sexta-feira, junho 09, 2006

Vestígios

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Pela segunda vez na minha vida, vou desfazer a casa de alguém, mexer em pertences íntimos, perguntar porque alguém guardaria isso ou aquilo. É uma história complicada.
Meu pai tem uma tia, solteirona, que morava com meus avós. Quando minha avó morreu, meu avô, sentindo que também não ia viver muito mais, casou-se com a cunhada para deixar para ela a pensão que recebe por ter sido governador (ou seja, um bom dinheiro). Meus avós tinham um apartamento grande no Leme, que meu avô vendeu (foi quando desfiz, pela primeira vez, a casa de alguém) e comprou outro, também muito bom - mas pôs no nome da nova mulher, o que por lei ele não poderia, porque estava automaticamente deserdando meu pai e tinha mais de 65 anos (o regime tem que ser o de separação total de bens).
Essa tia tem uma filha de criação que, quando meu avô morreu, tomou a vida da minha tia-avó nas mãos - incluindo sua pensão. Mudou-se com o marido e o filho para o apartamento novo e, com o dinheiro da mãe adotiva, comprou computador, telefones (sim, no plural), celulares (a família inteira ganhou), com as contas todas vindo em nome da tia do meu pai. Depois de anos de batalha judicial, o apartamento foi "dado" ao meu avô que, morto, não vai poder fazer nada. Então, serão mais anos para meu pai, o inventariante, consiga ter o apartamento no nome dele.
A filha adotiva - vamos chamá-la de S., de safada e sem-vergonha - fez as malas e carregou o que pôde. Enfiou tudo no carro e fugiu para Belo Horizonte, deixando o apartamento trancado desde outubro do ano passado. Ela foi deixando de pagar as contas - condomínio, IPTU, água, luz, gás - desde fins de 2004. A dívida total chegou a R$ 18 mil, que meu pai vai ter que arcar porque o apartamento está indo a leilão judicial. Enquanto isso, a família tenta interditar minha tia-avó que, segundo amigos, está passando necessidade sem ver um tostão da pensão que recebe.
Essa volta toda foi para explicar o porquê de ontem eu e meus pais termos ido ao apartamento para abri-lo e trocar as fechaduras, munidos de ordem judicial. Tudo o que há dentro dele é do meu pai, agora. E assim eu achei os óculos de minha tia-avó jogados em cima da cama - ela os esqueceu na provável correria de ir embora. Na mesa de cabeceira, seus terços e missais. Nos armários dos três quartos, há roupas penduradas, sapatos (alguns ainda sem uso), CDs, toalhas e roupas de cama, casacos. Numa caixinha, uma coleção de medalhas e dois cachos de cabelos louros.
Na cozinha, o escorredor de pratos estava dentro da pia. No banheiro, as toalhas estendidas para secar. Escovas de dente no copo, pasta de dentes em cima da pia. As camas arrumadas, prontas para o uso se não fosse a camada de poeira nos travesseiros.
A primeira coisa que meu pai fez foi picar e jogar no lixo a foto de S. Os armários do quarto dela estavam cheios de vidros ainda fechados de Herbalife, que ela começou a tomar depois da lipoaspiração que fez. No jardim de inverno, uma esteira elétrica e as cadeiras de balanço do meu avô e da minha tia-avó.
Eu e minha mãe vamos começar a limpar os armários - alguns já têm sinais de cupins. Jogar papéis fora, doar algumas coisas, separar outras. Vai ser difícil decidir o que fazer com os cachos de cabelos.

Um comentário:

Cris disse...

eita, que isso parece história de filme. e dos bons. tomara que o final seja pro lado do bem. beijo