segunda-feira, agosto 31, 2015

Mamãe só quer o seu bem

Primeira consulta da minha mãe na terapia:

- Filha, me bateu um arrependimento tão, mais tão grande em relação a você...

(Ai, o momento "Devia ter apoiado mais você", "Queria ter estado ao seu lado quando você se divorciou", "Fui ausente quando mais você precisou de mim" e variantes tais. Olhos já marejando e...)

- ... porque eu passei anos insistindo pra você fazer concurso pro Banco do Brasil ou pra Caixa Econômica. Se eu soubesse que análise dava dinheiro tinha falado pra você ser analista. R$ 250 a hora pra eu falar que minha preocupação maior é que as gatas estão mijando fora da areia? Só hoje quando estava lá contei quatro pessoas - são mil reais por dia. Mil reais! Agora não dá mais, né? Ou dá?

quarta-feira, janeiro 07, 2015

As pessoas são como cidades



"Quem gosta de viajar talvez já tenha pensado nisso: as pessoas são como cidades. Quando nos envolvemos com elas, quando passamos a conhecê-las intimamente, é o equivalente a caminhar sem mapa por ruas nas quais nunca pisamos, por bairros que não sabíamos existir. O prazer desse passeio inaugural é irreproduzível. Você poderá voltar às mesmas ruas muitas vezes, deve fazê-lo na verdade, mas nenhum outro momento terá a surpresa daqueles instantes iniciais, quando os nossos olhos são puros e o nosso coração é virgem outra vez. Pode-se amar uma cidade a vida inteira, mas é impossível descobri-la duas vezes.

A imagem das pessoas como cidades me ocorreu na semana passada, enquanto conversava com uma amiga que está redescobrindo o mundo. Falávamos de novos relacionamentos, sobre a luz fresca que eles despejam sobre a nossa vida, de como nos despertam a totalidade dos sentidos. Então surgiu a ideia de que as pessoas são como cidades ensolaradas e coloridas – às vezes sombrias e chuvosas - que vão sendo exploradas à medida que as conhecemos. Ou à medida que consintam em ser devassadas.

Se eu olhar para o meu passado – e você para o seu – descobriremos ter passado por diferentes geografias humanas.

Havia uma moça, aos 19 anos, que era uma tempestade em movimento. Enquanto estivemos juntos, eu descobria, a cada passo, ruas sombrias que me assustavam, placas com direções contraditórias, terrenos abandonados e hostis. Na cidade que era ela, quanto mais eu andava mais perdido me sentia. Consegui espantar o medo do que via em troca do prazer de estar ali, mas isso não foi suficiente. Antes que eu tivesse tempo de fazer um mapa, de ensaiar a mais elementar das compreensões, ela se foi. Só fui revê-la anos depois, ainda impenetrável, ainda perturbadora.

Com o passar do tempo, eu, que me julgava um amante da sombra, descobri os prazeres da luz – e o fascínio daquilo que é, ao mesmo tempo, transparente e intraduzível.

Uma mulher de imensa delicadeza entrou na minha vida e a encheu de sol. Mais que uma cidade, ela me pareceu um país inteiro. Andei tanto por suas ruas, me perdi tanto descobrindo, que não notei que havia ficado sozinho. Tive de deixar a cidade que eu amava e aquilo foi como um exílio. Passaram-se anos antes que eu encontrasse outra pessoa tão marcante, outra cidade tão nova e diferente da minha, outro lugar de onde não queria me afastar. Explorei essa nova cidade com a urgência de quem nunca vira nada semelhante, arfando e rindo, tomado pela alegria e o colorido do que ia percebendo. Nunca me senti tão acolhido, nunca fui tão feliz. Mais que uma cidade, havia uma festa ao meu redor. Quando, ao final, as luzes se apagaram, eu havia me tornado outro homem – suavizado pela experiência tranquila de amor, capaz de entender, finalmente, o que me cabe e o que me completa.

Como sabem os amantes das viagens, uma cidade leva a outra. Explorar é explorar-se. Conhecer é conhecer-se. Cada experiência nos prepara para a outra. Cada mudança antecipa a outra que está por vir. Assim, aos trancos, cheguei à cidade onde me encontro. Não a havia antecipado. Quando a vi, me pareceu tão linda que não me cabia, mas fui ficando, como um usurpador ou um clandestino. Tornou-se o meu lugar. Às vezes descubro uma esquina nova, de vez em quando me perco na beira do rio, fico. Gosto do que conheço, sinto que há muito mais a descobrir. Percebo, meio encantado, que esta cidade cresce à frente dos meus passos, ao meu redor, comigo. Há nela algo de inesgotável que reage a mim. É a minha cidade. Cuido dela, que me faz feliz.

Minha amiga me faz notar, porém, que nem todas as pessoas são cidades. Algumas serão vastos continentes gelados. Outras, apenas becos sem saída.

Posto diante dessa imagem poderosa, me pergunto quem sou eu. Um quarteirão deserto e árido? Uma praça com bancos coloridos? Uma cidadezinha preguiçosa plantada num vale? Uma metrópole à beira-mar, varrida pelo vento e pela sirene dos navios? Eu não sei. Não sabemos, na verdade. E nem nos cabe dizer. Na verdade, temos de ser descobertos, nomeados e mapeados. É pelo olhar amoroso do outro que nos revelamos. É no olhar do outro que nos re-conhecemos. Como uma cidade. Um país. Um mundo que o outro queira habitar – e transformar em sua casa."

(Ivan Martins, para a Revista Época)

...

"Às vezes, na vida, você tem que esquecer o que você quer para começar a entender o que você realmente merece."

quinta-feira, setembro 25, 2014

Papai que fez

Eu tinha cinco anos - meu primeiro ano na escola. Jardim de infância. Uma época em que os pátios viviam repletos de mães, avós, babás a levarem e buscarem as crianças da família.

Eu tinha cinco anos e ia comemorar meu aniversário na escola. Eu não guardei nenhuma imagem do que aconteceu - não há nenhuma foto - mas a história me foi contada tantas vezes que eu, qual menina que ainda não sabe ler, criei dentro da minha cabeça o cenário e imaginei os personagens.

Eu tinha cinco anos e ia comemorar meu aniversário na escola pela primeira vez. Ao contrário da minha mãe, que detesta cozinhar, meu pai colecionava dezenas de livros sobre culinária e, sempre que possível, ia às panelas. E foi num desses livros que ele encontrou o bolo: um castelo. Torres de casquinhas de sorvete. Paredes de waffles. Gramados de jujubas verdes. Portões de biscoitos de chocolate. Janelas de bolachas de maisena. Um castelo de contos de fadas.

Eu tinha cinco anos, e para comemorar meu aniversário na escola meu pai, especialmente naquele dia, me acompanhou até a sala de aula. Ele contava que, andando com aquele gigantesco, extraordinário e inesquecível bolo nos braços, foi precedido por uma menina gordinha, saltitante em seu uniforme escolar de xadrez miúdo azul e branco e sapatos vermelhos de verniz, a cantarolar: "Papai que fez meu bo-lo", "Papai que fez meu bo-lo", "Papai que fez meu bo-lo". O único homem entre as dezenas de mães, avós e babás a rirem da situação.

"Morri de vergonha", ele dizia, encabulado, toda vez que terminava de contar esta história. Mas olhando nos olhos dele, eu sabia que era mentira: para ele, era motivo de orgulho ser o pai que fez o bolo mais encantador e mágico que uma menina de cinco anos poderia querer.

sábado, maio 03, 2014

Uma alegria excruciante


"Na semana passada, limpei o quarto da Cal. Era a faxina da primavera, mas significou muito mais - mais do que apenas uma mudança de estação. Foi como um ritual. Arrumei uma enorme caixa de brinquedos e fraldas para doar à Creche St. John. Tentei não me importar muito ao separar os brinquedos praticamente novos que eu doaria para a escola. Como minha mãe, meu sentimentalismo jamais ultrapassa o pragmatismo. Há algo pecaminoso sobre brinquedos e roupas juntando poeira, quando poderiam ser úteis a outras pessoas.

[ ...]

Cal está morrendo; eu agora posso dizer isso e fazer planos para além desse momento. Tenho pensado sobre as escolhas que fizemos antes e discutido o que sinto sobre elas. Pat e eu tivemos uma conversa sobre o que está por vir e usamos a palavra começada por "m" para descrever o que está acontecendo. Pode-se imaginar que Pat e eu falamos sobre a morte de Cal às vezes, mas não. Consigo dizer a estranhos no telefone que Cal tem uma doença terminal, mas conto nos dedos de uma mão quantas vezes eu já disse isso ao pai dela.

[...]

O que é tão diferente do ano passado é a forma como os médicos e enfermeiros recomendam medicamentos para ajudar minha filha ou sugerem procedimentos. Agora, há muito pouco de novo a tentar. Quando os médicos e enfermeiros olham Cal, eles nos perguntam o que queremos fazer; os truques para tornar as coisas melhores parecem ter a mesma eficácia de mudar as cadeiras de lugar no convés do Titanic que afunda. Cal estourou todas as dosagens de medicamentos e a única droga que restou na caixa de conforto é a morfina.

Que estranho é saber que tão pouco tempo resta. A morte, três anos e meio depois do diagnóstico, parecia tão longe quando um dos médico nos deu a sua previsão do tempo que restava a ela!

[...]

Disse coisas que nunca imaginei que seria capaz de dizer: a algumas pessoas, que estou com raiva e me sentindo traída por elas; a outras, que me sinto inundada de eterna gratidão e apreço. [...] Não há filtros entre meus pensamentos e palavras e ações. Não há tempo a perder com brincadeiras e diplomacia.

Há muita coisa a ser feita."

***

Maria Kefalas é a mãe de Calliope, uma menina que nasceu com leucodistrofia metacromática (LDM) - um diagnóstico sem esperança: a maior parte dos pacientes não vive até os cinco anos. Aos 47 anos, ela quase  largou sua cadeira na Universidade St. Joseph, onde leciona sociologia.

Ler o blog que Maria escreve é uma lição diária de como viver, se questionar, se descobrir falível e, ao mesmo tempo, forte o suficiente para apoiar a quem precisa. Menos do que os procedimentos por que passa sua filha, ela escreve sobre como nossas prioridades mudam; como errar e acertar; como se lamentar (ou se congratular) pelas escolhas feitas e encontrar novos caminhos a partir daí.

Conhecer toda a vida dessa mulher (desde o centro de estudos sobre violência juvenil que ela dirige, fundado pela universidade em memória de um estudante brilhante, morto estupidamente, até a perda do pai e o diagnóstico do marido, que luta contra um câncer) é antes de tudo aprender a lidar com as pequenezas que nos aborrecem e a manter as coisas sob perspectiva.

O que Maria ensina é a arte de viver.

http://www.thecalliopejoyfoundation.org/search

sábado, dezembro 07, 2013

Um ano

Dia 5 fez um ano que eu perdi meu pai.
E eu me perdi esses dias, tentando entender como eu ainda não realizei que não, se eu ligar ele não vai atender.
Ele não vai mais contar piadas idiotas quando eu ligar.
Não vai mais contar aquelas histórias intermináveis.

E eu ando com um medo muito louco de esquecer a voz dele, mesmo tendo descoberto uma gravação que meu mp3 vez, por acaso, quando eu estava em Friburgo. No silêncio do quarto (onde as meninas estavam lendo) dá pra ouvir ao fundo meu pai falando com minha mãe.

Esse fiapo de voz, gravado do andar de cima da casa, é o único e último registro que eu tenho da voz do meu pai. Duas frases.

É tudo o que tenho pra não esquecer.

segunda-feira, novembro 18, 2013

...

As coisas vão, aos poucos, se encaminhando. Depois de uma pneumonia e de um trabalho que me fez subir pelas paredes, estou voltando ao meu ritmo. Preparando, arrumando, doando, dando, jogando fora. Procurando apartamento em Londres. Fazendo uma lista de miudezas do tipo "como abrir conta em banco? Como ter linha de celular? Onde comprar roupas de inverno? Que documentos levar?"

Pânico define. Mas a gente empurra o que aparece com a barriga e deixa que ela esfrie às vésperas da viagem, quando não tiver mais jeito.

"Quando não tiver mais jeito" - essa é a minha técnica pra embarcar no avião sem olhar pra trás.

sexta-feira, setembro 13, 2013

É necessário selo

Eu tinha uma caneta tinteiro, dada pelo meu ex-marido, com que eu escrevia cartas. Como meu casamento, perdeu-se. Muita gente pra quem eu escrevia, eu sei, não dava muita importância a isso. Mas sempre foi importante para mim. Escrever é importante em minha vida. Cada resposta que eu dou, cada post que eu faço, cada mensagem que eu mando é importante para mim. É um pedaço do que eu sou, é o que eu quero que o mundo saiba, é o que eu vou deixar pra trás.

Procurando uma imagem para este post, encontrei a vida de Lore Dublon. Ela escreveu um diário, assim como Anne Frank e, como Anne Frank, morreu num campo de concentração. Eu só sei da sua existência porque ela escreveu. Eu só sei do que veio antes de mim porque pessoas se deram ao trabalho de escrever, escrever e escrever.

Eu não sou importante como o foram Anne Frank ou Lori Dublon (cujo diário, aliás, está no acervo do Museu Judaico de São Paulo). Mas eu quero, de alguma maneira, ser importante para as pessoas de quem gosto - ou, pelo menos, pensar que sou. Assim, saí ontem e comprei uma caneta-tinteiro para mim. E hoje à noite, depois que as meninas dormirem, o cachorro se recolher e o apartamento silenciar, vou começar a escrever cartas.

Espero que você responda.