segunda-feira, agosto 31, 2009

Lullaby



No início, o novo proprietário finge que jamais olhou para o chão da sala. Não chegou a olhar de verdade. Não da primeira vez que eles examinaram a casa. [...] Então, na primeira manhã, descem, e lá estão as letras rabiscadas no assoalho de carvalho branco:

SAIAM

Alguns dos novos proprietários fingem que aquilo foi uma brincadeira feita por um amigo.[...] Duas noites depois, um bebê começa a chorar dentro da parede norte do quarto principal.
Geralmente é então que eles ligam.
Mas nossa heroína, Helen Hoover Boyle, não quer saber desse novo proprietário ao telefone esta manhã.

Nem desses gemidos e dessa gagueira.

Ela quer mais uma xícara de café e uma palavra de oito letras para "ave". Quer ouvir o que está acontecendo no aparelho de capta a frequência policial do rádio. [...] Assassinatos, suicídios, assassinos compulsivos, overdoses acidentais, não dá para esperar a coisa sair na primeira página do jornal. [...]

É claro, a mensagem apareceu no chão da sala. O estranho é que o bebê só costuma começar a chorar na terceira noite. [...] Se os proprietários ainda resistirem, dali a uma semana estarão ligando para falar a respeito de um rosto que surge refletido na água quando se enche a banheira. Um rosto inchado, cheio de rugas, com dois buracos escuros no lugar dos olhos.

[...] O número 325 de Crestwood Terrace não é uma casa ruim: estilo Tudor, com telhado novo, quatro quartos, três banheiros, um lavabo e uma piscina. Nossa heroína nem precisa consultar a ficha. Vendeu a casa seis vezes nos últimos dois anos.

Uma outra casa em Eton Court, no estilo da Nova Inglaterra: seis quartos, quatro banheiros, vestíbulo revestido em pinho e sangue escorrendo pelas paredes da cozinha. Helen vendeu essa casa oito vezes nos últimos quatro anos. [...]

Dentro de uma hora, ela precisa estar mostrando uma casa em estilo Queen Anne, com cinco quartos, apartamento para a sogra, duas lareiras a gás e o rosto de uma suicida morta por barbitúricos que aparece tarde da noite no espelho da penteadeira. Depois disso, há o rancho com piso em vários níveis; aquecimento, alcova rebaixada e a recorrente aparição dos tiros fantasmagóricos de um homicídio ocorrido há mais de uma década. [...]

- Preciso que você dê uma passada no número... 4673 de Willmont Place. Estilo colonial holandês, quatro quartos, dois banheiros e um homicídio com agravantes. [...] É só fazer o de sempre - diz Helen, escrevendo o endereço num cartão e estendendo-o para [Mona, sua secretária]. - Não tente decifrar nada. Nada de queimar salvas. Não exorcise porra nenhuma.

Mona pega o cartão:
- É só conferir as vibrações?

Helen corta o ar com a mão:
- Não quero ninguém adentrando túneis em direção a uma luz brilhante. Quero que esses monstrinhos fiquem aqui mesmo, neste plano astral, obrigada. [...] Eles têm a eternidade inteira para ficarem mortos. Podem muito bem continuar naquela casa por mais cinquenta anos, chacoalhando correntes. [...] O que você sentiu naquela casa em estilo espanhol ontem?

Mona revira os olhos [...]: - Decididamente há uma energia ali. Uma presença sutil. Mas a planta arquitetônica é maravilhosa.

Nossa heroína diz:
- Caguei para a planta arquitetônica.

[...] O bangalô da rua Elm 521 tem quatro quartos, encanamento original e gritos no sótão. A casa estilo normando francês, no número 7645 de Weston Heights, tem janelas arqueadas, despensa para o mordomo, portas de vidro e um corpo com facadas múltiplas que aparece no corredor do andar superior. [...]

Os corretores as chamam de casas perturbadas. Eram casas que jamais eram vendidas, pois ninguém gostava de vendê-las. [...] Ou então eram casas que eram vendidas e revendidas a cada seis meses porque ninguém conseguia morar nelas. [...] Essa era Helen Hoover Boyle. Nossa heroína. [...] Esse era apenas mais um dia na sua vida. Esse era o estilo de vida dela antes que eu aparecesse. Talvez esta seja uma história de amor, talvez não. [...] Isto é sobre Helen Hoover Boyle.[...]

- Bill Burrows? Você precisa colocar a Emily na extensão, pois encontrei o lar perfeito para vocês dois. Pelo que entendi, os proprietários estão altamente motivados a vender.


Chuck Palahniuk, "Canção de ninar"
Editora Rocco, 2002


Uma palavra: sen-sa-ci-o-nal.

Um comentário:

Eleonora disse...

Bom demais, né? Li há uns dois anos, indicado por um amigo que adora Chuck Palahniuk.

bjs pra vc.