quarta-feira, março 30, 2011

Maria só



Maria entrou na vida pela dor. Todos nós entramos, quase sem exceção. A dor não é nossa, e sem ela começamos nossa existência como uma grande aventura, uma surpresa esperando logo ali. Todas (todas!) as vezes em que anda de carro os olhos dela vão grudados na janela, o corpo levemente desencostado do banco, na expectativa de captar alguma coisa que ninguém mais viu, ninguém mais percebeu, a mão já pronta para gritar um extasiado “Olha lá!”. E assim ela encara o que está por vir. Uma surpresa logo ali.
Então a vida de Maria foi vivendo doce e sendo vivida aos trancos e barrancos. As mudanças não serão bem-vindas - isso, pensava ela, estava no contrato firmado entre as partes quando ela desceu à Terra. Infelizmente, Maria não leu as letras miudinhas (aquelas que nos fazem dizer de vez em quando “Deus só pode estar de sacanagem!”) e as mudanças chegaram. Primeiro os seios, o cabelo mais oleoso, a pele mais brilhante, os pelos que apareceram por todo o corpo.



O corpo. A cintura, quase sem ninguém perceber, afinou e fez os quadris se arredondarem. Ela não reparou mas os meninos, sim. Começaram as brincadeiras (“Ela usa enchimento do sutiã!”) e também os olhos mais compridos para as pernas cada vez mais longas.

Maria entrou na vida pela dor alheia. Ontem foi a vez de ela sentir a sua própria dor, a primeira mais insuportável da sua ainda curta vida. Para ela, o acontecimento se resumiu a um “Mas que merda!” mastigado entre ondas de cólicas e cuspido em resposta ao meu “Você agora é oficialmente uma mulher!” Mas, lá no fundo, minha própria dor não é física, mas quase é. Porque desde ontem ela é somente de alma e não de corpo minha Zé Colméia, Maricota, meu Bolinho favorito, a Bolachinha preferida do meu pacote. Mesmo que eu me recuse a deixar de chamá-la assim até o meu último dia, ela agora é, para a vida, simplesmente Maria.

2 comentários:

Juju Balangandan disse...

Hum, que lindo e como dói ser mulherzinha, quando ainda as brincadeiras são mais interessantes. Mas é o inexorável. Parabéns por sua mulherznha.

Solange disse...

Não tem jeito de doer um pouco na gente também, né?
(OT, quem dera ter uma escadaria em casa! aliás, acho que em Brasília naquela época nem existia, só no fundo falso do estúdio do fotógrafo mesmo :D)