sábado, dezembro 07, 2013

Um ano

Dia 5 fez um ano que eu perdi meu pai.
E eu me perdi esses dias, tentando entender como eu ainda não realizei que não, se eu ligar ele não vai atender.
Ele não vai mais contar piadas idiotas quando eu ligar.
Não vai mais contar aquelas histórias intermináveis.

E eu ando com um medo muito louco de esquecer a voz dele, mesmo tendo descoberto uma gravação que meu mp3 vez, por acaso, quando eu estava em Friburgo. No silêncio do quarto (onde as meninas estavam lendo) dá pra ouvir ao fundo meu pai falando com minha mãe.

Esse fiapo de voz, gravado do andar de cima da casa, é o único e último registro que eu tenho da voz do meu pai. Duas frases.

É tudo o que tenho pra não esquecer.

segunda-feira, novembro 18, 2013

...

As coisas vão, aos poucos, se encaminhando. Depois de uma pneumonia e de um trabalho que me fez subir pelas paredes, estou voltando ao meu ritmo. Preparando, arrumando, doando, dando, jogando fora. Procurando apartamento em Londres. Fazendo uma lista de miudezas do tipo "como abrir conta em banco? Como ter linha de celular? Onde comprar roupas de inverno? Que documentos levar?"

Pânico define. Mas a gente empurra o que aparece com a barriga e deixa que ela esfrie às vésperas da viagem, quando não tiver mais jeito.

"Quando não tiver mais jeito" - essa é a minha técnica pra embarcar no avião sem olhar pra trás.

sexta-feira, setembro 13, 2013

É necessário selo

Eu tinha uma caneta tinteiro, dada pelo meu ex-marido, com que eu escrevia cartas. Como meu casamento, perdeu-se. Muita gente pra quem eu escrevia, eu sei, não dava muita importância a isso. Mas sempre foi importante para mim. Escrever é importante em minha vida. Cada resposta que eu dou, cada post que eu faço, cada mensagem que eu mando é importante para mim. É um pedaço do que eu sou, é o que eu quero que o mundo saiba, é o que eu vou deixar pra trás.

Procurando uma imagem para este post, encontrei a vida de Lore Dublon. Ela escreveu um diário, assim como Anne Frank e, como Anne Frank, morreu num campo de concentração. Eu só sei da sua existência porque ela escreveu. Eu só sei do que veio antes de mim porque pessoas se deram ao trabalho de escrever, escrever e escrever.

Eu não sou importante como o foram Anne Frank ou Lori Dublon (cujo diário, aliás, está no acervo do Museu Judaico de São Paulo). Mas eu quero, de alguma maneira, ser importante para as pessoas de quem gosto - ou, pelo menos, pensar que sou. Assim, saí ontem e comprei uma caneta-tinteiro para mim. E hoje à noite, depois que as meninas dormirem, o cachorro se recolher e o apartamento silenciar, vou começar a escrever cartas.

Espero que você responda.

quarta-feira, setembro 11, 2013

Depois

Amigo querido disse uma vez que, quando uma coisa muda na vida da gente, todo o resto da nossa existência se desloca para acompanhar o movimento. Tudo - TUDO - na minha vida está se deslocando. Eu não sei que peça foi que saltou da engrenagem e nem quando, mas tudo mudou. Principalmente lá dentro, onde a vontade de ter cada vez menos me faz olhar com desinteresse pra tudo o que é meu e me perguntar "Pra que isso?"

A vontade de viajar. De não mais pintar os cabelos. De ler e aprender o máximo que a vida me permitir. De tentar fazer coisas ousadas, doidas, daquelas que as pessoas fazem bico e dizem "mas pra que gastar esse dinheiro?" Prometer com a certeza de que vai cumprir. Ter certeza de que o esforço vai valer a pena.

Saber que nada vai ser igual ao que foi, exatamente para eu voltar a ser quem eu era.


quarta-feira, julho 31, 2013

Todo ouvidos

Você tá lá, uma profissional liberal certinha, limpinha, cheirosa e responsável, com seu livro contábil registrando o que vai sair e o que vai entrar de dinheiro no mês que começa amanhã. E - surpresa! - a coluna de créditos dá positivo. Beeeeeeeeem positivo. Você sussurra "Que bom que vai entrar um dinheiro extra!" e na mesma hora se arrepende.

Mas é tarde demais. Ele escutou. Porque duas horas depois pimba! Seu computador tem uma síncope e agora tá respirando por aparelhos.

Suzana, você não aprendeu NADA com a geladeira, com a TV e com o micro-ondas, né?

domingo, julho 21, 2013

Aquilo que desejas

Às vezes a gente quer tanto uma coisa, mas tanto, que quando ela acontece o desapontamento é gigantesco.
Porque, no fundo, a gente não queria que acontecesse.
E só percebe isso quando começa a doer.

Aos 47



Então né? 50 - 3 e contando.

domingo, julho 07, 2013

Túnel do tempo

"Pois eu quero me casar virgem." "Pois eu quero transar muito antes de morar com alguém." Num nanossegundo você vai até o passado distante, quando uma dizia tocovelos e a outra usava macacão com rabinho de elefante, e no nanossegundo seguinte você volta pra mesa, onde o garfo está ali, parado na frente da sua boca. Transar. O garfo parado. Metaforicamente, ele nunca mais vai sair dali.