quinta-feira, dezembro 29, 2011

O exato momento



Catatau ligou exatamente às 12h10m, a voz bem fininha. "Voz de coelhinho atrás da moita", como eu digo a ela, e ela ri fofa, quente, macia, feliz, riso do meu bebê. Catatau sempre foi a-menina-que-adora-brincar-que-é-mulher. Sempre muito feminina, sempre cheirosa, sempre arrumada, sempre cuidada. As brincadeiras jamais incluíram violência, armas, subir em árvores, girar feio doida até cair de pernas abertas no meio do pátio da escola (aka Zé Colméia). A roupa sempre impecável, os cabelos escovados/arrumados, o perfume e o gloss na bolsa, a medição do salto para comprovar que, sim, esse ano eu estou usando sapatos mais altos do que no ano passado.

Catatau ligou exatamente às 12h10n, a voz bem fininha. "Mamãe, fiquei menstruada! E não estou com cólica nem com nada!". Depois dos seios, minha Joaninha tão redonda e cheirando a manhã botou o outro pé na adolescência. E eu, trocando emails com o distribuidor das revistas em São Paulo, com o telefone fixo na outra mão e o caderno de anotações aberto no colo, parei os minutos para sentir uma alegria imensa e uma tristeza incomparável pelo tempo que não volta mais, por aquilo que, se não aproveitei, não mais terei como recuperar. Terminou. E acabou de começar.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Dividir e multiplicar



Esta é a última semana do ano. Eu estou sozinha aqui na redação da revista. Eu & minhas listas, eu & minhas resoluções, eu & EU. Pensando como foi o ano, o que eu quero fazer em 2012 - você sabe, antes de o mundo acabar no próximo Natal :)

Então. Zé Colméia passou por um triz, Catatau passou direito. Zé Colméia ainda insiste em andar pelada pela casa (dentro e fora,) Catatau escolheu um sapato de salto (saltinho, vai) vermelho de verniz chiquerésimo pra usar na ceia de Natal na casa do pai. Minhas meninas que já não estão assim tão meninas.

Eu passei o Natal sozinha. Minha ceia foi um panetone com suco de manga. Era pra ser vinho verde, mas eu esqueci. Deixei de lembrar um monte de coisas, mas não me saía da cabeça meu pai segurando o choro ao telefone dizendo que o aparelho deles estava mudo e que ali, no meio da estrada poerenta, ele me abençoava e me desejava o melhor dos natais, o melhor dos revéillons, o melhor.

Meu cachorro mais novo fez 10 anos no dia de Natal. Dez anos. A caçulinha. Meu querido golden já avança para os 14 anos, com saúde e todos os dentes na boca. Ainda late alucinada e dolorosamente quando me vê calçar os sapatos para sair, e se esfrega em mim qual um gigantesco gato laranja quando chego em casa.

Sem água, sem as meninas, sem ceia de Natal, sem árvore, sem presentes, mas cheia de gratidão por terminar o ano com saúde, com meus pais vivos, com filhas saudáveis, com comida na mesa e um teto sobre a cabeça, com meus companheiros fiéis dormindo satisfeitos na cozinha, com meus amigos.

Bom 2012 pra você. Que o fim do próximo ano chegue assim: sem nada a pedir, com tudo por agradecer.

terça-feira, novembro 29, 2011

Seminovos

E então eu resolvi levar todos os brinquedos todas as roupas todos os sapatos das meninas para a casa da minha mãe. Tudo o que eu separei durante o ano, o que não serve mais, tudo o que não é mais brincado, vestido ou paramentado.
Só pra ter uma noção da altura da pilha: são 36 pares (pares) de sapatos. Quase 20 caixas de quebra-cabeças. Perto de 50 bonecas. Cerca de 35 bolsas. E por aí vai.

Impressionante como aquilo que era vital há um ano hoje em dia suscita um "Mas você tem certeza de que isso era meu??!?"

Oi, aborrecência. Tô chegando aí.

...

Sinceramente, tem dias que dá vontade de abrir a porta e sair andando, sem parar.
Só isso. Sair andando sem olhar pra trás.

segunda-feira, novembro 07, 2011

E...

Não fomos na neuropsicóloga.
Zé Colméia fraturou o braço. Saiu da emergência (três hospitais particulares; nenhum com ortopedista E raio x) de mimimi porque não tinha faixa pra tala de gesso colorida. Óbvio que a besta-mãe comprou bandagem de crepom, tinta Guarany e tingiu dois rolos de rosa pink.
Óbvio.

Vício



Maldito. Maldito!

quinta-feira, novembro 03, 2011

Vigília

Amanhã é a primeira consulta com a neuropsicóloga - o primeiro passo para se descobrir se Zé Colméia tem ou não dislexia.

Ontem eu contei à ela. No início ela chorou muito. "É uma doença, eu sou doente, você disse que eu tenho, todo mundo tem que aprender a conviver com isso." Então eu expliquei, falei, mostrei, dei pra ela ler. E ela foi se acalmando, entendendo que não é definitivo - quem sou eu pra fazer diagnóstico? - que é uma jornada de descobrimento e aprendizagem, minha e dela. E só então ela se acalmou. E foi pro canto pensar, como só ela sabe fazer.

Então, muito trabalho, sem novidades. Sem tempo para minhas amigas virtuais tão queridas. Mas eu descobri um coisinha legal, pra quem é apaixonada por corujas (eu sou): download digrátis de um calendário de corujas (você monta qual imagem quer em qual mês) aqui.

terça-feira, outubro 25, 2011

Pra debaixo da terra

Eu sempre ouço que gente que frequenta (adoro isso: "frequenta") o metrô é povo mais educado (aka não-pobre). A editora fica em Ipanema, na Praça General Osório - berço da Feira Hippie, perto do Arpoador: enfim, internacional. Todo santo dia eu vou de metrô - a ver:

Quando a porta do vagão abre sai todo mundo correndo. Eu ainda não entendi nem o porquê nem pra quê. Pra pegar lugar na janelinha da escada rolante?

Moças finas que usam roupa de marca e tomam banho de perfume de grife - porque é melhor você morrer sufocada numa nuvem de Dior do que numa de desodorante Axé, é isso?

Moças & rapazes finos que fingem dormir pra não dar lugar pra velhinha. Ou, pior: dão lugar pra velhinha branca e maquiada, mas esquecem a preta enrugada e cheia de bolsas que está voltando do batente e vai em pé até a Pavuna.

Quem se encosta no poste e impede quem quer que seja de segurar ali.

Quem traz farnel pra comer no meio do vagão lotado e enche as cercanias de farelos & poças de suco.

Hours concours: o bobalhão que dá aquela corridinha (ou, o mais inexplicável, fica no bolo do mulherio na pontinha da plataforma) e entra no vagão das mulheres. Sempre tem um - SEMPRE - em cada estação. E lá vai o guardinha retirar a criatura que fingiu que não viu que só tem mulher lá dentro - lá dentro do vagão pintado de cor-de-rosa, parado na plataforma indicada por uma gigantesca faixa cor-de-rosa escrito VAGÃO DAS MULHERES em dois idiomas. E são quatro as respostas:
"Eu não vi"
"Eu não sabia"
"Foi sem querer"
"Desculpe"

Seu filho fala isso, não fala?

quarta-feira, outubro 19, 2011

Bateu à porta

Então. Emprego novo. Editora executiva de uma revista de arte. The boss.
A redação é minúscula, mas a dona da revista falou não quero nem saber como você vai administrar isso: confio no seu taco porque a gente tem que fazer dinheiro, entendeu? Entendi. A revista é o máximo, um luxo (de verdade) e verte prejuízo por todos os cantos - da lombada ao índice. Porque quem estava aqui antes de mim era uma moça adorável que pendurou um monte de gente na folha de pagamento, riscando com nanquim (aqui é tudo chique, já disse) e bico de pena a palavra "custo" do dicionário encapado de pelica vermelha.

Mas é o máximo. Trabalhar em equipe. Fazer as coisas do meu jeito. Falar com pessoas que me olham na altura dos olhos. Discutir design, fotografia, tendências da arte contemporânea brasileira. Óbvio que eu já criei uma bela seção de livros com três colunas.

É claro que algumas coisas entraram na roda - esse meu Breviário é exemplo. Abandonado, carente. Eu tinha planos para ele - e também para o Leitura Seminova. Pra este eu vou migrar os textos do meme de livros, e quem sabe botar mais alguns lá - pelo menos, um por semana.

Felicidade.

Credo

Cof, cof!
Quanta poeira!
Aaaaaa...tchim!

quinta-feira, setembro 15, 2011

A vida como ela é

Comprar um sapato novo porque seu único mocassim antichuva morreu na contramão

OU

Pagar a conta de telefone.

quinta-feira, setembro 08, 2011

quarta-feira, setembro 07, 2011

Day 29: A book someone read to you



- Clarita!
Silêncio.
- Clari...ta!
Novamente silêncio.
- Clari...ta! Mas onde estará esta menina? Com certeza aprontando reinação - resmunga a mucama, alta e magra rapariga, mulata clara, toda falante e gesticuladora, antiga empregada na casa, ótima criatura.
- Clarita! Onde é que vancê está, menina? Seu Totó chegou! Venha, menina! Arresponda, menina! O povaréu está tudo na sala! Seu Totó trouxe um mundão de presentes!
A estas palavras, uma voz abafada se faz ouvir:
- Estou aqui, Maria alta, estou no forno... já vou saindo - e, encolhendo-se como um gato, sai de dentro do forno, viva como um macaco, esperta como um sagui, uma menina dos seus 5 anos. E vai saindo e vai falando:
- Vovô trouxe presente?! Vovô trouxe a boneca preta? O que ele trouxe pra mim, Maria alta? Conte o que foi, Maria alta!
- Oh! Menina dos meus pecados, onde é que vancê foi se meter? E todo mundo a lhe percurá... Pois seu Totó chegou e todo mundo estava na sala: os meninos, as meninas, a criançada, D. Sinhara e seu Doutor e D. Sílvia e a Babá e a criadagem, quando D. Sinhara disse: - Quedê Clarita? Ela não está aqui! - E toca nóis tudo a percurá vancê... e a chamar e a gritar, até que eu se alembrei de vir destas bandas, pois que vancê gosta de arreliar com Adolfo...
- Pois foi pra me esconder dele, Maria alta, que eu entrei no forno...
- Mas que é que vancê já fez pra ele, menina?
- Não foi nada, Maria alta, é que eu estava com uma fo...me, sabe? então eu fui... e vi a galinha dele deitada em cima de uns ovos... sabe? e eu fui, então, e comi dois... só dois, Maria alta! e eu ia pegando outro, quando ele correu com um pau na mão, bravo que só vendo, e eu então fui fugindo correndo, ele atrás de mim, então, quando eu virei atrás da casa, eu entrei depressa dentro do forno, e ele nem viu e passou zangado, falando, falando, e eu bem quietinha dentro do forno... Ele nem desconfiou, Maria alta, e eu dava risada lá dentro, bem escondidinha... Que lugar bom que eu achei! Mas você não conte pra ninguém, ouviu, Maria alta? [...]

Falando e papagueando sempre com a mucama Maria alta, chega Clarita à sala de jantar, onde está reunida toda a família em redor do vovô, recém-chegado de São Paulo.
- Vovô, vovô! Meu presente! minha boneca preta! O senhor trouxe, vovô? Quedê ela, vovô?
- Trouxe sim, menina, espere aí... Não agarre assim os pacotes, que pode quebrar! Isto aqui é louça, Clarita, são xícaras para vossa avó... Sinhara, onde é que está a boneca de Clarita?
E enquanto vovó procura, dentre os vários pacotes, a boneca de Clarita, esta vai examinando os brinquedos que as outras crianças ganharam: o Tonico, seu irmãozinho de 3 anos, um cavalinho de pau; a Nenete, sua irmãzinha de 4 anos, uma caixinha de música; Docarmo, sua tia, mais moça que Clarita 6 meses, um fogãozinho com panelas; Marina, outra titia, que já anda na casa dos 7, um aparelhinho de louça; até para a Lourdes, sua tia também, que já entrara nos 11 anos, o vovô trouxe um brinquedo, uma linda mobiliazinha de boneca. E para os titios, rapazinhos de 13, 16, 19 anos, belas gravatas e lenços. Tia Zilota, que já é moça, e D. Silvia, a mamãe de Clarita, também têm seus presentes: leques, luvas e "jabots". [...]

Clarita desde novinha sempre foi inventadeira, como diz a tia Zilota. Para dormir, era só na rede, com duas pobres vítimas a seu lado, empurrando a rede, balançando, balançando, balançando... e cantando, cantando, cantando... Quando pensavam que ela já estava ferradinha no sono, com um suspiro de alívio, com todo o cuidado, tiravam a rede dos ganchos e, sempre balançando e cantando, e cantando e balançando, na pontinha dos pés, sem o menor ruído, levavam-na para o quarto... Mas, assim que, sempre, balançando e cantando, e cantando e balançando, a punham na cama... Uá! uá! uá! - Clarita berrava e urrava, e era preciso voltar de novo, e de novo recomeçar o balanço e o canto, que se prolongavam, geralmente, até as onze horas, meia-noite... Faltava um bom chá de pouco caso, e deixá-la chorar sozinha na cama, para se corrigir, mas, quem diz?! A mamãe bem que tentou de o fazer, mas a vovó pulou logo:
- Minha neta?! Deixá-la chorar?! Nunca! Que falta de coração! Então não temos nós para cuidar dela?

E ainda se fosse noite ficasse só neste prólogo tormentoso, vá lá! Mas não, a noite toda era um pererequê para os pais de Clarita, ou, quando estes não aguentavam mais, para quem quisesse fazer penitência, dormindo com ela. [...]

Clarita da Pá Virada
Violeta Maria (pseudônimo de Maria Clarice Marinho Villac)
Livraria Cristo-Rei Editora, 1939


Minha mãe cresceu lendo as aventuras de Clarita, que começam no interior de São Paulo na primeira década do século XX. A autora escreveu ainda "Clarita no colégio", que minha mãe também leu quando criança. Os dois livros, e mais os três livros da Condessa de Ségur ("Os desastres de Sofia", "As meninas exemplares" e "Férias") eram os livros que minha mãe lia para mim e para minha irmã. É uma das minhas lembranças mais queridas - e o que vai terminar em batalha judicial para ver quem fica com os livros originais de herança :o)

terça-feira, setembro 06, 2011

Day 28: A book you can quote by heart



Estava lurdo e os macos tavos
Lapavam e tucavam no vabo:
Todos savos estavam os borogravos
E os momos erevos extravabo.

...

Chegou a hora, disse a Morsa,
de falar de outras coisas.
De lacres, sapatos e navios,
De repolhos e reis...
De por que o mar está fervendo ou
Se os porcos têm asas.
Pigi, pogi, nada de trabalho hoje!

Alice no País das Maravilhas
Lewis Caroll

segunda-feira, setembro 05, 2011

Day 27: Favorite love story



Primórdios
Irmã Maria (Colombo, 1949: Vallipuram)


Ela chega no início da estação seca, com o bebê no colo, usando a cor branca das viúvas. O fino sári de gaze que envolve seu corpo alto, esbelto, é claramente de boa qualidade, mas está rasgado e sujo de poeira, escuro como sua pele macia. Ela é magra demais - todas as freiras concordam quanto a isso. Quando duas freiras a encontram vagando muda na estrada próxima ao convento da Sagrada Família, os ossos salientam-se sob a pele do seu rosto, suas costas, suas costelas. A mulher seria linda se não fosse tão magra e tão escura. O bebê é claro e quase tão magro quanto a mãe.
Quando o encontram, a irmã menor, Irmã Anne, estende a mão para segurar o braço da mulher, que parece tonta, prestes a desmaiar. Mas a mulher grita e se agacha na estrada de terra, enroscando o corpo em volta da criança; a freira recua. [...]
Irmã Anne fala baixinho, delicadamente, com a mulher. Apesar do bebê que carrega nos braços, ela parece pouco mais que uma menina - deve ter uns dezoito anos, e seu rosto desprotegido está manchado de lágrimas. Sem tocar na mulher, ela a convence a se levantar de novo, a caminhar pela estrada. O sol está alto no céu quando elas a encontram; mas já está quase se escontendo atrás do topo da palmeira mais próxima quando elas conseguem fazê-la entrar no convento. [...]
A mulher não consegue fazer amizade logo, porque é muda. Ela tem uma lingua, mas não parece saber como usá-la. [...] Os boatos se espalham rapidamente entre as freiras.
Irmã Anne é a mais generosa delas; ela afirma que a pobre mulher deve ter ficado viúva e sem família em consequência de algum terrível acidente.[...] Outras histórias são contadas, é claro, mas nenhuma é tão apreciada. [...] Uma das freiras dá à mulher o nome de Maria. Elas a chamam assim, cada uma decidindo em sua mente se está falando com alguém mais parecida com a Virgem Santíssima ou com Madalena, a prostituta.

Numa aldeia ao norte, uma mulher está lavando louça, de frente para a pia.
- Você não devia tê-los deixado sozinhos! - Um homem está parado atrás dela, alto, de ombros retos. Ele tem a pele clara, é bonito como um ator. Ela não se vira para ele; tudo o que ele pode ver são suas costas. São costas atraentes - a pele de sua cintura acima do decote do sári de algodão é clara, sem manchas.
- Foi só por alguns minutos, enquanto eu lavavao rosto. Eu estava cansada, Sundar - [...] Ele segura o ombro dela com a mão direita; e a faz virar.
- Cansada? Por quê? - A voz dele é ríspida. - Você não faz nada, Sushila. Ela deu banho nele, alimentou-o, brincou com ele. Você a mandou fazer tudo isso.
Ela segurou um copo meio lavado. - Eu sei como lidar com ela. Sempre soube.
- Ela é uma débil mental. Nós nunca deveríamos...
Sushila olha para ele, com as sobrancelhas erguidas. - Marido morto, bebê morto. Uma mulher sozinha... par aonde poderia ter ido? Que vida a minha irmã teve? - Ela torna a olhar para baixo. - E eu precisava dela.
Ele vira de costas e dá alguns passos, depois torna a se virar para ela. - Como você pôde deixá-los sozinhos? - A voz dele é baixa, angustiada.
- Eu só... tinha que lavar o rosto. Foram só alguns minutos. - Ela contempla as mãos, que seguram o copo molhado. Elas estão cobertas de anéis de ouro. - Sundar, o que vai acontecer agora?
- A polícia vai cintinuar procurando. Nós vamos continuar procurando. Nós vamos achá-la. - Ele se senta, o mais longe possível de Suchila. Até onde ela poderá ter ido? - ele pergunta baixinho.
Ela não responde nada, apenas torna a se virar para a pia.Mas não recomeça a lavar. O copo continua apertado em sua mão, delicado, frágil.

Elas estavam sentadas no jardim quando isso aconteceu, Sushila num sári rosa como as buganvílias que subiam em arco. Sua irmã, usando o branco das viúvas, segurava o
bebê, cantarolando baixinho para ele, sem palavras. Sua irmã não falava desde que a doença levara embora o seu marido e o seu bebê. Mas ela tinha sido uma boa ama-de-leite para o bebê, tinha cuidado dele, protegendo-o do sol. Antes da chegada dele, Sushila nunca tivera este cuidado.
Sushila os observa, com o coração batendo mais depressa. Ela teve uma ideia. As palavras estão esvoaçando em sua cabeça, loucas para sair. Ela as tem reprimido há dias, semanas. Mas está prestes a perder a batalha. Dentro de poucos minutos, vai começar a falar, baixinho, suavemente, quase como se estivesse falando consigo mesma. Ela vai dizer que existem lugares para onde uma mulher pode ir. [...] Há lugares que recebem uma mulher, cuidam dela.
Ela irá mencionar um desses lugares, o convento da Sagrada Família. [...] Sushila irá dizer que uma criança iria sentir-se feliz num lugar como aquele, abrigado, seguro. Ela vai dizer, ainda mais suavemente, que uma criança deveria ter uma mãe que a amasse. Em seguida, ela vai se levantar, entrar em casa, deixando-os sozinhos no jardim. Ela os deixará sozinhos por um longo tempo. Sua irmã é muda, mas não é burra.

Sushila está terminando o banho. Ela pega a canca de lata , joga água sobre a cabeça, sobr seus longos cabelos negros e corpo sensual. Este amoleceu no último ano, tornando-se desconfortavelmente pesado. Sua barriga agora está saliente, suas coxas roçam uma na outra quando ela anda. Seus seios estão finalmente diminuindo, mais ainda pendem no peito. Sushila não suporta tocar nesse corpo desconhecido.
Suas mãos se movem suave e mecanicamente - mergulhando a caneca, despejando a água. Ela está fria; ela estremece. Ela termina e sai do cômodo. Ela se seca, de olhos fechados. Envolve o corpo com um sári azul de seda e caminha de leve pelo corredor e entra no quarto. [...]
Sushila se senta no chão de terra, [...] e observa o marido adormecido. O rosto dele é liso, sem rugas. Ele ainda é tão bonito quanto no dia em que se casaram. [...] Ele não é um marido ruim para ela. Talvez ela mesma devesse ter tomado o caminho do convento, feito voto de silêncio e desaparecido dentro de um hábito negro, um capelo escondendo seu cabelo sedoso e abundante. Esta solução não havia lhe ocorrido na hora. Não era exatamente uma solução.[...]

A madre recebe o jovem casal amavelmente; quando a porta se fecha atrás deles, os cochichos começam entre as freiras. Como eles são bonitops! Como a pele deles é clara! O bebê tem os olhos dele? Ele é um marido? Um irmão?
Maria dorme profundamente a manhã inteira, durante as horas que o casal passa fechado com a Madre Superiora. Quando os três finalmente saem da sala, caminho juntos pelo longo corredor branco até o quarto dela.Da porta, eles vêem Maria e o bebê, dormindo. Sushila avança e toda delicadamente o ombro de Maria. Ela acorda imediatamente e, ao ver a irmã, começa a gemer. O gemido vai crescendo até se tranformar num choro medroso, entrecortado. [...]
Sundar entra, olha para a esposa. Olha para Maria. Então se inclinae tira o bebê dos braços dela. Ele se vira, abraçado à criança, com lágrimas nos olhos. Então sai. Sushila afasta algumas mechas de cabelo da testa de Maria, depois também dá meia-volta e sai atrás do marido, deixando a irmã para trás, aos cuidados das freiras. Ela não chora, mas nas semanas seguintes nunca se afasta mais do que alguns passos do marido e do filho.
Os lamentos aos poucos se tornam gemidos quase inaudíveis. Um dia, Maria volta a trabalhar no jardim. Ela não sorri e nunca fala. As freiras continuam a especular, a conjeturar, mas embora discutam o caso pelo resto da vida, inventem mil histórias diferentes, nunca saberão a verdade. Nunca chegarão nem perto dela.

Corpos em movimento
Mary Anne Mohanraj - Tradução de Léa Viveiros de Castro
Editora Rocco, 2006


Corpos em movimento é uma coletânea de histórias interligadas que traçam o pano de fundo emocional, sexual e geográfico de duas gerações de famílias do Sri Lanka na última metade do século XX. Nestas histórias, o fluxo das imigrações modela a vida, o amor e as relações, num país embebido em séculos de tradição, mas obrigado a encarar a modernização dos costumes sociais.
Numa terra de casamentos arranjados e papéis marcados, especialmente para as mulheres, as narrativas exploram o conflito entre gerações e gêneros no momento em que as pessoas fazem suas próprias escolhas acerca do futuro [...].
[...] Mary Anne Mohanraj usa as palavras com maestria para moldar momentos íntimos, fragmentos amorosos, paixões secretas, as ambições e os desafios espirituais dos mesmos de cada família em busca de um sentido para suas vidas [...]. (Orelhas)

domingo, setembro 04, 2011

Day 26: A book that makes you fall asleep



Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
- Continue, disse eu acordando.
- Já acabei, murmurou ele.
- São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você"; "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo."; "Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça."

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração - se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo.

Dom Casmurro
Machado de Assis
Editora Ática, 1976


Fazer uma menina de 11 anos ler "Dom Casmurro" pra escola dá nisso. Cochilei umas quatro vezes na primeira página antes de decidir que eu detestava esse livro. Aos 25, resolvi ler de novo e... Voilà! Amei. É um dos meus top ten foréva (copyright Tia Batata).

sábado, setembro 03, 2011

Day 25: A book you used to hate but now love

A Bíblia. Porque eu li antes este livro:



Geração

Ele fala sozinho. Nenhum ser humano foi ainda criado para ouvi-lo e os outros seres divinos a quem raramente irá se dirigir, quase sempre de passagem, mal parecem estar dentro de seu círcuo de atenção - espectadores na melhor das hipóteses, não colaboradores.

No princípio, Deus criou os céus e a terra. [...] [Gênesis, 1:1-25]

Ele fala para si mesmo, mas não sobre si. Ele nada diz sobre quem é ou o que pretende, e suas palavras são abruptas, sem nenhuma intenção de comunicar nada a ninguém, muito menos explicar nada, mas simplesmente decretar.
A cena não tem narrador. Não é apresentada como uma visão referendada por algum profeta que teve o privilégio de assistir ao trabalho de Deus. Mesmo assim, o efeito é o de algo ouvido atrás da porta, que se espiou escondido. Entramos em cena com a obra em andamento, e o que surpreende é que o trabalhador , apesar de estar falando consigo mesmo, não demonstra a menor hesitação. Não está cismando. Tem algo muito preciso em mente, e cada estágio de seu projeto conduz, sem pressa mas com extrema economia e de forma extremamente direta, ao estágio seguinte. Primeiro, luz. Depois, a cúpula do céu, abrindo uma gigantesca bolha no caos de água: pagua acima, água abaixo. Depois, a separação das águas inferiores para que possa surgir a terra seca. Depois a vegetação da terra recém-exposta. Depois, no quarto dia, o sol, a lua, as estrelas, para fornecer maisluz e permitir o cálculo do tempo; no quinto dia, as criaturas vivas do mar e do ar; e no sexto dia, os seres da terra.[...]

Destruidor
"Porque me arrependo de o haver feito"
Gênesis, 4-11

[...] O relato "eloísta" (de "Deus") do primeiro ato da geração humana (5:1-3) difere em diversos pontos do relato "javeísta" (do "Senhor") que precede a história de Caim e Abel. Leitores atentos poderão notar que [...] o relato de "Deus" faz da reprodução a imagem da criatividade divina e, coerentemente, omite qualquer menção ao papel da mulher: "No dia em que Deus criou o homem, À semelhança de Deus o fez; homem e mulher os criou, e os abençoou, e lhes chamou pelo nome de Adão, no dia em que foram criados. Viveu Adão 130 anos, e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem" (5:1-3). O relato "do Senhor", ao contrário, começa com a relação sexual - "Coabitou o homem com Eva, sua mulher." (4:1) - e omite qualquer menção à semelhança entre o divino e o humano.[...]

O que torna Deus divino?

Deus [...] é no sentido mais básico da palavra o protagonista, o proto agonistes ou "primeiro ator" da Bíblia. Ele não entra na cena humana. Ele cria a cena humana, na qual entra depois. Cria o antagonismo humano que ao interagir com ele dá forma a toda a ação subsequente. Esse é o seu traço distintivo primeiro e mais óbvio.
Se a precedência de Deus faz seu antagonista humano especialmente dependente dele, todavia é verdade também que Deus é especialmente dependente de seu antagonista humano, e essa dependência torna mais complicada a tarefa a que nos propomos - explicitamente, ler a Bíblia como a história de Deus. [...] Deus não toma nenhuma atitude que não tenha o homem como seu objetivo. Não se trata nunca das "aventuras de Deus".

Deus, uma biografia
Jack Miles - Tradução de José Rubens Siqueira
Companhia das Letras, 1997


Deus como protagonista da Bíblia. Você nunca mais vai ler as Escrituras do mesmo jeito - ou melhor, você vai passar a ler a Bíblia para ver como este é o personagem mais rico da história da literatura. E o mais incompreendido também.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Day 24: Favorite book series



O cavaleiro, um tanto obtuso, que lhes havia trazido a missiva, entregara fielmente sua mensagem oral: "Sem vestígios".
Era a esse respeito, precisamente, que eles conversavam.
— Têm, realmente, exigências estranhas, essa gente da corte, bispos e outros lordes! — disse Maltravers. — Mandam-nos matar, e que isso não se veja.
Como proceder? O veneno deixava os corpos negros: depois, seria preciso procurá-lo entre pessoas que poderiam dar com a língua nos dentes. Estrangulamento? A marca do nó corrediço fica em torno do pescoço, e o rosto se conserva todo azul.
Foi Ogle, o antigo barbeiro da Torre de Londres, quem teve o traço de genialidade. Tomás de Gournay concorreu com alguns melhoramentos para o plano, e o comprido Maltravers riu-se muito, mostrando as gengivas ao mesmo tempo que exibia seus imensos cientes.
— Será castigado por onde pecou! — exclamou ele. A idéia parecia-lhe verdadeiramente astuciosa. [...]

Esperaram pela noite. Gournay mandou preparar nas cozinhas uma boa refeição para o prisioneiro, com um pâté macio, aves assadas no espeto, uma rabada com molho. Eduardo não tinha ceado daquela maneira desde as noites de Kenilworth, na casa de seu primo Pescoço-Torto. Ficou espantado, um tanto inquieto, depois reconfortado por aquela boa comida fora do comum. Em vez de lhe trazerem uma escudela para sua cama de palha, tinham-no instalado em pequeno quarto vizinho, num escabelo, o que lhe parecia conforto miraculoso. E ele comia aqueles pratos de que quase havia esquecido o sabor. Também o vinho não lhe regatearam, um bom vinho clarete que Tomás de Berkeley mandara vir da Aquitânia. Os três carcereiros assistiam àquele bródio e piscavam os olhos uns para os outros.
— Ele não terá nem sequer tempo para digerir isso — cochichou Maltravers a Gournay.
O colossal Towurlee estava junto da porta, que obstruía completamente.
— Muito bem, agora já nos sentimos melhor, não é verdade, milorde? — disse Gournay quando o antigo soberano acabou de fazer sua refeição. — Agora vamos conduzir-te a um bom quarto, onde encontrarás uma cama de plumas.
O prisioneiro, de crânio raspado, de comprido queixo trêmulo, olhou para seus guardas com surpresa.
— Recebestes novas ordens? — perguntou. Seu tom era cheio de temerosa humildade.
— Ah! Sim, está claro que recebemos ordens e vamos tratar-te bem, milorde! — respondeu Maltravers. — Mandaram mesmo que te déssemos fogo, lá onde vais dormir, porque as noites começam a esfriar, não é mesmo, Gournay? É a estação que o exige: já estamos no fim de setembro.

Fizeram o rei descer uma escada estreita, depois atravessar o pátio relvoso do keep, em seguida subir do outro lado, junto à muralha. Seus carcereiros tinham dito a verdade: ali havia um quarto, não um quarto de palácio, mas um bom aposento, limpo e caiado, com um leito de grande colchão de penas, e uma espécie de braseiro, cheio de brasas ardentes. Aquele aposento estava quase aquecido demais.

O espírito do rei agitava-se em pensamentos confusos, e o vinho subia-lhe um pouco à cabeça. Era, pois, suficiente uma boa refeição para que se recuperasse o gosto de viver? Quais seriam as novas ordens? O que acontecera para que lhe testemunhassem tantas atenções súbitas? Talvez uma revolta no reino: Mortimer caído em desagrado... Ah! Se fosse possível tal coisa! Ou, simplesmente, talvez o jovem rei tivesse se inquietado, enfim, sobre a sorte de seu pai, e ordenado que o tratassem de maneira mais humana... Mas ainda que tivesse havido revolta e todo o povo se houvesse erguido em seu favor, jamais Eduardo aceitaria retomar o trono, jamais, disso ele fazia a Deus um juramento. Porque, rei de novo, recomeçaria a cometer erros: não fora feito para reinar. Um convento calmo, eis tudo quanto desejava, e poder passear por um belo jardim, ser servido das iguarias de que gostava... rezar, também. E depois, deixar crescer a barba e o cabelo, a menos que conservasse a tonsura, ainda que aquela lâmina, passando-lhe pelo crânio todas as semanas, lhe despertasse horríveis lembranças. Que negligência da alma, e que ingratidão aquela de não agradecer ao Criador essas coisas simples que são o bastante para tornar uma vida agradável: nutrição saborosa, aposento quente!... Havia um atiçador no fogareiro em brasa...
— Deita-te, então, milorde! A cama é boa, tu verás — disse Gournay.


E, realmente, o colchão era macio. Encontrar de novo um verdadeiro leito, que bom! Mas por que os outros três conservavam-se ali? Maltravers sentara-se num escabelo,[...], e olhava para o rei. Gournay atiçava o fogo. O barbeiro Ogle tinha na mão um chifre de boi e uma serra pequena.
— Dorme, sire Eduardo, não te preocupes conosco, nós temos um trabalho a fazer — insistiu Gournay.
— Que estás fazendo, Ogle? — perguntou o rei. — Talhas um chifre para fazer um copo?
— Não, milorde, talho um chifre, apenas, não para fazer um copo.
Depois, voltando-se para Gournay e marcando um lugar no chifre com a unha do polegar, o barbeiro disse:
— Penso que deste tamanho está bem, não achas?
O ruivo de pele de porco olhou por cima do ombro e respondeu:
— Sim, creio que está bem. Bonum est.

Depois, recomeçou a atiçar o fogo. A serra rangia sobre o chifre do boi. Quando ele se partiu, o barbeiro estendeu a parte afilada para Gournay, que a segurou, examinou, e nela meteu o atiçador ao rubro. Um cheiro acre espalhou-se, empestando no mesmo instante o aposento. O atiçador saiu pela ponta queimada do chifre. Gournay tornou a colocá-lo no fogo. Como queriam que o rei dormisse com toda aquela azáfama em torno dele? Só o teriam afastado daquela masmorra onde havia carniças para enfumaçá-lo com chifre queimado? Subitamente, Maltravers, sempre sentado e sempre olhando para Eduardo, perguntou-lhe:
— Teu Despenser, que tu amavas, tinha os enfeites sólidos?
Os dois outros soltaram uma gargalhada. Por causa daquele nome assim pronunciado, Eduardo sentiu como que um despedaçamento em seu espírito, e compreendeu que aquelas criaturas iam executá-lo ali mesmo. Preparavam-se para infligir-lhe o mesmo suplício atroz que sofrera Hugo, o Jovem?
— Não ides fazer isso! Não ides matar-me! — exclamou ele, sentando-se subitamente em sua cama.
— Nós? Matar-te, sire Eduardo? — disse Gournay, sem mesmo se voltar. — Quem poderia fazer-te acreditar numa coisa dessas? Temos ordens. Bonum est, bonum est...
— Vamos, torna a deitar-te — disse Maltravers.
Mas Eduardo não se deitava. Seu olhar, no rosto raspado e magro, ia, como o de um animal encurralado, da nuca ruiva de Tomás Gournay para o comprido rosto amarelo de Maltravers, e dali para as bochechas de boneca do barbeiro. Gournay tinha retirado o atiçador do fogo e examinava a extremidade incandescente.
— Towurlee! — chamou ele. — A mesa!
O colosso, que esperava no aposento vizinho, entrou, trazendo pesada mesa. Maltravers foi fechar de novo a porta, dando volta à chave. Por que aquela mesa, aquela espessa tábua de carvalho que se colocava geralmente sobre cavaletes? Ora, não havia cavaletes naquele quarto. E entre tantas coisas estranhas que se passavam em torno do rei, aquela mesa, trazida nos braços por um gigante, tornava-se o objeto mais insólito, mais assustador. Como se poderia matar com uma mesa? Esse foi o derradeiro pensamento claro do rei.
— Vamos! — disse Gournay, fazendo sinal a Ogle. Aproximaram-se, cada qual de um lado do leito, atiraram-se sobre Eduardo, viraram-no de barriga para baixo.
— Oh! Os patifes! Os patifes! — gritava ele. — Não, não haveis de matar-me.
Agitava-se, debatia-se, e Maltravers tinha vindo ajudá-los, e os três não foram demais. E o gigante Towurlee preparava-se para lhes trazer auxílio.
— Não, Towurlee, a mesa! — exclamou Gournay. Towurlee recordou-se do que lhe tinham recomendado. Ergueu a enorme prancha e deixou-a cair em toda a largura sobre os
ombros do rei. Gournay levantou a roupa do prisioneiro, baixou-lhe os calções, cujo tecido usado se rasgou. Era grotesco, miserável, um fundilho assim exposto, mas agora os assassinos não tinham mais disposição para rir. O rei, meio morto pela pancada e sufocando sob a tábua que o enterrava no colchão, debatia-se, esperneava. Quanta energia lhe restava ainda!
— Towurlee, agarra-lhe os tornozelos! Não, assim não, separa-os! — ordenou Gournay.
O rei tinha conseguido desembaraçar a nuca despida de sob a mesa, e virava o rosto de lado, para tomar um pouco de ar. Maltravers pesou-lhe com as duas mãos sobre a cabeça. Gournay apoderou-se do atiçador e disse:
— Ogle! Enterra o chifre, agora!
O rei Eduardo teve um sobressalto de força desesperada quando o ferro em brasa penetrou-lhe nas entranhas: o urro que soltou, atravessando as muralhas, atravessando o keep, passando por cima das lajes do cemitério, foi acordar as pessoas até mesmo nas casas do burgo. E os que ouviram aquele longo, lúgubre, pavoroso grito, tiveram, no mesmo instante, a certeza de que acabavam de assassinar o rei.

Na manhã seguinte, os habitantes de Berkeley subiram ao castelo, a fim de se informarem. Responderam-lhes que o antigo rei morrera durante a noite, subitamente, soltando um grande grito.
— Vinde ver, mas, sim, aproximai-vos — diziam Maltravers e Gournay aos notáveis e ao clero. — Estamos fazendo neste momento os arranjos mortuários. Entrai, todos podem entrar.
E as pessoas do burgo verificaram que não havia qualquer marca, nenhuma ferida, nenhuma chaga naquele corpo que estavam lavando, e que tinham o cuidado de virar e revirar diante deles. Apenas um ríctus horrível torcia o rosto do cadáver.
Tomás Gournay e João Maltravers olhavam-se: fora uma brilhante idéia aquela do chifre de boi para meter o atiçador às avessas. Verdadeiramente, uma morte sem vestígios, e, naquele tempo tão inventivo em matéria de assassínios, eles tinham descoberto um método perfeito.

A Loba de França (vol. 5) - Os reis malditos
Maurice Druon - Tradução de Flávia Nascimento
Editora Bertrand Brasil, 2005


São sete volumes - "O Rei de Ferro", "A rainha estrangulada", "Os venenos da coroa", "A Lei dos Varões", "A Loba de França", "A lis e o leão", "Quando um rei perde a França". Li a série inteirinha com dez anos, escondida do meu pai, que tinha determinado que esse não era o tipo de leitura apropriada para uma menina da minha idade. Eram sete volumes de capa dura, com ilustrações da capa em bico-de-pena, comprados pelo Círculo do Livro, lá pelos idos dos anos 1970. Foi a primeira obra adulta na minha vida de leitora.

quinta-feira, setembro 01, 2011

Day 23: The book you’ve read the most times



Repetidas vezes me defrontava com o aguerrido autoritarismo da escola encarnado no líder juvenil Shalhoub. Quando nossa classe foi obrigada a assistir a um jogo de futebol na escola, mas tivemos permissão para usar nossas próprias roupas, nossa aparência suja e desleixada despertou o escárnio dos rapazes da Sexta Superior, ainda vestidos garbosamente em seus vistosos uniformes oficiais da escola. Shalhoub caminhava junto à linha do campo, como uma espécie de monarca inspecionando uma guarda de honra lamentavelmente andrajosa, com seu rosto mal escondendo o fastio e a indiferença que seu andar desdenhoso irradiava. Com um enorme cravo branco na lapela, elegantes sapatos pretos lustrosos e gravata de listras brilhantes, ele era a própria imagem do arrogante líder juvenil. Então Hamdollah cacarejou bem alto: "Puxa, que bela figura você faz, capitão Shalhoub", diante do que o ultrajado Shalhoub se deteve e acenou para que Hamdollah e eu saíssemos do campo e o acompanhássemos. Um ato de lesa-majestade havia sido cometido.

Ele nos fez marchar até a sua sala, [...] e depois de me dar dois tapas começou a torcer o braço do pobre Hamdollah por trás das costas. À medida que a pressão e a dor aumentavam, o estudante bem mais jovem gemia queixosamente, com o braço prestes a quebrar. "Por que você está fazendo isso, capitão?", ao que Shalhoub respondeu em seu inglês impecável e fluente: "Porque, para falar a verdade, gosto disso". O braço de Hamdollah não quebrou, e Shalhoub ficou entediado com seu cansativo passatempo. "De volta ao campo de futebol", comandou, "e que eu não ouça mais nenhuma palavra de vocês."

Não me lembro de tê-lo visto outra vez desde então, a não ser a certa distância, durante o último dia de aula [...]. Só voltei a ter notícia de Shalhoub uma década depois, quando ele se tornou Omar Sharif, marido de Faten Hamama e astro de cinema cuja estréia americana, em 1962, foi em Lawrence da Arábia, de David Lean.

[...]

Hoje me parece inexplicável que, tendo dominado nossas vidas ao longo de gerações, o problema da Palestina e de sua trágica perda [...] pudessem ser em tão grande medida sufocado por meus pais, omitido de suas discussões e mesmo de seus comentários.

[...] Meu pai e nós, seus filhos, estávamos todos protegidos da política da Palestina por nossos talismânicos passaportes norte-americanos, graças aos quais passávamos pelos funcionários da alfândega e de imigração com o que parecia ser uma facilidade risível, comparada com as dificuldades enfrentadas pelos menos privilegiados e menos afortunados naqueles anos de guerra e pós-guerra. Minha mãe, porém, não tinha um passaporte norte-americano.

Depois da queda da Palestina, meu pai empenhou-se seriamente - até o fim da vida - em tentar obter algum documento norte-americano para minha mãe, mas não conseguiu. Como sua viúva, ela tentou até o fim e também fracassou. Restrita a um passaporte palestino logo substituído por um laissez-passer, minha mãe viajava conosco como um empecilho levemente cômico.

Meu pai contava rotineiramente a história de como o documento dela era colocado embaixo da nossa pilha de vistosos passaportes verdes dos Estados Unidos, na esperança vã de que o funcionário da imigração a deixasse passar como um de nós. Isso nunca acontecia. Havia sempre a entrada em cena de um agente mais graduado que, com ar circunspecto e voz grave, chamava meus pais de lado para explicações [...]. Quando finalmente passávamos, o significado da anômala existência dela, representada por um documento embaraçoso, nunca era explicada a mim como a conseqüência de uma dilacerante experiência coletiva de expropriação.

[...] A ironia da busca infrutífera de minha mãe por cidadania é que depois de 1956, mediante a intervenção do embaixador do Líbano no Egito, ela pediu com sucesso a cidadania libanesa, e até sua morte, em 1990, viajou com um passaporte libanês, no qual, misteriosamente, seu local de nascimento foi trocado de Nazaré para o Cairo. [...] Tudo foi bem até o final dos anos 70, quase uma década depois da morte de meu pai, quando ser portadora de um passaporte libanês implicou para ela grandes dificuldades em conseguir vistos para a Europa e para os Estados Unidos e em passar por barreiras de imigração: ser libanês havia de repente se tornado sinônimo de ter tendência para o terrorismo, e assim minha mãe obstinadamente orgulhosa sentiu-se de novo estigmatizada. Mais uma vez fizemos investigações a respeito de cidadania - afinal, como viúva de um veterano da Primeira Guerra Mundial e mãe de cinco cidadãos, ela parecia plenamente digna da honraria - e mais uma vez disseram-lhe que teria de morar nos Estados Unidos. E de novo ela recusou, preferindo os rigores da vida em Beirute sem telefone, luz elétrica e água, ao conforto de Nova York ou Washington. Então foi surpreendida pelo retorno do seu câncer de mama [...]

Ela sabia talvez que seu fim estava próximo [...]. Comprou para si um condomínio [...] e - com seu visto de visitante - foi ficando por períodos cada vez mais longos de tempo, consultando com regularidade seu médico [...]. Um desses vistos expirou na mesma época que ela perdeu a consciência [...], e minha irmã Grace, que estava morando com ela e cuidando altruisticamente de sua saúde, viu-se envolvida em interrogatórios sobre deportação enquanto minha mãe se aproximava de seus últimos dias. O caso acabou sendo encerrado por um juiz irado que passou uma descompostura no advogado do Serviço de Imigração e Naturalização por tentar deportar uma mulher de mais de setenta anos em estado de coma.

Fora do lugar - Memórias
Edward Said - Tradução de José Geraldo Couto
Companhia das Letras, 2004


Mora na minha mesa de cabeceira, de onde é tirado ao menos três vezes ao mês. Estas são as minhas passagens preferidas.

quarta-feira, agosto 31, 2011

Day 22: Favorite book you had to read for school



O sujeito que inventou a bagunça por certo se sentiria encabulado se visitasse o arraial do Bolacha: uma esparramação de mexidos pelo assoalho — soldadinhos, índios, livros, revistinhas, capas de discos e discos sem capas, cascas de amendoim e amendoim sem cascas, trem elétrico com muito trilho, autoramas, bombinhas de São João, mecha de balão, vara de pescar, bilhete de rifa — pior que mato onde tem cobra, a gente tinha que escolher o pedacinho de pisar e, olhando para o chão, não esquecer de olhar a frente, porque senão sim, é que decapitava o pescoço num arame esticado, que era o teleférico, semelhante Pão de Açúcar; a caixinha escorria na inclinação do arame, de parede a parede.

Lá no fundo do seu império, reinava sentado o gordo, fechado em seus pensamentos, nos quais não prestava nenhuma atenção: o que fazia era comer torradas, numa tostadeira automática que apitava quando o pão estava no ponto e por um mecanismo de mola, jogava o pão no ar feito foguete e, com tal precisão, que caía no prato do lado, sempre no mesmo lugar. E enquanto passava a geléia vermelha na torrada aterrisada, já punha outro quadrado de pão na máquina e o tempo justo de comer essa uma é que a máquina levava para apitar a outra.

A reunião da noite no quarto do Bolacha começou num ar de muito desânimo porque, além de terem perdido a pista o Edmundo estava de cara inchada e o gordo de joelho esfolado.
— O sistema do cambista é perfeito — disse Edmundo. — Não há maneira de seguir um fulano prevenido assim. A polícia fracassou, os detetives do seu Tomé fracassaram e nós também.
— E agora, que se sabe seguido, vai se prevenir em dobro — observou Pituca.
— E que paciência de chinês que ele tem; toma mais de duas horas, cada dia, só em caminhos despistantes.
— Seu Tomé tem razão, esbarramos num osso duro. 0 chefe dessa quadrilha aí é danado de tigre, não dá pé!
0 Bolachão ouvia quieto, como costume, ocupado nas torradas. A tostadeira deu um apito e — fuim — jogou a torrada no ar; o gordo aparou a torrada antes de cair no prato, pôs a geléia com a outra mão e ia comer, quando, de repente, largou torrada e geléia e levantou-se de supetão.
— Pera aí. Tem uma idéia mexendo na minha cabeça, parece boa. Ela vai, volta, mas não consigo pegar, foge logo.
Estava com cara diferente, de quem está inspirado, e começou a andar daqui prali; ia até o trem elétrico, dava meia volta, passava no posto de gasolina, no aviãozinho, na ambulância, parava no autorama e voltava de novo.
— O gordo entrou em transe — gozou Pituca.
— Psiu! — exclamou o gordo. — A idéia está crescendo, vem vindo, vem vindo, chi!, mergulhou de novo.
E continuou, norte-sul-leste-oeste, andando e voltando no meio dos brinquedos e também falando sozinho.
— Pra mim isso aí é macumba — gracejou Edmundo. — Baixou o espírito no Bolacha.
— Como é metido esse gordo — disse Pituca. — Vê se para ter uma idéia precisa esse carnaval.
— Peguei-te! — gritou o gordo e deu uma palmada na testa — Vamos seguir o cambista ao avesso. Está aí.
— Seguir ao avesso?
— O cambista chega no Largo de São Bento às duas horas, sai às três e meia e faz aquele sistema de despistamento para não ser seguido. Mas, para ir de sua casa ao Largo de São Bento, ele com certeza vai direto. Despista quando vai mas não quando vem.
— Explique melhor.
— A gente espera o cambista antes das duas horas no Largo de São Bento, vemos ele chegar e marcamos o lugar de onde veio. No dia seguinte, um pouco mais cedo, a gente fica no lugar que ele apareceu na véspera e marcamos o lugar de onde veio para chegar ali, e assim vamos fazendo, marcando os pontos de onde vem, e no fim damos no lugar de onde partiu. Tá? Isto se chama seguir pelo avesso, ao revés, ao contrário, de trás pra diante, inversamente, revirado. . .
— Chega! — disse Edmundo. — Até parece que o gordo engoliu a pílula do doutor caramujo, passou de mudo pra falante. Começo a entender, mas vamos devagar que senão me funde o cérebro. Até aí está certo, mas me diga: e se o cambista entra em contacto com a fábrica clandestina depois que sai do Largo de São Bento? Não adiantava nada segui-lo antes das duas.
— Adianta sim. Seguindo do jeito que falei, chegamos na casa do cambista. Bom, então a gente deixa ele ir para a cidade e fica esperando lá. De tardinha, na hora que ele voltar, a gente marca o ponto de onde veio e segue ele pelo contrário do mesmo jeito, só que desta vez de sua casa para a cidade. Aí ficaremos sabendo o que faz depois dos trajetos despistantes. Capito?
Edmundo pensou um pouco, deu uma gargalhada e abraçou Bolachão.
— For-mi-dá-vel! É a idéia mais bigue que vi até hoje, juro por Deus!
Pituca olhava com ar de sem graça.
— Ficou todo mundo doido! A gente sai de tarde e chega de manhã na casa do homem, de cabeça para baixo.
— Não é de cabeça para baixo, Pituca. É ao avesso.
— Ah sei. A gente sai depois e chega antes; espere um pouco, deixa eu pensar. Vem, marca, volta pra trás, depois chega mais cedo, marca, vem, volta, bolas!, não, não entendo. Isso não existe, o cambista não anda de costas. Só se o Bolacha inventou a máquina do tempo.
Bolachão pegou a torrada.
— Sua inteligência não alcança um raciocínio abstrato. Compreenderá quando for usado na prática.
— Chi, raciocínio abstrato, acho que o Edmundo tem razão, o gordo comeu a pílula do caramujo.
Edmundo pulava que pulava e deu mais um abraço no gordo.
— Grande, gordo! Você é o máximo.
— É — disse Pituca. — Tá tudo doido. Bó!
Estava na hora de ir dormir e Edmundo e Pituca foram saindo do quarto, pé aqui pé ali, pra não pisar nos terecos do gordo.
— Boa noite, doutor caramujo.
Piiiiii — a tostadeira apitou.

O gênio do crime
João Carlos Marinho Silva
Editora Obelisco, 1977


De vez em quando eu ainda dou umas lidinhas. A-do-ro. E esse exemplar não empresto pra ninguém.

terça-feira, agosto 30, 2011

Day 21: The best book you’ve read this year



O coronel Justo Sacrossanto cansou-se durante a manhã recebendo, em Fortaleza, correligionários interioranos [...]. Apesar do sobrenome, de sacrossanto não tem nada, ao contrário, tem fama de diabólico, o que não é novidade em se tratando de coronel a toda prova, despótico, cruel, temido. De estatura mediana, barriga pronunciada, braços e mãos enormes em proporção ao tronco. Apresenta um defeito congênito, um aleijão, não tem o braço esquerdo ou, melhor, tem, mas é outro braço direito no lado esquerdo do corpo. Resumindo, tem dois braços direitos, porque o do lado esquerdo se apega ao ombro virado para fora, como se fosse, e é, outro braço direito. Não consegue bater palmas como todo mundo, porque a mão que seria a esquerda é réplica da direita. Além do mais, não é de aplaudir. Nem precisa. [...]

Embora a obediência seja ato aprendido, não interessa se ensinado a porradas, às vezes é como questão de fé e, no caso, acredite quem quiser, ambas as mulheres são mudas de verdade. A mais alta teve a lingua cortada porque falou o que viu com quem não devia ou com quem amava em segredo. O manda-chuva mandou cortar-lhe a lingua port castigo, ciúmes e justiça, pois, se Deus manda lá em cima, cá embaixo manda o coronel Sacrossanto, ao menos nos seus domínios, o que não é pouco. Além do mais, acha que mulher muda é bicho quase perfeito: sem lingua, perde o ranço de víbora, e a boca chuca melhor.

Ordem dada, melhor cumprida, que um suspiro do coronel tem mais força que decreto de presidente da República, e, mal a ordem sai da boca, aquilo que deve ser feito já voa. [...] A outra, quase uma menina, também é muda, mas, parece, nada fez de incorreto. Corre entre a vassalagem da casa - pelo menos uma dúzia, do guarda-costas à cozinheifra - que o coronel mandou-lhe cortar a lingua somente por precaução, estratégia copiada do capitão Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião. O coronel sempre se benze quando alguém fala do capitão ou do seu padrinho de batina. Claro: foi Padre Cócero quem deu, em pape, timbrado, a patente do cangaceiro. Mas o apelido, no sertão se sabe, veio da escuridão que o cabra iluminou a tiros de rifle para achar um cigarro, dizendo: "Acende, lampião!"

O coronel está relendo o título da notícia ao pé da primeira páginma de "O Democrata, jornal comunista, vez ou outra empastelado pela polícia. Mas, quando o jornal sai, o coronel trata de ler até mesmo suas entrelinhas para seguir de perto as urdiduras, as tranças do inimigo. Segura o jornal com a mão direita da direita. A notícia foi motivo de refrega que passou na cambada pela manhã. Afinal de contas, nenhum dos seus mandatários sabia ao certo o que responder. O coronel meteu-lhes o dedo na cara, dizendo que as coisas aconteceram na barba deles:

"E homem pra ser homem, ou sabe mandar, ou sabe obedecer; do contrário, a barba que tem na cara devia crescer noutro lugar."

Não deu pormenores sobre o lugar onde a barba cresceria, supondo que, na cabeça de cada ouvinte, as conjecturas do medo meteriam a barba no lugar certo.

O livro dos desmandamentos (Profecias de um excluído)
Carlos Trigueiro
Bertrand Brasil, 2004


Não me canso de ler. E o autor está lançando livro novo em setembro. Só uma coisa a dizer: oba!

segunda-feira, agosto 29, 2011

Day 20: The last book you read



No início, os contadores que traçavam as inscrições utilizavam plaquetas de barro sobre as quais desenhavam objetos e seres que desejavam representar, com a ajuda de cálamos, de talos de cana, pontiagudos. Com esses cálamos, ancestrais de nossas canetas-tinteiro e de nossas esferográficas, os sumerianos habituaram-se a talhar em bisel (obliquamente) e com eles imprimir na argila fresca sinais que tomavam a forma de "cantos" e de linhas, formando espécies de supostas "cunhas", representações dos desenhos primitivos; daí a denominação de escrita "cuneiforme", de cuneus, "cunha" em latim.

Por terem sofrido inumeráveis transformações ao longo dos séculos, nada restou de concreto de tais "sinais". Entretanto, convém saber que o desenhodos pictogramas não era uma criação livre do artista, pois foram encontrados "catálogos", listas, espécies de dicionários primitivos dos quais elaboraram os escribas. Cada símbolo podia, de acordo com o contexto, ter vários significados. O desenho de um pé podia dizer: "andar", "por-se de pé", "transportar" etc. No momento em que os sinais passam a ter uma única significação, a deles mesmos, seu número diminui. Ficam em torno de 600, o que implica, para aqueles que sabem escrever, um enorme esforço de memória.

O rébus: um jogo infantil que será a chave mestra da escrita

Porém, existe algo mais extraordinário ainda: os símbolos que os escribas imprimiam nas plaquetas de barro mole, deixadas a secar ao sol ou colocadas a cozer nos fornos, designavam coisas ou seres. O progresso decisivo consistiu em fazer com que os símbolos correspondessem aos sons das palavras da lingua falada.

Na origem da verdadeira escrita encontra-se uma invenção notável: o fonetismo. E a astúcia admirável dos sumerianos, como também dos antigos egípcios, consistiu em utilizar um procedimento tão simples quanto um jogo infantil: o rébus. - cartas enigmáticas. Eles tiveram a ideia de usar um pictograma, designando não o objeto por ele diretamente representado, mas um outro objeto cujo nome lhe era foneticamente semelhante. Como em nossos rébus onde um desenho de um gato (chat) e um desenho de um pote (pot) nada têm a ver com um felino e com um recipiente, mas com o conceito "chat-pot", que vale para chapeau (chapéu).

A escrita - Memória dos homens
Georges Jean - Tradução de Lídia da Mota Amaral
Editora Objetiva, 2002

domingo, agosto 28, 2011

Day 19: Favorite nonfiction book



De como os expedicionários equiparam Fafner* com os mantimentos essenciais para uma empresa de tal envergadura, mais sua enumeração detalhada, que generosamente transmitem a outros autonautas que possam tentar cruzeiros desta natureza.

Decidido à dar à expedição o caráter mais científico possível, o Lobo foi consultar eminentes livros de viagem a fim de aquipar Fafner* com as provisões adequadas. O diário do capitão Cook - cujo sobrenome era em si só uma promessa -proporcionou-lhe as interessantes informações que se seguem:

"Já notei a constante preocupação do Almirantado em nos facilitar todas as provisões que a experiência ou os conselhos autorizados nos levavam a considerar como favoráveis à saúde dos marinheiros; não vou abusar do tempo de meu leitor repetindo a relação completa, limitando-me às mais úteis."
"Forneceram-me uma provisão de malte, com o qual preparamos o mosto doce [...] O chucrute, de que tínhamos grande quantidade, não só de legume saudável como, em minha opinião, possui as qualidades antiescorbúticas notáveis, e não se deteriora com o tempo [...] Os tabletes portáteis de sopa..."

- Um momento - disse Carol. - Se vamos ter que viver mais de um mês engolindo essas porcarias, prefiro ficar em casa.
- Mas acontece que o capitão Cook...
- Antes que você termine a frase inutilmente, proponho que vá comigo ao supermercado da esquina, que não deve ser o Almirantado mas, em compensação, está cheio de coisas tão gostosas quanto antiescorbúticas. [...]

Os autonautas da cosmopista (ou Uma viagem atemporal Paris-Marselha)
Julio Cortázar e Carol Dunlop - Tradução de Josely Baptista
Editora Brasiliense, 1991


* Sobre Fafner, diz Cortázar: "[...] Porque o Dragão , está na hora de apresentá-lo, é uma espécie de casa rolante ou caracol que minhas obstinadas predileções wagnerianas me levaram a batizar com o nome de Fafner, [nossa] Kombi vermelha.[...] Essa história de dragão vem de uma antiga necessidade: quase nunca aceitei o nome-rótulo das coisas e penso que isso se reflete em meus livros. Não vejo motivo para tolerar invariavelmente o que nos vem de antes e de fora, e então fui colocando, nas pessoas que amei e que amo, nomes que nasciam de um encontro, de um contato entre chaves secretas, e aí mulheres foram flores, foram pássaros [...] mas voltando ao Dragão, direi que há dois anos eu o vi subindo a rue Cambronne, em Paris, vinha novinho em folha e quando me enfrentou vi sua grande cara vermelha, os olhos baixos e acesos, um ar entre atrevido e aventureiro, foi um simples click mental e já era o dragão e não um dragão qualquer, mas Fafner, o guardião do tesouro dos Nibelungos, que segundo a lenda e Wagner teria sido tonto e perverso, mas que sempre me inspirou uma secreta simpatia, talvez pelo simples fato de estar condenado a morrer nas mãos de Siegfried, e essas coisas eu não perdôo aos heróis, como trinta anos atrás não perdoei Teseu por ter matado o Minotauro. [...]

sábado, agosto 27, 2011

Day 18: A book no one would expect you to love



Certo dia, o presidente Roosevelt disse-me que estava pedindo sugestões, publicamente, sobre como se deveria chamar esta guerra. Retruquei de pronto: "a Guerra Desnecessária." Nunca houve guerra mais fácil de impedir do que esta que acaba de destroçar o que restava do mundo após o conflito anterior.

A Insânia dos Vencedores, 1919-1929

Após o término da Guerra Mundial de 1914, imperou profunda convicção e uma esperança quase universal de que reinaria a paz no mundo. Esse ardente desejo de todos os povos poderia ter sido facilmente satisfeito houvera firmeza nas convicções justas e um bom senso e uma prudência razoáveis. A expressão "a guerra para acabar com as guerras" estava em todas as bocas, e se haviam tomado providências para torná-la realidade. O presidente Wilson – presumiu-se que com a autoridade dos Estados Unidos – fixara em todas as mentes o conceito de uma Liga das Nações. Os exércitos aliados estacionavam ao longo do Reno e suas cabeçasde-ponte projetavam-se a fundo numa Alemanha derrotada, desarmada e faminta. Em Paris, os chefes das nações vitoriosas debatiam e discutiam o futuro. Diante deles abria-se o mapa da Europa, a ser redesenhado praticamente conforme bem entendessem. Após cinqüenta e dois meses de agonia e riscos, a coalizão teutônica lhes estava aos pés, e nenhum dos seus quatro membros era capaz de opor a menor resistência à vontade dos vitoriosos. A Alemanha, líder e frente da agressão, vista por todos como causa primordial da catástrofe que se abatera sobre o mundo, estava à mercê ou ao critério dos vencedores, eles mesmos cambaleantes depois da tormenta por que haviam passado. Além do mais, não fora uma guerra de governos, mas de povos. Toda a energia vital dos maiores países escoara-se aos borbotões na ira e na matança.

Os líderes guerreiros que se reuniram para a paz em Paris, no verão de 1919, para lá tinham sido levados pela mais forte e furiosa maré que jamais montou na história humana. Já ia longe o tempo dos tratados de Utrecht e de Viena, quando estadistas e diplomatas aristocráticos, vencedores e vencidos, reuniam-se numa discussão polida e cortês e, livres do clamor e da babel da democracia, podiam reformular sistemas com base nos princípios fundamentais com que todos concordavam. Os povos, exaltados por seu sofrimento e pelos grandes ensinamentos que este lhes tinha imposto, ali estavam em volta, aos milhões, a exigir que a compensação fosse plenamente extorquida. Desgraçados dos líderes, agora montados em seus inebriantes pináculos de triunfo, se pusessem a perder na mesa de conferência o que os soldados haviam conquistado em cem campos de batalha encharcados de sangue.

A França, por direito advindo de seus esforços e suas perdas, ocupava o papel principal. Quase um milhão e meio de franceses pereceram em defesa do solo pátrio sobre o qual haviam resistido ao invasor. Por cinco vezes em cem anos – em 1814, 1815, 1870, 1914 e 1918 – as torres de Notre Dame tinham visto o clarão dos canhões prussianos e ouvido o estrondo de seus disparos. Agora, por quatro anos medonhos, treze províncias da França haviam ficado sob o jugo rigoroso do comando militar prussiano. Extensas regiões foram sistematicamente devastadas pelo inimigo ou pulverizadas no confronto entre os exércitos. [...] Por quase cinqüenta anos, eles tinham vivido em meio ao terror das armas alemãs. Agora, ao preço de seu próprio sangue, essa longa opressão fora empurrada para longe. Sem dúvida, ali tinham chegado, finalmente, a paz e a segurança. Num ímpeto apaixonado, o povo francês exclamava: “Nunca mais!”

Mas o futuro vinha carregado de maus presságios. [...] A Alemanha havia combatido quase o mundo inteiro, quase sozinha, e quase vencera. [...] Desgastada e duplamente dizimada, mas indiscutível senhora do momento, a nação francesa perscrutava o futuro com um grato assombro e um medo obsedante. Onde estava, afinal, aquela SEGURANÇA sem a qual tudo o que fora conquistado parecia sem valor, e a própria vida, mesmo em meio ao júbilo da vitória, era quase insuportável? A necessidade extrema era a segurança, a qualquer preço e por qualquer meio, por mais severo ou até implacável que fosse.

No Dia do Armistício, os exércitos alemães haviam marchado em ordem para casa. "Eles souberam lutar", disse o marechal Foch, generalíssimo dos aliados, com os louros rebrilhando sobre a fronte e falando com espírito de soldado: "Que conservem suas armas." Mas exigiu que a fronteira francesa, dali por diante, fosse o rio Reno. A Alemanha podia estar desarmada; com seu sistema militar em frangalhos; com suas fortalezas desmanteladas; podia estar empobrecida; sobrecarregada com o peso de indenizações incomensuráveis; podia tornar-se presa de rixas internas; mas, em dez ou vinte anos, tudo isso passaria. O indestrutível poderio “de todas as tribos germânicas” se ergueria uma vez mais, e as fogueiras latentes da Prússia guerreira tornariam a arder e brilhar.

Mas o Reno, o largo e profundo Reno, com sua correnteza veloz, uma vez mantido e fortificado pelo exército francês, seria uma barreira e a proteção por trás da qual a França poderia viver e respirar durante gerações. Muito diferentes eram os sentimentos e opiniões do mundo de língua inglesa, sem cujo auxílio a França certamente teria sucumbido. As disposições territoriais do Tratado de Versalhes deixaram a Alemanha praticamente intacta. Continuou a ser o maior bloco racial homogêneo da Europa.

Quando o marechal Foch tomou conhecimento da assinatura do Tratado de Paz de Versalhes, comentou com singular agudeza: "Isso não é Paz. É um Armistício de vinte anos."

Memórias da Segunda Guerra Mundial
Winston Churchill - Tradução de Vera Ribeiro­
Editora Nova Fronteira, 2005

sexta-feira, agosto 26, 2011

Day 17: A book that’s a guilty pleasure



A Ditadura Envergonhada, volume 1
A Ditadura Escancarada, volume 2
Coleção As Ilusões Armadas

A Ditadura Derrotada, volume 3
A Ditadura Encurralada, volume 4
Coleção O Sacerdote e o Feiticeiro

Elio Gaspari
Companhia da Letras, 2002 a 2004


"Você gastou uma grana - UMA GRANA - e não abriu nenhum volume! NEM ABRIU! Mas tamos aqui pra mostrar pro mundo como você é culta e tales e quais. Vergonha. VERGONHAAAAAAAAAA!!!!!!!!" (dizem os livros na estante).

Mas foi um marco histórico. Não foi? Foi. Não?
Eu tinha que comprar. Fiquei um mês comendo pão e ovo - foi mais forte do que eu.

quinta-feira, agosto 25, 2011

Day 16: Favorite book that was made into a movie



As cinzas de Ângela (Angela's Ashes)
Direção de Alan Parker. Com Emily Watson e Robert Carlyle.
Baseado na autobiografia de Frank McCourt, ganhador dos prêmios Pulitzer e National Book Award por esse livro, em 1997.


quarta-feira, agosto 24, 2011

Day 15: Favorite holiday book



Eu tenho zilhares de revistinhas da Turma da Mônica dos anos 70 e 80.
Então eu leio e releio tudo sempre que estou à toa em casa.
Porque ninguém vive só de Cortázar e Shakespeare.

terça-feira, agosto 23, 2011

Day 14: A book that reminds you of someone



De: Kate Reddy, Yorkshire
Para: Debra Richardson

Querida Deb, como foi o seu Natal? [...]

Você sabe que eu sempre digo que quero estar com meus filhos. Bem, eu quero mesmo estar com meus filhos. Há noites, quando chego em casa atrasada para ler uma história para Emily antes de dormir, que vou até o cesto de roupa suja e cheiro as roupas deles. Sinto tanta saudade...

Nunca contei isso a ninguém, mas quando estou com eles, como agora, eles me parecem tão carentes... É como viver todo um caso de amor compactado num longo fim de semana - paixão, beijos, lágrimas amargas, eu te amo, não me deixe, pega um copo d'água pra mim, você gosta mais dele do que de mim, me leva pra cama, o seu cabelo é bonito, me abraça, eu te odeio.

Esgotada & histérica, preciso voltar ao trabalho o quanto antes para descansar. Que tipo de mãe tem medo dos próprios filhos?

Sua indignada,
Kate
Bjs


Estou prestes a apertar Enviar, mas em vez disso aperto Deletar. Há coisas que não se pode confessar para ninguém, nem mesmo para sua melhor amiga. Nem para você mesma.

Não sei como ela consegue
Allison Pearson - Tradução de Léa Viveiros de Castro
Editora Rocco, 2003

segunda-feira, agosto 22, 2011

Ainda ele

Dois exilados - pai e filho - estão numa ilha deserta cumprindo longa pena. Numa manhã, sentados em frente à casa, o filho pergunta: "Que pensas deste exílio?" "Será longo...", responde o pai. "E como ocupá-lo?", continua o jovem. O velho, sereno, diz apenas: "Olharei o oceano, e tu?"
Faz-se um longo silêncio antes da resposta do jovem: "Eu traduzirei Shakespeare".
Shakespeare: o oceano.

Victor Hugo
Epígrafe

Hamlet
William Shakespeare - Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos
Abril Cultural, 1976

Day 13: A book that reminds you of something/sometime



"E, quando chegar esse dia, meu amor, você se lembrará de mim."

Algum dia
De Alison McGhee - Ilustrações de Peter H. Reynolds
Tradução de Mônica Stahel
Editora Martins Fontes, 2009


domingo, agosto 21, 2011

Day 12: Favorite sci-fi book



"O que vocês fariam", perguntou o Historiador Universal, "o que poderiam fazer se soubessem que passariam o resto da vida completamente sozinhos?" [...] A situação na qual o sujeito encontra-se absolutamente só ocorreu. Um homem percebeu que estava sozinho, de modo realista e conclusivo, e que nunca mais manteria contato direto com qualquer outro ser humano. A conclusão era correta, e ele viveu os últimos anos de sua existência completamente isolado, consciente de seu destino." [...]
"Seu nome", anunciou o Historiador Universal, "era Sam Magruder. O fator capaz de afastá-lo de seus semelhantes foi o tempo, simplesmente o tempo. Ele passou a viver cerca de 800 milhões de anos antes do surgimento da espécie humana. Sua vida transcorreu dentro do intervalo normal. Mas voltar à Idade do Homem era impossível e ele sabia disso muito bem. As chances de receber a visita de outro ser humano não mereciam ser levadas em conta, racionalmente, de tão infinitesimais. E Sam Magruder era fundamentalmente racional. Portanto, ele foi absolutamente excluído do resto de sua raça, como jamais ocorrera com outro homem, pelo que sabemos."
"Mas como isso aconteceu?"
"E como ele voltou no tempo?"
"Em termos vulgares, deu um pulo no tempo - ele foi vítima do que chamamos tecnicamente de descronização."

A descronização de Sam Magruder
George Gaylord Simpson
Introdução de Arthur C. Clark, posfácio de Stephen Jay Gould
Tradução de Celso Nogueira
Editora Fundação Peirópolis, 1997


Sam Madruder era um cientista do ano 2162 que foi arremessado ao passado. Aparece num pântano, nu, absolutamente só, cercado de dinossauros, num ambiente totalmente estranho. Sobrevive e, no decorrer de cerca de vinte anos naquele mundo misterioso, registra sua impressões em lascas de pedra, mesmo sabendo da mínima probabilidade de serem encontradas. Aproximadamente 80 milhões de anos depois, essas inscrições são achadas entre fósseis. [...]
A tônica do livro são as reflexões filosóficas de Simpson/Magruder sobre o que é ser só, absolutamente único no universo, e sobre sua participação no processo evolutivo. Magruder poderia, com seus conhecimentos, interferir no curso dessa evolução, como se pretende hoje no final do século XX. Mas não o faz por um notável senso de moralidade. (Orelhas de Ubiratan d'Ambrosio)

Amo.de.paixão. Como diz Tia Batata, top ten foréva.

sábado, agosto 20, 2011

Day 11: Favorite animal book



Marianne se decidiu por uma receita de quiche de brócolis. Podia ouvir a gata do vizinho do lado de fora, rondando pelo jardim. Às vezes, os miados da gata eram tão parecidos com o choro de um bebê que ela levantava da cama quando ouvia o som. Depois, sem conseguir dormir, ia tropeçando até o quarto dos filhos, só para ter certeza de que nenhum deles a chamara. [...]

Marianne preferia pensar em como poderia ser pior. [...] Lucas tinha dez anos e não incendiava nada, não fugia de casa, não batia nas pessoas com tijolos ou bastões, não estrangulava nem estuprava pessoas, nem torturava animais. Era só um pouco maluco.
"Mas que palavra", pensou ela. Marianne já havia cruzado com ela muitas vezes – essa palavra e outras. Insano. Anomalia. Psicopata. Agora, elas caíam de sua boca por acidente, como sapos. Ela sentia as palavras escorregando para fora e caindo no chão. [...] Marianne engolia a sensação pantanosa em sua garganta. [...] De manhã, ela esmagava os comprimidos de Lucas no suco de laranja e Richard lia o jornal, tentando ignorar a gritaria no jardim.
- Qualquer dia desses vou matar essa gata. [...]

Richard estava lendo na cozinha quando ouviu um baque. Era o som pesado de um corpo batendo num objeto e isso o fez largar o jornal e correr escada acima. [...] Eles viraram para o corredor e viram Lucas parado atrás de Sarah, tentando espiar alguma coisa entre os dedos dela. Quando o menino viu Richard, voou rumo ao seu quarto e fechou a porta.
Havia um talho na testa de Sarah. [...] Nas mãos dela, estava um saco plástico claro. Quando viu os pais, ergueu o saco no alto, como um prêmio. Dentro, estava o corpo de um gatinho, emaciado e inchado, o pelo era laranja e branco. Um líquido amarronzado brotava de um dos cantos. [...]

No corredor [do hospital], Richard preenchia os formulários médicos junto com a enfermeira. Ele parou no bebedouro no caminho de volta para a sala de espera. O jato era fraco, mas foi bom para molhar os lábios. Ele ligou para a Dra. Snow do telefone público, de olho em Lucas, sentado num canto com o rosto afundado numa revista.
- Os remédios não estão funcionando.
- Às vezes isso acontece.
- Ele está ficando pior.
A Dra. Snow suspirou.
- Ataque a irmãos é bastante comum – ela sugerir terapia familiar. Marcou uma sessão para o dia seguinte. Eles deviam ir para casa e descansar. – Peça comida chinesa – aconselhou ela. – Alguma coisa leve.
Quando o carro estacionou na entrada de carros, Richard viu a vizinha. Ele entendeu que alguma coisa estava errada pelo modo como a blusa dela estava torcida.
- Não sei o que fazer – disse ela enquanto Richard baixava a janela. – Minha gata não quer sair do seu quintal. [...]
- Essa não é uma hora muito boa.
- Está tudo bem – disse Marianne. – Eu a levo – ela pôs as chaves no bolso e tirou Sarah do carro. [...] Um grande curativo branco estava colado na testa de Sarah e Richard podia ver uma seção de careca onde o médico tinha raspado o cabelo da menina. [...]
- E então? – perguntou Richard. – Qual é o problema?
A gata estava no quintal, parada em um dos cantos do jardim.
- Lamento muito por isso – disse a vizinha. – Normalmente eu consigo convencê-la a ir para casa – o rosto tremeu um pouco quando ela se aproximou da gata laranja. – Vem agora, querida – a gata sibilou e bateu na mão da mulher, depois correu de volta para o canto. [...]
A barriga vazia da gata balançava, os mamilos [entumescidos de leite] se arrastavam no chão. Quando chegou mais perto, Richard viu que seus bigodes tinham sido cortados. Ele sabia que cortar os bigodes era o mesmo que cegar; os animais os usavam para sentir aquilo que seus olhos não podiam ver. Richard deu uma olhada na casa. As cortinas estavam fechadas.
Foi até onde a gata estava sentada e futucou o chão com o pé. O sapato de Richard afundou na terra macia e, quando ele tocou o que tinha sido enterrado ali, sentiu seu ânimo desabando junto com a ponta do seu sapato, um mergulho na tristeza. Ele pensou no que estava surgindo. Havia vermes, ele podia senti-los, e grãos minúsculos abriam caminho, entrando em suas meias.

Verdadeiros animais
Hannah Tinti - Tradução de Ryta Vinagre
Editora Rocco, 2004


Um cachorro que é a única testemunha de um assassinato. Girafas de zoológico entediadas que simulam o próprio suicídio. Um urso empalhado que parece ganhar vida. São 11 contos, este é o décimo ("Sangue do meu sangue"). Em todos, os animais são personagens que correm à margem; se ausentes, porém, não haveria sentido para as histórias. Um livraço que passou quase em brancas nuvens quando foi lançado, assim como outros títulos da coleção Safra XXI, da Rocco.

sexta-feira, agosto 19, 2011

Fim de tarde

Publicar listas de livros é um ótimo recurso pra não deixar acumular poeira. Você finge que publica alguma coisa legal, as pessoas lêem e tá tudo bem - você subiu no blogroll alheio. Mas não está. Começo a duvidar até da minha própria sombra e a me perguntar mas que diabos eu estou fazendo aqui.
O que diabos eu estou fazendo aqui. Porque, na verdade, a gente começa a se olhar no espelho e sente um estranhamento quando recebe de volta o olhar daquela mulher do lado de lá. A mulher com olhos fundos como não eram, a boca meio amarga como jamais foi e a postura curva cada vez mais acentuada.
A esfiha de verduras suculenta, abominada há um quarto de século. O sono que chega antes da hora, o olhar mudo para todos aqueles livros hoje abandonados e outrora comprados com tanta sofreguidão. A absoluta falta de paciência com quem avança o sinal vermelho, joga latas sobre os sacos de batatas fritas nas gôndolas perto dos caixas, solta pelo mundo crianças sem limites e bloqueia as calçadas sem cerimônia.
Sentar-se olhando para a terapeuta e não ter nada a dizer. "E aí?", diz ela. E aí o quê, minha senhora? E aí, nada. É a vida, só isso. Ela está passando e eu estou aqui, acenando.

Day 10: Favorite classic



Desdenhemos o augúrio. Há uma iniludível providência na queda de um pardal. Se for este o momento, não está para vir; se não está para vir, é este o momento; se não é este o momento, há de vir todavia — estar pronto é tudo. Já que ninguém sabe, por coisa alguma do mundo, qual o momento exato de morrer, por que nos preocuparmos?

Hamlet
Ato Quinto, Cena II
Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos (the best)


Meu príncipe, desde sempre.

quinta-feira, agosto 18, 2011

Mentira

Então. Eu menti - o livro de ontem. Não é a bobagem que está lá, é um livro chamado "A casa das folhas" (e só de falar nele já estou sentindo as palmas das mãos suadas).

Soube desse livro ao encontrar a resenha do escritor Daniel Galera (conhece? Deveria. Mesmo.) sabe-se-lá-onde por volta de 2003 - e que você pode ler abaixo. O livro nunca foi publicado no Brasil - tentei convencer a editora pra quem eu trabalhava na época mas a justificativa foi que, como o projeto gráfico é extremamente elaborado/complicado, o preço final ficaria nas alturas.

Se você se animar (tanto pra comprar o livro lá fora quanto para enfrentar um calhamaço em inglês) eu recomendo baldes. Mas assim: não leia de noite. Não leia sozinha. Deixe tudo o que você precisa (comida, água, lenços de papel, telefone) à mão. E vá ao banheiro antes.



Assombrações e obsessões
Ainda existem livros de suspense originais?

Por Daniel Galera

Agora há pouco eu estava assistindo com a minha mãe um DVD de uma minissérie adaptada de um livro do Stephen King, "Rose Red". A história é sobre uma pesquisadora que une um time de paranormais para tentar descobrir os segredos de uma casa assombrada. Uma das características da casa é que ela se reconstrói: paredes surgem, corredores desaparecem ou se esticam, coisa e tal. E vendo o filme, me lembrei na hora de um livro que li ano passado (ou retrasado?), tão complexo e original que tenho que tomar muito cuidado para falar sobre ele sem passar uma idéia errada do que realmente seja.

O título é "House of Leaves", e o autor é Mark Z. Danielewski. Tu provavelmente nunca ouviu falar de um nem outro. Eu também não tinha, até que o Mojo me comentou por ICQ sobre um livro de terror bizarro, que estava sendo comentado na internet como uma das obras mais inventivas e assustadoras surgidas nos últimos anos. Fazendo uma pesquisa, descobri que de fato havia um grande hype "underground" a respeito de "House of Leaves". Que era um livro capaz de provocar terror profundo no leitor. Que era uma espécie de versão literária do que foi "A Bruxa de Blair" no cinema. Que era a estréia do autor, que levou nada menos que dez anos para concluir a obra. E que havia uma boa dose de discussão sobre vários aspectos do livro, entre eles a veracidade ou não de certos elementos da narrativa, principalmente do documentário "The Five and a Half Minute Hallway", que faz parte da história. Foi o suficiente para encomendar o livro na Amazon (naqueles dias a cotação do dólar ainda permitia essas extravagâncias).

Pra acabar com a curiosidade, falemos logo do que trata o livro. A história é a seguinte: Johnny Truant, um tatuador chinelão, encontra um manuscrito no apartamento de um velho chamado Zampanò, que morreu há pouco tempo. O manuscrito é uma espécie de análise pseudo-acadêmica sobre um documentário cult chamado "The Navidson Record". O documentário foi filmado por um famoso fotojornalista (Navidson), e retrata sua fantástica experiência numa casa para a qual se mudou com a família, e que de cara revela uma característica muito estranha: é sutilmente maior por dentro do que por fora. Fascinado, Truant leva o manuscrito para casa e decide que vai lê-lo e editá-lo para ser publicado. Conforme avança na leitura, contudo, coisas estranhas começam a acontecer com ele. Desmaios, pânico, perda de lucidez. Detalhe: Zampanò, o velho morto que escreveu a análise sobre o documentário, era cego.

Acompanhou até aqui? Bom, "House of Leaves", o livro em si, é o texto final editado por Johhny Truant, o tatuator. A estrutura do livro, portanto, tem três níveis: é a história da gradual loucura de um tatuador vagabundo que edita um manuscrito de autoria de um velho morto que fala sobre um documentário, "The Navidson Record", que por sua vez fala sobre a arrepiante história do fotojornalista Navidson na sua estranha casa. Além desses três níveis, há um quarto: os Editores do livro, que publicaram o manuscrito editado por Johhny Truant, também fazem comentários, em notas de rodapé (mais sobre elas a seguir).

Sigamos: o livro apresenta essa história toda como sendo real. Zampanò é creditado na folha de rosto como autor, e Johnny Traunt como editor da obra. Os documentários "The Five and a Half Minute Hallway" e "The Navidson Record" são apresentados como verdadeiros, e inclusive há dados extensivos sobre eles, além de depoimentos de personalidades reais, como Stanley Kubrick, Steven Spielberg e Camille Paglia. Mais: há uma profusão insana de notas de rodapé no livro. Na verdade, ficamos sabendo da progressiva loucura de Johnny Truant por notas de rodapé em que comenta o que está se passando com ele enquanto edita o manuscrito, e essas notas crescem ao ponto de ocuparem páginas e páginas inteiras. As notas de rodapé também remetem o tempo todo a obras, teses, filmes e entrevistas, de um modo que é impossível saber quais delas remetem a coisas reais, e quais são pura invenção do autor. Dessa maneira, o livro consegue criar uma confusão profunda sobre o que é real e o que é imaginação nas mais de 700 (sim, setecentas) páginas de "House of Leaves".

Saibam disso: depois de ler "House of Leaves", eu fui correndo pra internet fazer uma busca no Google sobre o documentário "The Navidson Record". Eu SABIA que o documentário era inventado, mas o manuscrito de Zampanò descreve e analisa cada plano do filme em tal detalhe, e as ligações com depoimentos e estudos de pessoas que são (ou não?) reais são tão elaboradas e numerosas, que acaba provocando uma OBSESSÃO em TER CERTEZA que o documentário de fato não existe. O autor consegue nos fazer ter vontade de que o filme exista, para poder assisti-lo.

Isso porque a história do fotógrafo dentro da sua casa "assombrada" (a história mostrada pelo documentário, que por sua vez é descrito e analisado minuciosamente no manuscrito de Zampanò, que por sua vez é editado por Johnny Truant, que por sua vez enlouquece ao fazê-lo) é, sem dúvida, a melhor parte do livro. Navidson, com sua esposa Karen e os filhos Chad e Daisy, mudam-se para uma nova casa. Quando começam a fazer medições para realizar reformas e instalar móveis, descobrem coisas esquisitas. As medidas do interior da casa são ligeiramente maiores do que as do exterior. Com o tempo (e sempre filmando tudo), eles descobrem que a casa é um verdadeiro festival mutante de impossibilidades físicas. Um estreito corredor surge de um dia pro outro, ligando dois pontos próximos da casa. No entanto, Navidson leva cinco minutos para percorrê-lo de ponta a ponta. O verdadeiro terror se inicia quando um dos filhos de Navidson é "engolido" pela casa, e uma passagem surge em uma parede, dando acesso a um labirinto de proporções inconcebíveis, totalmente desprovido de luz, um fosso incomensurável de escuridão, do qual surge de tempos em tempos um grunhido monstruoso. Com ajuda de um amigo, Navidson empreende cinco tentativas de exploração da passagem, cada uma delas levando a novos limites e terrores, até uma conclusão de tirar o fôlego.

Fascinante? Basta? Mas não é tudo. Somados a essa estrutura complexa, o autor recheou o livro de informações técnicas, truques e experimentalismos gráficos: símbolos, fórmulas matemáticas, notas de rodapé gigantes e não-confiáveis, partituras musicais, ilustrações, enumerações quilométricas correndo pelas margens, texto invertido e na diagonal, páginas vazias ou quase vazias, páginas saturadas de texto, frases soltas em posições bizarras, e muito mais.

Tudo isso faz de "House of Leaves", pelo menos, um dos livros mais originais que tu vai ver na tua vida. E, no que se refere à aventura de Navidson pela sua casa impossível, é um livro realmente assustador, capaz de causar alguns calafrios. E isso o autor consegue porque destrói habilmente uma das nossas certezas racionais mais estimadas: a noção de espaço e das dimensões, algo em que aprendemos a confiar desde que nascemos. E se de uma hora pra outra essas percepções deixassem de fazer sentido, e se voltassem contra nós de maneira ameaçadora? O autor chega a usar um capítulo inteiro para descrever as propriedades física do eco, apenas para terminar com uma curta cena onde Navidson vê sua filha gritar em uma sala e sua voz ecoa, quando as dimensões reduzidas do recinto tornariam qualquer eco fisicamente impossível. Não sou uma pessoa impressionável, mas ler este livro de madrugada e levantar depois para ir buscar um copo d'água na cozinha foi uma experiência um tanto enervante, devo admitir.

Ao mesmo tempo, "House of Leaves" tem problemas. O principal deles é a narrativa em primeira pessoa de Johhny Truant, o tatuador que enlouquece. O personagem é fraco, e o estilo do texto parece ser o mesmo dos mais ilegíveis blogs confessionais. E, no entanto, a história de Johhny se arrasta por páginas e páginas, MUITAS páginas, do início ao fim do livro, sem acrescentar nada, e pior, prejudicando a fruição da análise de "The Navidson Record", a história de Navidson e seu hipnótico documentário. Há algumas incoerências estruturais ao longo do livro também. E, finalmente, fica uma sensação de que, além de sua coragem e perseverança em escrever um livro como esse, Danielewski passou um pouco dos limites, saturando DEMAIS sua obra de pirotecnia pós-moderna. Os extensos apêndices do livro trazem poesias de Zampanò, correspondência de Johnny Truant com a sua mãe louca, e dezenas de arestas e gorduras dispensáveis (eu li tudo, apesar disso). Há, ainda assim, um tom geral de ironia com os cacoetes pós-modernos, que se por um lado redime o livro de seus excessos, por outro prejudica a tensão que o texto provoca.

Escrevo sobre este livro consciente de que poucos leitores da FRAUDE terão condições de lê-lo. É em inglês, precisa ser importado etc etc. Mas sempre me dirijo, prioritariamente, àqueles leitores que gostam de literatura e de livros a ponto de buscá-los e encomendá-los onde for preciso, caso fiquem intrigados. Porque sabe cumé, ler é foda.