quarta-feira, setembro 07, 2011

Day 29: A book someone read to you



- Clarita!
Silêncio.
- Clari...ta!
Novamente silêncio.
- Clari...ta! Mas onde estará esta menina? Com certeza aprontando reinação - resmunga a mucama, alta e magra rapariga, mulata clara, toda falante e gesticuladora, antiga empregada na casa, ótima criatura.
- Clarita! Onde é que vancê está, menina? Seu Totó chegou! Venha, menina! Arresponda, menina! O povaréu está tudo na sala! Seu Totó trouxe um mundão de presentes!
A estas palavras, uma voz abafada se faz ouvir:
- Estou aqui, Maria alta, estou no forno... já vou saindo - e, encolhendo-se como um gato, sai de dentro do forno, viva como um macaco, esperta como um sagui, uma menina dos seus 5 anos. E vai saindo e vai falando:
- Vovô trouxe presente?! Vovô trouxe a boneca preta? O que ele trouxe pra mim, Maria alta? Conte o que foi, Maria alta!
- Oh! Menina dos meus pecados, onde é que vancê foi se meter? E todo mundo a lhe percurá... Pois seu Totó chegou e todo mundo estava na sala: os meninos, as meninas, a criançada, D. Sinhara e seu Doutor e D. Sílvia e a Babá e a criadagem, quando D. Sinhara disse: - Quedê Clarita? Ela não está aqui! - E toca nóis tudo a percurá vancê... e a chamar e a gritar, até que eu se alembrei de vir destas bandas, pois que vancê gosta de arreliar com Adolfo...
- Pois foi pra me esconder dele, Maria alta, que eu entrei no forno...
- Mas que é que vancê já fez pra ele, menina?
- Não foi nada, Maria alta, é que eu estava com uma fo...me, sabe? então eu fui... e vi a galinha dele deitada em cima de uns ovos... sabe? e eu fui, então, e comi dois... só dois, Maria alta! e eu ia pegando outro, quando ele correu com um pau na mão, bravo que só vendo, e eu então fui fugindo correndo, ele atrás de mim, então, quando eu virei atrás da casa, eu entrei depressa dentro do forno, e ele nem viu e passou zangado, falando, falando, e eu bem quietinha dentro do forno... Ele nem desconfiou, Maria alta, e eu dava risada lá dentro, bem escondidinha... Que lugar bom que eu achei! Mas você não conte pra ninguém, ouviu, Maria alta? [...]

Falando e papagueando sempre com a mucama Maria alta, chega Clarita à sala de jantar, onde está reunida toda a família em redor do vovô, recém-chegado de São Paulo.
- Vovô, vovô! Meu presente! minha boneca preta! O senhor trouxe, vovô? Quedê ela, vovô?
- Trouxe sim, menina, espere aí... Não agarre assim os pacotes, que pode quebrar! Isto aqui é louça, Clarita, são xícaras para vossa avó... Sinhara, onde é que está a boneca de Clarita?
E enquanto vovó procura, dentre os vários pacotes, a boneca de Clarita, esta vai examinando os brinquedos que as outras crianças ganharam: o Tonico, seu irmãozinho de 3 anos, um cavalinho de pau; a Nenete, sua irmãzinha de 4 anos, uma caixinha de música; Docarmo, sua tia, mais moça que Clarita 6 meses, um fogãozinho com panelas; Marina, outra titia, que já anda na casa dos 7, um aparelhinho de louça; até para a Lourdes, sua tia também, que já entrara nos 11 anos, o vovô trouxe um brinquedo, uma linda mobiliazinha de boneca. E para os titios, rapazinhos de 13, 16, 19 anos, belas gravatas e lenços. Tia Zilota, que já é moça, e D. Silvia, a mamãe de Clarita, também têm seus presentes: leques, luvas e "jabots". [...]

Clarita desde novinha sempre foi inventadeira, como diz a tia Zilota. Para dormir, era só na rede, com duas pobres vítimas a seu lado, empurrando a rede, balançando, balançando, balançando... e cantando, cantando, cantando... Quando pensavam que ela já estava ferradinha no sono, com um suspiro de alívio, com todo o cuidado, tiravam a rede dos ganchos e, sempre balançando e cantando, e cantando e balançando, na pontinha dos pés, sem o menor ruído, levavam-na para o quarto... Mas, assim que, sempre, balançando e cantando, e cantando e balançando, a punham na cama... Uá! uá! uá! - Clarita berrava e urrava, e era preciso voltar de novo, e de novo recomeçar o balanço e o canto, que se prolongavam, geralmente, até as onze horas, meia-noite... Faltava um bom chá de pouco caso, e deixá-la chorar sozinha na cama, para se corrigir, mas, quem diz?! A mamãe bem que tentou de o fazer, mas a vovó pulou logo:
- Minha neta?! Deixá-la chorar?! Nunca! Que falta de coração! Então não temos nós para cuidar dela?

E ainda se fosse noite ficasse só neste prólogo tormentoso, vá lá! Mas não, a noite toda era um pererequê para os pais de Clarita, ou, quando estes não aguentavam mais, para quem quisesse fazer penitência, dormindo com ela. [...]

Clarita da Pá Virada
Violeta Maria (pseudônimo de Maria Clarice Marinho Villac)
Livraria Cristo-Rei Editora, 1939


Minha mãe cresceu lendo as aventuras de Clarita, que começam no interior de São Paulo na primeira década do século XX. A autora escreveu ainda "Clarita no colégio", que minha mãe também leu quando criança. Os dois livros, e mais os três livros da Condessa de Ségur ("Os desastres de Sofia", "As meninas exemplares" e "Férias") eram os livros que minha mãe lia para mim e para minha irmã. É uma das minhas lembranças mais queridas - e o que vai terminar em batalha judicial para ver quem fica com os livros originais de herança :o)

Um comentário:

Cecy disse...

Lembrei das Meninas Exemplares e da Sofia, amava ambas.
Procure Minha Vida de Menina de Helena Morley, são os diários de uma menina que viveu em Minas Gerais por volta de 1890. Maravilhoso.
Tenho certeza de que vais gostar.