sexta-feira, fevereiro 10, 2006

E fez-se a luz

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Ela só disse isso: "Não saia daí!". Era uma ordem, dita sem paciência. De uns tempos para cá, minha mãe só conseguia falar comigo assim, aos arrancos, como se cada palavra gasta comigo fosse um desperdício sem paga. E eu então me sentei no banco da estação e ali fiquei. Não sei porque, mas percebi que ela não ia voltar. Minha mãe não ia voltar para me buscar. De manhã, quando saímos de casa, peguei minha caixa de cartas ao acaso, mesmo com ela gritando "Deixe isso aí!". Mas me agarrei à minha caixinha e levei-a comigo. Ainda bem. Mas não quero pensar muito nisso, porque senão vou me lembrar que deixei Anabel deitada em minha cama e que não haverá ninguém para cobri-la à noite, quando a porcelana do seu rosto ficar gelada. Ela terá que se virar sem mim.
Vou me distraindo com os sons à minha volta. Os ônibus chegam e se vão, as pessoas passam apressadas. E no meio do barulho que todo mundo deixa para trás quando a pressa é a maior urgência, simplesmente fez-se silêncio quando comecei a me lembrar do momento em que minha mãe deixou de me amar. Aprender a andar, com cuidado para não cair da escada, não tropeçar nos móveis. Banhar-me, trocar de roupa, usar o banheiro. A contínua falta de paciência com minhas perguntas ("Onde está o meu casaco?", "Pra que lado fica a casa da Susi?") foram descascando e depois corroendo o sentimento de proteção que toda mãe deveria ter pelos filhos.
Meu pai foi-se, da mesma maneira com que entrou na minha vida: uma voz mansa, calma, repleta de dor e de complacência. Ele não podia. Simplesmente não podia. O que, nem ele mesmo sabia.
Um dia, o silêncio era tão grande em casa que a única coisa que se podia ouvir eram os soluços de angústia de minha mãe. Eu sei que ela estava, sentada na mesa da cozinha, a me encarar, amaldiçoando o dia em que nasci. E aquilo, estranhamente, não doeu. Apenas me senti velha e muito pequena, desprotegida, procurando naquela escuridão algo quente e acolhedor que me desse esperança.
A noite veio e foi embora e, pela manhã, minha mãe mandou que eu me vestisse e a acompanhasse. Andamos muito tempo, sob um sol sufocante, eu correndo como podia atrás dela, agarrada à minha caixinha de cartas. Cartas de minha avó, de um irmão que nunca vi, de uma professora que fez por mim o que pôde. "Não saia daí!", disse minha mãe. E eu fiquei ali, sentada, como se nada melhor tivesse a fazer.
As horas se passaram, o movimento diminuiu. Alguém tocou no meu braço. Levantei-me e fui, deixando para trás minha caixa de cartas e minha bengala. Pois a escuridão, que antes batia às portas dos meus olhos, havia entrado. E eu nada havia feito para impedir.

3 comentários:

Marco disse...

Você escreveu. Muito bonito

Cris disse...

suzana: o texto é lindo. profundo. e triste.

p.s.: isso é só pra dizer que eu adorei e que tu escreve que é uma coisa!

Rosane Frühauf disse...

Um dia eu fiquei assim, esperando, e não foi ficção. Foi numa tarde que eu comecei a esperar pelo meu pai. Ele mesmo me largou em um abrigo para crianças que ninguém quer. Tinha 2 anos e agora estou com 34. Ela nunca veio. Quer dizer, veio, mas só o corpo. Na mente e nos interesses dele eu nunca tive lugar. Nem dói.