quarta-feira, julho 01, 2009

Pelo caminho

A melhor coisa de ser amigo virtual é que as aparências não contam. Não importa se o outro é alto, baixo, gordo, magro, não tem braços ou prima pela ausência de orelhas. Você aprende a gostar do outro pelo que ele é, na essência. Mesmo que você tente mentir ou esconder algo, sempre acaba se revelando. Não tem jeito.

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Puig é agridoce. Aquela literatura de bicha que não tem pudor nenhum de dizer tudo na sua cara. Se incomodou, o problema é seu: resolva-se, queridinho, e não canse a minha beleza. Se você tem problemas para dormir, não o leia à noite - porque vai ser de uma enfiada só, e não vai descansar enquanto não ler os três.

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Ontem, aqui em casa, aconteceu uma revolta aberta, motim que eu sufoquei com um banho de castigo. As meninas tiraram tudo - TUDO - do lugar e espalharam pelo chão: 30 Pollys com suas roupinhas (herança da irmã mais velha devidamente empurrada para mim pela ex-mulher do ex-marido - tanto ex dá nisso), 7 Barbies, bichos de pelúcia, quebra-cabeças, panelinhas, livros, revistinhas, álbuns de figurinhas etc etc e mais etc.
Comecei a pedir que catassem tudo às 11h. Às três da tarde, já estava mandando; às seis, cada uma tinha levado uma palmada (mas o caldo já estava derramado, depois que Catatau enroscou um boá de plumas rosa-choque no ventilador). Às oito, mandei as duas saírem do quarto, arrumei tudo e decretei toque de recolher: ninguém passearia no domingo, ou veria televisão (que acabei liberando hoje, depois que recolheram os brinquedos que brincaram na varanda) nem comeria ovo de Páscoa.
Sabe, fico horrorizada quando vejo uma mãe socar uma criança na rua, quando ela não faz nada demais. Mas também eu não me reconheço quando, depois de uma semana arrasadora, um calor infernal, quero mais é tomar banho, sair e tomar um chope num Garota-de-Alguma-Coisa e a única coisa que vejo é uma casa intransitável.
A sanidade mental de uma mãe tem que ser elástica. Ela tem que se lembrar de tudo, detalhes, horários, datas, cores, nomes de coleguinhas. Tem que lembrar de expedir convites na data certa, achar o presente certo, o personagem certo. Comprar o tamanho certo, da cor exata e da princesa escolhida - jamais dê algo da Cinderela a uma menina que A-MA a Branca de Neve. É pecado mortal.
Estou muito cansada. Amanhã começa tudo de novo, e eu não fiz nada do meu fim de semana. E isso me deixa muito triste e culpada, porque às vezes eu rezo para chegar segunda-feira e me despedir das meninas na hora da entrada na escola.
É errado isso? Ou será que as mães se sentem assim? Ou será que sou só eu?

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E-mail é um pouco carta, porque você espera chegar, sente prazer em abrir o envelopinho, se alegra quando a missiva é longa, fica decepcionada quando é curta.

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O que eu gostaria de postar - se o trecho fosse meu: "Disseram-me que as estrelas aparecem com trinta anos de atraso, por isso olhar pro céu é como olhar o passado... Mas nem todas. Em algumas, a luz partiu há milhares de anos. Outras, como o Sol, há 8 minutos. Se ele explodisse – cogitou Sylvia Plath - a gente teria tempo apenas para fumar um cigarro... ou comer um Chicabon!..."

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Porque amigo meu é promessa de amar a vida toda, na alegria e na tristeza, na saúde e na pobreza, na saúde e na doença.


Eu gosto de me lembrar quem eu já fui e de onde vim. Pra ver se ainda sou - e estou.

3 comentários:

Mariê disse...

Suzana, sobre a culpa em relação às crianças: sempre vai existir. Faça você o que fizer, seja você a melhor mãe que já existiu, você sempre vai se sentir culpada de alguma forma. Digo isso porque passo pela mesma situação (às vezes dá vontade sair correndo e não parar nunca mais, a la Forrest Gunp).
Não saberia dizer a receita para se livrar dela, infelizmente, essa culpa parace estar nos genes! A gente vai lidando com ela (a culpa) no dia a dia. E quando reconhecemos o quanto humana somos, ela diminui.

Beijo e força.

Ana Cecília disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Cecília disse...

Tanto a comentar... Vamolá. Vc realmente não é a única a sentir culpa. Entrei para o Twitter ontem, e uma das 1as. coisas que leio de uma amiga é "Que bom! Férias do meu filhote hj! Um mês ao lado do meu amor!" e soltei uma gargalhada, pq pela manhã havia sentido grande felicidade, por descobrir que a minha só entraria de férias final do mês!!! Ng me convence que uma mãe fique absurdamente feliz em ter os filhos em casa full time por 30 dias!
Dei muita palmada, mas comecei a ter alucinações com a Super Nanny toda vez que me preparava para bater. Desisti.

Que devo ler do Puig? Para começar a gostar?

Prefiro cartas a emails. Mas chego a ser cínica ao dizer isso, pq não recebo uma há anos. Sou gde adepta da dobradinha vinho + escrita (DETESTO telefone, então pra minha sorte não ligo bêbada para ng), e nessas horas as missivas são intermináveis. Se gostar de veborragia-barata-que-pretende-ser-séria basta avisar que te incluo na lista. ;)


Tenho amigos virtuais há anos, e coleciono ex que conheci na net. Mas acho que antigamente havia mais inocência, tô exagerando? Hj fico achando que acabaria esquartejada numa mala velha em motel abandonado. Acho que amizade virtual é bacana pq pode-se selecionar a dedo o amigo por afinidades. Diferentemente dos semi-conhecidos que insistem em reclamar atenção e te ligam sempre no horário de entrada da escola do filho, com aquela questão existencial que só vc pode ajudar a resolver. Argh.

Fique bem...

Beijo.