domingo, fevereiro 12, 2006

A casa dos meus sonhos

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Eu costumo sonhar com a minha avó materna, que teve uma presença mais marcante na minha infância do que a minha avó paterna.
Minha avó tinha uma casa em Teresópolis. E o engraçado é que, mesmo pequena, eu me lembro de cada detalhe daquela casa. Ela ainda existe, mas foi completamente desfigurada - chegaram a fazer um segundo andar nela.
Me lembro dos quartos, dos banheiros, do jardim de pedras, que era moda naquela época. Do imenso pinheiro, cortado alguns meses antes de a casa ser vendida, e que enfeitava-se de gotas de cristal quando chovia. Do canteiro de copos de leite e do de hortênsias. Me lembro das janelas de madeira, onde eu me sentava até o dia amanhecer quando tinha minhas crises de asma.
O jardim de inverno, com seu piso de mármore, vetado às crianças e somente aberto para as visitas. A cozinha enorme, a geladeira antiga, os bibelôs de louça. O corredor até o fundo, onde uma porta se abria para um quintal imenso, com duas pereiras que nunca davam fruto - com exceção de uma vez, quando enterramos nossa coelha em baixo de uma, e ela deu tanta pera que Teresópolis inteira comeu dela.
As camas tinham mosquiteiros, pregados com tachinhas. No quarto de minha avó ficava sua coleção de Seleções do Reader's Digest, algumas de duas décadas passadas. Na cômoda, um candelabro de arame retorcido que minha mãe havia feito nos tempos de colégio. Me lembro de minha mãe tirando do guarda-roupas desse quarto os cobertores, lencóis e travesseiros e botando-os nas janelas para pegar sol e perder o cheiro de guardado.
Nas férias, minha mãe e minha avó faziam pé-de-moleque. Me lembro que uma vez elas esqueceram de untar a pedra mármore de manteiga e o doce grudou de tal maneira que foi preciso um martelo e uma talhadeira para tirá-lo de lá. Me lembro que esperávamos o carro do meu pai (um Karmann Ghia azul-piscina) chegar sexta à noite - ele não tinha férias como minha mãe, que era professora. A TV preto-e-branco, o silêncio que a falta de um telefone (graças!) fazia. A piscina de plástico montada no quintal, o medo dos sapos enormes que viviam entre as hortênsias e entravam em casa à noite.
Sonhava mais com minha avó, agora sonho menos. Mas ela sempre tem o mesmo comportamento: ri como se fosse de uma piada que só ela entendesse. Ri (e ela diz isso) porque enganou todo mundo, que acha que ela morreu. Todos são uns bobos, ela sempre diz.
Era uma casa maravilhosa, onde passei a parte feliz da minha infância. Se tivesse dinheiro e se as plantas daquela casa existissem na Prefeitura de Teresópolis, eu a reconstruiria. Não seria a mesma coisa, eu sei. Não dá para resgatar a infância da gente. Há mais de 20 anos que minha avó não está mais aqui, aquela menina não existe mais. Mas seria uma maneira de criar uma impressão semelhante nas minhas filhas, perpetuando o tanto que minha avó me deu.

Um comentário:

Cris disse...

suzana, eu também tenho loucura por casas antigas, dessas recheadas de lembranças. infelizmente não tenho memórias assim tão vívidas nem tão acolhedoras da casa da minha avó. que privilégio isso... bj