Eu sou uma mãe chata. Muito. Daquela que pega no pé quando passa 20 minutos da hora de dormir. Que diz que sempre, SEMPRE você deve dizer por favor obrigada de nada desculpe. Se não disse, volta lá e diz. Olhando nos olhos da pessoa.
Eu leio de cabo a rabo a bula do remédio. O manual do proprietário. Os termos de condições de uso. O manual do aluno. Meu ex-marido diz que eu sou encrenqueira e barraqueira ao reclamar quando a escola vem com um "no manual diz que não pode trazer MP3 e celular, mas achamos por bem não coibir".
Todo dia eu vejo pais e mães, cansados de um dia de trabalho, esparramados nas cadeiras da cantina até tarde porque o filho não quer ir embora - não sem antes de empanturrar de um big Xtudo com uma coca-cola de 500ml. Avós puxando mochilas que pesam mais do que o próprio neto - porque o dito, pobrezinho, não pode carregar aquele peso enorme, mesmo que represente dez quilos de porcarias, como bola de basquete, carrinhos & gibis. Todo dia eu vejo meninas urrarem com a mãe porque o tênis que a pobre comprou "não tem nada a ver com a chuteira rosa que todo mundo, TODO MUNDO está usando, MENOS EU!".
Eu sou chata. E sou encreiqueira e barraqueira.
Dane-se.
Estou num humor do cão. Com vontade de embolachar alguém e depois desovar a dita na casa do cujo e dizer "Se vira, amigo. Eu não tenho NADA a ver com isso. Já tenho um ex pra infernizar a minha vida, não preciso da sua."
terça-feira, maio 10, 2011
segunda-feira, maio 09, 2011
Essa eu sei
Se alguém me perguntar qual a maior estupidez que eu já fiz na vida (não apenas uma, mas repetidas vezes), a resposta está na ponta da língua: aparar com a mão o ferro quente antes que ele caia no chão.
Acho que perdi minhas impressões digitais.
Acho que perdi minhas impressões digitais.
quinta-feira, maio 05, 2011
De quem é o funeral?

Começo no século XIX porque foi nesse período, mais do que em qualquer momento anterior, que os homens vestiram preto; e também porque essa é a época em que o preto da roupa masculina é percebido como problemático - algo que intrigava os homens, ao mesmo tempo que se vestiam de negro. O preto servia evidentemente de distinção entre os sexos: o que incomodava os comentaristas da época não era isso, mas o fato de que, cada vez mais, os homens pareciam optar pela vestimenta da morte. Alfred de Musset achava le deuil (o luto) que os homens trajavam un symbole terrible. Outros concordavam,comentando a nova moda com espanto, como se um mistério sombrio se revelasse na roupa do dia a dia.
Até então, homens e mulheres haviam usado várias cores. Na Idade Média, os homens se vestiam esplendidamente se possuíam meios para tal. Mesmo os pobres vestiam várias cores (marrom e verde, um chapéu vermelho ou azul), como mostram as iluminuras medievais. Na Renascença, o preto esteve na moda, mas ainda assim estava longe de ser usado por todos. E os homens usavam cores no século XVIII, e mesmo nas primeiras décadas do XIX. Mas, a partir de então, a roupa masculina torna-se cada vez mais austera e mais escura; se consultarmos os jornais de moda da época, poderemos ver a morte das cores, peça por peça, em alguns poucos anos. Já nos primeiros anos da década de 1830, a casaca de noite e a casaca longa eram normalmente pretas (mesmo que também pudessem ser azul-escuras). Na mesma época, as calças poderiam ser brancas no verão (elas já não eram mais coloridas), mas no final da década de 1830 "calças ou pantalonas pretas eram a regra". Nem mesmo a gravata resistiu por muito tempo: em 1838, The Gentleman's Magazine of Fashion observa que a gravata branca "fora afastada de toda boa sociedade por George IV. Ele descartou a gravata branca e a preta tornou-se a moda universal". Durante alguns anos, o colete foi o último reduto da cor, mas em maio de 1848 The Gentleman's Magazine of Fashion nota que "o tecido para coletes é seda ou popelina, negra ou branca".
As mesmas mudanças aconteciam simultaneamente na França, onde, em 1850, o Journal des Tailleurs registrava que a vestimenta formal do homem agora consistia exclusivamente de un habit noir, un pantalon noir, un gilet blanc et un autre noir; une cravate noire et une autre blanche ("um casaco preto, uma calça preta, um colete branco e outro preto; uma gravata preta e outra branca"): Théophile Gautier lamentava em seu ensaio De la mode ("Da moda") que o vestuário masculino tornara-se si triste, si éteinte, si monotone ("tão triste, tão apagado, tão monótono").
Nem tudo, no entanto, era preto. Calças e coletes podiam ainda ser brancos ou quase-brancos, e na sobrecasaca os tons escuros de verde, azul e marrom faziam aqui e ali breves reaparições. Mas todas as cores vivas haviam desaparecido sem deixar lembrança, o tom era escuro, a cor dominante era o preto. [...] É possível demonstrar a redução cromática que acontecera se comparamos as roupas elegantes usadas naqueles anos com as que se usariam nos bailes a fantasia. Pois a "fantasia" era aquela roupa usada em outros países, e em outros tempos; e de acordo com ilustrações do período, tais roupas eram cheias de cor, e era isso que as tornava luxuosas. Fora isso, as cores estavam restritas aos uniformes militares, especialmente ao uniforme de cerimônia, que se tornava assim uma espécie de "fantasia" séria.
Os jovens cavalheiros de 1842 são tecnicamente vitorianos (a rainha Vitória subiu ao trono em 1837), mas ainda não são vitorianos graves: são homens da cidade, ainda jovens e bem dispostos. E como as ilustrações de moda tendem a usar a juventude como representação de glamour, custou um pouco para que começassem a refletir a nova atmosfera de seriedade e probidade moral, que mais tarde viria a ser sinônimo de "vi-toriano". Uma tal figura pode, no entanto, ser vista numa gravura de moda de 1851, onde o homem sentado, apesar de um rosto jovem e corado, como o gênero exigia, já apresenta uma papada, suíças grisalhas e uma boa amostra de cabelos brancos. Não está claro se ele deve ser visto como pai ou avô: os pais da época poderiam ter jeito de avô. De qualquer maneira, ele está sentado com a dureza, a austeridade, a rígida verticalidade que Dickens atribui a muitos de seus personagens - características que o autor da ilustração tenta apresentar como sinal de elegância. Esse jovem senhor também veste preto, como o fará durante a maior parte de sua vida.
Era uma grande mudança. Os homens queriam vestir-se numa espécie de luto elegante, e, como resultado, o século XIX parece um funeral. E era visto como um funeral pelos escritores da época. Baudelaire escreveu sobre a casaca: "Não é este o inevitável uniforme de nossa época sofredora, carregando nos ombros, negros e estreitos, o símbolo de um luto perpétuo? Estamos todos celebrando algum funeral". A mesma idéia era expressa por Dickens na Inglaterra, que em seguida estendeu o conceito, indo das roupas aos edifícios, e mesmo à cidade. Em "Grandes esperanças", quando Pip chega a Londres, ele encontra a Bernard's Inn como que vestida "de um luto embolorado de fuligem e fumaça", e quanto ao Sr. Jaggers, sempre vestido de roupas tão negras quanto suas suíças, sua "cadeira de longo encosto era de um lúgubre pêlo negro de cavalo, com uma fileira de pregos em bronze, como um caixão". Imagens poderosas e macabras atravessam a obra de Dickens, especialmente em suas novelas mais tardias, que vêem a vida na Inglaterra, e a vida em Londres, como um funeral assustador, um funeral aterrorizante porque interminável.
John Harvey, Homens de Preto (tradução de Fernanda Veríssimo)
Editora Unesp, 2004
segunda-feira, maio 02, 2011
Dor atada
Todas as vezes em que eu caio nessa de autopiedade e ouço meu próprio mimimi penso logo na cara da Elizabeth Hurley dizendo, com cara de "Liz te despreza" and British accent:
You are so pathetic...
You are so pathetic...
quarta-feira, abril 27, 2011
Não quer calar
Por que nunca ninguém me disse como ela é ótima? Pau pra toda obra, supereficiente, facinha de achar, botar pra trabalhar e pagar - e o que é melhor, resolve praticamente tudo?
Como - COMO? - amiga leitora que vem aqui quase nunca, como você nunca me disse que ela faz maravilhas?
Deus meu, como eu consegui viver até hoje sem cola quente?
Como - COMO? - amiga leitora que vem aqui quase nunca, como você nunca me disse que ela faz maravilhas?
Deus meu, como eu consegui viver até hoje sem cola quente?
terça-feira, abril 26, 2011
Oremos

Então. Todo mundo já está sabendo que o céu desabou a noite passada aqui no Rio. Como eu moro numa casa velha (meus vizinhos gostam de dizer "casa antiga", e tem uma que diz "vintáge villáge" com cara de quem recebe toda quinta-feira a nata do creme das socialáites). Retomando. Eu moro numa casa velha que nem bem se conserta o telhado desanda tudo lá em cima. Então temos uma rotina de procedimentos-padrão que é posta em andamento quando a chuva aperta, a saber:
Botar balde embaixo das goteiras resilientes (Zé Colméia);
Checar locais críticos (em cima das TVs, das camas e dos livros) para ver se aparecem goteiras inesperadas (Catatau);
Tirar tudo das tomadas (todas nós);
Providenciar abrigo para os cachorros na cozinha (nós três);
Checar se todos os ralos estão limpos e desimpedidos (eu);
Checar se todas as janelas estão fechadas (nós três);
Checar se as lanternas estão postas em locais estratégicos (nós três);
Reunir na mesa da cozinha o essencial para acender velas, se necessário (eu).
Reunir na mesa da cozinha o básico para uma refeição no escuro, que não demande abre-e-fecha da geladeira (Zé Colméia e Catatau).
Enfim. Eu já disse que a PM e o Exército poderiam tirar lições muito valiosas conosco (quem quiser curso de sobrevivência para 2012 meu e-mail tá ali do lado). Mas a minha preocupação vai crescendo é com o depois. Porque, afinal, sou eu quem lida com os estragos. Eu limpo os ralos depois olhando pra qualquer canto menos para baixo porque a sensação de ter coisas quebrando, escorregando e estourando nas mãos (às vezes até se mexendo) é o que me basta. Às vezes eu tenho que recolher aqueles filhotes de passarinho sem penas que parecem minifrangos moles em poças na minha varanda. Irc. Pois é. Mas ou eu recolho ou os cachorros comem - e depois vêm me lamber.
Pois bem, hoje de manhã eu fiz uma vistoria completa antes de sair de casa. No terraço só tinha uma montanha de folhas. Lavei as varandas antes de o sol nascer e só tirei lama. Tomei banho, dei café às meninas e me arrumei me sentindo a protagonista da novela porque pela primeira vez na vida nenhum bicho tinha entregue sua alminha ao Criador na minha casa.
Isso até descer as escadas e ver o mico esturricado e dependurado na rede elétrica. Rabo arrepiado e tudo. A prefeitura ficou de tirar o pobrezinho de lá até o fim do dia.
Antes ela do que eu.
segunda-feira, abril 25, 2011
Arqueologia

Em três meses farei 45 anos. E por menos que eu aparente (e nessa fase, confesso, estou acumulando, no meu rosto, anos em dias) certas coisas me cansam e me roubam a ilusão de que não, meu bem, a idade não está só na sua cabeça.
Ontem de manhã estava conversando com a professora de artes das meninas. E ela estava lamentando como certos trabalhinhos (parte da minha, da sua, da nossa infância) hoje em dia são impossíveis de serem feitos pelas crianças. A aguada, que é a técnica de se rabiscar num papel com giz de cera branco e depois colorir com guache por cima, é a mágica que não acontece mais porque o giz de cera não é mais de cera. Então, quando as crianças pintaram de azul o papel absolutamente nada apareceu.
Ela me mostrou uma outra técnica, o de desenhar com pilot uma folha embrulhada em papel celofane. Você já tentou fazer isso? O celofane não absorve a tinta como antigamente porque a celulose original tem sido substituída por plástico - então a tinta do pilot fica ali, pronta pra ser borrada e manchar braços, cotovelos e mãos.
A minha infância, de maneira silenciosa e despercebida, morreu antes de conseguir alcançar a das minhas filhas.
sexta-feira, abril 01, 2011
quinta-feira, março 31, 2011
Fotógrafos XXX - Richard Avedon I

Santa Monica Beach #2, California, September 30, 1963

Santa Monica Beach #4, California, September 30, 1963

New York Life #1, Central Park, New York, July 22, 1949

New York Life #4, Lower East Side, New York, October 26, 1949

New York Life #5, Lower West Side, New York, September 9, 1949

New York Life #7, Upper West Side, New York, August 30, 1949

New York Life #8, Harlem, New York, September 6, 1949

New York Life #13, Harlem, New York, September 6, 1949

New York Life #14, Third Avenue EI, New York, July 22, 1949

New York Life, Lenox Avenue, Harlem, New York, 1949
Richard Avedon foi um fotógrafo de moda magistral - e um fotojornalista admirável.
quarta-feira, março 30, 2011
Maria só

Maria entrou na vida pela dor. Todos nós entramos, quase sem exceção. A dor não é nossa, e sem ela começamos nossa existência como uma grande aventura, uma surpresa esperando logo ali. Todas (todas!) as vezes em que anda de carro os olhos dela vão grudados na janela, o corpo levemente desencostado do banco, na expectativa de captar alguma coisa que ninguém mais viu, ninguém mais percebeu, a mão já pronta para gritar um extasiado “Olha lá!”. E assim ela encara o que está por vir. Uma surpresa logo ali.
Então a vida de Maria foi vivendo doce e sendo vivida aos trancos e barrancos. As mudanças não serão bem-vindas - isso, pensava ela, estava no contrato firmado entre as partes quando ela desceu à Terra. Infelizmente, Maria não leu as letras miudinhas (aquelas que nos fazem dizer de vez em quando “Deus só pode estar de sacanagem!”) e as mudanças chegaram. Primeiro os seios, o cabelo mais oleoso, a pele mais brilhante, os pelos que apareceram por todo o corpo.

O corpo. A cintura, quase sem ninguém perceber, afinou e fez os quadris se arredondarem. Ela não reparou mas os meninos, sim. Começaram as brincadeiras (“Ela usa enchimento do sutiã!”) e também os olhos mais compridos para as pernas cada vez mais longas.
Maria entrou na vida pela dor alheia. Ontem foi a vez de ela sentir a sua própria dor, a primeira mais insuportável da sua ainda curta vida. Para ela, o acontecimento se resumiu a um “Mas que merda!” mastigado entre ondas de cólicas e cuspido em resposta ao meu “Você agora é oficialmente uma mulher!” Mas, lá no fundo, minha própria dor não é física, mas quase é. Porque desde ontem ela é somente de alma e não de corpo minha Zé Colméia, Maricota, meu Bolinho favorito, a Bolachinha preferida do meu pacote. Mesmo que eu me recuse a deixar de chamá-la assim até o meu último dia, ela agora é, para a vida, simplesmente Maria.
terça-feira, março 29, 2011
Violeta

Ela pode ter sido uma canastrona de quinta ou uma atriz de primeira; um ícone ou um produto de marketing; uma tresloucada irresponsável ou uma verdadeira amante da vida. Isso em absoluto não importa. Ela fascina qualquer menina que a veja em "Lassie", qualquer mulher que sinta inveja dela ao vê-la enroscada a Paul Newman em "Gata em teto de zinco quente".
Elizabeth Taylor é parte do imaginário humano.
E basta.
segunda-feira, março 28, 2011
sexta-feira, março 25, 2011
Letra c
Você acorda naqueles dias - sim, naqueles. Um humor do cão e os seios tão inchados que, como diz a moça na TV, cada peito tem seu próprio CEP. Não consegue nem tomar café da manhã e, aí, do nada, sente uma vontade irresistível de comer bisnaguinha com maionese de atum.
Come uma. E outra, E mais outra, e outra e mais uma. O pacote inteirinho. Quase meio quilo de bisnaguinhas.
O que você faz?
a) Fica horrorizada e mantém distância da cozinha o resto do dia.
b) Assume que comeu demais e que provavelmente não vai conseguir comer mais nada até o dia seguinte.
c) Dá de ombros e manda pra dentro mais um litro de sorvete de chocolate com coco.
É, eu sei.
Uma delícia.
Come uma. E outra, E mais outra, e outra e mais uma. O pacote inteirinho. Quase meio quilo de bisnaguinhas.
O que você faz?
a) Fica horrorizada e mantém distância da cozinha o resto do dia.
b) Assume que comeu demais e que provavelmente não vai conseguir comer mais nada até o dia seguinte.
c) Dá de ombros e manda pra dentro mais um litro de sorvete de chocolate com coco.
É, eu sei.
Uma delícia.
quinta-feira, março 24, 2011
Passada

Você sabe que já está queimando óleo quando:
- Passa a gostar de esfiha de verduras.
- Acha Facebook muuuuito complicado.
- Acha rede social uma total inutilidade.
- Não consegue mais fazer 8.761 coisas ao mesmo tempo.
- Não tem paciência para papo adolescente.
- Acha ruim tudo quanto é grupo de música novo...
- ... e ainda diz que tem razão que as músicas de hoje são o ó quando ouve regravação de tudo o que foi sucesso dos anos 80/90.
- Escuta tudo ranger quando se levanta da cama de manhã.
- Quando te convidam para alguma coisa depois das dez da noite só de pensar em sair te dá um cansaçzzzzzzzzzzzzzzzzzz...
- Deita no sofá às nove pra ver TV e às 21h12m já tá roncando (literalmente).
- Começa a torcer para alguém em "American Idol".
- Sempre se serve na mesma ordem: café, leite e açúcar (medido todos os dias com a mesmíssima colher).
- Não faz a menor ideia de por que está no meio do pátio com um saco de feijão numa mão e uma lata de leite condensado na outra.
- Toma um choque ao (não) se reconhecer no reflexo da tela do computador.
- Quando ouve um "Alô!" do outro lado da linha desliga rapidinho porque já esqueceu pra quem ligou.
- Vira a casa inteira à procura das suas lentes de contato - para descobrir que já está com elas.
- Continua escrevendo que "discou" um número - mesmo quando os telefones deixaram de ter disco há uns bons 25 anos.
- Sente que os conhecidos da sua mãe têm déjà vu sempre que encontram você.
- Não escuta nada sem os óculos.
segunda-feira, março 21, 2011
...
E nada como começar a semana descobrindo que seu celular sumiu - e que, muito provavelmente, você o deixou no táxi que pegou na sexta à tarde.
O motorista de táxi lembrava perfeitamente de uma mãe descabelada com duas crianças que não calavam a boca, cheia de sacolas e bolsas e livros e pacotes e tudo caindo pelo caminho - tipo, eu sou inesquecível - e devolveu meu celular.
O motorista de táxi lembrava perfeitamente de uma mãe descabelada com duas crianças que não calavam a boca, cheia de sacolas e bolsas e livros e pacotes e tudo caindo pelo caminho - tipo, eu sou inesquecível - e devolveu meu celular.
sexta-feira, março 18, 2011
...
quinta-feira, março 17, 2011
Aquele-que-não-pode-ser-nomeado
Se eu ouvir mais uma vez qualquer coisa relacionada ao dito blog de R$ 1,3 milhão da Maria Bethânia acho que vou ter um treco.
Porque eu nunca li tanta, mas tanta ignorância junta.
Porque eu nunca li tanta, mas tanta ignorância junta.
terça-feira, março 15, 2011
Amor

Catatau está na escola desde que fez um ano. Daquela turminha primordial sobrou um grupo de remanescentes que aprendeu a andar, comer, não precisar de fraldas e dizer as primeiras palavras - uns com os outros.
No início do ano passado um desses colegas se apaixonou por ela. Coitado, arrastava um trem pela minha menina, e tanto beijou o chão em que ela pisava que Catatau finalmente cedeu e deixou-se intitular "a namorada do Guga".
Mas Catatau não tem muita paciência para essas coisas, e logo cansou dessa história de namoro (porque, você sabe, dá um trabalhão sentar só do lado dele, e só fazer trabalho em dupla com ele). E o compromisso acabou - mas não a paixão dele por ela.
Guga e Catatau não andavam en dupla; com eles estava sempre o Rubayah (que as crianças chamam de "Ruba"). Então a trinca faz trabalhos em grupo, senta juntos no almoço, no jantar, na roda de capoeira, nas discussões Flamengo-contra-o-resto-do-mundo toda bendita segunda-feira.
Os três são inseparáveis. Guga me contou que ainda gosta de Catatau, que me confessou que ama Ruba - que me explicou(quando viu o amigo consolando Catatau depois de uma queda de mal jeito no judô) que não se aproximou porque não quer magoar o melhor amigo, já que Catatau é a garota de quem ele gosta.
E assim os meninos seguem os dias andando atrás de Catatau, que não acha isso nem excitante nem romântico: para ela, o que importa é ter sempre ao seu lado os amigos que a viram crescer.
segunda-feira, março 14, 2011
...
A todos que receberam mensagem minha nesse feriado momesco, aviso que não fui eu: invadiram minha conta do Gmail e fizeram um carnaval com ela. Os acessos foram daqui do Rio e de um celular na Rússia.
A quem interessar possa, mil desculpas.
A quem interessar possa, mil desculpas.
sexta-feira, março 04, 2011
Sem esquecer a vitrolinha
Para não ter que sair de casa do carnaval:
- Fiz dois supermercados;
- Comprei a ração do cachorro;
- Modifiquei o horário de saída das meninas da escola (por conta dos blocos e do fechamento das ruas ao redor do Sambódromo);
- Encomendei outro botijão de gás;
- Fiz a lista de material que as meninas deveriam trazer para casa para estudar para as provas;
- Paguei as contas;
- Fiz faxina;
- Programei os cardápios por conta da (ainda) geladeira não consertada.
E, obviamente, acabo de alimentar os puffles.
- Fiz dois supermercados;
- Comprei a ração do cachorro;
- Modifiquei o horário de saída das meninas da escola (por conta dos blocos e do fechamento das ruas ao redor do Sambódromo);
- Encomendei outro botijão de gás;
- Fiz a lista de material que as meninas deveriam trazer para casa para estudar para as provas;
- Paguei as contas;
- Fiz faxina;
- Programei os cardápios por conta da (ainda) geladeira não consertada.
E, obviamente, acabo de alimentar os puffles.
quinta-feira, março 03, 2011
Tem, mas acabou
Início do ano para quem procura um novo emprego é um deserto de homens & oportunidades. Pouquíssimas vagas e nada a fazer - ócio completo, o que se traduz com "recreio do diabo". Passo as tardes lendo, arrumando coisas, inventando moda e tendo os piores pensamentos - e sempre podemos aprofundá-los e deixá-los bem mais negros ao adicionarmos perspectivas bem sombrias.
Ultimamente uma cobra começou a se insinuar sob o meu travesseiro. Eu vou fazer 45 anos e, em 20 anos de vida profissional, consegui juntar zero patrimônio. O pouco que acumulei era depositado na conta do meu ex (eu trabalhava, ele recebia) e foi-se com o divórcio. Não tenho, em carteira, nem metade do que preciso para me aposentar. Sinto que, com 45 anos, minha experiência profissional, minhas duas faculdades e os dois idiomas não servem para nada. Quando preencho cadastros para ter a chance de enviar currículo lá estão as perguntas imprescindíveis para ser um excelente profissional: "Sexo: feminino"; "Situação civil: divorciada"; "Filhos: 2". PT: saudações.
Estou agora pensando se um emprego fixo é mesmo o caminho. Já perdi a conta dos concursos públicos que fiz, ainda sem entender porque saber tudo sobre as teorias de comunicação hipodérmica e de Lasswell vai me fazer ser uma assessora de imprensa melhor quando a autarquia for pega enchendo a casa de funcionários às vésperas de eleição.
Enfim. Já trabalhei em todos os ramos da comunicação - de edição de livros a sites, de assessoria de imprensa a relações públicas, de jornalismo a organização de eventos. De loja de roupas infantis a franquia de sabonetes, ainda tenho que pensar, afinal de contas, o que quero da vida.
Além de um hipotético marido militar que morra e me deixe a pensão, claro :o)
Ultimamente uma cobra começou a se insinuar sob o meu travesseiro. Eu vou fazer 45 anos e, em 20 anos de vida profissional, consegui juntar zero patrimônio. O pouco que acumulei era depositado na conta do meu ex (eu trabalhava, ele recebia) e foi-se com o divórcio. Não tenho, em carteira, nem metade do que preciso para me aposentar. Sinto que, com 45 anos, minha experiência profissional, minhas duas faculdades e os dois idiomas não servem para nada. Quando preencho cadastros para ter a chance de enviar currículo lá estão as perguntas imprescindíveis para ser um excelente profissional: "Sexo: feminino"; "Situação civil: divorciada"; "Filhos: 2". PT: saudações.
Estou agora pensando se um emprego fixo é mesmo o caminho. Já perdi a conta dos concursos públicos que fiz, ainda sem entender porque saber tudo sobre as teorias de comunicação hipodérmica e de Lasswell vai me fazer ser uma assessora de imprensa melhor quando a autarquia for pega enchendo a casa de funcionários às vésperas de eleição.
Enfim. Já trabalhei em todos os ramos da comunicação - de edição de livros a sites, de assessoria de imprensa a relações públicas, de jornalismo a organização de eventos. De loja de roupas infantis a franquia de sabonetes, ainda tenho que pensar, afinal de contas, o que quero da vida.
Além de um hipotético marido militar que morra e me deixe a pensão, claro :o)
quarta-feira, fevereiro 23, 2011
Altos papos
(no Facebook):
Deh
(vou dar uma sumida duns minutos pra terminar um nigucim ali, pera)
Suzana
No tédio e sozinha
Oi, computador da Deh
Como você anda passando?
Tudo bem?
Eu ando assim num tédio só. Já tentei ler, já tentei ver vídeo no computador
Nem ver filmes dá: teu colega aqui deu pra esconder o vermelho e agora é tudo azul, amarelo ou cinza.
Não dá pra ver filme com todo mundo com cara de defunto, né?
Então
Altos papos esses nossos, né PC da Deh?
Acho que vou te dar um nome. Gostas de Oswaldo?
Oswaldo é o nome do morcego que mora no forro da minha casa.
Ele dá uns rasantes assustadores à noite.
Sinistro.
Como você faz pra não ficar com cheiro de gordura aí na cozinha?
Minha mãe diz que só banho gelado. Mas eu acho que isso não resolve seu problema, não é mesmo?
Daí onde você está dá pra ver a Deh? Será que ela vai demorar?
Ahn... Pois é, que calor, né?
Calorão. Mas pode chover hoje. Você consegue acessar sozinho o Climatempo? Não, né?
Que chato.
É...
E como vai a patroa? Ou é o patrão?
Hoje eu tô meio confusa que uma amiga me disse que agora tá namorando uma mulher.
Então acho que é esse o meu caminho: deixar esse negócio de homem de lado e partir pro feminino.
O que você acha?
[...]
Oi? Paulo César? Você tá aí?
*suspiro*
Isso é triste. Eu sei.
Deh
(vou dar uma sumida duns minutos pra terminar um nigucim ali, pera)
Suzana
No tédio e sozinha
Oi, computador da Deh
Como você anda passando?
Tudo bem?
Eu ando assim num tédio só. Já tentei ler, já tentei ver vídeo no computador
Nem ver filmes dá: teu colega aqui deu pra esconder o vermelho e agora é tudo azul, amarelo ou cinza.
Não dá pra ver filme com todo mundo com cara de defunto, né?
Então
Altos papos esses nossos, né PC da Deh?
Acho que vou te dar um nome. Gostas de Oswaldo?
Oswaldo é o nome do morcego que mora no forro da minha casa.
Ele dá uns rasantes assustadores à noite.
Sinistro.
Como você faz pra não ficar com cheiro de gordura aí na cozinha?
Minha mãe diz que só banho gelado. Mas eu acho que isso não resolve seu problema, não é mesmo?
Daí onde você está dá pra ver a Deh? Será que ela vai demorar?
Ahn... Pois é, que calor, né?
Calorão. Mas pode chover hoje. Você consegue acessar sozinho o Climatempo? Não, né?
Que chato.
É...
E como vai a patroa? Ou é o patrão?
Hoje eu tô meio confusa que uma amiga me disse que agora tá namorando uma mulher.
Então acho que é esse o meu caminho: deixar esse negócio de homem de lado e partir pro feminino.
O que você acha?
[...]
Oi? Paulo César? Você tá aí?
*suspiro*
Isso é triste. Eu sei.
segunda-feira, fevereiro 21, 2011
Sinceramente
Agora me diz se é normal alguém ficar viciado em biscoito maizena com molho rosé.
Oi, meu nome é Suzana e eu sou viciada em biscoito maizena com molho rosé.
Oi, meu nome é Suzana e eu sou viciada em biscoito maizena com molho rosé.
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
Da hora, meu
Minha vizinha comprou um karaokê. E canta o dia inteiro.
Da última vez que um ser vivo emitiu aqueles sons o veterinário achou por bem sacrificar.
Da última vez que um ser vivo emitiu aqueles sons o veterinário achou por bem sacrificar.
quarta-feira, fevereiro 16, 2011
Brisa
Eu e Catatau fizemos uma pesquisa sobre a Laika, aquela cadelinha que foi pro espaço (literalmente) a bordo do Sputnik II. Choramos baldes.
Eu e Zé Colméia montamos a árvore genealógica dela somente com fotos de crianças - o bisavô dela em cachinhos, a avó menina, o pai metido uma camisola de batismo, a mãe pelada aos quatro meses, o rosto de lua cheia. Rimos até molhar as calças.
Quem vai aliviar meu coração quando as duas crescerem?
Tenho medo de perguntar.
Eu e Zé Colméia montamos a árvore genealógica dela somente com fotos de crianças - o bisavô dela em cachinhos, a avó menina, o pai metido uma camisola de batismo, a mãe pelada aos quatro meses, o rosto de lua cheia. Rimos até molhar as calças.
Quem vai aliviar meu coração quando as duas crescerem?
Tenho medo de perguntar.
segunda-feira, fevereiro 14, 2011
...
Remexer no passado não é uma boa coisa: a gente termina o dia se achando envelhecida, inútil, inferior.
Uma fracassada.
Uma fracassada.
Recreio
Eu acho bolsa-carteiro muito legal. Sexy, mesmo.
Uma vez disse isso para um cara que gostava de mim.
No dia seguinte ele foi trabalhar com uma bolsa-carteiro.
Não tive coragem de dizer que parecia uma merendeira.
Uma vez disse isso para um cara que gostava de mim.
No dia seguinte ele foi trabalhar com uma bolsa-carteiro.
Não tive coragem de dizer que parecia uma merendeira.
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
quarta-feira, fevereiro 09, 2011
Passou
Comecei a escrever esse blog em 31 de janeiro de 2005. Eu tinha, então, 38 outonos. Hoje tenho 44-quase-45 e em seis anos, à parte os amigos maravilhosos que fiz, uma pessoa apenas me marcou muito. Limpando minha caixa postal, vi nossa última troca de e-mails. Dentre as coisas que me arrependo na vida, não ter tido coragem de dar um passo à frente (e ter medo de me magoar é explicação, não desculpa) é uma das que mais me machucam. Eu ainda tenho muito medo de me magoar, mas perdi não somente a possibilidade de deixar entrar na minha vida um homem maravilhoso: perdi também uma daquelas amizades insubstituíveis.
Eu tenho saudade das noites trocando e-mails numa conexão discada ruim.
Eu tenho saudade das noites trocando e-mails numa conexão discada ruim.
terça-feira, fevereiro 08, 2011
Ops...!

Letter of Dorothy Parker, by Lee Israel in "Can You Ever Forgive Me?: Memoirs of a Literary Forger", 2008
Agora me diz: por que EU não consigo ter uma ideia assim, hein?
segunda-feira, fevereiro 07, 2011
Mais miudezas
* Se eu escutar "etiqueta" ou "emcapar" novamente juro que mato um.
* Unindo o útil ao agradável, estou pensando em oferecer favores sexuais a quem se dispuser a fazer meu imposto de renda.
* Eu alimento duas crianças. Alimento também dois cachorros. Mas isso é coisa do passado:
- Mãe, não tenho ninguém para alimentar meus puffles. Você dá comida pra eles?
- É, mamãe, cê tá desempregada, sem fazer nada mesmo [sic]. Pode dar comida pra eles, né? Porque se ninguém der comida pra eles nem sair pra passear eles fogem. E eu não quero ficar sem meus puffles [beicinho&lagriminhas] Alimenta meus puffles, mamãe? Por favor? [/beicinho&lagriminhas]
Fim de carreira aka fundo do poço: babá de puffles.
* Unindo o útil ao agradável, estou pensando em oferecer favores sexuais a quem se dispuser a fazer meu imposto de renda.
* Eu alimento duas crianças. Alimento também dois cachorros. Mas isso é coisa do passado:
- Mãe, não tenho ninguém para alimentar meus puffles. Você dá comida pra eles?
- É, mamãe, cê tá desempregada, sem fazer nada mesmo [sic]. Pode dar comida pra eles, né? Porque se ninguém der comida pra eles nem sair pra passear eles fogem. E eu não quero ficar sem meus puffles [beicinho&lagriminhas] Alimenta meus puffles, mamãe? Por favor? [/beicinho&lagriminhas]
Fim de carreira aka fundo do poço: babá de puffles.
sábado, janeiro 29, 2011
Miudezas
* Consegui um frigobar novinho, emprestado de uma amiga-mãe de uma coleguinha das meninas. Toda feliz, levei o essencial que estava na geladeira dos meus pais de volta para casa. A mini tem tomada três pinos - e eu, obviamente, não tinha um adaptador (oi, eu sou a Suzana).
* O calor é tanto que ontem eu dormi na banheira. Acordei com os cachorros bebendo água em cima de mim. Acordar sendo lambida é, também obviamente, ótimo quando a gente sabe quem está na outra ponta da lingua.
* E por falar nisso, não sei se é o calor, o ócio, a musculação ou a crise de meia idade mas eu preciso urgentemente de sexo. Porque, você sabe, já se vão... deixa eu ver... cinco anos sem?
Por aí. Mas quem está contando, né minha gente?
(euzinha. *suspiro*)
* O calor é tanto que ontem eu dormi na banheira. Acordei com os cachorros bebendo água em cima de mim. Acordar sendo lambida é, também obviamente, ótimo quando a gente sabe quem está na outra ponta da lingua.
* E por falar nisso, não sei se é o calor, o ócio, a musculação ou a crise de meia idade mas eu preciso urgentemente de sexo. Porque, você sabe, já se vão... deixa eu ver... cinco anos sem?
Por aí. Mas quem está contando, né minha gente?
(euzinha. *suspiro*)
sexta-feira, janeiro 28, 2011
Besta II - Missão Ócio
Sem nada para fazer além de ver televisão, resolvi levar a vagabundagem a níveis jamais imaginados (pelo menos para mim). Meu cabelo está da cor do inferno e brilhantes que nem anúncio da L'Oreal. As unhas ganham esmalte novo a cada dois dias. Fiz depilação onde jamais pensei que precisasse; mando bem na musculação duas horas ao dia, todo santo dia, e redescobri todos os cremes que acumulei no último ano e que não tirei nem da caixa.
Meus cachorros já estão aprendendo a fazer fiu-fiu.
Meus cachorros já estão aprendendo a fazer fiu-fiu.
quarta-feira, janeiro 26, 2011
Besta
Fazendo as contas, mesmo sem trabalhar vou pagar as contas raspando - somando a pensão do pai das meninas e a ajuda que minha mãe, religiosamente, pinga na minha conta para pagar a escola das meninas. Então, eu sou oficialmente aquela que vive às custas do ex-marido e dos pais.
A minha vergonha é tanta que eu simplesmente não ligo. Já mandei umas quatro dezenas de currículos e não obtive uma mísera resposta. A maior parte das vagas paga dois salários mínimos; o regime de contratação é PJ e, pasmem, pede pós-graduação. De nada valem duas línguas e quase 20 anos de experiência em quase todos os ramos da comunicação. Como eu não tenho pós não consigo sequer mandar o currículo.
Assim é que eu passo meus dias sozinha, vendo televisão da hora em que eu acordo até a hora em que vou dormir - quando eu durmo. Desde que a geladeira pifou (já se vai quase uma semana) minhas noites têm de uma a três horas de duração. Não tenho nada a me ocupar: nem as meninas, nem o trabalho, nada. Somente a lembrança do meu pai, curtindo seu desemprego regado a televisão e cigarros.
Currículo transbordando experiência, duas faculdades de primeira linha, dois idiomas na ponta da língua, um bom português. Tanto orgulho para nada.
A minha vergonha é tanta que eu simplesmente não ligo. Já mandei umas quatro dezenas de currículos e não obtive uma mísera resposta. A maior parte das vagas paga dois salários mínimos; o regime de contratação é PJ e, pasmem, pede pós-graduação. De nada valem duas línguas e quase 20 anos de experiência em quase todos os ramos da comunicação. Como eu não tenho pós não consigo sequer mandar o currículo.
Assim é que eu passo meus dias sozinha, vendo televisão da hora em que eu acordo até a hora em que vou dormir - quando eu durmo. Desde que a geladeira pifou (já se vai quase uma semana) minhas noites têm de uma a três horas de duração. Não tenho nada a me ocupar: nem as meninas, nem o trabalho, nada. Somente a lembrança do meu pai, curtindo seu desemprego regado a televisão e cigarros.
Currículo transbordando experiência, duas faculdades de primeira linha, dois idiomas na ponta da língua, um bom português. Tanto orgulho para nada.
A vida é uma Bosch
Abro a geladeira e penso na mesma hora em "como ela é valente, 12 anos sem nem um problema." No dia seguinte ela descongela sozinha. Preço do conserto: R$ 600. Tempo de espera para o conserto (até a peça vir da fábrica): 10 dias úteis.
Moral da história: Jamais elogie seus eletrodomésticos na presença deles.
Moral da história: Jamais elogie seus eletrodomésticos na presença deles.
terça-feira, janeiro 18, 2011
...
A casa dos meus pais, em Friburgo, sobreviveu. Os dois estavam no Rio. Eu estava lá. Sem água nem luz desde quarta-feira. Fiquei sozinha, terminando um trabalho e fingindo que não sentia medo que a casa fosse saqueada. A caseira aparecia de manhã cedinho - era o leva-e-traz entre eu e a civilização. Ela perdeu tudo. O filho mais velho construiu uma calha no telhado para recolher água da chuva. É essa água que a família dela bebe desde o temporal.
Ela ligou para meus pais na sexta-feira e, depois das notícias da região, perguntou timidamente o que fazer com toda a comida armazenada na geladeira e nos dois freezers, já que o sítio dos meus pais também está sem luz. Meu pai disse que ela levasse tudo, não apenas o que estava nos refrigeradores mas também no quarto da despensa que, por ser o lugar mais fresco, é onde minha mãe guarda verduras e frutas. Foi essa comida que sustentou a família dela e as da sua vizinhança. Cozinhamos uma boa parte. Ajudei a carregar tudo até a metade do caminho.
Ainda há corpos por lá. Os que são retirados da lama saem pretos, irreconhecíveis. Em alguns pontos da estrada o cheiro de carniça é insuportável. Muitos cachorros vagando pelos montes. A Defesa Civil chegou ontem onde ela mora, com água e comida. Muito depois é o sítio dos meus pais. Uma das duas estradas que levam até lá simplesmente não existe mais. A Defesa Civil ainda não chegou lá.
Um dos vizinhos tem um trator. Andando com ele por ali, consegui sinal de celular. Troquei e-mails, mandei torpedos. Ontem, com o tempo bom, desci depois de uma espera de seis horas na rodoviária. Despedi-me dos cachorros com o coração na boca, e fui embora.
Vocês não têm idéia da destruição. Eu não tenho idéia. Porque, afinal, não perdi ninguém, a casa dos meus pais está de pé, nada se perdeu. E até se sentir no ar, cheirar aquela brisa recendendo a carne podre e pó de lama, então aí se saberá o que foi a devastação que aconteceu.
Ela ligou para meus pais na sexta-feira e, depois das notícias da região, perguntou timidamente o que fazer com toda a comida armazenada na geladeira e nos dois freezers, já que o sítio dos meus pais também está sem luz. Meu pai disse que ela levasse tudo, não apenas o que estava nos refrigeradores mas também no quarto da despensa que, por ser o lugar mais fresco, é onde minha mãe guarda verduras e frutas. Foi essa comida que sustentou a família dela e as da sua vizinhança. Cozinhamos uma boa parte. Ajudei a carregar tudo até a metade do caminho.
Ainda há corpos por lá. Os que são retirados da lama saem pretos, irreconhecíveis. Em alguns pontos da estrada o cheiro de carniça é insuportável. Muitos cachorros vagando pelos montes. A Defesa Civil chegou ontem onde ela mora, com água e comida. Muito depois é o sítio dos meus pais. Uma das duas estradas que levam até lá simplesmente não existe mais. A Defesa Civil ainda não chegou lá.
Um dos vizinhos tem um trator. Andando com ele por ali, consegui sinal de celular. Troquei e-mails, mandei torpedos. Ontem, com o tempo bom, desci depois de uma espera de seis horas na rodoviária. Despedi-me dos cachorros com o coração na boca, e fui embora.
Vocês não têm idéia da destruição. Eu não tenho idéia. Porque, afinal, não perdi ninguém, a casa dos meus pais está de pé, nada se perdeu. E até se sentir no ar, cheirar aquela brisa recendendo a carne podre e pó de lama, então aí se saberá o que foi a devastação que aconteceu.
quarta-feira, janeiro 05, 2011
Goddess
As meninas têm uma coleção gigantesca de Barbies - da última vez que contei, beirava os 40 exemplares. Elas brincam com todas, apesar de Zé Colméia ter predileção pelos cavalos (tem seis) e Catatau, pelas princesas (porque, como ela apontou, os vestidos são mais brilhantes e, como ela ensinou, sem brilho você não é nada :o). Então, na lista de Papai Noel uma Barbie para cada eram itens indispensáveis.
Catatau, em cartinha ao Bom Velhinho, dispensou a sua e pediu uma Moxi Girl. Zé Colméia não especificou. Papai Noel mandou uma destas abaixo:

Adivinha qual ela ganhou - e minha pequena AMOU a boneca, que vai com seus stilettos pra tudo quanto é canto, incluindo supermercado & afins. E, confesso, chama uma baita atenção.
Se você achou as bonecas lindas e um loosho e quer saber mais sobre elas, mais informações você encontra nesse site, que tem tudo explicadinho sobre essa coleção.
Catatau, em cartinha ao Bom Velhinho, dispensou a sua e pediu uma Moxi Girl. Zé Colméia não especificou. Papai Noel mandou uma destas abaixo:

Adivinha qual ela ganhou - e minha pequena AMOU a boneca, que vai com seus stilettos pra tudo quanto é canto, incluindo supermercado & afins. E, confesso, chama uma baita atenção.
Se você achou as bonecas lindas e um loosho e quer saber mais sobre elas, mais informações você encontra nesse site, que tem tudo explicadinho sobre essa coleção.
terça-feira, dezembro 21, 2010
Entreaberto botão
Esqueci de contar. Zé Colméia de formou - Ensino Fundamental I. É, hoje tem essas bossas. Enfim. Eu tinha prometido a ela uma tarde no salão pra manicure, pedicure e muuuitos cachos. Comprei um vestido ma-ra-vi-lho-so e, obviamente, uma sandália de saltinho (cachos, peitos, desodorante, sandália de saltinho. Cresci, mamãe. Sou o máximo).
Então, a pré-aborrecente se sentindo adultíssima escolhendo cores de esmalte enquanto a cabeleireira cortava um dobrado para cachear a juba da moça. Catatau, em cima da hora, pediu pra fazer as unhas (esmalte preto, minha senhora. Aquela mão gordinha, cheia de furinhos, e as unhas pintadas de preto) enquanto eu adiantava o pagamento. O salão cheio, Cacatau fora da vista da irmã, falei bem alto para a moça do caixa:
- São um penteado e mais duas mãos e um pé.
Do outro lado do salão eu vi o beiço dela crescer e os olhinhos se encherem de lágrimas por baixo dos cachos.
- O que foi, filha?
- Eu só vou pintar as unhas de um pé? E o outro, mamãe? Vai sem nada?
E uma lagriminha rolou. E eu não me aguentei e apertei minha pequena tanto tanto tanto, porque sabe, ali já tem seios e rebeldia e querência de vôos mais altos, mas por baixo disso ainda existe minha filhinha pequena, minha garotinha que, nessa nova fase de sua vida, está aprendendo a engatinhar.
Então, a pré-aborrecente se sentindo adultíssima escolhendo cores de esmalte enquanto a cabeleireira cortava um dobrado para cachear a juba da moça. Catatau, em cima da hora, pediu pra fazer as unhas (esmalte preto, minha senhora. Aquela mão gordinha, cheia de furinhos, e as unhas pintadas de preto) enquanto eu adiantava o pagamento. O salão cheio, Cacatau fora da vista da irmã, falei bem alto para a moça do caixa:
- São um penteado e mais duas mãos e um pé.
Do outro lado do salão eu vi o beiço dela crescer e os olhinhos se encherem de lágrimas por baixo dos cachos.
- O que foi, filha?
- Eu só vou pintar as unhas de um pé? E o outro, mamãe? Vai sem nada?
E uma lagriminha rolou. E eu não me aguentei e apertei minha pequena tanto tanto tanto, porque sabe, ali já tem seios e rebeldia e querência de vôos mais altos, mas por baixo disso ainda existe minha filhinha pequena, minha garotinha que, nessa nova fase de sua vida, está aprendendo a engatinhar.
segunda-feira, dezembro 20, 2010
Esperando o Natal
Sabe as banananeiras? Eram duas, no início. Ontem vieram abaixo 18. E mais uma figueira podre. E mais uma tonelada de capim colonião. E mais galhos secos da goiabeira e do jamelão. E mais três cupinzeiros. E sei lá o que mais. Tudo acondicionado em 48 sacos de lixo de 100 litros. Porque, você sabe, eu sou a Suzana - é, isso mesmo, A Suzana, lembrou? - então é óbvio que a caçamba contratada com dias de antecedência não apareceu. E eu vou ter que descer esses quase 50 sacos de lixo pelos 70 degraus amanhã de manhã cedo para o caminhão de lixo levar.
Não, os troncos, não. Estes estão escondidos atrás do carro abandonado há dois anos na minha calçada (lembra? Eu? Suzana? Então.) pra euzinha jogar na caçamba.
Se e quando ela aparecer.
Não, os troncos, não. Estes estão escondidos atrás do carro abandonado há dois anos na minha calçada (lembra? Eu? Suzana? Então.) pra euzinha jogar na caçamba.
Se e quando ela aparecer.
segunda-feira, dezembro 13, 2010
Primeiro dia de férias
Minha vontade era andar bem depressa pela calçada, bem depressa e deixar as meninas bem pra trás e fingir que tenho despreocupados 20 anos. Porque quatro horas - você leu direito: quatro horas - ininterruptas de "Você está me irritando!" "Pára!" "Me larga!" "Ela que começou!" "Buaááá" e "Sua idiota!" (sim, "idiota" já consta do vocabulário pré-adolescente) são demais.
Até pra mim.
Até pra mim.
sexta-feira, dezembro 10, 2010
segunda-feira, dezembro 06, 2010
Do cão
Eu adoro:
Mãe que passeia com os 18 filhos de mãos dadas pela calçada e aí ninguém mais passa;
Mãe que pára com seus 18 filhos pulando ao redor pra conversar com outra mãe e seus 14 filhos no meio da calçada e aí ninguém mais passa;
Mãe que passeia a 0,050076342 centímetros por hora empurrando o carrinho (enquanto deixa o filho menor todo lambuzado de sorvete limpar a mão na roupa de quem passa) no meio da calçada e aí ninguém passa;
Mãe que pára para mexer na merendeira da filha na saída da escola e no meio da calçada e aí ninguém passa.
Eu a-do-ro.
Mãe que passeia com os 18 filhos de mãos dadas pela calçada e aí ninguém mais passa;
Mãe que pára com seus 18 filhos pulando ao redor pra conversar com outra mãe e seus 14 filhos no meio da calçada e aí ninguém mais passa;
Mãe que passeia a 0,050076342 centímetros por hora empurrando o carrinho (enquanto deixa o filho menor todo lambuzado de sorvete limpar a mão na roupa de quem passa) no meio da calçada e aí ninguém passa;
Mãe que pára para mexer na merendeira da filha na saída da escola e no meio da calçada e aí ninguém passa.
Eu a-do-ro.
...
Antes da tempestade eu comprei (à vista, que não sou mulher de prazos) uma máquina fotográfica. E me deu uma vontade doida de botar no ar as fotos das minhas meninas. Muita gente diz que é perigoso porque a-rede-está-cheia-de-pedófilos-que-copiam-fotos-de-crianças-inocentes. De outro lado, gostaria de dar uma cara, aos poucos que ainda vêm aqui, à Catatau e Zé Colméia.
A ver.
A ver.
sexta-feira, dezembro 03, 2010
Meus sais
Ontem foi o batizado da capoeira da Catatau. Obviamente, chorei litros ao ver minha pequena gingar fazendo juz ao seu novo nome: como uma Princesa. Delicadamente, com cuidado para não se machucar-e-fazer-roxos-nas-pernas, dando estrelas com leveza o suficiente para não sujar as mãos na quadra àquela altura imunda.
Sim, minha senhora. É assim que Catatau - aka Princesa - ginga capoeira.
Fresquíssima.
Sim, minha senhora. É assim que Catatau - aka Princesa - ginga capoeira.
Fresquíssima.
quinta-feira, dezembro 02, 2010
terça-feira, novembro 30, 2010
Papai Noel antecipado
Sentir-se um fracasso é a pior das sensações humanas. O fracasso. Todo um esforço jogado no lixo - e, pior, a notícia de que "Meu bem, seu trabalho foi em vão" chega sem avisar, quando você fecha a gaveta e encerra o ano com a esperança de que muitas coisas boas virão, fruto do seu trabalho.
Eu fui demitida, de novo, perto do Natal. "Ah, ela já tem experiência nisso, não é?" Sim, tenho experiência. Em ter que devolver os presentes das meninas comprados para o dia 25; em andar muito a pé; em rezar para não ficar doente pela falta de plano de saúde; em reaproveitar roupas, colar sapatos, costurar tênis com fio dental, contar as bolas de almôndegas, os biscoitos no pacote. A mendigar o pagamento do frila, a não dormir por causa das contas atrasadas. A sentar com as meninas e dizer "mamãe perdeu o emprego."
A Experiência. E então a moça do DP diz "Coisas boas virão de novo".
Claro que virão. Eu só quero que elas durem.
Eu fui demitida, de novo, perto do Natal. "Ah, ela já tem experiência nisso, não é?" Sim, tenho experiência. Em ter que devolver os presentes das meninas comprados para o dia 25; em andar muito a pé; em rezar para não ficar doente pela falta de plano de saúde; em reaproveitar roupas, colar sapatos, costurar tênis com fio dental, contar as bolas de almôndegas, os biscoitos no pacote. A mendigar o pagamento do frila, a não dormir por causa das contas atrasadas. A sentar com as meninas e dizer "mamãe perdeu o emprego."
A Experiência. E então a moça do DP diz "Coisas boas virão de novo".
Claro que virão. Eu só quero que elas durem.
sexta-feira, novembro 12, 2010
Abaixo do Equador
Temporais de madrugada no Rio são mágicas: a mulher vai dormir carioca, levanta-se americana e sai pra trabalhar londrina - de sobretudo, botas e cachecol. E ainda atocha luvas no filho que vai pra escola, tadinho.
... e sem escalas
E então eu estava com aquele vestido verde-água poderoso. Fluido, elegante. Escolhendo, poderosa, DVDs na megastore, com cara de refinada culturalmente. Com um DVD nas mãos, desci do mezanino pela escada rolante no meio do imenso salão da loja, de pescoço erguido. E soberba em minha aura de elegância quase fico pelada no meio da Saraiva, a saia do vestido, inclemente, enganchada entre os degraus.
Deus castiga, viu?
Deus castiga, viu?
Direto pro inferno...
"Credo, que sapato medonho."
"Que calça apertada - será possível que ela acha isso lindo?"
"Meu-Deus-que-fedor! Desodorante, plizi!"
"Que cabelo... Jogou tinta de caneta na cabeça, fofa?"
"Parir um bebê assim tão feio deve ser castigo por outra encarnação."
"Essa saia não te valoriza, querida. Suas pernas NÃO SÃO lindas como você acha."
"Moço, se acha que com esse xaveco você tá podendo, sinto dizer que não, não está."
"Você JURA que acha esse esmalte bonito? Jura?"
"Quem te disse que bolsa micra é moda te enganou vergonhosamente."
"Dá pra parar de comer esse churro gordurento na minha cara, filhinha?"
A caminho do trabalho no metrô. Uns 300 anos de umbral, por baixo.
"Que calça apertada - será possível que ela acha isso lindo?"
"Meu-Deus-que-fedor! Desodorante, plizi!"
"Que cabelo... Jogou tinta de caneta na cabeça, fofa?"
"Parir um bebê assim tão feio deve ser castigo por outra encarnação."
"Essa saia não te valoriza, querida. Suas pernas NÃO SÃO lindas como você acha."
"Moço, se acha que com esse xaveco você tá podendo, sinto dizer que não, não está."
"Você JURA que acha esse esmalte bonito? Jura?"
"Quem te disse que bolsa micra é moda te enganou vergonhosamente."
"Dá pra parar de comer esse churro gordurento na minha cara, filhinha?"
A caminho do trabalho no metrô. Uns 300 anos de umbral, por baixo.
quarta-feira, outubro 27, 2010
Riscarei do meu caderninho
Até o fim do ano eu preciso terminar a lista de coisas que eu prometi fazer até 31 de dezembro - coias absolutamente irrelevantes que eu empurro com a barriga a... deixeuver... 3 anos?
- Arrumar a bagunça da minha página no Linkedin;
- Mandar fazer um livro do meu Breviário para dar às meninas quando elas fizerem 15 anos;
- Arrumar minhas bonecas;
- Mandar lavar os bichos de pelúcia - meus e das meninas;
- Organizar minha biblioteca;
E por aí vai.
Hein? 2010? Tá mais pra 2011, amor.
- Arrumar a bagunça da minha página no Linkedin;
- Mandar fazer um livro do meu Breviário para dar às meninas quando elas fizerem 15 anos;
- Arrumar minhas bonecas;
- Mandar lavar os bichos de pelúcia - meus e das meninas;
- Organizar minha biblioteca;
E por aí vai.
Hein? 2010? Tá mais pra 2011, amor.
Catatau
- Aqui, filha: papel decorado pra você escrever sua carta pro Papai Noel. Capricha, tá? Se fizer garrancho ele não vai entender nada do que você quer.
[45 minutos depois]
- Já terminou?
- Ainda não.
- Mas a folha tá em branco! O que aconteceu?
- Sabe o que é, mamãe? Eu pensei, pensei, e não consigo lembrar de nada que eu queira.
- Você não quer nada?
- Não, mamãe. Eu não preciso de nada; eu sou feliz.
[45 minutos depois]
- Já terminou?
- Ainda não.
- Mas a folha tá em branco! O que aconteceu?
- Sabe o que é, mamãe? Eu pensei, pensei, e não consigo lembrar de nada que eu queira.
- Você não quer nada?
- Não, mamãe. Eu não preciso de nada; eu sou feliz.
quarta-feira, setembro 22, 2010
Hate on me*
Posts longos. Noites com mais de quatro horas de sono. Unhas feitas às segundas-feiras. Uma conversa com minhas filhas que não envolva "Você já fez isso?" ou "Depois a gente conversa."
Eu disse essa última frase para Catatau enquanto lavava a louça e tentava me desviar do cachorro que me lambia as pernas com bafo de osso recém-roído. "Depois, quando, mamãe? Você só diz isso: 'depois', 'depois', 'depois'."
Depois. E eu jurei que não deixaria, nunca mais, nada para depois. E pra depois vão ficando as coisas, porque eu sinto que os anos que não dediquei a uma carreira estão me dando uma última oportunidade antes de irem embora pra nunca mais voltarem. Duas vezes por mês vou a São Paulo, e na terça vou apresentar o meu trabalho a um editor americano que foi contratado para dar um gás na empresa onde estou. Ele quer ver o que eu estou fazendo. Ouvir o que eu tenho a dizer. Os editores foram convidados a assistir. E a perguntar. Mas eu vou apresentar. E então. A oportunidade.
De manhã cedo, espremida entre as meninas no banco de trás do táxi, enquanto as duas tagarelam eu vou pensando e escrevendo as malditas cartas que se acumulam cheias de pó na minha cabeça. Escrevo para mim mesma - listas de coisas a fazer, comprar, cancelar, providenciar, encomendar, imprimir, esquecer. Deixo as meninas na escola e vejo quantas crianças chegam em carrinhos, tão grandes já que quase fazem a lona do assento encostar no chão; quatro, cinco anos, com as inseparáveis chupetas que as mães não ousam tirar. Algumas fazem a parada obrigatória no baleiro, abastecendo a merendeira já estufada pelo saco de batatas fritas com as balas e chhicletes do dia. E eu então escrevo uma longa carta de agradecimento à minha mãe que, no seu jeito quieto, não seguiu o rigor hipócrita do meu pai e nos criou à base de muito leite, carne e verduras, num cardápio temperado a Mentex, Frutella e balas Soft.
No metrô, na ida e na volta, escrevo aos meus amigos, alguns já mortos, sobre como é feia a moda de sapatos de bico fino; que interessante era aquele rapaz chinês lendo um livro em mandarim; a expressão da moça que olhava, com inveja, o casal se beijando na sua frente, ou como todo mundo parece se esquecer, com seus iPods & assemelhados que, sim senhor, fazemos todos parte de uma mesma humanidade então não adianta fingir que não viu a velhinha século XIX entrando no vagão.
Chego em casa e encerro o dia perto da meia-noite. Durmo no sofá do meu quarto e quem me acorda é um dos cachorros, me lambendo a cara. Retomo a vida perto de uma da manhã - tomo banho, apago as luzes, checo as meninas; me deito no escuro e escrevo a derradeira carta, aquela para que comprei papel de carta, envelopes, que tomei coragem e perguntei "Você me dá seu endereço?". Uma carta que jamais tem menos do que três páginas, onde abro o coração de uma maneira que não faço nem para mim mesma.
De uma maneira desapaixonada, me dou liberdade de questionar a vida, falar do meu medo de envelhecer sem ninguém, da solidão em que construo todo os meus santos dias, das coisas que queria fazer e não consigo, daquilo que faço e não deveria, das minhas conquistas que, no silêncio da madrugada, não interessam a absolutamente ninguém.
Escrever essas cartas no papel que escolhi - papel linho, branco e macio - e não apenas dentro de mim. Um dia. Porque elas nunca terminam com um "Saudades" ou "Com carinho". Quando durmo, escrevo no fim da página "Depois a gente conversa".
*Jill Scott. Música que não consigo parar de ouvir.
Eu disse essa última frase para Catatau enquanto lavava a louça e tentava me desviar do cachorro que me lambia as pernas com bafo de osso recém-roído. "Depois, quando, mamãe? Você só diz isso: 'depois', 'depois', 'depois'."
Depois. E eu jurei que não deixaria, nunca mais, nada para depois. E pra depois vão ficando as coisas, porque eu sinto que os anos que não dediquei a uma carreira estão me dando uma última oportunidade antes de irem embora pra nunca mais voltarem. Duas vezes por mês vou a São Paulo, e na terça vou apresentar o meu trabalho a um editor americano que foi contratado para dar um gás na empresa onde estou. Ele quer ver o que eu estou fazendo. Ouvir o que eu tenho a dizer. Os editores foram convidados a assistir. E a perguntar. Mas eu vou apresentar. E então. A oportunidade.
De manhã cedo, espremida entre as meninas no banco de trás do táxi, enquanto as duas tagarelam eu vou pensando e escrevendo as malditas cartas que se acumulam cheias de pó na minha cabeça. Escrevo para mim mesma - listas de coisas a fazer, comprar, cancelar, providenciar, encomendar, imprimir, esquecer. Deixo as meninas na escola e vejo quantas crianças chegam em carrinhos, tão grandes já que quase fazem a lona do assento encostar no chão; quatro, cinco anos, com as inseparáveis chupetas que as mães não ousam tirar. Algumas fazem a parada obrigatória no baleiro, abastecendo a merendeira já estufada pelo saco de batatas fritas com as balas e chhicletes do dia. E eu então escrevo uma longa carta de agradecimento à minha mãe que, no seu jeito quieto, não seguiu o rigor hipócrita do meu pai e nos criou à base de muito leite, carne e verduras, num cardápio temperado a Mentex, Frutella e balas Soft.
No metrô, na ida e na volta, escrevo aos meus amigos, alguns já mortos, sobre como é feia a moda de sapatos de bico fino; que interessante era aquele rapaz chinês lendo um livro em mandarim; a expressão da moça que olhava, com inveja, o casal se beijando na sua frente, ou como todo mundo parece se esquecer, com seus iPods & assemelhados que, sim senhor, fazemos todos parte de uma mesma humanidade então não adianta fingir que não viu a velhinha século XIX entrando no vagão.
Chego em casa e encerro o dia perto da meia-noite. Durmo no sofá do meu quarto e quem me acorda é um dos cachorros, me lambendo a cara. Retomo a vida perto de uma da manhã - tomo banho, apago as luzes, checo as meninas; me deito no escuro e escrevo a derradeira carta, aquela para que comprei papel de carta, envelopes, que tomei coragem e perguntei "Você me dá seu endereço?". Uma carta que jamais tem menos do que três páginas, onde abro o coração de uma maneira que não faço nem para mim mesma.
De uma maneira desapaixonada, me dou liberdade de questionar a vida, falar do meu medo de envelhecer sem ninguém, da solidão em que construo todo os meus santos dias, das coisas que queria fazer e não consigo, daquilo que faço e não deveria, das minhas conquistas que, no silêncio da madrugada, não interessam a absolutamente ninguém.
Escrever essas cartas no papel que escolhi - papel linho, branco e macio - e não apenas dentro de mim. Um dia. Porque elas nunca terminam com um "Saudades" ou "Com carinho". Quando durmo, escrevo no fim da página "Depois a gente conversa".
*Jill Scott. Música que não consigo parar de ouvir.
segunda-feira, setembro 13, 2010
Paz
Às vezes bastam dez minutos de silêncio e uma boa lembrança para rearrumar o mundo e trazer a existência de volta ao seu eixo.
terça-feira, agosto 03, 2010
Trote
Uma das coisas que eu mais gosto é ver um homem dirigir. É claro que eu tenho que estar envolvida com ele (não, eu não persigo motoristas de táxi). Mas é um sentimento meio assim, de me sentir segura, sabe? Eu sou a mocinha na garupa do cavalo branco, nós dois cavalgando em direção ao pôr do sol.
Ridículo.
Ridículo.
quinta-feira, julho 29, 2010
Papier Chocolatier

Na papelaria, escolhendo material:
- Cadê sua irmã?
- Sei lá, ela estava ali naquele cantinho, com aquele caderno que cheira a chocolate. Ali, tá vendo? Atrás das agendas, bem no cantinho, no meio das pastas de elástico.
[...]
- CATATAU!
- Ui, mãe!
- Mas o que você está fazendo?
- Er... Nada, mãe.
- Como nada?
- Nada, mãe, eu só estava... bem... vendo esses cadernos.
- Vendo? Você estava LAMBENDO as capas!
*suspiro*
quarta-feira, julho 21, 2010
Primavera outonal
44.
Vamos ver... 44x2=88
É, dá pra dizer que estou na metade da vida. Ainda.
Então tá, né?
Viva eu.
Vamos ver... 44x2=88
É, dá pra dizer que estou na metade da vida. Ainda.
Então tá, né?
Viva eu.
terça-feira, julho 20, 2010
segunda-feira, julho 05, 2010
Há nove anos

Acordar de bom humor é um dom, seja verão calorento ou inverno frio e chuvoso. É um dom rir e fazer um vagão inteiro, superlotado e calorento, rir também – com ela, não dela. Avaliar a situação com apenas um olhar gordinho; guardar, de centavo em centavo, R$ 300 em quatro meses; saber quando pedir e quando calar. Abençoada com a destreza em enrolar qualquer um para pedir mais – ou conseguir menos quando convém. É um talento descobrir o que pode ser feito com paciência, e o que deve ganhar prontidão. Quando fazer beicinho e bater pé, quando revirar os olhos e pedir “por favor” com voz de coelhinho perdido na floresta fria e escura.
É um dom ser Catatau. E uma graça infinita eu ser mãe dela.
Feliz aniversario, querida.
terça-feira, junho 29, 2010
Figuração
Eu queria muito saber onde a Colgate arranja tanto dentista gato. Deve ser por isso que eles dão só o número do registro no Conselho - jamais o estado. Porque aí, né? Vai ter gente querendo provar a pasta de dentes ali, na boca do dentis... quer dizer, do caixa.
Euzinha inclusa.
Euzinha inclusa.
quarta-feira, junho 23, 2010
Pra frente, Brasil!
- Mãe, tem um repórter no meio do campo!
- Peraí, tô terminando de fazer a pipoca!
- Mãe, vem logo! O homem tá correndo atrás dos jogadores e ninguém quer falar com ele!
- Mas o jogo não começou?
- Começou, e o cara tá correndo atrás de todo mundo! De microfone no ouvido, sabe? Que nem a moça do Disney Channel? E todo mundo fugindo dele, coitado. Ninguém quer dar entrevista - mas também precisa ser na hora do jogo?
- Cheguei! Cadê o homem?
- Ali, mamãe. Tá vendo?
- Não, não tô vendo nada! Meu Deus, cadê esse repórter que invadiu o campo? Ninguém fez nada? Cadê ele?
- A-li, mamãe. Tá cega?
- Onde, Gizuizcristim?
- ALI!!!!
E então eu vi. O juiz.
- Peraí, tô terminando de fazer a pipoca!
- Mãe, vem logo! O homem tá correndo atrás dos jogadores e ninguém quer falar com ele!
- Mas o jogo não começou?
- Começou, e o cara tá correndo atrás de todo mundo! De microfone no ouvido, sabe? Que nem a moça do Disney Channel? E todo mundo fugindo dele, coitado. Ninguém quer dar entrevista - mas também precisa ser na hora do jogo?
- Cheguei! Cadê o homem?
- Ali, mamãe. Tá vendo?
- Não, não tô vendo nada! Meu Deus, cadê esse repórter que invadiu o campo? Ninguém fez nada? Cadê ele?
- A-li, mamãe. Tá cega?
- Onde, Gizuizcristim?
- ALI!!!!
E então eu vi. O juiz.
segunda-feira, junho 21, 2010
Há 11 anos

Onze anos é uma vida. A vida de Zé Colméia. “Mamãe, escreve na minha agenda por favor que eu estou no inferno astral”. Ela aprendeu a desculpa perfeita para o mau humor cavalar que a acometeu nos últimos dias. “Insuportável” não descreve a figurinha nem no geral, quanto mais nos detalhes.
Porque, sabe, ela odeia Copa do Mundo. Porque teve jogo no dia do aniversário dela – e zero de possibilidade de eu levá-la a um restaurante, como ela tanto queria. “Filha, mas tem a festa na escola, na próxima sexta-feira.” “Mãe, tem JOGO na próxima sexta”. “Então a gente faz na segunda. Ou na terça”. “Ai, Jesus, o Brasil vai jogar na segunda ou na terça. ODEIO COPA DO MUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUNDO!”
E assim foi. O jantar de comemoração foi no sábado, ela e a família do pai. Então eu levei ela e Catatau ao salão, pela primeira vez na vida, pra fazer as unhas. Catatau ia num vestido balonê lindo, lavanda, com uma rosa delicada no peito. Para complementar o visual, meia fina branca de bolinhas, sapato princesa cor de rosa e unhas preto-e-pink – uma preta, uma pink; uma preta, uma pink. Zé Colméia, num look chic-adulta, foi de chemisier azul marinho de pois – e unhas pink-com-brilho em cima (sim, mãos para batalhar na noite, que Deus me perdoe). Completando, bolsa-carteira rosa-pink da Barbie e sapatos idem. Um looshoo.
Divertiram-se as duas. Muito. Baldes. Foram dormir rindo às gargalhadas. De manhã cedo, os olhos de minha pequena cintilaram - como não o fizeram com as dúzias de pacotes recebidos na véspera - ao abrir meu presente: o primeiro sutiã*.
Felicidades, filha. Mamãe te ama de-mais!
* Experimentado em 0,0087 segundos e retirado aos gritos de “Ai, que coisa horrível, como aperta, pinica, coça, incomoda, tiiiirrrrrrraaaaaaaaggggggggggggoooooooooorrrraaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!
quinta-feira, junho 10, 2010
Amor estatístico*
sexta-feira, junho 04, 2010
...
E o monitor do meu computador finou-se.
Juntou-se ao micro-ondas, às lâmpadas do exterior de casa, ao aspirador de pó, ao chuveiro elétrico. Botou a mãozinha no coração e, sem nem um miado, apagou-se.
Estou numa lan house. Doida de vontade de trocar a foto aí de cima. Mas não dá pra botar o nome do blog.
*suspiro*
Juntou-se ao micro-ondas, às lâmpadas do exterior de casa, ao aspirador de pó, ao chuveiro elétrico. Botou a mãozinha no coração e, sem nem um miado, apagou-se.
Estou numa lan house. Doida de vontade de trocar a foto aí de cima. Mas não dá pra botar o nome do blog.
*suspiro*
sexta-feira, maio 21, 2010
Apocalipto
A lista de desgraças atuais inclui:
Vazamento gigante não localizado (indicativo: caixa d'água de mil litros que se esvazia, sem ninguém em casa, em 12 horas)
Chuveiro elétrico pifado
Pia do banheiro descolada do mármore (interditada)
Duas tomadas em curto
Ferro elétrico liga-não-quer-ligar
Minha empregada. Ela voltou.
Aquela que traz destruição só de entrar num recinto.
Aquela que destrói as asas das xícaras só de usá-las.
Que racha pratos num simples raspar de garfo (sim, meninos, eu vi)
Que trinca vidros de janelas ao aspergir-lhes álcool
Im-pres-si-o-nan-te.
Vazamento gigante não localizado (indicativo: caixa d'água de mil litros que se esvazia, sem ninguém em casa, em 12 horas)
Chuveiro elétrico pifado
Pia do banheiro descolada do mármore (interditada)
Duas tomadas em curto
Ferro elétrico liga-não-quer-ligar
Minha empregada. Ela voltou.
Aquela que traz destruição só de entrar num recinto.
Aquela que destrói as asas das xícaras só de usá-las.
Que racha pratos num simples raspar de garfo (sim, meninos, eu vi)
Que trinca vidros de janelas ao aspergir-lhes álcool
Im-pres-si-o-nan-te.
No início
Catatau está doente. Dor de garganta, muita febre, dor de estômago.
Cuidar dela - Deus me perdoe - é uma das coisas mais gostosas de se fazer (não, não gosto de ver minha pequena sofrendo. Quero mais que ela fique boa). Porque ela sofre da Síndrome do Ninho - quando está ferida, doente, magoada, quer colo de mãe.
E como isso anda raro, hoje em dia.
Cuidar dela - Deus me perdoe - é uma das coisas mais gostosas de se fazer (não, não gosto de ver minha pequena sofrendo. Quero mais que ela fique boa). Porque ela sofre da Síndrome do Ninho - quando está ferida, doente, magoada, quer colo de mãe.
E como isso anda raro, hoje em dia.
...
Deixar um blog às moscas deveria ser crime.
Abandono de incapaz.
Preciso achar uma lanhouse perto do trabalho.
É urgente.
Abandono de incapaz.
Preciso achar uma lanhouse perto do trabalho.
É urgente.
quarta-feira, maio 05, 2010
O inferno é o limite
- Alô.
- Por favor, a Suzana?
- É ela.
- Ahn... Aqui é a Fulana, mãe da Sicraninha e do Beltraninho. Tudo bem? Seguinte: amanhã tem o almoço do Dia das Mães lá na escola, né? Sabe o que é? Eu marquei hora com uma mulher que é ma-ra-vi-lho-sa pra fazer a tinta - dizem que é ela que faz aquele louro da Global da Hora, sabe quem é? Daquela novela? Aí que ela só vai me atender na hora do almoço e será que não dá pra você não ir no almoço da escola? Porque aí a Sicraninha não vai chorar porque eu não vou - se você, que sempre vai, não for, aí ela vai fazer companhia pra [...] e aí elas ficam juntas no almoço, né? Já liguei para a mãe do X, da Y e do Z mas não consegui falar com elas. Então, você pode não ir ao almoço do Dia das Mães?"
Juro.
- Por favor, a Suzana?
- É ela.
- Ahn... Aqui é a Fulana, mãe da Sicraninha e do Beltraninho. Tudo bem? Seguinte: amanhã tem o almoço do Dia das Mães lá na escola, né? Sabe o que é? Eu marquei hora com uma mulher que é ma-ra-vi-lho-sa pra fazer a tinta - dizem que é ela que faz aquele louro da Global da Hora, sabe quem é? Daquela novela? Aí que ela só vai me atender na hora do almoço e será que não dá pra você não ir no almoço da escola? Porque aí a Sicraninha não vai chorar porque eu não vou - se você, que sempre vai, não for, aí ela vai fazer companhia pra [...] e aí elas ficam juntas no almoço, né? Já liguei para a mãe do X, da Y e do Z mas não consegui falar com elas. Então, você pode não ir ao almoço do Dia das Mães?"
Juro.
quinta-feira, abril 29, 2010
A caminho
Ser mãe é:
Fingir que está dormindo porque não está a fim de levantar e brincar de "Barbie vai às compras com Polly";
Deixar para jantar depois que os filhos dormem, pra não ter que ouvir "Você vai comer isso tudo - e não vai deixar nada pra gente?" (mesmo que seja aquele miojex básico, frio, de dois dias de geladeira);
Comer (escondido, óbvio) o restinho do ovo de chocolate de uma. E descobrir que a proprietária vai armar um escarcéu. Então tirar um pedaço mais ou menos do mesmo tamanho de outro ovo aberto e botar lá, em substituição. E fazer cara de paisagem quando a filha disser "Olha, esse pedaço não tem cocrante. Que esquisito!"
No caos-de-cada-dia, esquecer que enfurnou a faixa do quimono numa gaveta do armário (para não perdê-la no caos-do-dia-a-dia, veja só). E botar todo mundo pra procurar. E se irritar, descabelar-se, e achar a faixa, e morrer de vergonha do esquecimento - e acenar com a cabeça (humilhação suprema) quando a filha diz "Também a fulana enfurna tudo, né mãe", fazendo uma anotação mental de pedir perdão à empregada;
Enfiar o nariz naquele pescoço cheirando a suor e brincadeira quando o mundo lá fora parece muito, muito cruel.
Estou feliz, Angélica. Nenhuma criança mereceria uma mãe melhor do que você para acompanhá-la nesse mundo.
Fingir que está dormindo porque não está a fim de levantar e brincar de "Barbie vai às compras com Polly";
Deixar para jantar depois que os filhos dormem, pra não ter que ouvir "Você vai comer isso tudo - e não vai deixar nada pra gente?" (mesmo que seja aquele miojex básico, frio, de dois dias de geladeira);
Comer (escondido, óbvio) o restinho do ovo de chocolate de uma. E descobrir que a proprietária vai armar um escarcéu. Então tirar um pedaço mais ou menos do mesmo tamanho de outro ovo aberto e botar lá, em substituição. E fazer cara de paisagem quando a filha disser "Olha, esse pedaço não tem cocrante. Que esquisito!"
No caos-de-cada-dia, esquecer que enfurnou a faixa do quimono numa gaveta do armário (para não perdê-la no caos-do-dia-a-dia, veja só). E botar todo mundo pra procurar. E se irritar, descabelar-se, e achar a faixa, e morrer de vergonha do esquecimento - e acenar com a cabeça (humilhação suprema) quando a filha diz "Também a fulana enfurna tudo, né mãe", fazendo uma anotação mental de pedir perdão à empregada;
Enfiar o nariz naquele pescoço cheirando a suor e brincadeira quando o mundo lá fora parece muito, muito cruel.
Estou feliz, Angélica. Nenhuma criança mereceria uma mãe melhor do que você para acompanhá-la nesse mundo.
quarta-feira, abril 28, 2010
Saudade
Acordei muito cedo com um torpedo da Cristiane. Sentei na cama, respondi e chorei. Porque a gente se põe no lugar do outro que está sofrendo, tenta sentir o que ele sente e pensar numa maneira de amenizar aquela dor que, no fim, é o que nos molda na vida, por mais clichê que pareça.
Dói mais ainda porque olhamos nossos pais e não percebemos que os dedos se entortaram - exatamente pelo caminho que os seus já anunciam - os cabelos embranqueceram, a pele tornou-se papel de seda. São nossos pais. Não podem simplesmente deixar de ser só porque nossos filhos experimentam o que é nosso, cobiçam nossa vida e nossas liberdades de dormir tarde e jantar amendoins. São nossos pais. Eles são - verbo que não se conjuga, jamais, no pretérito, mesmo que ele tenha sido perfeito.
Dói mais ainda porque olhamos nossos pais e não percebemos que os dedos se entortaram - exatamente pelo caminho que os seus já anunciam - os cabelos embranqueceram, a pele tornou-se papel de seda. São nossos pais. Não podem simplesmente deixar de ser só porque nossos filhos experimentam o que é nosso, cobiçam nossa vida e nossas liberdades de dormir tarde e jantar amendoins. São nossos pais. Eles são - verbo que não se conjuga, jamais, no pretérito, mesmo que ele tenha sido perfeito.
Nome aos bois
"Anônimo disse...
Pq essa vontade insaciavel de estar sempre com um homem??? Vc está numa outra estapa da vida. Não precisa de beijo na boca nao.
Vá criar suas filhas. É a melhor coisa que vc pode fazer.
Por enquanto vc pode exigir sexo casual, mas acho exagero em querer um relacionamento serio. Vc não é nenhuma adolescente!
Pra sexo casual, quiçá um namoro, eu te recomendo o chat do site uol.
É otimo!"
Repetindo: "Pq essa vontade insaciavel de estar sempre com um homem??? Vc está numa outra estapa da vida. Não precisa de beijo na boca nao. [...]
Por enquanto vc pode exigir sexo casual, mas acho exagero em querer um relacionamento serio. Vc não é nenhuma adolescente!"
Sexo casual. Você fica nua, física e psicologicamente, e alguém entra no seu corpo, física e psicologicamente. Pra mim isso jamais, em tempo algum, será casual.
Aí, como eu sou uma velha ranzinza e que leva uma vida mesquinha (como disse um outro sem nome), comentários não identificados serão deletados. Porque não assumir o que se diz é coisa de adolescente, e eu aposto que você não é um.
Pq essa vontade insaciavel de estar sempre com um homem??? Vc está numa outra estapa da vida. Não precisa de beijo na boca nao.
Vá criar suas filhas. É a melhor coisa que vc pode fazer.
Por enquanto vc pode exigir sexo casual, mas acho exagero em querer um relacionamento serio. Vc não é nenhuma adolescente!
Pra sexo casual, quiçá um namoro, eu te recomendo o chat do site uol.
É otimo!"
Repetindo: "Pq essa vontade insaciavel de estar sempre com um homem??? Vc está numa outra estapa da vida. Não precisa de beijo na boca nao. [...]
Por enquanto vc pode exigir sexo casual, mas acho exagero em querer um relacionamento serio. Vc não é nenhuma adolescente!"
Sexo casual. Você fica nua, física e psicologicamente, e alguém entra no seu corpo, física e psicologicamente. Pra mim isso jamais, em tempo algum, será casual.
Aí, como eu sou uma velha ranzinza e que leva uma vida mesquinha (como disse um outro sem nome), comentários não identificados serão deletados. Porque não assumir o que se diz é coisa de adolescente, e eu aposto que você não é um.
sábado, abril 17, 2010
...
O mundo gira, a Lusitana roda.
O casamento acaba, os cacos continuam debaixo do tapete pedindo cola ou o lixo definitivo, mas a gente bota a energia pra não deixar o mato invadir o canteiro, as paredes descascarem, os filhos desandarem.
A gente tem câncer, mas lá vem o bilhetinho na agenda avisando que tem apresentação sobre a chegada da primavera ("Contamos com você lá!"), a ração dos cachorros chega ao fim e as contas continuam a aparecer debaixo da porta impreterivelmente quando não temos mais dinheiro para pagá-las. Nossas roupas acabam - mas se continuam novas alguém herda tudo e um dia vai dizer: "Isso está tão puído!"
Choramos quando perdemos alguém, e na casa em frente ouvimos o parabéns pra você cantado e ip-ip-hurrado. Sentimos o coração afundar ao saber que "...infelizmente não posso ficar com você" enquanto alguém puxa a sua manga para avisar que acabou o papel higiênico no banheiro.
A vida segue. E eu quero amar de novo.
Por favor.
O casamento acaba, os cacos continuam debaixo do tapete pedindo cola ou o lixo definitivo, mas a gente bota a energia pra não deixar o mato invadir o canteiro, as paredes descascarem, os filhos desandarem.
A gente tem câncer, mas lá vem o bilhetinho na agenda avisando que tem apresentação sobre a chegada da primavera ("Contamos com você lá!"), a ração dos cachorros chega ao fim e as contas continuam a aparecer debaixo da porta impreterivelmente quando não temos mais dinheiro para pagá-las. Nossas roupas acabam - mas se continuam novas alguém herda tudo e um dia vai dizer: "Isso está tão puído!"
Choramos quando perdemos alguém, e na casa em frente ouvimos o parabéns pra você cantado e ip-ip-hurrado. Sentimos o coração afundar ao saber que "...infelizmente não posso ficar com você" enquanto alguém puxa a sua manga para avisar que acabou o papel higiênico no banheiro.
A vida segue. E eu quero amar de novo.
Por favor.
quarta-feira, abril 14, 2010
...
Minha advogada ligou para avisar que o juiz não aceitou a denúncia do Ministério Público e decidiu arquivar o processo criminal contra o meu vizinho pela morte da minha cadela.
Então a gente continua assim: janelas eternamente fechadas, sussurrando pelos cantos, com medo de ir ao banheiro e sem viajar, que é para os cachorros não ficarem sozinhos.
Sério, estou cansada. De ficar sozinha, se não ter pra quem dizer "Olha, faz voz bem grossa, uma cara bem feia, vai lá e resolve pra mim, porque eu sou frágil e delicada." Estou cansada de procurar analista pra criança, conversar com professora, segurar a sanidade mental dos outros em detrimento da minha.
Uma vez, uma vez só eu queria que alguém se responsabilizasse por mim. Mesmo que eu estivesse em cima do telhado, cacarejando ao vento.
Só uma vez, pra variar.
Então a gente continua assim: janelas eternamente fechadas, sussurrando pelos cantos, com medo de ir ao banheiro e sem viajar, que é para os cachorros não ficarem sozinhos.
Sério, estou cansada. De ficar sozinha, se não ter pra quem dizer "Olha, faz voz bem grossa, uma cara bem feia, vai lá e resolve pra mim, porque eu sou frágil e delicada." Estou cansada de procurar analista pra criança, conversar com professora, segurar a sanidade mental dos outros em detrimento da minha.
Uma vez, uma vez só eu queria que alguém se responsabilizasse por mim. Mesmo que eu estivesse em cima do telhado, cacarejando ao vento.
Só uma vez, pra variar.
sábado, abril 10, 2010
Ponte aérea
Tem gente que acha puro glamour aquela profissão em que se dá um pulinho em São Paulo umas três vezes por semana. Eu não, baby. Detesto sair de casa, vá dizer de cidade, de estado. Tô fora.
Enfim. Quinta de manhã desovei as meninas na escola às sete da manhã e fui pro Santos Dumont. Atrasada, lógico - pra ida e pra volta. Um frio do cão, chuva que nem aqui, pousei no Rio às nove da noite. O que eu aprendi nesse dia:
* Refeições são patrocinadas. "Bom dia, blábláblá as comissárias a seguir estarão servindo um café da manhã com a saborosa linha ETC E TAL, mais saúde e sabor para o seu dia." E aquele suspiro coletivo e resignado de "Que merda!" e as moçoilas distribuindo uma caixinha com as coisas com mais saúde e sabor. De repente, um cheiro de peixe no ar. E o homem de cabelo ensebado, oleoso e untuoso na poltrona à minha frente levanta-se e, segurando uma lata de atum no azeite com a mão esquerda, abre o bagageiro com a direita e saca da bolsa, sob os olhos apavorados do povo, um garfo.
* Estou lançando uma campanha para que todas - TODAS - as companhias de cosmético do planeta pensem seriamente em banir a sombra azul de suas cartelas de cores. Porque, assim, sombra azul cintilante às sete da manhã é cafona, minha senhora. A não ser que a senhora tenha sido contratada para dar susto nos passageiros que estão cag... ignorando a comissária enquanto ela encena a pantomima narrada "E as máscaras cairão do teto", um clássico da aviação civil há meio século.
* Um frio de rachar. E o avião cheio de mulher de sandália de salto, minissaia e casaco com gola de pele (oi?). Como diria Renata, supercoerente.
* "Boa noite! Quem fala é o Comandante T (Tapado?) que dá a vocês as boas-vindas neste vôo TAM. Tá friozinho, né? Pois então não vou me desculpar pelo aquecimento da cabine, que vai durar um tempinho enquanto aguardamos autorização para decolar. Enquanto isso, que tal dar 'oi' para o seu companheiro de assento? Oi para o seu companheiro de assento! Cariocas e paulistas unidos pela chuva!"
Sílvio Santos. Lombardi. Túmulo. Pulos. Muitos pulos.
* "Estamos iniciando procedimento de descida. Enfrentaremos alguma turbulência, mas nada que ponha em risco a integridade do avião, apenas algum desconforto" diz o comandante, enquanto as comissárias, com cara de apavoradas, desembestam em alta velocidade pelo corredor.
Enfim. Quinta de manhã desovei as meninas na escola às sete da manhã e fui pro Santos Dumont. Atrasada, lógico - pra ida e pra volta. Um frio do cão, chuva que nem aqui, pousei no Rio às nove da noite. O que eu aprendi nesse dia:
* Refeições são patrocinadas. "Bom dia, blábláblá as comissárias a seguir estarão servindo um café da manhã com a saborosa linha ETC E TAL, mais saúde e sabor para o seu dia." E aquele suspiro coletivo e resignado de "Que merda!" e as moçoilas distribuindo uma caixinha com as coisas com mais saúde e sabor. De repente, um cheiro de peixe no ar. E o homem de cabelo ensebado, oleoso e untuoso na poltrona à minha frente levanta-se e, segurando uma lata de atum no azeite com a mão esquerda, abre o bagageiro com a direita e saca da bolsa, sob os olhos apavorados do povo, um garfo.
* Estou lançando uma campanha para que todas - TODAS - as companhias de cosmético do planeta pensem seriamente em banir a sombra azul de suas cartelas de cores. Porque, assim, sombra azul cintilante às sete da manhã é cafona, minha senhora. A não ser que a senhora tenha sido contratada para dar susto nos passageiros que estão cag... ignorando a comissária enquanto ela encena a pantomima narrada "E as máscaras cairão do teto", um clássico da aviação civil há meio século.
* Um frio de rachar. E o avião cheio de mulher de sandália de salto, minissaia e casaco com gola de pele (oi?). Como diria Renata, supercoerente.
* "Boa noite! Quem fala é o Comandante T (Tapado?) que dá a vocês as boas-vindas neste vôo TAM. Tá friozinho, né? Pois então não vou me desculpar pelo aquecimento da cabine, que vai durar um tempinho enquanto aguardamos autorização para decolar. Enquanto isso, que tal dar 'oi' para o seu companheiro de assento? Oi para o seu companheiro de assento! Cariocas e paulistas unidos pela chuva!"
Sílvio Santos. Lombardi. Túmulo. Pulos. Muitos pulos.
* "Estamos iniciando procedimento de descida. Enfrentaremos alguma turbulência, mas nada que ponha em risco a integridade do avião, apenas algum desconforto" diz o comandante, enquanto as comissárias, com cara de apavoradas, desembestam em alta velocidade pelo corredor.
sexta-feira, abril 02, 2010
XY
No fim de semana passado, depois de elas passarem 40 dias sem ir para a casa do indivíduo, o pai avisou que não pegaria mais as duas porque elas estavam "muito mal educadas" (oi, pai não educa?). Enfim. Depois de sumir ontem mandou a boa nova pelo telefone: vai ser pai novamente.
Catatau deu de ombros. "Por mim... Não escrevo nem mais o sobrenome dele no meu nome." Zé Colméia não tem mais o que chorar: os olhos secos, me encara com a certeza de que "meu pai não gosta mais de mim".
Sério, não há mulher na face desta Terra que tenha se enganado tanto, mas tanto como eu me enganei quando escolhi (pelo jeito, a dedo) o pai das minhas filhas.
Catatau deu de ombros. "Por mim... Não escrevo nem mais o sobrenome dele no meu nome." Zé Colméia não tem mais o que chorar: os olhos secos, me encara com a certeza de que "meu pai não gosta mais de mim".
Sério, não há mulher na face desta Terra que tenha se enganado tanto, mas tanto como eu me enganei quando escolhi (pelo jeito, a dedo) o pai das minhas filhas.
Bem lá no fundo
Eu sempre tive a mania de ligar o que sinto e penso com imagens. Aquele pensamento limítrofe de ter que pedir ajuda ao figurativo para interpretar o sentimento, o pensamento.
Há uma semana estava assistindo TV quando senti uma saudade doída e doida de alguém. Por muitos motivos (reais e imaginários) esse alguém cortou relações comigo, mas não me fez esquecer tudo de bom que eu dei e recebi. Então, na impossibilidade de ligar, mandei uma mensagem.
Ao apertar o send do celular me veio à cabeça que minha mensagem era uma pedra, que eu acabara de jogar no fundo de um poço, condenando a pobrezinha à solidão, ao escuro e ao frio. Porque, veja bem, eu sabia que aquela mensagem não voltaria.
Caiu no fundo do poço e lá vai permanecer.
Há uma semana estava assistindo TV quando senti uma saudade doída e doida de alguém. Por muitos motivos (reais e imaginários) esse alguém cortou relações comigo, mas não me fez esquecer tudo de bom que eu dei e recebi. Então, na impossibilidade de ligar, mandei uma mensagem.
Ao apertar o send do celular me veio à cabeça que minha mensagem era uma pedra, que eu acabara de jogar no fundo de um poço, condenando a pobrezinha à solidão, ao escuro e ao frio. Porque, veja bem, eu sabia que aquela mensagem não voltaria.
Caiu no fundo do poço e lá vai permanecer.
...
Tempo é hoje o que me falta, porque horário a cumprir eu tenho de montão. Aí no fim do dia eu tenho zilhares de coisas para comprar, pagar, imprimir, procurar, escrever - e esse meu breviário tão querido fica cheio de poeira e triste, esperando notícias minhas.
Desculpe.
Desculpe.
domingo, março 21, 2010
sábado, março 20, 2010
Maravilhas


Lili;
São essas que eu quero - mas vou comprar pras meninas porque, assim, 44 anos acho que não dá mais, né?
Se bem que esse Cheshire rosa tá o que há.
segunda-feira, março 15, 2010
É tempo

Você nota instantaneamente que alguma coisa mudou. É como se aquele vermelho vivo, o furta-cor tão cafona e tão presente, é como se o amarelo, o rosa, o azul royal e o verde bandeira virassem lilás, bege, café, verde água. A adolescência não é berrante. É uma cor que morre lentamente nos olhos dos nossos filhos. É o calor que fica morno, é a luz vibrante que se torna suave. Eu vi o início do fim nos olhos da minha filha exatamente às 9h do dia 14 de março de 2010.
Exatamente nessa hora, nós duas deitadas na minha cama, Catatau ainda esparramada em seu sono domingueiro, que Zé Colméia aprendeu o que é sexo. O que é relação sexual, coito, gravidez, prazer. Aids, pedofilia. Um pouquinho por vez, satisfazendo as perguntas, saciando a curiosidade que há tempos martelava minha paciência com "Mãe, o que é transa?", "Mãe, o que é sexo?" "Mãe, o que é relação sexual?"
Eu expliquei. Miudinho, respondendo somente o que ela me perguntava. O queixo apoiado nas mãos, ela abria a boca a cada cena imaginada. "Então você transou com o papai? O vovô fez isso com a vovó? Com a vovó, mãe?"
E então eu vi. Aquela luz tão intensamente brilhante foi enfraquecendo aos poucos. Dando lugar a outro tipo de brilho, mortiço, cálido. Maduro. Alguma coisa morreu ali. E com ela morreu também um pedacinho de mim. E meu luto apareceu à noite, sozinha e enrodilhada na cama, chorando em silêncio ao lembrar do meu bebê gordinho que dormia sobre o meu ventre como se dele ainda não tivesse saído. O andar inseguro agarrando-se no meu dedo mínimo, o sorriso desdentado. Os desenhos tortos de círculos e rabiscos. Os vestidinhos rodados, os sapatinhos de feltro colorido cheio de apliques de abelhas e flores. Os guarda-chuvas de bolinhas, as sandalinhas de girassol.
Doeu muito. Ainda dói.
segunda-feira, março 08, 2010
Recuso-me a usar esse clichê*
Sábado de temporal.
Depois de esperar baixarem as águas do Rio Carioca (que desce qual uma pororoca urbana do Cosme Velho até a Praia do Flamengo), fiquei uma hora e meia tentando pegar um táxi. Quando consegui, a chuva já estava apertando de novo. Ao descer do carro e abrir o portão já estava encharcada - claro, vestida de branco, como não poderia deixar de ser.
Ao término dos 70 degraus, um véu de noiva descia por baixo do portão. Sem luz, com o clarão de um raio vi duas figurinhas molhadas e assustadas, espremidinhas no último quadradinho seco da varanda, com cara de "Meu Deus, onde ela está?" - que imediatamente mudou para "GRAÇAS A DEUS VOCÊ CHEGOU!".
Todos os ralos entupidos com toneladas de folhas-e-coisas-moles-que-eu-me-recuso-a-pensar-no-que-deveriam-ser. A água descia numa torrente do terraço. As folhas que não conseguiram entupir o ralo de cima desceram os degraus e se enfiaram por baixo do portão dos cachorros e pelo ralo da varanda - a água, passando por cima dos dois, já estava invadindo a cozinha.
Uma hora depois - dez da noite, mas quem estava contando? - os cachorros roncavam na cozinha, secos, e eu enrolada num roupão me recusava a me mexer no sofá do meu quarto.
As delícias de se morar numa casa em Santa Teresa.
* Porque a Globo já usou "Águas de março" ad nauseum.
Depois de esperar baixarem as águas do Rio Carioca (que desce qual uma pororoca urbana do Cosme Velho até a Praia do Flamengo), fiquei uma hora e meia tentando pegar um táxi. Quando consegui, a chuva já estava apertando de novo. Ao descer do carro e abrir o portão já estava encharcada - claro, vestida de branco, como não poderia deixar de ser.
Ao término dos 70 degraus, um véu de noiva descia por baixo do portão. Sem luz, com o clarão de um raio vi duas figurinhas molhadas e assustadas, espremidinhas no último quadradinho seco da varanda, com cara de "Meu Deus, onde ela está?" - que imediatamente mudou para "GRAÇAS A DEUS VOCÊ CHEGOU!".
Todos os ralos entupidos com toneladas de folhas-e-coisas-moles-que-eu-me-recuso-a-pensar-no-que-deveriam-ser. A água descia numa torrente do terraço. As folhas que não conseguiram entupir o ralo de cima desceram os degraus e se enfiaram por baixo do portão dos cachorros e pelo ralo da varanda - a água, passando por cima dos dois, já estava invadindo a cozinha.
Uma hora depois - dez da noite, mas quem estava contando? - os cachorros roncavam na cozinha, secos, e eu enrolada num roupão me recusava a me mexer no sofá do meu quarto.
As delícias de se morar numa casa em Santa Teresa.
* Porque a Globo já usou "Águas de março" ad nauseum.
sábado, março 06, 2010
Dejà não vu
Catatau pulou dois números de sapato - em 50 dias. E está usando as minhas camisetas.
Zé Colméia está usando as minhas sandálias. E diz que quando corre os seios balançam e doem.
Minhas roupas. Meus sapatos.
Seios.
Socorro.
Zé Colméia está usando as minhas sandálias. E diz que quando corre os seios balançam e doem.
Minhas roupas. Meus sapatos.
Seios.
Socorro.
Ser inferior
Detesto dia de chuva. Porque, sabe, tem gente que não sabe andar de guarda-chuva numa calçada cheia (eu). Enfia as varetas na cara de todo mundo (eu), e quando se vira pra pedir desculpas despeja uma cascata no pobre que estava atrás (eu). Atravanca a calçada (eu). Não sabe como lidar com o guarda-chuva e as trocentas bolsas e zilhares de pacotes que está sempre carregando (eu). Não olha por onde anda e mete o guarda-chuva no peito de quem está sob as marquises (eu).
Não sabe andar de guarda-chuva fica em casa, minha filha (eu).
Não sabe andar de guarda-chuva fica em casa, minha filha (eu).
Enfim, sós
Agora que eu comprei todo o material escolar, encapei tudo, comprei (e troquei) os tênis das meninas, levei as mochilas para o conserto (e peguei), comprei novas galochas e guarda-chuvas, renovei o estoque de uniformes, fui às reuniões do horário regular, do integral, das escolinhas, da nutrição, da psicopedagoga e da coordenação (sempre em dobro), agora que eu já acertei o calendário de provas, marquei dentista, dermatologista, oculista e teste de audição para as duas - agora que cumpri minhas obrigações maternais de começo de ano, tô aqui.
Oi. Tudo bem?
Oi. Tudo bem?
domingo, fevereiro 21, 2010
Um flash
Uma das coisas que eu me prometi esse ano: juntar dinheiro pra comprar uma máquina fotográfica. Mesmo que seja de segunda mão. Aí eu quero fazer um blog com as minhas fotos.
Eu era boa. Muito boa.
Palavra.
Eu era boa. Muito boa.
Palavra.
Tudo igual
A pior coisa do mundo é esse começo de ano. Quando embala aí vem carnaval - e, é claro, tem recesso a semana toda - e começa a acumular roupa suja, roupa para passar, trabalho, é caderno e livro que não acaba de comprar e de encapar que puxa vida, tô morta.
Por isso é que quando alguém diz "Segunda começa tudo de novo" eu só tenho uma coisa a dizer:
Graças a Deus.
Por isso é que quando alguém diz "Segunda começa tudo de novo" eu só tenho uma coisa a dizer:
Graças a Deus.
sexta-feira, fevereiro 05, 2010
Carteira de ações escolares
Livros: R$ 1378
Material de papelaria: R$ 965
Uniformes: R$ 280
Total: Somem vocês.
Eu ainda estou em choque com o que gastei com as meninas nessa volta às aulas.
E ainda falta o material comunitário. Que eu, elegante e firmemente, ou comprarei em suaves e eternas prestações ou me farei de phina & sonsa e não comprarei.
Porque, afinal, ou eu equipo uma filha ou equipo a outra - uma delas tem que vender bala no sinal pra ajudar a pagar essa conta.
Material de papelaria: R$ 965
Uniformes: R$ 280
Total: Somem vocês.
Eu ainda estou em choque com o que gastei com as meninas nessa volta às aulas.
E ainda falta o material comunitário. Que eu, elegante e firmemente, ou comprarei em suaves e eternas prestações ou me farei de phina & sonsa e não comprarei.
Porque, afinal, ou eu equipo uma filha ou equipo a outra - uma delas tem que vender bala no sinal pra ajudar a pagar essa conta.
Fervura
40ºC
Sensação térmica: 50ºC
Umidade relativa do ar: 30%
Vou começar a entrar em sites de relacionamento profissional e pessoal do Canadá, da Finlândia, da Noruega...
Porque, sabe, eu ODEIO calor.
Um pouco mais do que detesto ar-condicionado.
Então já viu, né?
Lascou-se.
Sensação térmica: 50ºC
Umidade relativa do ar: 30%
Vou começar a entrar em sites de relacionamento profissional e pessoal do Canadá, da Finlândia, da Noruega...
Porque, sabe, eu ODEIO calor.
Um pouco mais do que detesto ar-condicionado.
Então já viu, né?
Lascou-se.
quinta-feira, fevereiro 04, 2010
O dia de hoje
Eu poderia me alongar e dizer que o cara não foi - faltou à audiência de conciliação. Ou melhor, chegou 40 minutos atrasado. Só olhei para ele 2 segundos, literalmente, mas esses dois segundos me tragaram numa onda de mal estar que perdurou até a noite.
Eu poderia dizer que sinto a sua falta e de conversar com você. Só isso - sinto a sua falta.
Eu poderia comentar inclusive que enfiei um sonho de valsa inteirinho na boca, dentro do elevador - e antes que a porta se fechasse o presidente da editora entrou e deu bom dia. E a careca dele brilhava de tão divertido que ele estava por me ver constrangidíssima, tentando mastigar, engolir, sorrir e falar ao mesmo tempo - sem a jaqueta de chocolate em cima dos dentes.
Mas o que eu queria dizer mesmo tem a ver com o que eu vi, hoje, descendo a ladeira no fim do dia: como é gostoso ver meninas brincando de boneca. Eu brinquei muito, mas hoje não tenho paciência. Mas observar como se deixam absorver pelo papel que representa ali é arrebatador - a menina não brinca, ela É a boneca.
Eu perdi essa magia. Não sobrou nenhuma, e Zé Colméia e Catatau, que sempre me cobram participação mais ativa nos chás dançantes da Barbie, levarão essa mágoa de sua mãe por toda a vida adulta. Que elas não percam essa magia, também.
Eu poderia dizer que sinto a sua falta e de conversar com você. Só isso - sinto a sua falta.
Eu poderia comentar inclusive que enfiei um sonho de valsa inteirinho na boca, dentro do elevador - e antes que a porta se fechasse o presidente da editora entrou e deu bom dia. E a careca dele brilhava de tão divertido que ele estava por me ver constrangidíssima, tentando mastigar, engolir, sorrir e falar ao mesmo tempo - sem a jaqueta de chocolate em cima dos dentes.
Mas o que eu queria dizer mesmo tem a ver com o que eu vi, hoje, descendo a ladeira no fim do dia: como é gostoso ver meninas brincando de boneca. Eu brinquei muito, mas hoje não tenho paciência. Mas observar como se deixam absorver pelo papel que representa ali é arrebatador - a menina não brinca, ela É a boneca.
Eu perdi essa magia. Não sobrou nenhuma, e Zé Colméia e Catatau, que sempre me cobram participação mais ativa nos chás dançantes da Barbie, levarão essa mágoa de sua mãe por toda a vida adulta. Que elas não percam essa magia, também.
quarta-feira, fevereiro 03, 2010
...
Amanhã, perto da hora do almoço, vou rever meu vizinho. É a audiência com o promotor público. Desde ontem sinto uma onda de mal estar, aquela sensação de impotência, de solidão, de saudades dela. A minha mão procurando por outra sem encontrar nada nem ninguém.
Ele também fez BO contra mim. "Perturbação de tranquilidade".
Eu quero minha paz de espírito de volta.
Ele também fez BO contra mim. "Perturbação de tranquilidade".
Eu quero minha paz de espírito de volta.
segunda-feira, fevereiro 01, 2010
A sentinela do abismo
... Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.
Ninguém que tenha lido a obra-prima de J.D. Salinger poderá se esquecer da cena em que Holden, tarde da noite, resolve visitar a irmã, entrando sorrateiramente no apartamento para que seus pais não o vejam. Por sorte, eles haviam saído e Holden tem uma longa conversa com Phoebe, que não demora a descobrir que ele havia sido expulso da escola, reprovado em todas as matérias com exceção de inglês. Com a sensatez imbatível das meninas de dez anos de idade, a irmã o acusa de não gostar de nada e, tendo Holden a duras penas conseguido dizer que gostava do Allie (um irmão já morto) e de estar ali conversando com ela, Phoebe exige que ele diga o que gostaria de ser quando crescesse.
A resposta reproduzida acima, além de típica do estilo coloquial empregado com tanto êxito por Salinger para caracterizar o rapazote de dezesseis anos, sintetiza os dois traços centrais do personagem: sua recusa em aceitar o jogo dos adultos, representada pela escolha estapafúrdia do que faria ao crescer, e o amor ao próximo, aqui simbolizado pela preocupação em evitar que as crianças caiam no abismo (mas também presente mesmo no último parágrafo do livro, quando Holden diz sentir saudades até das pessoas que lhe fizeram mal). Nesse sentido, nada mais justo que Salinger retirasse de tal passagem o título de seu livro.
Muito justo, sem dúvida, mas se ponha na pele de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e eu, já lá vão quarenta anos, tentando passar para o português "The Catcher in the Rye". Apanhador, palavra horrorosa que, segundo os dicionários, se aplicaria a quem colhe os grãos de café ou extrai o látex da seringueira, embora no linguajar corriqueiro só seja usada para designar um gandula. Centeio, quando muito, lembrava um tipo de pão àquela época pouco consumido por estas bandas; mas quem jamais teria visto um campo da tal gramínea? Não, intitular um livro "Apanhador no campo de centeio" seria como dar algum nome esdrúxulo a uma bela criança, seria condená-lo à mais absoluta rejeição.
É verdade que o título também não fazia muito sentido mesmo no idioma do autor. Para todos os efeitos práticos, a palavra catcher em inglês se refere àquele jogador de beisebol cujo rosto está sempre coberto por uma máscara e que, agachado atrás do batedor, fica pegando as bolas atiradas pelo lançador (ocupando assim, aparentemente, a posição mais besta de qualquer esporte se ao “apanhador” não coubesse também a responsabilidade crucial de indicar onde a bola deve ser lançada com base nas características do batedor). A segunda parte do título só é explicada na própria conversa de Holden com Phoebe, quando ele lhe pergunta se conhece a cantiga "Se alguém agarra alguém atravessando um campo de centeio". Phoebe o corrige, dizendo que o certo é "Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio", e ainda acrescenta que é baseada num poema de Robert Burns. De fato, trata-se de uma conhecida cantiga de crianças, mas, até mesmo devido ao "erro" de Holden ao trocar os verbos, jamais encontrei uma única pessoa nascida nos Estados Unidos que tenha feito de estalo a ponte mental entre a musiquinha e o título.
Voltando ao nosso drama lingüístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos "A sentinela do abismo", em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Heureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título literalmente ou era suspensa a venda dos direitos de tradução. Ordens do autor. Em vão tentei explicar por carta que a expressão era virtualmente ininteligível no vernáculo. Aproveitando uma ida a Nova York, obtive a graça de uma entrevista com a agente, pois já então era de todo impossível comunicar-se com o próprio eremita de New Hampshire. Nenhuma chance de revisão da sentença, porém ao menos fiquei sabendo que Salinger entrara em órbita ao tomar conhecimento de certas versões dadas ao título que lhe devera ter custado imensas dores de parto.
Com base em três delas que vim a conhecer mais tarde, passei a dar toda a razão ao autor. Senão vejamos.
Em espanhol, saíram-se com "El cazador oculto", obviamente por conta da menção a um campo e ao fato de que o Holden adulto nele estaria escondido para não comprometer a espontaneidade das crianças ao brincarem. Mas que extraordinário exemplo de insensibilidade do tradutor ao não perceber o quanto a idéia de caçada e de morte era antagônica à mensagem que o título buscava transmitir!
O francês nos brindou com "L’attrape-coeurs", que corresponderia em português a um abominável Pega-corações. No entanto, quando a língua de Racine já tem consagradas as expressões attrape-mouchesattrape-nigaud (prima-irmã de nossa "pegadinha"), dá para questionar a qualidade da versão gaulesa independentemente de sua dose excessiva de açúcar.
E, por fim, a mais notável, inclusive por demonstrar a desistência do tradutor português – recurso ao menos rechaçado pelos coleguinhas de Espanha e França – de extrair o título da rica contextura em que o original o situara. Pois bem, o ilustre sr. João Palma-Ferreira tascou "Uma agulha no palheiro" (na melhor tradição do conterrâneo que batizou o "Psycho" hitchcockiano de "O filho que era a mãe")! Todavia, desconfiando de que não havia mesmo nenhuma relação entre o fundilho das calças e o orifício por elas protegido, ofereceu à posteridade uma Advertência cujo sabor só pode ser apreciado mediante sua reprodução integral: "O título português do romance de J.D.Salinger 'Uma Agulha no Palheiro' foi especialmente escolhido tendo em atenção a singularidade expressiva desta frase comum portuguesa (sic) e não corresponde à nem pretende ser a tradução do título original norte-americano: The catcher in the rye, para o qual foi sempre difícil encontrar uma forma suficientemente alusiva e gramaticalmente correcta em todas as que ocorreram ao tradutor. Supõe-se, pois, que, sem fugir ao que o escritor pretendeu (sic), o título da edição portuguesa marcará incisivamente o espírito deste livro admirável."*
Seja como for, ao fim e ao cabo a edição brasileira estampou a tradução literal, ainda que amenizada por breve nota onde se lia: "Os três jovens diplomatas brasileiros que fizeram a presente tradução escolheram o título 'A Sentinela do Abismo'. O Autor preferiu, entretanto, o título 'O Apanhador no Campo de Centeio'." O que, pelo jeito, não atrapalhou em nada, se é que não serviu para tornar ainda mais indelével a marca do livro na memória do leitor. As vendas continuam firmes, ano após ano, mesmo depois que o tresloucado assassino de John Lennon foi apanhado com um exemplar da obra. Que aqui no Brasil passou a ser carinhosamente chamada de Apanhador.
E você, já leu "O Apanhador"?
* Há outras coisas imperdíveis nessa tradução lusa. Quando o Edgar Marsalla quase manda pelos ares o teto da capela onde os alunos eram obrigados a ouvir o discurso do agente funerário e grande benfeitor do colégio, seu “peido infernal” (terrific fart) se metamorfoseia num “tremendo arroto”. Quando Holden se enfurece com os palavrões que vê escritos nas paredes da escola da irmã e do museu, os muitos "Foda-se" se transformam em pálidos "Vai à merda". Graves problemas de sinonimia ou de anatomia?
Jorio Dauster (que traduziu "O apanhador no campo de centeio" para o português com Álvaro Alencar e Antônio Rocha, fala da dificuldade de verter o título original da obra, The catcher in the rye)
Prosa & Verso - Jornal O Globo
29 de janeiro de 2010
Ninguém que tenha lido a obra-prima de J.D. Salinger poderá se esquecer da cena em que Holden, tarde da noite, resolve visitar a irmã, entrando sorrateiramente no apartamento para que seus pais não o vejam. Por sorte, eles haviam saído e Holden tem uma longa conversa com Phoebe, que não demora a descobrir que ele havia sido expulso da escola, reprovado em todas as matérias com exceção de inglês. Com a sensatez imbatível das meninas de dez anos de idade, a irmã o acusa de não gostar de nada e, tendo Holden a duras penas conseguido dizer que gostava do Allie (um irmão já morto) e de estar ali conversando com ela, Phoebe exige que ele diga o que gostaria de ser quando crescesse.
A resposta reproduzida acima, além de típica do estilo coloquial empregado com tanto êxito por Salinger para caracterizar o rapazote de dezesseis anos, sintetiza os dois traços centrais do personagem: sua recusa em aceitar o jogo dos adultos, representada pela escolha estapafúrdia do que faria ao crescer, e o amor ao próximo, aqui simbolizado pela preocupação em evitar que as crianças caiam no abismo (mas também presente mesmo no último parágrafo do livro, quando Holden diz sentir saudades até das pessoas que lhe fizeram mal). Nesse sentido, nada mais justo que Salinger retirasse de tal passagem o título de seu livro.
Muito justo, sem dúvida, mas se ponha na pele de Álvaro Alencar, Antônio Rocha e eu, já lá vão quarenta anos, tentando passar para o português "The Catcher in the Rye". Apanhador, palavra horrorosa que, segundo os dicionários, se aplicaria a quem colhe os grãos de café ou extrai o látex da seringueira, embora no linguajar corriqueiro só seja usada para designar um gandula. Centeio, quando muito, lembrava um tipo de pão àquela época pouco consumido por estas bandas; mas quem jamais teria visto um campo da tal gramínea? Não, intitular um livro "Apanhador no campo de centeio" seria como dar algum nome esdrúxulo a uma bela criança, seria condená-lo à mais absoluta rejeição.
É verdade que o título também não fazia muito sentido mesmo no idioma do autor. Para todos os efeitos práticos, a palavra catcher em inglês se refere àquele jogador de beisebol cujo rosto está sempre coberto por uma máscara e que, agachado atrás do batedor, fica pegando as bolas atiradas pelo lançador (ocupando assim, aparentemente, a posição mais besta de qualquer esporte se ao “apanhador” não coubesse também a responsabilidade crucial de indicar onde a bola deve ser lançada com base nas características do batedor). A segunda parte do título só é explicada na própria conversa de Holden com Phoebe, quando ele lhe pergunta se conhece a cantiga "Se alguém agarra alguém atravessando um campo de centeio". Phoebe o corrige, dizendo que o certo é "Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio", e ainda acrescenta que é baseada num poema de Robert Burns. De fato, trata-se de uma conhecida cantiga de crianças, mas, até mesmo devido ao "erro" de Holden ao trocar os verbos, jamais encontrei uma única pessoa nascida nos Estados Unidos que tenha feito de estalo a ponte mental entre a musiquinha e o título.
Voltando ao nosso drama lingüístico, fizemos longas listas de títulos alternativos até encontrarmos "A sentinela do abismo", em que respeitávamos tanto o contexto quanto o conceito. Heureca! Que nada, a alegria durou pouco. Da agente literária de Salinger veio a ordem ríspida: ou se vertia o título literalmente ou era suspensa a venda dos direitos de tradução. Ordens do autor. Em vão tentei explicar por carta que a expressão era virtualmente ininteligível no vernáculo. Aproveitando uma ida a Nova York, obtive a graça de uma entrevista com a agente, pois já então era de todo impossível comunicar-se com o próprio eremita de New Hampshire. Nenhuma chance de revisão da sentença, porém ao menos fiquei sabendo que Salinger entrara em órbita ao tomar conhecimento de certas versões dadas ao título que lhe devera ter custado imensas dores de parto.
Com base em três delas que vim a conhecer mais tarde, passei a dar toda a razão ao autor. Senão vejamos.
Em espanhol, saíram-se com "El cazador oculto", obviamente por conta da menção a um campo e ao fato de que o Holden adulto nele estaria escondido para não comprometer a espontaneidade das crianças ao brincarem. Mas que extraordinário exemplo de insensibilidade do tradutor ao não perceber o quanto a idéia de caçada e de morte era antagônica à mensagem que o título buscava transmitir!
O francês nos brindou com "L’attrape-coeurs", que corresponderia em português a um abominável Pega-corações. No entanto, quando a língua de Racine já tem consagradas as expressões attrape-mouchesattrape-nigaud (prima-irmã de nossa "pegadinha"), dá para questionar a qualidade da versão gaulesa independentemente de sua dose excessiva de açúcar.
E, por fim, a mais notável, inclusive por demonstrar a desistência do tradutor português – recurso ao menos rechaçado pelos coleguinhas de Espanha e França – de extrair o título da rica contextura em que o original o situara. Pois bem, o ilustre sr. João Palma-Ferreira tascou "Uma agulha no palheiro" (na melhor tradição do conterrâneo que batizou o "Psycho" hitchcockiano de "O filho que era a mãe")! Todavia, desconfiando de que não havia mesmo nenhuma relação entre o fundilho das calças e o orifício por elas protegido, ofereceu à posteridade uma Advertência cujo sabor só pode ser apreciado mediante sua reprodução integral: "O título português do romance de J.D.Salinger 'Uma Agulha no Palheiro' foi especialmente escolhido tendo em atenção a singularidade expressiva desta frase comum portuguesa (sic) e não corresponde à nem pretende ser a tradução do título original norte-americano: The catcher in the rye, para o qual foi sempre difícil encontrar uma forma suficientemente alusiva e gramaticalmente correcta em todas as que ocorreram ao tradutor. Supõe-se, pois, que, sem fugir ao que o escritor pretendeu (sic), o título da edição portuguesa marcará incisivamente o espírito deste livro admirável."*
Seja como for, ao fim e ao cabo a edição brasileira estampou a tradução literal, ainda que amenizada por breve nota onde se lia: "Os três jovens diplomatas brasileiros que fizeram a presente tradução escolheram o título 'A Sentinela do Abismo'. O Autor preferiu, entretanto, o título 'O Apanhador no Campo de Centeio'." O que, pelo jeito, não atrapalhou em nada, se é que não serviu para tornar ainda mais indelével a marca do livro na memória do leitor. As vendas continuam firmes, ano após ano, mesmo depois que o tresloucado assassino de John Lennon foi apanhado com um exemplar da obra. Que aqui no Brasil passou a ser carinhosamente chamada de Apanhador.
E você, já leu "O Apanhador"?
* Há outras coisas imperdíveis nessa tradução lusa. Quando o Edgar Marsalla quase manda pelos ares o teto da capela onde os alunos eram obrigados a ouvir o discurso do agente funerário e grande benfeitor do colégio, seu “peido infernal” (terrific fart) se metamorfoseia num “tremendo arroto”. Quando Holden se enfurece com os palavrões que vê escritos nas paredes da escola da irmã e do museu, os muitos "Foda-se" se transformam em pálidos "Vai à merda". Graves problemas de sinonimia ou de anatomia?
Jorio Dauster (que traduziu "O apanhador no campo de centeio" para o português com Álvaro Alencar e Antônio Rocha, fala da dificuldade de verter o título original da obra, The catcher in the rye)
Prosa & Verso - Jornal O Globo
29 de janeiro de 2010
Mater
As meninas usam na escola potes de sorvete para guardar, no banheiro, o material de higiene: xampu, condicionador, sabonete, esponja de banho, pente & escova.
Eu sempre mandei o branco. Foi quando eu vi, na geladeira do supermercado, que tem agora um sorvete (dois litros) cujo pote é rosa.
E então eu, há dois dias, só tomo sorvete. Em todas as refeições.
Café da manhã. Merenda. Almoço. Lanche. Jantar. Ceia.
O segundo pote está no finzinho. Bem na hora.
As aulas recomeçam depois da manhã.
E eu também não estou aguentando mais.
E não, eu não pensei o óbvio: virar o sorvete em outro pote. Não até hoje de manhã.
Excesso de chocolate no cérebro.
Sorry.
Eu sempre mandei o branco. Foi quando eu vi, na geladeira do supermercado, que tem agora um sorvete (dois litros) cujo pote é rosa.
E então eu, há dois dias, só tomo sorvete. Em todas as refeições.
Café da manhã. Merenda. Almoço. Lanche. Jantar. Ceia.
O segundo pote está no finzinho. Bem na hora.
As aulas recomeçam depois da manhã.
E eu também não estou aguentando mais.
E não, eu não pensei o óbvio: virar o sorvete em outro pote. Não até hoje de manhã.
Excesso de chocolate no cérebro.
Sorry.
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