Velhinhos de Ipanema não são como os outros velhinhos. Não, de jeito nenhum. Eles têm apuro em se vestir. Têm sorrisos luminosos, olhos brilhantes, e são extremamente cavalheiros. Dão passagem, abrem portas, dizem "por gentileza, senhorita" mesmo que você esteja com uma barriga de 13 meses de gravidez.
Eu amo os velhinhos de Ipanema - as velhinhas, porém, usam muita sombra azul. Uma pena.
Como as meninas estão com o pai, comecei a trocar o dia pela noite. Tenho um horário livre, então chego à revista ao meio-dia e agora, nove da noite, ainda estou na redação. Todo mundo foi embora. A noite pra mim sempre foi melhor do que o dia. Meu trabalho rende mais; o que eu amo fica mais atraente à noite, e a sensação que eu estou sozinha no mundo é preciosa. Noites têm cheiro diferente. Sou uma criatura lunar, dizem os astrólogos sobre os cancerianos.
Meu golden retriever de 14 anos está cego de um dos olhos, e mal enxerga do outro. Demora a subir as ancas quando se levanta, mas com que orgulho ele empina as orelhas e late quando sente uma sombra diferente, um cheiro que não é o meu. Levei-o ao veterinário; quando chegamos, foi como se um alto-falante anunciasse Elvis is in the building. Ele é grande, musculoso (está pesando 52 quilos!), dourado, lustroso. Ele é majestoso, o meu gato laranja.
Ouço um recado que as meninas deixaram na caixa postal do meu celular. Não reconheço a voz das duas. Em um mês já não reconheço a voz das minhas filhas. Alguém pode por gentileza cutucar o motorneiro e pedir que ele pare o bonde que eu quero descer e voltar à estação? Lá, onde as duas eram meninas que amavam sapatos de bichinhos, vestidos de pregas e muito cor-de-rosa? Pode voltar, por favor? Eu esqueci uma coisa no banco - a infância delas!
Queria muito me apaixonar de novo. Mas ao mesmo tempo penso na canseira que isso provoca. O relacionamento que pressupõe confiar no outro, e aprender a aceitar, a acertar e errar, a lidar com outra vida. E sinto uma onda tão grande de medo que me apavoro e, igual a uma galinha, volto a ciscar em volta do meu engradadinho.
Lealdade, fidelidade, confiança, certeza, amor. De mão beijada não dá.
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2012
Quinta-feira, Janeiro 26, 2012
...
Num dos prédios que desabaram hoje no Centro do Rio ficava o nosso escritório de contabilidade. A revista perdeu toda a sua documentação fiscal. O gerente financeiro conseguiu ligar para um dos celulares da empresa - do filho do casal que é dono do escritório - e, depois disso, ninguém conseguiu mais trabalhar: não dava para esquecer a voz do rapaz dizendo "Não sei onde está minha mãe!"
Quarta-feira, Janeiro 25, 2012
De volta para o futuro

Pra escrever num blog a gente tem que começar a pensar em forma de post. Pensar pra se adequar a uma ferramenta de convívio social. Parece doideira, mas não é. E a maneira como eu me sinto chegando a essa conclusão é mais doida ainda. Porque meu celular de quatro anos atrás só faz e recebe chamadas. Só. Não tem câmera, bluetooth, internet, filmadora, conexão com redes sociais, gravador, comando de voz. Não tem nem capa nem lavadora de pratos via download na página do fabricante. Não roda Android, muito menos C3PO.
Aplicativos são, para mim, tão familiares como o Códice de Dresden - pra você ver que não basta fazer esquema com desenhos coloridos. Não entendo quem quer smartphone e não consegue nem migrar a agenda de um telefone pro outro (né dona Cris?). Sou daquelas que lêem manual de instrução e bula de remédio frente-e-verso, incluindo as letras miúdas do rótulos de xampu.
Eu me sinto ficando pra trás, dando tchauzinho (só de dedinho, porque estamos já nos 45 do segundo tempo, com um pé na prorrogação) pra quem já anda em velocidade de dobra. Funcionou, tá lindo. Não precisa complicar.
Estou entrando na fase em que o cérebro progride e o corpo declina. O pensamento não acompanha a paciência, e vice-versa. Os neurônios vão, mas o resto das células ficam. É um descolamento esquisito, que só quem está nessa dimensão percebe.
Tô voando, eu sei.
Terça-feira, Janeiro 24, 2012
Fim do expediente
Faz tempo. Muito tempo. Mas o trabalho anda muito (graças!), as meninas estão viajando com o pai e o pedreiro botou meu banheiro abaixo, mas por uma boa causa: trocar um encanamento de cem anos. E o melhor: eu posso pagar!
Aê. A vida vai andando, e parece que 2012 vai ser um bom ano. Ninguém me disse, ninguém me contou, mas eu estou com a sensação que. As contas continuam chegando, as meninas continuam crescendo, eu continuo envelhecendo, meus pais, meus cachorros, a casa. Ficando velha sem paciência, com a pachorra de gastar as viagens de metrô analisando e me perguntando se um dia sobrará homem sobre a terra que NÃO se depile. Que deixe os braços com aqueles cabelos negros enroscando deliciosamente em volta da pulseira do relógio.
Talvez eu vá a Nova York em março, ou a Madri em fevereiro. Mas eu queria mesmo era ir pra Friburgo, ver meus pais. Ou viajar com as meninas para o sul - cê me espera, Dita?
Então. É isso. Todo mundo da revista foi embora, e eu estou triste porque não vou mais poder baixar minhas séries pra assistir em casa comendo Pringles sabor vulcão ardido. Já está ficando escuro e eu vou começar o caminho pro meu morro - criticando as roupas do mulherio no metrô, ensinando pela enésima vez pra algum turista pra que lado fica a Praia de Ipanema e pensando em como eu sou uma mulher de sorte e, hoje, feliz.
Aê. A vida vai andando, e parece que 2012 vai ser um bom ano. Ninguém me disse, ninguém me contou, mas eu estou com a sensação que. As contas continuam chegando, as meninas continuam crescendo, eu continuo envelhecendo, meus pais, meus cachorros, a casa. Ficando velha sem paciência, com a pachorra de gastar as viagens de metrô analisando e me perguntando se um dia sobrará homem sobre a terra que NÃO se depile. Que deixe os braços com aqueles cabelos negros enroscando deliciosamente em volta da pulseira do relógio.
Talvez eu vá a Nova York em março, ou a Madri em fevereiro. Mas eu queria mesmo era ir pra Friburgo, ver meus pais. Ou viajar com as meninas para o sul - cê me espera, Dita?
Então. É isso. Todo mundo da revista foi embora, e eu estou triste porque não vou mais poder baixar minhas séries pra assistir em casa comendo Pringles sabor vulcão ardido. Já está ficando escuro e eu vou começar o caminho pro meu morro - criticando as roupas do mulherio no metrô, ensinando pela enésima vez pra algum turista pra que lado fica a Praia de Ipanema e pensando em como eu sou uma mulher de sorte e, hoje, feliz.
Quinta-feira, Dezembro 29, 2011
O exato momento

Catatau ligou exatamente às 12h10m, a voz bem fininha. "Voz de coelhinho atrás da moita", como eu digo a ela, e ela ri fofa, quente, macia, feliz, riso do meu bebê. Catatau sempre foi a-menina-que-adora-brincar-que-é-mulher. Sempre muito feminina, sempre cheirosa, sempre arrumada, sempre cuidada. As brincadeiras jamais incluíram violência, armas, subir em árvores, girar feio doida até cair de pernas abertas no meio do pátio da escola (aka Zé Colméia). A roupa sempre impecável, os cabelos escovados/arrumados, o perfume e o gloss na bolsa, a medição do salto para comprovar que, sim, esse ano eu estou usando sapatos mais altos do que no ano passado.
Catatau ligou exatamente às 12h10n, a voz bem fininha. "Mamãe, fiquei menstruada! E não estou com cólica nem com nada!". Depois dos seios, minha Joaninha tão redonda e cheirando a manhã botou o outro pé na adolescência. E eu, trocando emails com o distribuidor das revistas em São Paulo, com o telefone fixo na outra mão e o caderno de anotações aberto no colo, parei os minutos para sentir uma alegria imensa e uma tristeza incomparável pelo tempo que não volta mais, por aquilo que, se não aproveitei, não mais terei como recuperar. Terminou. E acabou de começar.
Segunda-feira, Dezembro 26, 2011
Dividir e multiplicar

Esta é a última semana do ano. Eu estou sozinha aqui na redação da revista. Eu & minhas listas, eu & minhas resoluções, eu & EU. Pensando como foi o ano, o que eu quero fazer em 2012 - você sabe, antes de o mundo acabar no próximo Natal :)
Então. Zé Colméia passou por um triz, Catatau passou direito. Zé Colméia ainda insiste em andar pelada pela casa (dentro e fora,) Catatau escolheu um sapato de salto (saltinho, vai) vermelho de verniz chiquerésimo pra usar na ceia de Natal na casa do pai. Minhas meninas que já não estão assim tão meninas.
Eu passei o Natal sozinha. Minha ceia foi um panetone com suco de manga. Era pra ser vinho verde, mas eu esqueci. Deixei de lembrar um monte de coisas, mas não me saía da cabeça meu pai segurando o choro ao telefone dizendo que o aparelho deles estava mudo e que ali, no meio da estrada poerenta, ele me abençoava e me desejava o melhor dos natais, o melhor dos revéillons, o melhor.
Meu cachorro mais novo fez 10 anos no dia de Natal. Dez anos. A caçulinha. Meu querido golden já avança para os 14 anos, com saúde e todos os dentes na boca. Ainda late alucinada e dolorosamente quando me vê calçar os sapatos para sair, e se esfrega em mim qual um gigantesco gato laranja quando chego em casa.
Sem água, sem as meninas, sem ceia de Natal, sem árvore, sem presentes, mas cheia de gratidão por terminar o ano com saúde, com meus pais vivos, com filhas saudáveis, com comida na mesa e um teto sobre a cabeça, com meus companheiros fiéis dormindo satisfeitos na cozinha, com meus amigos.
Bom 2012 pra você. Que o fim do próximo ano chegue assim: sem nada a pedir, com tudo por agradecer.
Terça-feira, Novembro 29, 2011
Seminovos
E então eu resolvi levar todos os brinquedos todas as roupas todos os sapatos das meninas para a casa da minha mãe. Tudo o que eu separei durante o ano, o que não serve mais, tudo o que não é mais brincado, vestido ou paramentado.
Só pra ter uma noção da altura da pilha: são 36 pares (pares) de sapatos. Quase 20 caixas de quebra-cabeças. Perto de 50 bonecas. Cerca de 35 bolsas. E por aí vai.
Impressionante como aquilo que era vital há um ano hoje em dia suscita um "Mas você tem certeza de que isso era meu??!?"
Oi, aborrecência. Tô chegando aí.
Só pra ter uma noção da altura da pilha: são 36 pares (pares) de sapatos. Quase 20 caixas de quebra-cabeças. Perto de 50 bonecas. Cerca de 35 bolsas. E por aí vai.
Impressionante como aquilo que era vital há um ano hoje em dia suscita um "Mas você tem certeza de que isso era meu??!?"
Oi, aborrecência. Tô chegando aí.
...
Sinceramente, tem dias que dá vontade de abrir a porta e sair andando, sem parar.
Só isso. Sair andando sem olhar pra trás.
Só isso. Sair andando sem olhar pra trás.
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