quinta-feira, janeiro 03, 2013

Adeus



Sair dessa casa está sendo difícil. Eu detestei o lugar assim que pus os olhos nele. A casa é devassada, a rua, horrível, as calçadas sempre imundas pela insistência dos vizinhos em colocar para fora o lixo nos dias em que não tem coleta. Longe de tudo, longe dos amigos, longe. Mas o aluguel cabia no bolso do divórcio que eu, há um ano, estava planejando.

Aqui minhas filhas me viram apanhar, ser esganada, levar cusparadas no rosto, ser humilhada. Aqui eu passei muita fome, costurei os sapatos das meninas com fio dental para que elas tivessem o que calçar na escola, inventei mentiras para explicar a luz cortada por falta de pagamento, separei rigorosamente seis pedacinhos  de carne em cada prato para que a bandeja comprada com os últimos reais rendesse o máximo de refeições e alegremente anunciei que jantaríamos salsichas com ovos, como no café da manhã dos filmes, ou os dois últimos pacotes de biscoitos, porque era o que eu tinha em casa para oferecer. Daqui eu saí de manhã com a missão inadiável de conseguir dinheiro – para ter como voltar para casa à noite, para comprar comida, para pagar o ônibus no dia seguinte. Para cá eu voltei depois de andar desde o Leblon, onde eu deveria receber o pagamento, tantas vezes adiado, por um trabalho de seis meses – pagamento que eu não recebi, nem naquela tarde, nem nunca.

Foi aqui que chorei a perda das poucas jóias que ganhei – um anel de 15 anos em ouro, brilhantes e pérolas, uma pulseira em ouro e pedras brasileiras de 18 anos, um broche em ouro e pérolas em forma de orquídea que fora da minha avó – por falta de pagamento no penhor da Caixa Econômica. Foi nesta casa que descobri que estava com câncer, que me curei de uma tuberculose por desnutrição, que perdi meus dois cachorros adorados, que varei noites trabalhando até os olhos arderem. Aqui eu recebi a notícia que meu pai estava morto.

Foram quase 12 anos. Aqui Joana aprendeu a andar e a falar mamãe, Maria leu suas primeiras linhas, descobriu como contar nos dedos. Aqui eu sonhei com uma vida melhor para mim e para as meninas, vi micos comendo os maracujás que eu tão diligentemente plantei – e as mangas, as bananas, o cacau, os mamões. Na varanda dormi sob as estrelas nas noites mais quentes de verão. No quarto descobri livros incríveis, conversei por email e telefone com homens e mulheres que tanto me ajudaram. Na cozinha fiz muitos bolos de aniversário, brigadeiros para as festinhas na escola, onde comecei a ensinar as meninas a cozinhar. Nessa casa eu amei e derrubei meu castelo, sepultei esperanças e construí poucas coisas, mas que durarão.

Eu choro enquanto fecho caixas, separo coisas para dar, faço listas, jogo meu passado fora. A gente se acostuma com a dor, com a desesperança de que nada vai mudar, que tudo será igual, sempre. Que o que foi sonhado na faculdade jamais se realizará porque é tarde demais – em quatro anos você estará com 50, querida; quem vai querer uma profissional de 50 anos? E quando as coisas mudam, quando a gente acorda de manhã sentindo que dessa vez vai ser diferente, alguma coisa nos faz voltar a cabeça e lamentar pelo que ficou para trás: uma casa velha, caindo aos pedaços e cheia de goteiras, cada vez mais trabalhosa de manter limpa, longe de tudo, com vizinhos mal-educados e gatos de rua invadindo seu quintal. A casa onde você viveu 12 anos de solidão e muito medo de não conseguir alimentar, educar, vestir, cuidar de duas crianças; medo de não viver para vê-las crescer.

Bom, acabou.
Eu consegui.

6 comentários:

K disse...

Um feliz ano novo para você.
Que 2013 lhe seja leve, muito leve!

Deh disse...

Que tudo seja mais leve, seja mais feliz, que seja recomeço, e dos bons.
Tô sempre por aqui. Grita se precisar, se quiser.
Beijos em você e nas meninas.

<3

Juju M. disse...

Final de ano, final de ciclo, tem cheiro de fumaça de rescaldo. É resfriar aquilo que chamuscou. Contalibilizar o que se consumiu. Abraçar o que se salvou. Abandonar a limpeza das fuligens das paredes. Acomodar todos os pertences num sorriso, e finalmente seguir para morada de um novo ano.

Feliz nova morada! Adoro o blog! Muita força.

KÁTIA CORRÊA DE CARLI disse...

Olá Suzana, eu sou irmã da Mara (do grupo séries), foi ela quem me indicou seu blog! Amei ler suas coisas... despretenciosamente fabulosas. Valeu muito para eu ver que tem gente seguindo em frente "apesar" (são tantos apesar de...)
Seguir em frente. Acho que só isso importa, bjs

Helga disse...

Suzana, me emocionei às lágrimas com essa sua despedida.
Talvez por ter passado por situações muito semelhantes.
Que você tenha um 2.013 incrível, cheio de realizações, de felicidade, de luz.
Adoro seu blog.
Beijão

Renato Ziggy disse...

Somos todos vitoriosos quando conseguimos dar um passo adiante... e que venham a luz, a força e a vitória!!! Amei teu texto! Bjos e um feliz 2013!!!