segunda-feira, setembro 29, 2008

O bandido da Lamborghini Vermelha

[...] A filha que já morava [nos Estados Unidos] trouxe Dona Dolores dos cafundós de El Salvador - onde ela sequer ouvira falar da existência de cinema, quanto mais de televisão - para Chappacqua, uma cidadezinha próxima a Nova York. Dona Dolores não sabia ler nem falar inglês. Ainda assim, a filha lhe arranjou uns trabalhos de faxineira (US$ 10 a hora, se lhe interessa saber) e a levava e apanhava na casa dos patrões, todos morando em meio a bosques, isolados dos longínquos vizinhos. Foi na propriedade de um deles onde tudo se passou. Tendo que ir a Manhattan de uma hora para outra e ignorando que sua faxineira não sabia ler, Mrs. Bryant mostrou a Dona Dolores uma alarmante notícia no jornal local. Um velhaco bem apessoado, alegando urgência em usar o telefone, já assaltara três casas na região, depois de dominar e matar suas vítimas.

- No abrir puerta - Mrs. Bryant explicou em seu espanhol de high school - y no también telephone.

Menos de meia hora após a partida de Mrs. Bryant, Dona Dolores ouviu um barulho de automóvel no pátio da frente. Chegando à janela, viu um homem grisalho, com ar distinto, saltando de um carro esporte vermelho e encaminhando-se para a porta. Soou a campanhia. De dentro, ela avisou: No speak English! O distinto homem grisalho chegou à janela. Ela reparou que ele era não apenas extremamente bonito como tinha olhos excepcionalmente azuis e um sorriso cativante. Dirigindo-se a ela num espanhol razoável, explicou que estava com problemas no carro e necessitava telefonar para que o rebocassem. Dona Dolores lembrou-se da recomendação, mas aquele homem encantador e bem educado era, evidentemente, un gran señor. Em tênue concessão à prudência, disse-lhe que desse a volta e usasse o telefone da cozinha.

Enquanto ele dava a volta na casa, Dona Dolores correu até lá, destrancou a porta que dava para fora e, em seguida, trancou a porta de vidro que ligava a cozinha ao resto da casa - numa segunda concessão à prudência, mas que temeu parecer grosseira - e ficou observando enquanto ele discava e falava. Foi então que seus olhos bateram no jornal, aberto em cima do sofá. E ela viu a foto. Era o homem que estava na cozinha! O mesmo belo rosto viril, os mesmos cabelos grisalhos, o mesmo sorriso cativante, os mesmos olhos claros. Aquele gran señor era justamente, segundo ela entendera, o perigoso assassino de donas-de-casa e faxineiras de Chappacqua.

Gritar por socorro seria inútil, pois os vizinhos não ouviriam. Chamar a polícia, mesmo que o telefone estivesse desocupado, tarde demais. Apavorada, pensou em fugir para a estrada. Mas lembrou-se que o roubo seria responsabilidade sua, talvez até a vissem como cúmplice. Iria desgraçar a vida de sua filha, seu genro, as três netas. Resolveu: quem já atravessou tanto tiroteio no país natal é capaz de enfrentar um bandido ianque.

Após uma breve prece à Virgen del Pilar, entrou na cozinha fazendo ar distraído. Pegando um facão dentro da gaveta, gritou Ayúdame, Diós! e avançou para o homem. Surpreendido e apavorado com aquele ataque súbito, ele deixou cair o telefone e tentou balbuciar alguma coisa enquanto, com o facão espetando sua barriga, viu-se empurrado pela brava salvadorenha até um armário de pouco mais de um metro de altura, para dentro do qual ela o jogou e, em seguida, o trancou. Enquanto ele gritava em seu interior, Dona Dolores empilhou outros móveis, panelas e objetos diversos contra a porta. Só quando teve certeza de que não escaparia é que ligou para sua filha. Esta chamou a polícia. A polícia, Mrs. Bryant, a filha de Dona Dolores e o mecânico da Lamborghini vermelha de Paul Newman chegaram todos ao mesmo tempo. Ainda lívido, o ator foi retirado do armário enquanto Dona Dolores mostrava sua foto - anunciando os horários de "Mr. and Mrs. Bridge" no cinema local. Por mais que Mrs. Bryant insistisse, ele se recusou a autografá-la.

Edney Silvestre
Caderno ELA - O Globo, 1990.


Um comentário:

Fernanda disse...

Que história fantástica!! E que perda lastimável... Ao menos ele viveu muito e bem! Lindo mesmo quando velho...