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Já tem quase 25 anos que eu conheci um cara lindo, muito charmoso e interessante. Eu e Felipe nos encontramos na faculdade, quando fazíamos biologia. Ele queria se especializar em zoologia e eu, em biologia marinha. Jamais rolou nada entre nós. Mas a amizade nasceu mesmo foi com o advento do e-mail. Eu larguei a faculdade e fiz comunicação; ele seguiu em frente, fez ainda veterinária e foi estudar fora, na Inglaterra. E se no começo era uma carta por mês, quando o e-mail chegou para ficar minha caixa de entrada pingava ao menos um e-mail longo por dia.
Primeiro ele se especializou em grandes animais - cavalos e vacas. Depois, inventou de, nas férias, ser voluntário no Parque Nacional Kruger, na África do Sul. E de lá não voltou (minto; voltou para buscar a mudança e o companheiro, um cartógrafo escocês maluco chamado William que adora vir ao Brasil para poder lotar a mala de porcarias tipo Guaraná Antarctica e Catupiry).
Pois hoje recebi um e-mail do William dizendo que meu amado amigo levou uma chifrada de um gnu. O bicho ia ser sacrificado (e William se deleitou descrevendo a extensão da ferida cheia de moscas varejeiras) e não gostou. A mãe do Felipe é uma velhinha judia, e eu sempre sou a porta-voz das coisas ruins ("Felipe não vem para o Hanukah"; "Felipe quebrou o braço", "Felipe está com malária", "Felipe foi abduzido no meio do Serengueti").
Enfim. É onde ele está hoje, no Parque Nacional do Serengueti, na Tanzânia. Ou estava, antes de ser levado para um hospital no Quênia com as costelas quebradas e um buraco no peito. Mas ele adora isso. E eu vou ter que contar pra mãe dele. E acho que dessa vez não vou ganhar nem um fluden.