Quando a gente menos espera, o "já" virou "ainda". Como pode? É assim de repente, sem aviso, sem ninguém avisando senhoras e senhores, a partir deste momento da sua vida, onde se lê "já" leia-se "ainda". Pedimos desculpas pelo incômodo e desejamos a todos uma boa viagem.
"Já senta, já anda, já come sozinha, já sei me vestir sozinha, já sei ler e escrever, já vou ao cinema com meus amigos, já volto sozinha da escola, já moro sozinha". Aí uns anos de recreio e você começa com "ainda consigo ler sem óculos, ainda vejo dessa série, ainda caibo em algumas roupas de solteira, ainda não preciso pintar o cabelo, ainda posso comer gordura, ainda não preciso ir ao médico, ainda uso isso, ainda me lembro."
A gente deixa de ser "já" pra ser "ainda".
A gente ainda.
domingo, maio 12, 2013
terça-feira, maio 07, 2013
Diário de bordo
Duas semanas sem glúten.
A dor nas articulações foi-se.
Ai, que vontade doida de comer pão francês.
A dor nas articulações foi-se.
Ai, que vontade doida de comer pão francês.
domingo, maio 05, 2013
Já deu
"Quero voltar pro útero."
Essa é a expressão que eu mais tenho usado ultimamente. Esqueça as trocentas caixas de mudança na sala. Esqueça a bagunça generalizada. O período de seca na seara do trabalho, o projeto pessoal emperrado, a aguda falta de dinheiro. Esqueça isso tudo.
As duas me contaram. Uma constrangida, a outra às gargalhadas. Vinham Zé Coméia e Catatau da escola. Elas agora voltam sozinhas. Às vezes, andam de mãos dadas - principalmente pra atravessar a rua. Então. As duas de mãos dadas, esperando o sinal fechar, uma dá um beijo na outra e as duas se abraçam.
"Mas que pouca vergonha! O que é isso? Vocês não têm mãe? [bora enfiar a mãe no meio - mãe é sempre culpada, mesmo quando o negócio não tá errado] Cadê a educação, a moral? QUE POUCA VERGONHA É ESSA DE SE ESFREGAR NO MEIO DA RUA, NA PORTA DE UMA IGREJA???!??"
Urrava, a mulher.
- Mãe, você precisava ver. Essa boba aqui ficou toda vermelha e assim que o sinal abriu, ela atravessou. Eu fui pra frente da maluca e mostrei o dedo pra ela, saí correndo e gritei "A GENTE É IRMÃ, SUA MALUCA!"
Quero voltar pro útero. Comofas?
Essa é a expressão que eu mais tenho usado ultimamente. Esqueça as trocentas caixas de mudança na sala. Esqueça a bagunça generalizada. O período de seca na seara do trabalho, o projeto pessoal emperrado, a aguda falta de dinheiro. Esqueça isso tudo.
As duas me contaram. Uma constrangida, a outra às gargalhadas. Vinham Zé Coméia e Catatau da escola. Elas agora voltam sozinhas. Às vezes, andam de mãos dadas - principalmente pra atravessar a rua. Então. As duas de mãos dadas, esperando o sinal fechar, uma dá um beijo na outra e as duas se abraçam.
"Mas que pouca vergonha! O que é isso? Vocês não têm mãe? [bora enfiar a mãe no meio - mãe é sempre culpada, mesmo quando o negócio não tá errado] Cadê a educação, a moral? QUE POUCA VERGONHA É ESSA DE SE ESFREGAR NO MEIO DA RUA, NA PORTA DE UMA IGREJA???!??"
Urrava, a mulher.
- Mãe, você precisava ver. Essa boba aqui ficou toda vermelha e assim que o sinal abriu, ela atravessou. Eu fui pra frente da maluca e mostrei o dedo pra ela, saí correndo e gritei "A GENTE É IRMÃ, SUA MALUCA!"
Quero voltar pro útero. Comofas?
segunda-feira, abril 08, 2013
A cada 5
Os dias - as datas - nunca significaram muito pra mim. Claro, aniversário de filho é especial, mas nunca dia nenhum me fez parar e pensar sobre o caso. Desde o ano passado, é o dia 5.
A cada dia 5 do mês eu penso em como o tempo avança, apesar e a despeito do que possamos fazer para que isso não aconteça. A cada dia 5 eu me sinto mais velha, mais alquebrada. A cada dia 5 eu conto as rugas nas minhas mãos, as dobras nos cantos dos meus olhos, o cansaço nos meus cabelos brancos. Em quanto eu pareço mais encurvada, e cansada, e esquecida.
A cada dia 5 eu olho pra as minhas filhas e vejo duas mulheres em formação, um quadro que se delineia com mais clareza mostrando como uma e outra serão. Eu olho para o cachorro que me restou e conto quantas vezes ela respira. Fico nervosa se o suspiro é mais profundo e o resfolego demora a responder.
A cada dia 5 eu entro em pânico ao constatar nos dedos das mãos que minha mãe não liga há exatos quatro dias. E ponho-me a fazer contas para me lembrar, de novo, quantos anos ela tem: 2013 - 1939 = 74.
A cada dia 5 eu me lembro do meu pai, que foi embora depois de três suspiros no dia 5 de dezembro de 2012.
E eu sinto tanto a falta dele.
Tanto.
A cada dia 5 do mês eu penso em como o tempo avança, apesar e a despeito do que possamos fazer para que isso não aconteça. A cada dia 5 eu me sinto mais velha, mais alquebrada. A cada dia 5 eu conto as rugas nas minhas mãos, as dobras nos cantos dos meus olhos, o cansaço nos meus cabelos brancos. Em quanto eu pareço mais encurvada, e cansada, e esquecida.
A cada dia 5 eu olho pra as minhas filhas e vejo duas mulheres em formação, um quadro que se delineia com mais clareza mostrando como uma e outra serão. Eu olho para o cachorro que me restou e conto quantas vezes ela respira. Fico nervosa se o suspiro é mais profundo e o resfolego demora a responder.
A cada dia 5 eu entro em pânico ao constatar nos dedos das mãos que minha mãe não liga há exatos quatro dias. E ponho-me a fazer contas para me lembrar, de novo, quantos anos ela tem: 2013 - 1939 = 74.
A cada dia 5 eu me lembro do meu pai, que foi embora depois de três suspiros no dia 5 de dezembro de 2012.
E eu sinto tanto a falta dele.
Tanto.
sábado, março 23, 2013
A French kiss
Cartaz do Festival de Cannes 2013.
Joanne Woodward e Paul Newman em "Amor daquele jeito" (A new kind of love, 1963), de Melville Shavelson.
Quando foi que eu...
... tornei-me tão indiferente ao sexo?
... parei de me preocupar com limpeza e arrumação impecáveis?
... comecei a pensar seriamente na morte?
... deixei de gostar tanto de chocolate?
... passei a gostar de omelete de verduras?
... parei de ver televisão?
... me tornei tão, mas tão seletiva com as minhas amizades?
... passei a rir mais de tudo e de mim mesma?
... notei que dizer que "1980 foi há 20 anos" está com 13 anos a menos nessa conta?
... passei a dormir tão pouco?
... comecei a olhar para as minhas mãos com horror?
... me tornei tão tapada quando tenho que lidar com as novas tecnologias?
... me apeguei tanto aos meus livros?
... comecei a notar que meus ídolos estão morrendo?
... comecei a notar que meus ídolos estão com mais de 80 anos?
... comecei a envelhecer?
... parei de me preocupar com limpeza e arrumação impecáveis?
... comecei a pensar seriamente na morte?
... deixei de gostar tanto de chocolate?
... passei a gostar de omelete de verduras?
... parei de ver televisão?
... me tornei tão, mas tão seletiva com as minhas amizades?
... passei a rir mais de tudo e de mim mesma?
... notei que dizer que "1980 foi há 20 anos" está com 13 anos a menos nessa conta?
... passei a dormir tão pouco?
... comecei a olhar para as minhas mãos com horror?
... me tornei tão tapada quando tenho que lidar com as novas tecnologias?
... me apeguei tanto aos meus livros?
... comecei a notar que meus ídolos estão morrendo?
... comecei a notar que meus ídolos estão com mais de 80 anos?
... comecei a envelhecer?
sábado, março 09, 2013
Meda
- Pára de fazer essa cara redondinha.
- [revirando os olhos] Mas eu não estou fazendo nada!
- Tá sim. Você sabe disso.
- [risadinha]
- Você sabe que você é fofolete, né?
- [outra risadinha redondinha] É, eu sei.
- Por que você faz isso?
- Porque assim eu consigo o que eu quero.
- Não funciona mais comigo.
- Mas com os outros, sim.
- Isso é um dom.
- Como você sabe?
- Eu era fofolete, também. Mas não usava meus poderes para o mal.
- Não? [batendo pestana] Jura? Pra que você usava, então?
- Pra nada.
- Mas que besteira! Você não usava pra ganhar mais sorvete, ou bala, ou dormir depois do horário?
- Não.
- [Fazendo bico] Ah, mamãe, *suspiro* como você era bobinha!
Meu.Deus. Criei um monstro. Fofo, macio, cheiroso, de cabelos deliciosamente lisos e perfumados, uma vozinha de coelhinho correndo pelos campos gritando doce e alegremente iupiiiiiii!, mas um monstro. Que arranca qualquer coisa de qualquer um. Basta bater aqueles cílios longos naquelas bochechas rosadinhas... Aquelas bochechas...
o.O
- [revirando os olhos] Mas eu não estou fazendo nada!
- Tá sim. Você sabe disso.
- [risadinha]
- Você sabe que você é fofolete, né?
- [outra risadinha redondinha] É, eu sei.
- Por que você faz isso?
- Porque assim eu consigo o que eu quero.
- Não funciona mais comigo.
- Mas com os outros, sim.
- Isso é um dom.
- Como você sabe?
- Eu era fofolete, também. Mas não usava meus poderes para o mal.
- Não? [batendo pestana] Jura? Pra que você usava, então?
- Pra nada.
- Mas que besteira! Você não usava pra ganhar mais sorvete, ou bala, ou dormir depois do horário?
- Não.
- [Fazendo bico] Ah, mamãe, *suspiro* como você era bobinha!
Meu.Deus. Criei um monstro. Fofo, macio, cheiroso, de cabelos deliciosamente lisos e perfumados, uma vozinha de coelhinho correndo pelos campos gritando doce e alegremente iupiiiiiii!, mas um monstro. Que arranca qualquer coisa de qualquer um. Basta bater aqueles cílios longos naquelas bochechas rosadinhas... Aquelas bochechas...
o.O
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
Mudou-se II, Missão Impossível
Eu desconfio sinceramente que as caixas de mudança transam à noite. Porque quantas eu abra, mais aparecem. E agora começaram a surgir umas pequenas, que eu JURAVA que não tinha arrumado na casa velha.
Não vou acabar isso nunca.
Não vou acabar isso nunca.
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