terça-feira, fevereiro 13, 2007

I'm sorry but... Who are you?



"Mas você se corresponde com gente famosa?" Sim, às vezes. Faz parte do meu trabalho. Algumas famosas, outras nem tanto, algumas muuuuito famosas, outras despontando para o anonimato.

Faz um tempinho, entrei em alguns fóruns de um cantor americano muito famoso. Eu adoro a voz dele, adoro as músicas que ele fez. São únicas. E fico absolutamente passada quando me deparo com temas como "O que você faria com Fulano no Dia dos Namorados". Como assim? Pois você ama o homem? Mas você nem CONHECE o homem! E aí tem declarações de amor rasgadérrimas, constrangedoras, às vezes resvalando no mau gosto (e o pobre já deu mostras que O-DEI-A isso).

Quem sou eu pra criticar? Bom, quando eu comecei a trabalhar em jornal, fui um dia entrevistar Paulo Autran, que ia fazer apresentação única de seu shakespeareano "A tempestade" aqui no Rio, no então Metropolitan. Fiz a entrevista e, obviamente, fiquei para apresentação. Depois, fui à festa, cheia de starlets & imprensa & famosos. E aí conheci um ator que, confesso, sempre foi lindo de babar. Conversa daqui, conversa dali, ele me chamou pra sair. Marcamos e, no dia, eu vi que fama e beleza, senhoras e senhores, mata qualquer deslumbramento.

Ah, sim, eu estava deslumbradérrima. Mas logo depois de ele parar em lugar proibido, humilhar o flanelinha, furar a gigantesca fila do restaurante, passar a noite se achando a bala que matou Kennedy (de tédio) e criar encrenca por causa de R$ 0,50 na conta (que ele tentou empurrar como cortesia na base do "Fulano está aí?"), eu vi que não, não é bem assim.

Porque você diz: "Ai, eu amo o Beltrano!". E faz declarações de amor como se o homem fosse aquela pessoa que esteve com você a vida inteira - o que não é, absolutamente, verdade. Conheço atrizes mentirosas compulsivas; grandes cantores que surravam sistematicamente suas mulheres; escritores que humilham publicamente seus filhos. E, mesmo assim, todos são alvo de amor incondicional. Gente histérica chorando e se desmanchando quando o dito aparece "casualmente" para o grupo de fãs à espera dele na porta do teatro.

Sim, eu baixei todos os vídeos e músicas dele e da banda com que ele cantava antes da carreira solo. Sim, eu adoraria encontrar com ele. Ele me conhece? Não; então como pode me amar? E eu, como posso amar alguém que não sei se é encantador com idosos ou rói as unhas, deixa sua roupa suja pela casa ou limpa as migalhas de pão da mesa? É mesquinho, come do prato dos outros sem pedir e abomina crianças - ou faz parte dos 0,0000726% dos homens inesquecíveis ainda existentes sobre a face da Terra?

Aprecio as músicas, admiro o trabalho, adoro a voz. Mas amar o homem?

Update: Mas que gente curiosa!

7 comentários:

Cris disse...

na mosca. e maravilhoso, as usual. bjs

Cris disse...

...e um dia você vai me contar quem é essa figura. ah, vai sim...

Marilia disse...

po, sacanagem! eu tb fiquei curiosa!
e os 0,0000726% de homens inesquecíveis? vc foi generosa! é muito menos, bobinha!

Lys disse...

Eu quero dois nomes: o do ator babaca e o do cantor cujo trabalho você curte. ;)

Canelinhaaa disse...

Ah, eu ficaria bastante contente só de saber quem é o cantor que você gosta :) É claro, que se eu soubesse quem era o ator ficaria mais contente ainda :P ahhahahaha

Beijocas :)

Solange disse...

Confesso que curto fantasiar essas figuras. E graças que, por mais de uma vez, já tive a chance de ver com meus próprios olhinhos (que a terra há de comer) que a realidade é *outra* coisa :D
(Sei que você é muuuuuito elegante pra declinar o nome dos mancebos, mas que fiquei curiosa, fiquei.)
Beijocas

Wagner disse...

Acho praticamente impossível a verdadeira imagem de alguém "público" corresponder ao que, nós, meros mortais, imaginamos (ou forjamos) quando admiramos o trabalho desta pessoa — sobretudo quando não a conhecemos de perto. Por isso, não acredito que se possa “amar” alguém apenas pela imagem (quase sempre ilusória) que temos dele, mas não duvido que exista gente que pense o contrário.
Ator, cantor, escritor, etc e tal podem, sim, ser estimados pelo trabalho que realizam, mas isso não significa necessariamente que sejam "seres humanos exemplares". E é esta confusão que, muitas vezes, decepciona certas pessoas (inclusive fãs). O que não significa também que apenas por não serem "exemplos de humanidade" o trabalho bem realizado destas pessoas perca seu valor.
Acredito que a questão da “imagem” para os que vivem dela tem de ser encarada como uma espécie de negócio: há sempre uma série de cuidados para que ela seja agradável, boa e positiva, e é inegável que isso mascara muito da verdade de quem está atrás dessa “construção”. O choque parece maior quando a máscara cai no caso de alguém “famoso” porque o poder dessa imagem fictícia geralmente também é grande. Por outro lado, nós, mortais, também forjamos máscaras para nós mesmos (ainda que apenas visando alguma proteção). Podem até me apedrejar, mas acredito que TODOS exibem não a sua verdadeira imagem, mas a que gostariam que os outros vissem.