sexta-feira, julho 01, 2011

V de...



Esta semana eu quase fiz uma coisa que, tempos outros, eu sequer cogitaria: quase embolachei uma professora.
Juro.

Minha mãe foi professora por quase 40 anos. Eu assisti às aulas dela arrastada porque ela não tinha com quem me deixar (meu irmão, o caçulinha, ficava com uma avó; minha irmã mais velha, a primeira neta, ficava com a outra - e eu mifu). Enfim. Minha mãe literalmente congelava aluno bagunceiro com o olhar. Você ouvia, de qualquer lugar da sala, a espinha do moleque fazendo cracrac quando o arrepio de arrependimento subia até a nuca e ele sabia que estava mortal e irremediavelmente empacotado/embrulhado/selado/mandado pra diretoria com os meus cumprimentos.

Zé Colméia este ano é do Ensino Fundamental II, sexto ano. Nas palavras da coordenadora, deixou o segmento das "criancinhas" - o Fundamental I. Então o vocabulário, a maneira com que os professores tratam os alunos é diferente, entende mãe?

"Eu não sei como você passou pro sexto ano"
"Não sabe ler, não?"
"Nossa, como você é burra!"
"Vou mandar uma circular pedindo ao seus pais contribuição para mandar imprimir o seu certificado de ignorância"
"Tá cega?"
"Veio de fralda, hoje? Ou o seu cérebro encolheu? Com você pode ser os dois, né?"

Então eu escrevi uma carta muito bem educada ao diretor, começando com a definição de assédio moral em bom juridiquês. E desenrolei a manta sobre o meu ódio avisando que minha irmã advogada (que depois de formada há anos prestou exame da Ordem e já retirou a carteira novinha em folha) está doida pra meter um processo em alguém, depois de anos enferrujada.

E ainda ensinei à filhota: se a figura repetir o agora usual "Eu achei mesmo que você tivesse uma inteligência reduzida", pode responder (está autorizada a dizer que fui eu quem ensinou) "E eu e minha mãe achávamos que você fosse competente. Olha só como nós todas erramos."

12 comentários:

Tina Lopes disse...

Estou muito chocada. Muito. Acho que merece processo mesmo.

Pat Siciliano disse...

Infelizmente ainda existem essas coitadas - por falta de adjetivo melhor - nas salas de aula por aí, maculando a relação professor-aluno e o toda uma classe de profissionais.
E, mesmo sendo contrária ao corporativismo, peço desculpas por essa colega de ofício. Infelizmente para mim, trabalho com alguém assim, e tenho ganas de processá-la eu mesma, por fazer isso com meus alunos - imagina se fosse com meus filhos!

Suzana Elvas disse...

Pat, o que me chocou nessa história não foi o comportamento da professora - maus profissionaus existem aos potes em todas as categorias e em todos os níveis. Foi a coordenação arranjar mil e uma desculpas para o comportamento da mulher - que arrotou numa reunião "mas que piada, tenho 30 anos de profissão e vem agora mãe querer me ensinar a dar aula". A tutora da turma ainda me disse que a professora costuma ser "homenageada nas formaturas do Ensino Médio" - ao que eu respondi "Então ela não deveria ter saído de lá."
Não peça desculpas, Pat. Além de o comportamento da mulher ser indesculpável, ser professora é uma vocação - que você parece ter e ela, obviamente, não tem.

Juliana disse...

nossa, suzana, chegou me dar enjoo.

Deh disse...

Espumei de raiva. Não hesite em tacar processo não. Nos meus anos (poucos, amém) de magistério vi MUITO professor ofender aluno pela frente e pelas costas, se aproveitando inclusive do fato de estar em escola pública e de trabalhar onde reina o descaso.

Essa gentinha precisa aprender a pegar seus pequenos poderes e enfiar lá naquele lugar.

chaverdecomlimao disse...

Nossa, estou chocada com isso! tem que processar mesmo!

Solange disse...

Que absurdo! E a coordenação defendendo! Se eu já era crítica do sistema de ensino, que considero falido, agora então...

Ellen Lacerda (Elinha) disse...

Oi Suzana, sou psicopedagoga e apesar de conhecer várias situações absurdas em sala de aula, essa me surpreendeu!
Como pode alguém usar a bênção do ensino para atacar a que deveria ajudar a se desenvolver?
Um absurdo o retrato da educação do nosso país, que fala tanto em direitos e deveres, e tão pouco faz!
Essa criatura deveria ser banida de qualquer forma de convívio no âmbito educacional!

Acredito que, assim como os médicos possuem um crm, os advogados a oab, entre outros, deveria haver algum órgão que atestasse a capacidade dos professores, não apenas academicamente, mas social e emocionalmente também.

Apoio incondicionalmente a sua posição com relação ao processo, para que essa situação finde e não se repita com nenhuma outra criança.

Um xero.

Renata disse...

que coisa triste.

é mais do que comum. eu vejo isso desde quando fiz magistério. nós fazíamos estágio na nossa escola mesmo (católica, particular) e tínhamos que escrever relatórios sobre as aulas que observávamos. um dia, minha turma foi chamada à coordenação porque eles não queriam que nós escrevêssemos mais sobre as agressões verbais que os alunos sofriam das professoras ("eu mandei você falar? não abre a boca enquanto eu estiver falando!" "eu falei pras meninas formarem uma fila. por que você levantou, fulaninho? você é menina?"). a direção da escola não queria que alguém lesse sobre isso nos nossos relatórios.

não falaram nada sobre conversar com as professoras ou tomar qualquer outra atitude. muitas professoras tinham 20 anos de profissão, outras eram mais jovens.

e agora, como professora, também vejo muita coisa que não queria ver dos meus colegas de profissão. fico pensando que se fossem meus filhos eu faria como minha mãe, que uma vez foi à escola do meu irmão e disse pra professora que gritava com ele "eu quero que você entenda que meu filho não quer vir pra escola por sua causa, porque você grita com ele. é isso que você está fazendo com meu filho."

não sei nem o que dizer. acho que tem que processar mesmo porque essa professora já se perdeu e não sabe nem mais qual é o papel dela.

ditavonclaire disse...

não consigo nem dizer nada.
(manda email explicando isso melhor? manda?)

rita disse...

Meu deus!

cris disse...

Acho que é caso de processo e troca de escola.