comer queijo. Só de pensar minha boca saliva. Ontem fui no supermercado e, mesmo com meu saldo bancário quanse sendo preso por se passar por quem não é, comprei um pedaço de gorgozola. Comi inteirinho. Puro. De uma vez só.
O pior (sim, tem pior): não consigo parar de comer queijo parmesão ralado. Já foram cinco pacotes, dos grandes. Não consigo parar. Ele me chama lááááá da cozinha, às vezes de madrugada. Estou lavando a louça e ele, lá da prateleira: "Vem, meu bem, só um pouquinho".
Eu estou salivando por um queijo gouda, amarelinho, maciozinho, furadinho... Hummm!
Queijo Minas? Ricota? Irc!

domingo, janeiro 29, 2006

sábado, janeiro 28, 2006

...

Eu já fui vaidosa, um dia.

Um elevador para os céus

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O príncipe de todos os príncipes era William Randolph Hearst [...], arquétipo do empresário autocrático e implacável, cujo enaltecimento de si mesmo tornara-se a sua raison d'être. Não chegou a ser supresa, portanto, que servisse de inspiração para o filme Cidadão Kane, de Orson Welles, de 1941, que a imprensa de Hearst, compreensivelmente, tentou arrasar. [...]
Não havia "Rosebud" nenhum na vida de Hearst que pudesse suscinta e agudamente explicar seu maníaco galopar pela vida a uma platéia de embasbacados estudantes de cinema, e apesar disso sua carreira ilustra a natureza e a força de uma obsessão perseguida sem limites. Isto acabou se expressando mais claramente em sua mansão em San Simeon, construção num estilo que seria chamado de espúrio-espanhol-mourisco-romanesco-gótico-renascentista-mercado-em-alta-dane-se-o-quanto-custa, um exagero nunca visto nem mesmo nos Estados Unidos. Não foi, escreve o biógrafo, "construída a partir da estaca zero para satisfazer certas necessidades de habitação; era um mosaico de lembranças de Hearst, de suas inspirações e de seus bens. Em seu fichário, ele tinha registros de planos de decoração e arranjos que vira em castelos e catedrais da Europa, e queria adotar em seu palácio".
Já acumulara centenas de caixas contendo salões góticos inteiros, tetos entalhados, bancos e coro de igreja, painéis de madeira, escadas, vitrais, sarcófagos, tapeçarias e incontáveis itens que viriam a calhar num palácio ainda a ser construído, um edifício para completar os dois castelos que possuía, um dos quais, o castelo Saint Donat em Glamorganshire, ao norte do país de Gales, raramente visitava.

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Em seu palácio de San Simeon, Hearst dormia numa cama que pertencera ao Cardeal Richelieu. No edifício Clarendon, em Nova York, o elevador que conduzia a seu apartamento tríplex, atulhado de armaduras, quadros, tapeçarias e esculturas, era um confessionário transformado, que em outros tempos testemunhara os pecados sussurrados e as intrigas do Vaticano. A banheira era de mármore de Paros e tinha anteriormente acomodado o presidente Wilson na Casa Branca.
Tudo tinha que ter a marca da prodigalidade. Hearst, o homem do jornal, tinha um aeroporto, dez mil cabeças de gado, uma leiteria, um haras de puros-sangues, uma granja, frotas de carros, um pequeno exército de jardineiros e um zoológico particular onde leões e tigres, ursos polares e outras criaturas eram exibidos para visitantes admirados que se tornavam, pelo menos temporariamente, parte da coleção. Desde Versalhes o mundo não vira palácio tão fenomenal e senhor tão prodigamente, tão prodigiosamente gastador.

Philipp Blom, "Ter e manter - Uma história íntima de colecionadores e coleções"
Editora Record, 2003

Som da hora

Bananarama
Frankie Goes to Hollywwod
Fine Young Cannibals
Communards
Spandau Ballet.

Tape o nariz: o cheiro de naftalina está um horror.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Thunder, Thunder, Thundercats!

Mesmo com fones de ouvido escutando música no último volume para não ouvir os trovões, vou ter que pedir ajuda para achar meu coração que pulou pra fora da boca há uns 20 minutos.

Incenso fosse música

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isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Eu adoro Paulo Leminski.

Bem no fundo

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No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Paulo Leminski

A cor do seu destino

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Panteras Negras: sempre tive fascinação pelo movimento exatamente por não saber bem o que faziam, como lutavam. Só sei que os atletas que fizeram esse gesto perderam suas medalhas: o comitê olímpico alegou ser um gesto político, que não condizia com o espírito dos esportes. Talvez, se tivesse sido um branco no lugar mais alto do pódio, talvez o gesto fosse encarado como "solidariedade" ou "engajamento social".
Ilusão: o esporte nunca foi nem jamais será tão puro. Vide o caso de Jim Thorpe (1888-1953). Thorpe destacou-se em esportes como atletismo, beisebol, basquete, hóquei sobre gelo, natação, tênis e arco e flecha. Nos Jogos Olímpicos de 1912 obteve duas medalhas de ouro, no pentatlo e no decatlo. Nesta última prova, estabeleceu um recorde que não foi superado durante 17 anos.
Apesar disso, a Amateur Athletic Union considerou que o fato de o atleta ter jogado beisebol como semiprofissional violava a condição de amador então exigida do desportista nas Olimpíadas. Thorpe perdeu suas medalhas e seus recordes foram oficialmente cancelados. Somente em 1982, 30 anos depois de sua morte, Jim Thorpe foi reabilitado e suas medalhas devolvidas.
Jim Thorpe era mestiço de índio. Seu pai era parte irlandês e parte índio e sua mãe era índia, com sangue francês. Seu nome índio era Wa-Tho-Huck (Caminho Brilhante). Era bisneto do grande cacique Falcão Negro, da tribo Sac.

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The rat pack

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Ontem foi aquela coisa mesozóica; há dez minutos eu vi, pelo rabo do olho, um nanocamundongo passar detrás de um armário para o outro.
Tudo bem, Santa Teresa é pitoresca e lembra dois séculos atrás. Mas não precisa ser TANTO assim.
Na boa, não estou mais a fim de brincar disso. Cansei.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

...

... quisera eu ter.

Mistério inexplicável do sobrenatural

Em algum lugar entre as muitas dimensões que compõem o universo como não o conhecemos, onde a seta do tempo toma múltiplas direções e as leis da físicas criam em sua desobediência o espaço caotico, deve estar a resposta para essa pergunta que me tira a paz de espírito há mais de três décadas:

Por que SEMPRE, em noites de tempestade, você acorda morta de vontade de fazer xixi, corre para o banheiro, acende a luz e, sentada na posição adequada, vê sair detrás da porta uma barata vinda diretamente do Cretáceo, baloiçando as antenas e com cara & postura de "Leve-me ao seu líder"?

Partindo os céus*

Tempestades estão entre as coisas que me dão prazer. Principalmente depois de um dia em que, se não fez 50ºC, juro que pareceu. Minha vontade era me jogar de cabeça dentro da caixa d'água.
Então. Adoro tempestades. Gosto de ficar na janela, todas as luzes apagadas, vendo aquele oceano despencar (tem um texto do Antonio Tabucchi, publicado aqui, que traduz um pouco o que eu sinto).
Mas eu odeio trovões. Eles me assustam muito, muito, muito. É completamente irracional, mas quando cai aquele raio que assusta até Cérbero eu me encolho toda, aperto os olhos, cerro os dentes e espero a explosão.
Nessas horas eu só queria mesmo um colo onde me enfiar até o barulho terminar.

* E eu toda encolhida, rezando para tudo terminar logo, e as meninas roncando na cama. Nem piscaram. Uma vergonha.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

À beira do abismo

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O quarto das meninas é enorme; tem 4,5mx3,5m. Na extensão dos 4,5m botamos uma prateleira de parede a parede para ficarem as Barbies, os CDs, os livros que elas ainda não lêem, bichos de pelúcia, caixinhas com miudezas. Pois elas se penduraram nessa prateleira, que acabou de vir abaixo. Não tem dez minutos. Estou aqui no computador para me acalmar.
A brincadeira arrancou os parafusos (bucha nº 10). Pedaços de cimento, tijolo e reboco caíram em cima da cama. CDs abertos para todos os lados, Barbies embaixo de dúzias de livros.
Meu ódio foi tão grande que tive vontade de surrar as duas até minhas mãos coçarem e arderem. Suor escorrendo por dentro da blusa, por entre os olhos, tive que segurar a prateleira, desaparafusá-la nos pedaços fora da parede, endireitar os parafusos e parafusá-la mal e porcamente, porque só um pedreiro e um marceneiro vão poder botar aquilo no lugar.
Seis e quatro anos. Você diz "não" ou "sim" ou "talvez" ou "jamais". Não importa. Elas só fazem o que querem. E a vontade que eu tenho é gritar até ficar rouca numa janela aberta. Em vez disso, encostei a cabeça na parede e chorei até meus olhos arderem de secos.
Fico pensando quando essas meninas estiverem na adolescência. Vou pedir para ser internada num asilo. Não vou agüentar.

Correios & Telégrafo (sempre no singular)

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Antigamente, quando você escrevia uma carta, tinha bastante tempo antes de enviá-la - você tinha CERTEZA de que deveria mandá-la, se era sensato, correto, bom, necessário.
Agora, com e-mail, basta um clique e pronto: se não era para ir, já foi.
Antigamente, havia o último recurso: matar o carteiro. Hoje, apertou o "send", não tem jeito: nem pedindo ao arrependimento o tiro de misericórdia.

terça-feira, janeiro 24, 2006

Luz da lua

Que ótimo. Agora são duas com insônia: eu e Zé Colméia. Altas conversas filosóficas me esperam na cozinha.

...

Hoje à tarde fui para a casa da minha mãe. Fiquei lá, naquele apartamento vazio. Dormi o sono que não tenho à noite mas foi só uma hora e meia, apenas o suficiente para a minha dor de cabeça passar. Acordei e fiquei quase duas horas sem me mexer, apenas olhando o teto e relanceando os olhos para o relógio em cima da mesa de cabeceira, para não perder a hora de voltar para casa.
Duas horas em que milhões de coisas passaram pela minha cabeça. Coisas doidas, paranóicas. Dores antigas. O que teria acontecido comigo se eu não tivesse me casado. Se não tivesse filhos. Em que ponto da minha carreira eu estaria. Se eu tivesse aceito o convite pra jantar de um colega meu da primeira faculdade que eu fiz.
Como será minha vida a partir de 1º de fevereiro, quando oficialmente não entrará nenhum salário. Como pagarei as contas com o pouco dinheiro que tenho no banco. Por que eu penso coisas ruins de pessoas que mal conheço.
Por que tenho tanto medo de me machucar de novo. E de novo e de novo. Não é isso a vida? Ralar os joelhos, agüentar estoicamente o mertiolate e seguir em frente?
Vai valer a pena gastar uma fortuna que eu não tenho com um advogado para conseguir um aumento de 10% na pensão das meninas?
Sabe o que é? Eu preciso ter de volta minha paz de espírito.
Eu só queria poder encostar a cabeça no travesseiro e dormir.
Simples, assim.

Tenho, às vezes, saudades do futuro*

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Um dia recebi carta da Bárbara em que ela, a certa altura, dizia: "Acho que tens razão. Amar os pobres é fácil. Não há mesmo outra coisa a fazer quando estamos ao pé deles. Vê lá é como se podem amar os ricos e os poderosos. E já que tens a mania de pensar, pensa nisto: o amor de que fala o Evangelho tem pouco a ver com o que se passa entre um homem e uma mulher. Isso é demasiado fácil para merecer a salvação."

António Calçada Baptista, "O tecido do outono"
Editora Globo, 2001

* Teixeira Pascoaes

segunda-feira, janeiro 23, 2006

...

Quando a gente se machuca pra valer e leva tanto tempo para se recuperar, "paranóia" adquire outro significado: muitas vezes, é o sinônimo de "sobrevivência".

...

O que mais me dói em ficar sem dinheiro não é a falta de cinema, roupas novas, restaurantes, teatro, programas de fim de semana.
É ver a quantidade de livros que eu adoraria ter mas que não posso comprar.

Pra não mudar de canal

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* Pense grande. Voce já ouviu falar de Alexandre o Médio? (3i, consultores de empresas)
* Ruim por ruim, vote em mim! (Alípio Martins, em campanha política)
* Deve. Haver. Uma. Maneira. Mais. Rápida. De. Chegar. Ao. Trabalho. (AM Express Bus, Minneapolis)
* As fitas não são virgens, mas, também, hoje em dia quem é? (Blockbuster)
* Nenhuma mulher quer um homem bom de pia. (Brastemp)
* Brinquedo só no Natal. Bife de fígado toda semana. E depois você se pergunta por que há tanta criança traumatizada no mundo. (Brinquedos Estrela)
* Colocamos nosso nome na traseira de nosso carro, de maneira que os motoristas do Porsche tenham o que ler. (Carro Lexus)
* [Sob uma foto de Fidel Castro]: Economizar no vestuário não significa andar 30 anos com a mesma roupa. (Cartão de Crédito Fashion Clinic)
* Tão fascinante como a Disney. Mas o mouse é mais inteligente. (Computador Presario/Compaq)
* Beba-o com respeito. É provável que ele seja mais velho que você. (Conhaque Martell)
* Ame-os e deixe-os. (Creche em Minneapolis)
* Não servimos almoço. Levamos o dia inteiro para preparar o seu jantar. (D'Amico Cucina)
* Nunca foi tão fácil tirar o doce da crianca. (Escova dental Oral B)
* De ao seu bebê algo que você nao teve na infância. Um bumbum seco. (Fraldas Johnson's)
* Antes de dormir, não esqueca de apagar os insetos. (Inseticida Rodiasol)
* Rico em vitaminas e milionário em proteínas. (Iogurte Danone)
* Quer que ele seja mais homem? Experimente ser mais mulher. (Lingerie Valisère)
* Quando uma menina vira mulher, os homens viram meninos. (Lingerie Valisère)
* Cabem 18 crianças, lógico, se o motorista for surdo. (Van Hi Topic Asia)
* É o mais rápido que você pode ir, sem ser obrigado a comer a comida de bordo. (Porsche)
* Mais valem quatro cabeças de vídeo do que uma bem na sua frente no cinema. (Semp Toshiba)
* A crítica adorou. Mas pode assistir que é bom. (Semp Toshiba)
* Nossos clientes nunca voltaram para reclamar. (Outdoor de uma casa de serviços funerários)
* Não temos música ao vivo. Sorte sua. (Outdoor do Taco Del Maestro, restaurante de comida mexicana)
* Nao beba só uma. Bebavarias. (Cerveja Bavaria)

domingo, janeiro 22, 2006

A soma de todas as palavras

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Alguém, estes dias, me fez lembrar de "Baudolino", de Umberto Eco. Meu livro preferido dele, porém, é "O nome da rosa". Não porque virou filme - até porque o filme nada tem a ver com o livro. O que me interessa é o que todo mundo pulou quando o leu: a eleição do papa, as conferências entre membros das diversas ordens, o poder do Santo Ofício. E, é claro, a biblioteca e seus livros - mas, acima de tudo, a genialidade do autor ao nomear sua obra: a expressão "o nome da rosa" foi usada na Idade Média significando o infinito poder das palavras. A rosa subsiste por seu nome, apenas; mesmo que não esteja presente nem sequer exista.

Eu só bebo raktajino*

Você sabe que o vírus trekker passou à geração seguinte quando sua filha de seis anos, antes de dormir, diz: "Computador, apagar luzes!"

* Pra quem não sabe, é como se chama o café klingon. Se você não sabe o que é klingon, vá para outro blog, pelo amor de Deus, antes que seja tarde.

Eu confesso que...

... a-do-ro carne enlatada. Amo. Sabe aquela latona de Presuntada e Viandada (que nome!) da Perdigão, que vem com aquela chavinha bem anos 70 pra abrir no fundo? Pois é. Sexta comi uma. Inteirinha, e ainda mandei uma garrafa de Gatorade de limão por cima.
Não faz essa cara de nojo, por favor. Você não entende que eu TENHO que viver com isso para o resto da vida. É dureza, viu?

O lápis é cor de pele ou cor de carne?

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Hamilton Naki, um sul-africano negro de 78 anos, morreu no final de maio de 2005. A notícia não rendeu manchetes, mas a história dele é uma das mais extraordinárias do século 20. "The Economist" contou-a em seu obituário desta semana.
Naki era um grande cirurgião. Foi ele quem retirou do corpo da doadora o coração transplantado para o peito de Louis Washkanky em dezembro de 1967, na cidade do Cabo, na África do Sul, na primeira operação de transplante cardíaco humano bem-sucedida.
É um trabalho delicadíssimo. O coração doado tem de ser retirado e preservado com o máximo cuidado. Naki era talvez o segundo homem mais importante na equipe que fez o primeiro transplante cardíaco da história. Mas não podia aparecer porque era negro no país do apartheid.
O cirurgião-chefe do grupo, o branco Christiaan Barnard, tornou-se uma celebridade instantânea. Mas Hamilton Naki não podia nem sair nas fotografias da equipe.
Quando apareceu numa, por descuido, o hospital informou que era um faxineiro. Naki usava jaleco e máscara, mas jamais estudara medicina ou cirurgia.
Tinha largado a escola aos 14 anos. Era jardineiro na Escola de Medicina da Cidade do Cabo. Mas aprendia depressa e era curioso. Tornou-se o faz-tudo na clínica cirúrgica da escola, onde os médicos brancos treinavam as técnicas de transplante em cães e porcos.
Começou limpando os chiqueiros. Aprendeu cirurgia assistindo experiências com animais. Tornou-se um cirurgião excepcional, a tal ponto que Barnard requisitou-o para sua equipe.
Era uma quebra das leis sul-africanas. Naki, negro, não podia operar pacientes nem tocar no sangue de brancos. Mas o hospital abriu uma exceção para ele.
Virou um cirurgião, mas clandestino. Era o melhor, dava aulas aos estudantes brancos, mas ganhava salário de técnico de laboratório, o máximo que o hospital podia pagar a um negro. Vivia num barraco sem luz elétrica nem água corrente, num gueto da periferia.
Hamilton Naki ensinou cirurgia durante 40 anos e aposentou-se com uma pensão de jardineiro, de 275 dólares por mês. Depois que o apartheid acabou, ganhou uma condecoração e um diploma de médico honoris causa. Nunca reclamou das injustiças que sofreu a vida toda.

Armando Mendes, "O cirurgião clandestino"
Capturado em junho de 2005 no blog de Augusto Noblat. Às vezes, eu guardo textos por meses até ter vontade de publicá-los. Esse aí você deve ter lido em outros blogs.

Cansei

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Meu sono deve ter dado uma paradinha na casa de alguém.

sábado, janeiro 21, 2006

Mais um.2

Esclarecendo comentários e e-mails que recebi, declaro para os devidos fins que tenho três cachorros:

- Um golden retriever, que é um lorde de tão educado (é, é sujeira dizer que o bicho é uma lady, principalmente sendo vasectomizado - que, gente, não é o mesmo que castrado: ele continua completamente equipado, mas não turbinado :o);
- Uma boxer, que é uma lady de tão educada;
- Uma labradora, que não é nem lady nem lorde - é mal-educada em qualquer gênero.

Assim posto, já deu para ver que eu sustento cinco bocas - sendo que a última citada come, late e destrói por 14.

...

Saber que uma pessoa que você não conhece leu todo o seu blog de uma vez só é como despir-se no escuro, mesmo depois de ouvir uma respiração desconhecida do outro lado do quarto.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Mais um

Meu vizinho de baixo ganhou um filhote de cachorro. Os problemas:

1 - Ele é macho
2 - Ele é um rotweiller

Explicação:

1 - Sendo macho, será mais um a chorar e a gemer nesse vale de lágrimas que é a época em que as minhas duas cadelas entram no cio.
2 - Se, nessa época, ele resolver dar uma de marcador de território, adivinha quem vai ganhar: ele ou a lady que é o meu golden retriever?
Adendo: meu golden é vasectomizado; o novo inquilino de baixo não o será, segundo o dono.

Gôndolas

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Cultivo um daqueles prazeres bobos da vida com cuidado extremo: fazer supermercado (acompanhada, então, é dos deuses :o). Faço a lista do que falta, procuro ofertas, percorro os corredores numa determinada ordem (pra não parecer barata tonta e ter que ficar indo e voltando) e arrumo o carrinho com capricho. Uma vez, a pessoa que estava fazendo compras comigo virou a cara com aquela expressão de "não faço a menor idéia o que essa neurótica está fazendo" porque eu comecei a travar uma luta surda com o empacotador, que botou no fundo da sacola os pacotes de macarrão e arrumou, por cima, duas latas grandes de Nescau e, por último, as latas de molho de tomate.
Então, eu passo primeiro o material de limpeza, que é mais pesado; depois, o material de higiene; a seguir, lataria e garrafas, sacos de farinha, coisas que amassam (como pão e bolos), coisas que quebram (macarrão e biscoitos) e, por fim, frutas, verduras, ovos e os gelados (que são sempre as últimas coisas que pego antes de ir para o caixa - odeio carrinho pingando de sangue e água de peixe. Irc!)
Ontem, fui ao supermercado fazer aquela comprinha básica antes do feriado (aqui no Rio é dia de São Sebastião, padroeiro da cidade). Filas quilométricas. Tocar na Caaba demoraria menos.
Pois a fila do supermercado é, como no aeroporto, um grande cenário onde se desenrolam inúmeros fragmentos de novelas. Assim sendo, vamos analisar o rapaz três carrinhos à minha frente: perto de 40 anos, nem gordo nem magro, não adepto de praia, bermudão (Osklen), havaianas, camiseta que viu melhores dias (mas era Gap).
Na cesta, uma compra razoável, mas pra quem é solteríssimo e deve ganhar bem: vinho tinto (quatro garrafas, do bom), pão, queijo gorgonzola, conservas importadas, peras portuguesas (aquelas de custam um salário o quilo) e mais alguns itens que desconheço, por não fazerem parte nem do meu orçamento nem da minha vida real.
Por sua vez, na fila ao lado uma mulher dos seus 40 anos implorava, suplicava aos três filhos (uma menina de uns oito anos, um menino de seis e uma meninina, no carrinho, que deveria ter uns dois anos, e a cada três segundos soltava um "Pála com isso!" para os irmãos). Pois a mãe ameaçou, ralhou, brigou, mas sempre com aquele tom de voz de profundo arrependimento - não sei se pela idéia de ter tido três filhos ou de tê-los levado para o supermercado. Ela comprou dois carrinhos cheios, e eu fiquei pensando como ela ia levar aquilo tudo embora.
Muuuuitas velhinhas. Todas com suas respectivas rações de passarinho: uma com um saco com um pão, outra com dois tomates e uma cebola, outra com 300g de peixe, e assim por diante. Mas uma coisa me espantou profundamente: há, logo na entrada, uma fileira de cadeiras para os idosos que queiram descansar (antes ou depois das compras). No rosto da maioria deles (principalmente das mulheres) não se lia cansaço, nem tristeza, nem alegria - apenas um profundo e quase mortal tédio por estar (ainda) vivendo.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

...

Você está me fazendo falta.
Engraçado, não é?

Sangue do meu sangue*

Marianne preferia pensar em como poderia ser pior. Mentalmente, fazia listas enquanto massageava seus clientes. Lucas não incendiava nada, não fugia de casa, não batia nas pessoas com tijolos ou bastões, não estrangulava nem estuprava pessoas, nem torturava animais. Era só um pouco maluco.
“Mas que palavra”, pensou ela. Marianne já havia cruzado com ela muitas vezes – essa palavra e outras. Insano. Anomalia. Psicopata. Agora, elas caíam de sua boca por acidente, como sapos. Ela sentia as palavras escorregando para fora e caindo no chão. [...] Marianne engolia a sensação pantanosa em sua garganta e enchia as palmas das mãos de óleo. [...]

No corredor, Richard preenchia os formulários médicos junto com a enfermeira. Ele parou no bebedouro no caminho de volta para a sala de espera. O jato era fraco, mas foi bom para molhar os lábios. Ele ligou para a Dra. Snow do telefone público, de olho em Lucas, sentado num canto com o rosto afundado numa revista.
- Os remédios não estão funcionando.
- Às vezes isso acontece.
- Ele está ficando pior.
A Dra. Snow suspirou.
- Ataque a irmãos é bastante comum – ela sugerir terapia familiar. Marcou uma sessão para o dia seguinte. Eles deviam ir para casa e descansar. – Peça comida chinesa – aconselhou ela. – Alguma coisa leve.

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Quando o carro estacionou na entrada de carros, Richard viu a vizinha. Ele entendeu que alguma coisa estava errada pelo modo como a blusa dela estava torcida.
- Não sei o que fazer – disse ela enquanto Richard baixava a janela. – Minha gata não quer sair do seu quintal. [...]
- Essa não é uma hora muito boa.
- Está tudo bem – disse Marianne. –Eu a levo – ela pôs as chaves no bolso e tirou Sarah do carro. [...] Um grande curativo branco estava colado na testa de Sarah e Richard podia ver uma seção de careca onde o médico tinha raspado o cabelo da menina. [...]
- E então? – perguntou Richard. – Qual é o problema?
A gata estava no quintal, para em um dos cantos do jardim.
- Lamento muito por isso – disse a vizinha. – Normalmente eu consigo convencê-la a ir para casa – o rosto tremeu um pouco quando ela se aproximou da gata laranja. – Vem agora, querida – a gata sibilou e bateu na mão da mulher, depois correi de volta para o canto. [...]
A barriga vazia da gata balançava, os mamilos se arrastavam no chão. Quando chegou mais perto, Richard viu que seus bigodes tinham sido cortados. Ele sabia que cortar os bigodes era o mesmo que cegar; os animais os usavam para sentir aquilo que seus olhos não podiam ver. Richard deu uma olhada na casa. As cortinas estavam fechadas.
Foi até onde a gata estava sentada e futucou o chão com o pé. O sapato de Richard afundou na terra macia e, quando ele tocou o que tinha sido enterrado ali, sentiu seu ânimo desabando junto com a ponta do seu sapato, um mergulho na tristeza. Ele pensou no que estava surgindo. Havia vermes, ele podia senti-los, e grãos minúsculos abriam caminho, entrando em suas meias.

Hannah Tinti, "Verdadeiros animais"
Editora Rocco, 2004

*São 11 contos, este é o décimo. Em todos, os animais são personagens que correm à margem; se ausentes, porém, não haveria sentido para as histórias. Um livro que eu gostaria de ter escrito. O título em inglês é "Animal crackers", aqueles biscoitinhos em forma de bicho - aliás, foi assim que a editora original fez a divulgação: distribuindo latas desses biscoitinhos para a imprensa junto com o livro.

MM

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Ela malhava um pouco, sim, mas jamais seria, hoje, modelo de beleza (e esse post é um dos melhores que eu já vi; nunca tinha reparado nessa proporção maluca). Quer dizer, modelo de beleza para as mulheres porque, que eu saiba, homem não gosta de mulher (como diz um amigo) 70-70-70. "Tem que ter aquela curvinha meio trava-mão - afinal, a gente tem que saber por onde a mão está andando."
Não há Semana de Moda que derrube a sabedoria dos instintos.

Direita ou esquerda

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Meu sono se perdeu em algum lugar do planeta. Pobrezinho, espero que ache o caminho de volta.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

...

Cheguei de Friburgo, mas poderia ter vindo da original suíça, que o cansaço ia ser o mesmo. E, depois de tudo terminado, o que sobra é a exaustão mental. Que se reflete numa dor nas costas e no pescoço torturante.
É isso, é como uma tortura, em que você assiste e não pode falar ou fazer nada. A não ser tentar refletir, depurar, entender e, no fim das contas, perdoar.

sábado, janeiro 14, 2006

Relembrar para não esquecer jamais*

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Você pode trepar, transar e fazer amor. As duas primeiras requerem apenas conhecimento técnico. Mas a terceira requer algo mais.
Fazer amor é, antes de tudo, conhecer. O jeito de acender um cigarro, a maneira de inclinar a cabeça quando pensa. Os olhos ficam ligeiramente avermelhados quando bate o tesão? Se entrefecham? Há urgência nas mãos? Sim, há de se reparar em todos os detalhes.
Na hora, não se deve pensar muito. Eu sei, é instintivo. Mas também é a maneira de abraçar que faz o coração bater loucamente, sentindo que o desejo cresce e força passagem. As pernas não deixam, prendem o que quer se libertar. Tateia, tenta escapar, encontrar a saída por onde tanto deseja entrar.
Arquear as ancas (sabe o que são as ancas? A parte mais escandalosa, a que mostra à platéia se você está agradando). Passear as mãos pelo corpo, como se procurasse algo, mas feliz por apenas escorregar na pele lisa, sedosa, que se arrepia ao menor toque, seja ele agressivo ou diáfano. E então começa a luta, de uma violência que parece mostrar que ali não há amor, quando amor é o que mais há. "Por favor, não faz isso." Amante é tradutor universal. Isso quer dizer "Vem, eu preciso tanto de você." Escorrega-se, lenta e dolorosamente, para dentro, para um mundo onde minutos podem ser horas e vice-versa. Delicadamente, mas com firmeza. As bocas que se juntam num desencontro que parece não ter fim. Por que não acertam o passo? Porque há mais para acertar. O prazer vem do desacerto, das palavras que não dizem o que querem dizer. Tudo é ao contrário, a dor vira prazer, o prazer é tudo o que há.
As línguas que bebem o suor a escorrer da nuca, a descer pelos ombros. Mãos que buscam embaixo de corpos o que desesperadamente pede para ser tocado – mas que foge ao sentir o toque. Um púbis a escorregar pelas costas, costas a se chocar com pernas. Cabeças a subir por joelhos que não sabem se a ordem é encontro ou separação. Fazer amor é sentir os nós dos dedos dele na palma das mãos, o queixo nas espátulas, o roçar da barba por fazer, o hálito que se procura desesperadamente, como um guia no meio de um nevoeiro.
Pode-se escrever tratados sobre isso – aliás, eles existem, melhor escritos do que aqui.
Fazer amor é, ao final, acariciar sobrancelhas, rosto, mãos. É escutar o ressonar satisfeito, como o de um gato. É ouvir urgência na pergunta: "Aonde você vai?" e tranqüilizar com um "Só beber um copo d'água".

* Que, antes de ser mãe, eu sou uma mulher.

Zé Bonitinho

Enquanto esperamos que o cardiologista que atende meu pai termine de examiná-lo (o homem veio de Itaperuna, seja lá onde isso seja), as meninas, eu e minha mãe ficamos num bar/lanchonete/point/bobódromo de Friburgo. Estou sentada num dos computadores, e as meninas estão fazendo uma farra com sorvetes e as revistas para colorir que minha mãe comprou.
Assim que me sentei aqui e comecei a procurar algumas fotos que sempre deixo em arquivo para postar, um pateta me mandou um olhor 43 "sou-peixe-E-sou-morto" pra cá. O cara era bonitão, uns 40 anos, num chope com amigos. Chope aqui, chope acolá, e eu de saco cheio daquela coisa manjada. É usar a estratégia empata-samba: "Filha, vem aqui ver uma coisa!". Pronto! É tiro & queda: na mesma hora o cara parou de olhar. Deu uma espiada comprida na mesa com as meninas e minha mãe, registrou a falta do componente masculino no quarteto e conclui: "Divorciada".
Sei lá, sem a menor paciência.

Palmas

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- Mamãe, o que você está fazendo?
- Arrumando as malas, filha. Vai dormir.
- Não consigo. Tá calor. O que é isso?
- Nada, ralei a mão no muro quando fui dar o remédio para a [...].
- Ficou feio, né?
- É, mas vai sumir logo.
- Eu amo as suas mãos, mamãe.
- Por que, filha?
- Elas beijam o meu rosto quando você me faz carinho.

Zé Colméia sempre diz isso. E eu jamais me canso de ouvir.

...

Ah, e por último: por favor, escrevam. Depois de tanto tempo sem comentários (praticamente o ano inteiro) se ninguém comentar vou achar que quem me escreve é apenas uma pessoa, com um monte de e-mails diferentes.
Sim, sou carente.
É, eu sei.
Um horror.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Palimpsesto

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Está tanto calor que as meninas foram dormir na rede da varanda, e eu estou acabando de arrumar as malas. E aí, enquanto vou dobrando as roupas, fazendo listas de coisas a providenciar (como alguém para alimentar os cachorros), vou pensando num milhão de coisas.
Faz mais ou menos uns 15 anos que eu, depois de ter a enésima (essa palavra está em alta, hoje :o) crise de choro por causa do ex-namorado que me deixou quase às portas do altar (e que me mandou um e-mail no ano passado, dizendo que se arrepende até hoje, mas isso é oooutra história), resolvi que, na vida, o prazo máximo que eu poderia me dar para sentir pena de mim seria de três dias.
Até hoje, acho que trapaceei umas duas vezes, e fiquei me sentindo a mais miserável das criaturas uma semana ou duas. Sentir pena de si é bom; a gente sempre deve botar a garotinha ou o menininho que temos dentro de si no colo e deixar que reclamem do mundo cruel até que alguém venha chamar para brincar.
Eu agora estou brincando. Mesmo sem emprego (mas com um trabalho à vista, que eu estou torcendo que dê certo, porque vai ser muito divertido e, o mais importante, lucrativo), estou não totalmente feliz (porque as contas continuam chegando) mas tranqüila, depois de quase oito anos sem férias, trabalhando ininterruptamente, dando à luz, me divorciando.
Estou lendo um livro atrás do outro, passeando com as meninas. Ficamos agora sempre, até a hora de dormir (Catatau é a que se rende primeiro), na varanda, contando estrelas e vendo a lua, que anda fantástica. Organizamos os álbuns de fotos, vimos vídeos antigos, conversamos, "namoramos", acordamos juntas, tomamos café da manhã tentando identificar que horas são pelo canto dos passarinhos.
É bom amar a vida.

...

Às vezes, a gente lê que uma pessoa deixou de visitar o pai ou a mãe. Ou internou-os num asilo, ou simplesmente não liga mais. Eu sempre achei isso de uma ingratidão sem par. Ora, são pai e mãe! Às vezes, isso acontece com um filho doente, ou um irmão. Hoje, depois que o Alzheimer levou dez anos para quebrar minha avó e está lentamente apagando a memória do meu pai, penso diferente.
Minha mãe me pediu que eu fosse com ela a Friburgo, onde meus pais moram, porque meu pai vai ter que fazer uma bateria pesada de exames (alguns com internação) e ela precisa de alguém para ajudar.
Quer dizer, não há nenhuma ajuda. Há, sim, duas pessoas para suportar meu pai insistindo em fumar, mesmo dentro do quarto do hospital. Recusando-se a seguir as orientações do médico. Muitas vezes, ele é grosseiro com as atendentes e enfermeiras.
Isso me cansa. Me aborrece, me irrita. Me dá uma exaustão mental acachapante. E então me sinto culpada. Muito. Porque é meu pai, e no fundo o que ele sente é um medo gigantesco de perder a consciência, o que lhe restou da saúde. E, o pior medo, perder sua dignidade.

Nas ondas da web

Eu sempre achei graça quando, abrindo minha caixa postal no Yahoo, lia aquela sandice: "Em cinco minutos, você pode estar namorando!". Ah, sim, é uma sandice.
By the way, um e-mail que chegou ontem de noite me dizia que uma amiga (na verdade, era uma amiga; a distância e o tempo fizeram dela uma conhecida querida) vai se casar em março. Ela namora o dito contra quem vai se unir desde janeiro de 2003. A história do romance: se conheceram numa sala de chat, depois levaram o namoro por seis meses por e-mail, até que se conheceram pessoalmente, quando ela resolveu ir a São Paulo conhecê-lo... e por lá ficou.
Às vezes eu tenho vontade de entrar nessas salas. Tenho vontade de namorar por e-mail. Mas aí eu me lembro de uma experiência muito dolorosa e desagradável, meu lado prático faz uma boca torta de escárnio e diz que é a maior furada do mundo.
Mas o outro lado (eu ia dizer ingênuo, mas pega mal para quem está a seis meses de fazer q* anos) me lembra sempre da minha doce amiga Maria Fabriani, feliz com seu Urso sob a aurora boreal da Suécia. Seu amor veio por e-mail.
E aí a vida segue na incerteza.
E, sim, mesmo com um monte de coisas para fazer na rua, eu estou enrolando para sair.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Extra! Extra! Extra!

Zé Colméia acaba de entrar no quarto com uma exigência peremptória: "Mamãe, você TEM que me ensinar a fazer um bebê!"
Seguida por Catatau: "Eu também quero! Por que só ela pode aprender? Eu também quero!"
- Macaca de imitação!
- Chata!
- Feia!
- Boba!
- Bacalhuda!

Que Deus me perdoe, as duas se engalfinharam e eu estou ignorando ambas solenemente. Assim elas esquecem e eu não tenho que ensinar às duas como se faz um bebê. Até porque eu mesma já quase não me lembro mais.

Últimas horas

Um crítico de um jornal americano escreveu, faz um tempo, algo como "Se você tiver apenas duas horas de vida, esqueça tudo e leia o livro tal". Eu ia morrer num dilema atroz, porque li, ao mesmo tempo, "Quando Nietzsche chorou" e "O mundo segundo Garp". O primeiro é muito bom, mas o segundo... Bom, sabe aquela história, quando todo mundo fala tanto do livro que parece que você já o leu? Pois é: estou quase 30 anos atrasada, mas valeu a pena: é um dos mais geniais romances que eu já li. Como você passar mais de 30 páginas até descobrir, no fim de um capítulo, que um personagem morreu - e você não se deu conta, apesar de todos os sinais. E o autor sabia que você não perceberia.

A vida depois de Garp

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No mundo segundo seu pai, ela sabia que era preciso ter muita energia. A sua famosa avó, Jenny Fields, classificara todos nós como Externos, Órgãos Vitais, Ausentes e Terminais. No mundo segundo Garp, no entanto, somos todos doentes terminais.

John Irving, "O mundo segundo Garp"
Editora Record, 2000

Demasiadamente humano

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Houve uma época em nossas vidas em que estávamos tão próximos que nada parecia obstruir nossa amizade e fraternidade e apenas uma pequena ponte nos separava. Quando você ia subir na ponte, eu lhe perguntei: "Você quer atravessar a ponte até mim?" Imediatamente, você deixou de querê-lo e, quando repeti a pergunta, você ficou silente. Desde então, montanhas, rios torrenciais e o que quer que separe e aliene interpuseram-se entre nós e, mesmo que quiséssemos nos reunir, não conseguiríamos. Agora, ao pensar no pontilhão, você perde as palavras e soluça e se maravilha.

Friedrich Nietzsche, "A gaia ciência"

Trecho citado por
Irvin D. Yolan, em "Quando Nietzsche chorou"
Ediouro, 1995

Sem truques

Já se vão quase dez anos em que eu fiz uma grande viagem pela Europa. Visitei França, Alemanha, Espanha, Itália e Suíça, além de Mônaco. Dessa viagem, uma das coisas que vi sempre me volta à cabeça quando estou passando por um período ruim, e o engraçado é que, na época, eu não dei tanta importância - isso é, eu vi, me admirei, e passei para a atração seguinte.
Foi num museu alemão, numa das muitas cidades alemãs que eu visitei. Era um quadro de um pintor cujo nome não guardei. A pintura se chamava "A alma humana". Quando você olhava pelo rabo do olho, o quadro retratava um monge ajoelhado, rezando, muito compenetrado. Mas, se você se virasse de frente, veria apenas um homem fazendo uma careta de raiva enquanto espremia um limão.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Aquilo que chamam de lar

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Eram duas irmãs que gostavam de brincar. A brincadeira preferida das duas era de casinha.
"Hoje eu vou ser a mamãe e você, a filhinha", disse uma.
As duas deitaram na cama e ela, como boa mamãe, acordou a outra:
"Bom-dia, meu amor! Você dormiu bem?"
"Sim, mamãe. Estou com fome!"
"Então vamos comer!".
E lá foram as duas mexer nas panelinhas.
"Opa!", disse a irmã. "Se eu sou a Filhinha, e você é a Mamãe, quem é o papai?"
"É mesmo; e o papai?"
As duas não sabiam. Quem seria o papai?
"Papai vai ser o Urso!", disse uma delas.
"Então ele vai ser o papai. Mas o que ele faz agora?"
"Não sei", disse a que era a mamãe. E as duas ficaram lá sentadas, pensando o que o papai poderia fazer na brincadeira.
"Já sei!", disse a Mamãe. "A gente acorda, eu dou um beijo no papai porque sou a Mamãe, que é a namorada dele. Você dá um beijo nele, porque você é a Filhinha. Aí ele diz: ‘Bom, vou trabalhar! Até de noite!’ e a gente esconde ele dentro do armário até acabar a brincadeira!"
E assim elas fizeram. ‘Mamãe’ deu um beijo nele porque era a mamãe e a mamãe é a namorada do papai; ‘Filhinha’ deu um beijo nele porque era a filhinha. E deixaram o urso no armário. Afinal, o papai não tinha lugar nessa brincadeira.
E assim brincaram a tarde toda, e em outras tardes. E sempre que podiam, uma era a mamãe, a outra a filhinha, e o papai era o urso – que ia sempre para o fundo do armário, porque não tinha lugar na brincadeira.
Um dia, o papai de verdade não voltou para casa. E elas foram para o quarto procurar o urso no fundo do armário.
"Ele era o papai, né?"
"É, mas agora a gente não precisa mais esconder ele no armário".
"É, não precisa mais".
O urso voltou então para sua cadeirinha. Ele não tinha lugar na brincadeira das duas, mas nenhuma delas sabia por que ele agora, mesmo sem participar daquele jogo de casinha, fazia uma falta danada.