quinta-feira, março 12, 2009

Dito pelo não dito



Acertar na mosca



Agasalhar o croquete



Chá de cadeira



Encher lingüiça



Marcando touca

Do "Pequeno dicionário ilustrado de expressões idiomáticas", de Marcelo Zocchio e Everton Ballardin.

Outras ilustrações aqui.

E a foto lá de baixo é "Chorando sobre o leite derramado" :o)

...

... e vamos ser sinceros: é impressionante a minha capacidade de escrever absolutamente nada de interessante quando absolutamente nada de interessante acontece na minha vida.

Casamata



As delícias

Ter um monte de cachorros;

Não ter vizinhos em cima pulando corda às duas da manhã;

Não pagar pela água desperdiçada dos outros;

Ter um jardim/horta/pomar;

Poder quarar e secar suas roupas ao sol;

Ter quintal pra brincar;

Deitar na rede na varanda sem ter que tirar dela as guimbas de cigarros jogadas pelos vizinhos;

Tomar banho de mangueira em dia de calor.

As dores

Recolher você mesma todos os bichos que os cachorros trucidam, incluindo um lagarto de 30cm deixado na porta da cozinha - e que você, obviamente, pisou descalça, no escuro (não esqueçamos do rato que só foi encontrado seguindo-se o cheiro de carniça mais do que podre. CSI rules!)

Recolher as 34.7 toneladas de cocô deixadas diariamente pelos cachorros - que comem num dia mais do que suas filhas e você, num trimestre;

Conviver com pombos que escolheram justamente a viga em cima da sua jardineira de amores-perfeitos como conversadeira/cagadeira;

Não ter ninguém a não ser você mesma para xingar quando a conta d'água vem maior do que a dos Banhos de Pompéia;

Ver que o quintal com pomar e casinha rosa de madeira com janelinhas enfeitadas com jardineiras e varandinha com vista para o Dedo de Deus é preterida todo fim de semana pelo novo & emocionante episódio de Charles e Lola;

Deitar na rede da varanda e escutar seu vizinho de baixo ouvir Rush aos berros, o vizinho do lado meter um Roberto Carlos no volume 10 e o vizinho do outro lado agitar o churrascão de sábado com os novos sucessos do Grupo Divã (com a participação de Reinaldo, aka o Príncipe do Pagode). E sem poder chamar o síndico.

terça-feira, março 10, 2009

Inexorável



Zé Colméia é teimosa. Muitas vezes, quer porque quer mudar o que não pode ser mudado. Quando quebra alguma coisa, nem sonha que a coisa não voltará a ser como antes de quebrada. Insiste, por exemplo, que o sol deve nascer mais cedo. Ou então, faz de tudo para mudar alguém, em vez de aceitá-la como ela é. Aceitar; essa palavra não existe no dicionário dela. Então, eu conto a ela uma história. Nada sobre formigas ou flores, nem tampouco elefantes cinzas que querem ser quadriculados ou a lua que não quer mais trabalhar à noite. Não, eu conto a história (real) da Bebel:

Bebel era uma moça inteligente, talentosa, bonita, alegre. Tinha um marido (importado) apaixonado por ela e um emprego muito fascinante, num hotel muito famoso - tão famoso que era conhecido no mundo todo! Reis e rainhas se hospedavam lá, assim como estrelas do rock e atores de nariz em pé.

Enfim. Bebel era quase feliz. "Quase" porque Bebel tinha uma grande mágoa: sempre que tiravam uma foto do grupo de funcionários, ela não aparecia no retrato. Porque, você sabe, Bebel era pequena. Baixinha - ou, como gostava de dizer, petite, mignon. E seus colegas eram mulheres voluptuosas, e os homens todos muito alto e corpulentos. E quando vinha a foto, cadê Bebel? Um cotovelo aqui, o topo de uma cabeça acolá.

Então convidaram um jornalista famoso para escrever um livro sobre a história do hotel - que, além de ser mais famoso do que o jornalista, era muito mais velho também. O livro traria uma foto de toda a equipe do hotel - e Bebel achou ali a sua grande oportunidade! Passou meses falando que, quando fossem bater o retrato, ELA estaria na frente, na primeira fila, bem no meio do grupo! Todo mundo prometeu: o miolo da primeira fila seria dela.

Na véspera da foto, Bebel comprou roupa e sapatos novos. No dia, fez cabelo e maquiagem. Na hora da foto lá estava ela, no centro da primeira fila, de corte de cabelo novo e argolas de ouro refletindo a luz que vinha da piscina do hotel. Correndinho, ainda foi lá olhar no visor da máquina do fotógrafo. Sim! Ela estava lá, bem na frente, bem nítida, bem visível! Finalmente, ela apareceria numa foto pra todo mundo ver!

E o livro ficou pronto. A festa de lançamento foi fenomenal. A nata da sociedade brasileira. Palmas das mãos suando, Bebel pega o livro e o abre, para ver a sua foto. Sim, ali está Bebel. Podemos reconhecer as argolas de ouro - uma na página da esquerda, a outra na página da direita, e Bebel sumida na dobra do livro.

Fotógrafos XI - John Dominis (2)



Actor Steve McQueen and wife Nellie at home



Actor Steve McQueen and wife taking sulfur bath at home



Actor Steve McQueen at home with wife



Actor Steve McQueen at home with wife

...

Respondendo à Lola, que postou nos comentários, e a quem me escreveu:

Não, gente, eu não vou falar do meu câncer. É uma história comprida, cheia de madrugadas vomitando, biópsias doloridas, noites insones pensando no futuro das meninas, muito medo e solidão. Mas (espero eu) já passou.

Uma das coisas que eu mais odeio na vida é que tenham pena de mim. Que me encoragem, que me dêem apoio, tudo bem. Mas eu aprendi que "câncer" na boca de uns acaba por provocar um imediato "Coitada!" na dos outros. Por isso eu não escrevi nada aqui. Por isso poucas pessoas souberam - apenas três. Não contei nem mesmo aos meus pais, porque meu pai já tem o dele com que se preocupar.

Assim sendo, falemos de coisas boas, do vestido laranja de hibiscos que eu estou usando, da estréia de "Jornada nas Estrelas" em maio, dos nossos filhos, do verão.

:o)

terça-feira, março 03, 2009

Anos dourados



Cena 1
Eu - grávida de quatro meses, hormônios em franca revolução - e meu ex, deitadinhos e encolhidos vendo um filme romantiquinho debaixo de cobertores.

- Mozinho [irc!], você confia em mim, não é?
- Claro, que pergunta.
- Mesmo?
- Claro que confio! Por quê?
- Ah, eu tava pensando... Eu podia envenenar você que você nem ia desconfiar, né?
-[...]
- Porque, olha só, sou eu que faço a sua comida. O seu café. Eu que fiz esse chá que você bebeu todinho. Virou tudo e nem perguntou o porquê de ele estar amargo. Não perguntou pra não me magoar, né?
- Er... é.
- Então. Pode ser veneno, né? Pelas brigas medonhas da semana passada. E você tá bebendo e comendo tudinho, sem questionar o gosto. Confiança, então.
- [...]
- Hum... Filme legal, né? Quer mais um biscoito? Eu que fiz.

Às vezes eu me pego pensando o que realmente causou o meu divórcio. Não sei...

Fotógrafos XI - John Dominis (1)



Entertainer Frank Sinatra shaving his face in a mirror.



Actress Angie Dickinson's lower half straddling a million dollars in fake money.



Actor Dustin Hoffman sleeping in brass bed.

Obviedades



Cheiro que dá um upgrade no meu dia: café recém-coado. Cheiro que acaba com o meu dia: desodorante vencido.

Já são quatro dias que eu estou dormindo na cama das meninas/sofá do meu quarto. E eu só volto pra minha cama quando eu tiver CERTEZA que a lagartixa que estava passeando entre os meus lençóis mudou-se.

Eu adoraria que houvesse uma gigantesca empresa que pagasse salário de mãe. Aí eu poderia me perder na Caçula comprando tecidos e passamanarias e botões e enfeites e linhas e fitas para usar com minhas filhas. E depois passear na Kalunga e comprar todos aqueles papéis e canetas e clips coloridos e caixas de papelão decoradas para organizar os desenhos das meninas. Eu adoraria.

E aí eu leio no jornal que o Ministério Público vai abrir concurso para promotor de Justiça no Rio. Salário inicial: R$ 19 mil. Eu não consigo sequer VISUALIZAR R$ 19 mil mensais. Quanto mais ganhar. Ou sonhar em.

Hoje apareceu um pingo pingando no teto do banheiro no apartamento dos meus pais. E eu não quero avisar o porteiro porque ele vai querer subir pra ver. E o apartamento tá uma bagunça. E eu estou com preguiça de arrumar. Aliás, eu estou com preguiça, period.

Eu queria jacintos e tulipas no meu jardim.

segunda-feira, março 02, 2009

Elas

Pra quem me perguntou sobre a minha banda de rock, a origem do nome tá num post de 2007:

"Inspirada na Cris e insuflada pelo meu mau humor, inauguro aqui a série "Eu odeio":

... velhinhas que atrapalham a passagem. Esse seria o nome da minha banda de rock, se eu formasse uma. Sabe? Imagina: a velhinha, ainda sacudida e fofinha, entra no ônibus cheia de sacolas de todos os tamanhos (e sempre tem uma de O Boticário, pode reparar. Nova ou usada, sempre tem uma). Inúmeros cavalheiros e cavalheiras oferecem o lugar. Ela não quer: "Vou saltar logo!" E sorri e se ajeita perto da porta com um milhar de sacolinhas pelos pés, caindo pelo corredor, por sobre o pobre que está no banco onde ela se segura. Ah, a velhinha é gordinha. Não goooorda: fofa.

Bom, ela fica ali, o ônibus vai enchendo e ela atrapalhando quem entra e quem sai - todo mundo se espremendo pra não amassar a Velhinha & seus Pacotes (ótimo nome pra outra banda. Mangue beat. Anota aí.). Aí ela pede ao gentil jovem cheio de cadernos e livros e mochila pesada & precariamente equilibrado ao lado dela que ele puxe a cordinha do sinal que ela vai descer. Vai andando, pedindo licencinha entre sorrisos - atrás dela tem um mooonte de gente também se preparando pra descer, naquele movimento de troca de lugar das massas em ônibus cheio. Ela faz que desce mas não desce, se vira pro motorista e pergunta: "Tem um ponto mais perto do lugar tal?" O motorista responde: "Tem, sim". "Ah, então eu vou descer lá."

E volta pro lugar, e o motorista fecha a porta e já começa a partir antes de ouvir os gritos da turba que quer descer mas não pode - porque no caminho tem uma Velhinha que Atrapalha a Passagem.

Eu odeio Velhinhas que Atrapalham a Passagem."

Sumidouro



Dez dias em casa. Calor infernal. Noites não-dormidas e coisas mal-resolvidas.

Porque quando o médico disse "É câncer" a vida mudou de foco. É sério; o que antes era teleobjetiva passou a ser grande angular. Meu objetivo primário e urgente foi a vida das meninas. Patrimônio não tenho nenhum, mas dívidas são o fim, não os meios. Consegui pagar quase todas elas. Botei meus documentos em ordem. Abracei e beijei muito mais do que o habitual. Escrevi cartas. Vi e revi cada foto. Tentei uma conversa com meu ex-marido para aproximá-lo mais das filhas. Passei o Ano Novo fora. Deixei instruções. Comprei uma agenda para planejar o dia seguinte e viver precisamente o hoje.

Aí meu câncer foi embora e, se eu fizer tudo certinho, ele não deve mais voltar. Mas o prognóstico a curto e médio prazo é sombrio - porque eu vou ter que reaprender a viver. Simplesmente apaguei da minha vida a figura de um possível outro e o modo-de-fazer. Pra que namorado? Pra que procurar emprego fixo? Pra que fazer planos? O futuro não era mais amanhã; ele simplesmente não era.

Agora eu tenho que voltar a me preocupar em pagar o meu INSS; em fazer uma poupança; em juntar dinheiro para a mítica casa própria; tenho que voltar a perder o sono por não ter emprego fixo, não ter patrimônio. Em ter que conviver socialmente, vestir a máscara de manhã para tirá-la à noite. Passar o fio dental religiosamente duas vezes ao dia, mesmo estando com vontade de dormir com a roupa que vim da rua. Parar de comer banana com a produção mensal brasileira de Nutella. Desligar a televisão quando só estiver passando Televendas Polishop e encarar o fato de que meu corpo PRECISA que eu durma. Em me esforçar profissionalmente e não apenas fazer o básico para pagar as contas do mês.

Preciso descobrir como lidar com a minha vida, já que ela voltou. E, pelo jeito, para ficar.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Verão da minha vida



Eu sonhei que fazia amor com um homem maravilhoso na piscina de um lugar paradisíaco. Perdi a hora. E cheguei atrasada à escola.

Atravessando a praça, fui engolida pelo cheiro de pão recém-assado. Ouvi quando começaram a tocar um violino no segundo andar do prédio. Fechei os olhos. E atropelei um cachorrinho.

Quase chegando ao apartamento dos meus pais, senti meu cabelo pelo meio das costas, e olhei por sobre o ombro, para admirar, vaidosa e orgulhosa, o tom acobreado que se acende quando o sol bate nele. E dei um encontrão num poste.

Fui ao médico hoje. E soube que venci meu câncer.

Aproveite a vida, a todo minuto.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

É Pulitzer!



Minha carreira meteórica rumo ao estrelado não se resumirá à fundação da banda de rock "Velhinhas que atrapalham a passagem". Depois de um casamento e diária convivência com outros pais na escola das meninas, resumi meus quase dez anos de pesquisas no "Manual do pai perfeito", cujos direitos estou negociando. Esse revolucionário título mostrará o que, há séculos, fundamenta o escopo masculino na criação da prole.
Aqui está para vocês, meus 16 fãs, em primeira mão, todo o conteúdo desse extraordinário livro.

"Péra que mamãe já vem."
"Olhalí a mamãe te chamando!"

Em breve, nas boas livrarias.

Com destinatário



Meu querido amigo;

A vida continua, a fila anda, a novela acaba, as crianças crescem e tudo acaba se resolvendo, mesmo que você simplesmente jogue a colcha em cima da cama e finja que os lençóis não estão amarrotados e embolados por baixo. Enfim.

Minha vida está um caos, e os dias acabam antes que eu possa piscar meia dúzia de vezes. Alguns compromissos vão simplesmente pulando de página na agenda sem que eu consiga cumpri-los. Isso me lembra a passagem de um livro de memórias, em que o autor conta o quanto se sentiu solidário com a mulher cuja lista ele achou, perdida no chão do elevador. Ele próprio, um aficionado por listas, não pôde deixar de admirar aquela que escreveu de maneira meio torta, as letras espremidas, entre Levar o cão para vacinar e Encapar os livros das crianças, um Dar à luz.

Desde junho não tenho mais empregada (desisti de me iludir que posso pagar por uma; e sim, eu arrumo às vezes a cama daquele jeito) e então meus dias começam antes do sol, lavando o terraço, e terminam depois da lua, passando roupa. No intervalo, trabalho, sou dona-de-casa e tento ser um bocadinho mais vaidosa. Promessa de Ano Novo: não saio mais de casa sem rímel e lentes de contato, mas o legal é que eu consigo - veja só você que vitória! - pentear o cabelo e tomar um banho de mais de 6.35 segundos!

E ainda tenho os livros. Quanto ao do Thomas Mann, estava na minha estante, mas te mando também. Porque eu preciso aceitar (sim, esse é o meu ano de aceitação!) que eu detesto "A montanha mágica". Que esse livro me dá sono. E que não consigo agüentar três páginas de diálogos em francês - pra mim, é esnobismo demais.

Beijos

Suzana

P.S.: Porque eu publiquei isso aqui e não te respondi por Gmail. Bom, meu Gmail não abre mais; quando abre não faz nada porque meu computador tem menos de 2 Giga de memória de tanto filme/música/fotos arquivadas. Tenho que ir numa lan para abri-lo. E também porque você é um dos poucos que me inspira o bastante para que eu escreva e sinta vontade de deixar registrado aqui no Breviário. Com foto e tudo.

Vocabulário do demo

"Sabor cheddar/churrasco"
"Hot Paprica"
"Com molho barbecue"
"Experimente a versão bacon/calabresa/chilli"
"Maxi amendoim"
"Extra queijo"
"Com pedaços inteiros de morango!"

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

...



Procurando uma foto de Catatau para ela levar para uma aula sobre genealogia, passei a tarde sentada folheando os álbuns das meninas. E como eu senti meu coração pesado ao perceber que, em todas as fotografias pré-divórcio, minha pequena Zé Colméia tinha o sorriso mais brilhante que uma criança é capaz de ter. E como, em todas as imagens feitas desde que o pai saiu de casa, seus olhos pingam tristeza sempre que ela mira a lente.

E eu chorei muito, por nós duas.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Roubado

Tem gente que é tão, mas tão interessante, que faz você preferir desfragmentar o HD.

Eu amo esse homem. Juro.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Atrasados

Eu fiz dieta nessa férias: fiquei sem acessar o computador, e agora tenho e-mails me desejando feliz Natal - Natal! - ainda por responder. Mas eu chego lá.
Viu, Marco? Güentaí que eu vou te responder. Espero que ainda este ano :o)

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Invenções do demo

Ovinhos de amendoim. Inocentes e branquinhos e chocrantes, pedindo - implorando - pra você levar um mísero pacotinho. Que tem 345.867.756.980.345 calorias (ou 120.000,43% das necessidades diárias do-que-quer-que-seja, segundo a Organização Mundial de Saúde) por saquinho.

Ai, por que eu comi isso, POR QUÊ???
Porque é uma delícia.
Eu disse. Do demo. Só pode ser.

Entonces

* As meninas voltaram para a escola. Meus pais têm dois novos hobbies - reconstruir a casa e falar no telefone (sim, agora eles têm telefone em casa). Então.

* Estou indo a todos os médicos que não fui nos últimos oito anos. Ou seja, desde que pari Catatau (e meu pai me deu de presente um seguro-saúde. Unimed. Recomendo a lot). Ontem foi a vez do dentista.

"A senhora não tem nada, a não ser essas obturações que... nossa! São antigas, né?" "São de quando eu tinha 12 anos e usei aparelho." "Então vamos trocar por resina, fica mais natural." Claro, ela TINHA que fazer alguma coisa pra compensar a consulta. Depois de dar uma limpeza geral à procura de tártaro (inexistente) foi mexer nas obturações. Uma tinha uma cárie pequenina por baixo. E ela então deu uma anestesia. Como a consulta estava assim meio sem clima, resolvi agitar um bocadinho aquela manhã tão insossa: desmaiei, mostrei tintim por tintim, no chão do consultório, toda a minha reverência por um café-da-manhã bem fornido, tive tonturas, suei frio, tudo bem ai-meus-sais. Troca de duas obturações e fechar uma reles cárie vagabunda: quatro horas. Você leu certo - QUA-TRO HO-RAS. Sim, prefiro sentir dor do que tomar injeção (por mim, minhas duas cesarianas teriam sido a seco. Mas a minha obstetra insistiu na anestesia, veja você).

* "Mãe, o que ele quis dizer com 'Ela ainda é virgem?' Porque ou ela é de Virgem ou não é, né? A gente não pode trocar de signo, pode? O que ele quis dizer, hein?" Aí eu fiz o que toda mãe centrada, responsável e cuidadosa com o crescimento psicológico sadio dos filhos faz nessa situação:

1 - Rezei pro telefone tocar.
2 - Não funcionou. Então, fingi que não ouvi.
3 - Não funcionou. Então, fingi que não tinha entendido.
4 - Não funcionou. Então, eu disse: "Bom, ele estava se referindo a ... Ai, Jesus, esqueci o lasanha no forno!" e bati em retirada ("Lembrete nº 23.673.345/0987-N: pensar numa explicação lógica e adequada à idade de Zé Colméia sobre virgindade & assuntos correlatos. Atenção: Zodíaco não cola mais")

* Caipira pobre que é caipira pobre, quando vê um sapato fofo e na promoção da Pontapé da Rua do Ouvidor, compra logo as quatro cores disponíveis. Mesmo que uma delas seja cenoura (não, não é laranja nem cor-de-abóbora. É cenoura, carrot, tá lá na etiqueta e na dor lancinante no fundo do olho).

* Ontem eu me surpreendi ao constatar que há exatos 30 meses não dou um beijo na boca. *Suspiro* Vou ter que voltar a treinar na laranja.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Tudo de novo

Catatau vai usar um livro da Cambridge University Press. Custa R$ 104,70. Só o livro texto. Sem contar o livro de atividades, o CD-ROM e o Progress Diary. Eu sou covarde. Eu não tive coragem de perguntar quanto custa o pacote inteiro. Eu vou ter que empenhar a Catatau pra comprar o material de inglês dela.

Tenho 958.494.340.398,5 cadernos para encapar (o 0,5 é meio ofício). À escolha, 123.980.345 estampas de Contact que nenhuma das duas consegue se decidir ("Mas você não acha que Sininho tá meio assim passado?" "Nãããão, porque esse é de fundo azul, e o do ano passado era roxo." "Mas eu prefiro das Princesas..." "Mas a cara da Bela tá tão esquisita!!!" "Então eu quero o da Marie." "Ah, não, EU escolhi o da Marie!" "E daí? Eu também não posso ter?" "NÃO! Não pode! MÃÃÃÃÃÃÃEEEEE!")

Tenho 675.876.233 livros para encapar. À escolha, 123.980.345 estampas de Contact que nenhuma das duas consegue se decidir (vide acima).

Tenho 1.059.170.216.631,5 coisas para colar etiquetas. À escolha, 145 tipos de etiquetas que nenhuma das duas consegue se decidir (vide acima).

Ainda falta repor os uniformes (e costurar etiquetas em todos) e comprar um par de tênis. Isso com o dedo mindinho do pé mal colado e no meio da reforma do telhado da minha casa.

Oi, meu nome é Suzana e você está assistindo "Volta às Aulas Freak Show".

quarta-feira, janeiro 21, 2009

...

Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho. Trovão é só barulho.

Ai...!

terça-feira, janeiro 20, 2009

Nesta fria manhã em Washington



Quando os apresentadores da GloboNews vão aprender que "Speaker" NÃO é porta-voz? Que em lugar nenhum do mundo alguém seria maluco de pôr o porta-voz como TERCEIRO na linha de sucessão presidencial? Doeu.

"E aí vemos a comediante Whoopi Goldberg... Hum... Acho que não."

"Logo atrás de Michelle Obama podemos ver o diretor Steve Spielberg. Hum... Acho que não."

"Entrando atrás do secretário Whatever podemos ver o ex-presidente Bill Clinton. Agora vemos o juiz da Suprema Corte Whatever II, o ex-secretário Whatever III e... Hum... Agora podemos ver Bill Clinton."

Puxa vida, todas as ex-primeiras damas (só uso sem hífen; primeira dama é título, não é cargo) acompanhando seus maridinhos poderosos (a-mei a boina caramelo spice do Jimmy Carter; ele virou um velho fofo) mas Barbara Bush nãããooo! O Busho que está atrás dela que se vire naquele andar de pingüim. Poderosa que é poderosa deixa o velho pra trás - e os mariners que segurem se o caco tropeçar na bengala e cair da escada, na frente de uma dúzia de convidados e 3,5 bilhões de espectadores.

Michelle Obama. Tão bonita mas... que cabelo é aquele, mamãe? Que maquiagem a essa hora da manhã é aquela, vovó?

E lá se vai a filha de Bush, Jeena, de sainha prateada e calcinhas ao vento, subindo no helicóptero.

Adorei o locutor da GloboNews: "E agora a banda da Marinha toca o Hino Nacional". E o coro dos oficiais começa a cantar à capella.

Flávio Ribeiro. A primeira tradução simultânea decente em anos - depois de tirar o som de todas as cerimônias do Oscar da TNT.

Fox News. Acho que eles estavam sem microfone. Ou o repórter surdo. Porque gritar assim, sabe? Doeu II.

CNN. Reportagem de 20 minutos mostrando como Obama era, até esta semana, quase desconhecido no México. So...?

Aretha Franklin qual um bombom. Se houvesse eclipse o turbante dela já estava aceso.


Estava chovendo, eu com preguiça. Então até posse de presidente é programa.

sábado, janeiro 10, 2009

...



Eu amo a vida. Espero que ela me perdoe e volte a me amar, também.

sábado, dezembro 20, 2008

Quase ao fim



Em novembro, um deslizamento de terra matou um dos cachorros dos meus pais. Então, meu pai chamou a Prefeitura que foi lá, cutucou bem tudinho e disse que estava tudo ok. Não estava. Uma obra clandestina do único vizinho dos meus pais num raio de quilômetros desviou um curso d'água para a direção de uma imensa rocha. Nas chuvas que se seguiram, o terreno já fofo afundou de vez e a pedra rolou encosta abaixo. Meus pais não estavam em casa. A pedra bateu à porta da cozinha e levou metade da casa - só parou no ribeirão que dá as boas-vindas a quem chega ao sítio.

E então eu fiquei subindo e descendo a serra. Por quase dois meses. Larguei minha casa, meu trabalho e minhas filhas para ver meu pai completamente aturdido revirando, com a ponta da bengala, os restos enlameados de seu álbum de casamento. Seus documentos, diplomas, certificados. As fotos da infância dos seus filhos e netos. As fotos de infância de seus pais. Seus preciosos livros já sem as letras nas páginas amolecidas pela chuva.

Eu ouvi meu pai chorar por dentro. Um choro quente, desesperado, cheio de porquês. Minha mãe não esboçou nenhuma reação. Apagou-se como uma vela já no fim e só acordou no hospital, o rosto muito pálido refletindo o que fazer para recuperar o que foi perdido - em alguns casos, para sempre.

Com somente a roupa do corpo e nada mais, no meio daquele frio todo, meu pai olhou no fundo dos meus olhos e murmurou: "Que bom que você não estava aqui com as meninas. Que bom que nós não estávamos aqui. Que bom que você está aqui agora." Naquele momento, ganhei o único presente de Natal que esperei a minha vida inteira para receber: o amor do meu pai.

Que todos vocês ganhem, nesse fim de ano, o que mais almejaram a vida inteira - em tamanho, em intensidade, em eternidade.

Beijos meus e das meninas. Não sumam.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Fotógrafos X - B&W Spider Awards



Tidet, by Chris Budgeon



Sweet dreams, by Ruud Peters



Geese in fly, by Ron Green

...



- Sinto que sempre conheci você.
- Eu também sinto isso.
- Sabe, eu mataria por você.
- [...]
- Você não?
- Essa é a diferença entre nós dois. Você mataria por mim. Eu me deixaria morrer por você.

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Sumário

Meu avô me dizia que, quando ele nasceu, tinha um nome grande que terminava pequeno: Paulinho. Aí ele cresceu, e na escola era chamado de "Paulo de Tal", entre outros Paulos. Formou-se e acabou virando "Excelentíssimo Sr. Juiz Dr. Paulo Fulano Beltrano de Tal e Qual". Casou e virou de novo "Paulo". Teve um filho, e daí virou "papai" e depois, "pai".

No fim da vida, gostava de dizer que tinha sido resumido a uma sílaba: "Vô". Mas que aquela sílaba, inversamente ao "Excelentíssimo Sr. Juiz Dr. Paulo Fulano Beltrano de Tal e Qual", encerrava um universo que transcendia a sua própria existência.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

Lembrete



Su, minha adorada;
[...] Você criou esse mundo que te parece mais rico e mais interessante. Mas a outra, a que você também é, caminha pra esse mundo toda vez que precisa. Me parece fascinante. Essa capacidade que vocês duas têm de se autoproteger e se refazer deve ser parte de teu processo de cura e de crescimento. Uma pessoa tão sensível, tão bela e tão profunda como você é, com teus poemas, tuas fotografias, tuas leituras, só sendo duas. Quer dizer, muitas, muitas. A mãe das meninas, a mulher que limpa o jardim depois das tormentas (literalmente também) e a maravilhosa Suzana Elvas que conhecemos nos blogs. Não pára, Su. Você ainda se considera fragmentada? Bem, um pouco somos todos. Mas nos momentos de plenitude somos todos os fragmentos juntos. Me parece que teu momento está chegando. E sem muitos medos de ficar no outro mundo. Nada disso. Eu te amo muito.

Nelly (La Mamacita da Lola)

Às vezes eu me pergunto "Ora bolas, pra que ter um blog? Já tenho tanta coisa pra fazer, e ainda tenho sempre que postar coisas interessantes ou aí aproveito pra chorar pitangas virtuais etc." Aí eu leio isso.
Do fundo do meu coração, obrigada pelo colo, D. Nelly. Eu estava precisando.

sábado, novembro 29, 2008

Punjabi soul



Jind Mahi

Oh jind mahi baaz tere kumlayiyaan, teriyan laadliyan bharjayian
oye baagi firan kadi nahin aayiyaan,
Oh ik pal beh jana mere kol, tere mithde ne lagde bol
Oh jind mahi je chaliyon patiale, othon liyavi reshmi naale
Adhe chitte te addhe kaale,
Oh ik pal beh jana mere kol, tere mithde ne lagde bol
jind mahi baajre diyan chattiyaan, mela vekhan aayiyaan jattiyaan
Hath ch sheeshe te laundiyan pattiyan,
Ik pal beh jana mere chanda, Vichora do dilan da manda.
ho jind mahi ishqey di kaali raat, hove jiven sawan barsaat
ehe ishq hai buri saugaat
ik pal beh jana mere kol, tere mithde ne lagde bol

Minha querida

Meu amor, elas estão tristes sem você, minhas adoráveis cunhadas
Oh, você jamais veio ao jardim para caminhar
Sente-se um momento comigo, eu adoro suas doces palavras
Ei, amor, se você estiver indo para Patiala, traga sedosas meadas de lá
algumas brancas, algumas negras
Sente-se um momento comigo, eu adoro suas doces palavras
Meu amor, há trigo nos talos, primas vieram para ver a festa,
pentear os cabelos com espelhos nas mãos
Sente-se um momento, minha lua; a separação de dois corações é muito ruim
Minha querida, na noite escura do amor, tal como a chuva de monção,
o dom do amor é muito doloroso
Sente-se um momento comigo, eu adoro suas doces palavras


sexta-feira, novembro 28, 2008

Noite



Homem: Estou falando daquela vez no rio.

Mulher: Que vez?

Homem: A primeira vez. Na ponte. O começo, na ponte.

Mulher: Não consigo me lembrar.

Homem: Na ponte. Paramos e olhamos o rio. Era noite. Havia luzes na margem. Estávamos sozinhos. Eu pus minha mão na tua cintura. Você se lembra? Pus minha mão por baixo de teu casaco.

Mulher: Era inverno?

Homem: Claro que era inverno. Foi quando nos encontramos. Foi nosso primeiro passeio. Deste passeio você se lembra.

Mulher: Eu me lembro do passeio. Eu me lembro do passeio com você.

Homem: A primeira vez? Nosso primeiro passeio?

Mulher: Sim, é claro. Eu me lembro dele. (pausa) Caminhamos pelo campo. Atravessamos algumas cercas, chegamos num canto e paramos junto a uma cerca.

Homem: Não. Foi na ponte que nós paramos.

(pausa)

Mulher: Então foi outra pessoa.

Homem: Que besteira.

Mulher: Foi outra mulher.

Homem: Faz muito tempo. Você se esqueceu. (pausa) Eu me lembro da luz sobre a água.

Mulher: Você estava junto à cerca e segurou meu rosto com suas mãos. Você foi muito gentil. Muito atencioso. Você me acariciou. Seus olhos procuraram meu rosto. Eu queria saber quem era você. Queria saber o que você ia fazer.

Homem: Foi numa festa que nos encontramos. Você não concorda com isto?

Mulher: O que foi isso?

Homem: Isso o que?

Mulher: Pensei ter ouvido uma criança chorando.

Homem: Não há barulho nenhum.

Mulher: Pensei ter ouvido uma criança chorando, acordando.

Homem: A casa está em silêncio. (pausa) É muito tarde. Ainda estamos sentados aqui. Já devíamos estar na cama. Tenho que acordar cedo amanhã. Tenho muitas coisas para fazer. Por que você quer discutir?

Mulher: Eu não quero discutir. Não estou discutindo. Eu quero é ir para a cama. Também tenho muito a fazer. Tenho que acordar cedo amanhã.

(pausa)

Homem: A festa foi na casa de John. Você o conhecia. Eu, só de vista. Conhecia mesmo era a mulher dele. Foi lá que encontrei você. Você estava em pé, junto à janela. Eu sorri e, para minha surpresa, você também sorriu para mim. Gostou de mim. Fiquei admirado. Você me achou atraente. Mais tarde me disse isto. Você gostou dos meus olhos.

Mulher: E você gostou dos meus. (pausa) Pegou minha mão. Perguntou quem eu era e o que fazia. E se eu percebia que você estava segurando minha mão, que seus dedos estavam apertando os meus, que seus dedos estavam entre os meus.

Homem: Não. A gente parou na ponte. Eu estava atrás de você. E pus minha mão por baixo do seu casaco. Na sua cintura. Você sentiu minha mão em você.

(pausa)

Mulher: Nós tinhamos estado numa festa. Na casa de John. Você já conhecia a mulher dele. Ela te olhou com muito interesse. Dando a entender que o queria. Ela parecia gostar muito de você. Eu não o conhecia. Nunca havia visto você. A casa deles era maravilhosa. Na margem do rio. Fui apanhar meu casaco e você ficou me esperando. Você se ofereceu para me acompanhar. Achei muito simpático, muito gentil, muito educado, muito atencioso. Pus meu casaco e olhei pela janela, eu sabia que você estava me esperando. Olhei do jardim até o rio e vi as luzes sobre a água. Então fui até você e passeamos pelo campo, atravessamos algumas cercas. Devia ser uma espécie de parque. Depois pegamos o seu carro. E demos algumas voltas.

(pausa)

Homem: Eu toquei teus seios.

Mulher: Onde?

Homem: Na ponte. Eu segurei teus seios.

Mulher: Tem certeza?

Homem: Eu estava atrás de você.

Mulher: Fiquei me perguntando se você ia fazer isso, se você queria mesmo, se você ia fazer.

Homem: Sim.

Mulher: Fiquei me perguntando como você ia fazer isto, se tinha vontade suficiente.

Homem: Pus minha mão por debaixo da tua blusa. Soltei teu sutiã. E apertei teus seios.

Mulher: Talvez uma outra noite. Ou uma outra mulher.

Homem: Você não se lembra de meus dedos no teu corpo?

Mulher: Eles estavam nas tuas mãos? Meus seios? Nas tuas mãos?

Homem: Você não se lembra das minhas mãos no teu corpo?

(pausa)

Mulher: Você estava atrás de mim?

Homem: Sim.

Mulher: Mas eu estava encostada na cerca. Senti a cerca nas minhas costas. Você estava de frente pra mim. Eu estava olhando os teus olhos. Minha blusa estava fechada. Fazia frio.

Homem: Eu desabotoei tua blusa.

Mulher: Era muito tarde. Estava meio frio.

Homem: E depois a gente deixou a ponte. E fomos andando pela margem e chegamos num monte de folhas.

Mulher: E você me possuiu, e disse que estava apaixonado por mim, e você disse que ia tomar conta de mim para sempre, e que minha voz, meus olhos, minhas coxas, meus seios eram maravilhosos e que você ia me adorar sempre.

Homem: Sim. Eu disse.

Mulher: E você vai me adorar sempre.

Homem: Sim. eu vou.

Mulher: E então nós tivemos filhos e estamos sentados aqui, conversando e você se lembrou de mulheres nas pontes e nas margens e nos montes de folhas.

Homem: E você se lembrou dos teus quadris na cerca e homens segurando tuas mãos e homens olhando nos teus olhos.

Mulher: E falando comigo suavemente.

Homem: E tua voz suave. Falando pra eles suavemente. Na noite.

Mulher: E eles diziam: "Eu vou te adorar sempre."

Homem: Dizendo: "Eu vou te adorar sempre."


Harold Pinter

quarta-feira, novembro 26, 2008

Esquizofrenia

É impressionante como o mundo de Suzana é tão mais rico, mais interessante, mais prazeiroso do que o mundo da outra.

E, acredito, aí é que mora o perigo.

Jamais se repita

Eu já vivi isso - e não desejo nem à maior fdp que encontrar na vida.
Assine, por favor.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Punjabi groove



Darshan

Oh ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Oh aj din vadiya lagoogaa
Ni aj din vadiya lagoogaa
Oh ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Oh ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Oh, sona mukharda vekh ke tera
Baago baag hoyaa dil mera
Tenu hath jordh ke aakhaan
Ni mere dil wich laale dera
Oh, sona mukharda vekh ke tera, ni baago baag hoyaa dil mera
Tenu hath jordh ke aakhaan, ni mere dil wich laale dera
Ni koi karmaan walaa ishq tere de rang wich rangoogaa
Oh ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Kade niwi paake hasna, ni haske chori-chori takna
Haske chori-chori takna
Teraa tumuk tumuk ke turna, ni pab boch boch ke chalna
Ni pab boch boch ke chalna
Kade niwi paake hasna, ni haske chori-chori takna
Teraa tumuk tumuk ke turna, ni pab boch boch ke chalna
Teraa nakhraa pata nahin kiniyaan di jind sooli tangooga
Oh ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Chad ke lare lambe laune, je tu sikh le bol pagaune
Je tu sikh le bol pagaune
Tere rahaan de wich ardiye, phir jagraj ne nain vichaune
Phir jagraj ne nain vichaune
Chad ke lare lambe laune, je tu sikh le bol pagaune
Tere rahaan de wich ardiye, phir jagraj ne nain vichaune
Teraa mairam main rab de kolon tenu hi mangogaa
Oh ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa
Ni, tere hoye savere darshan, aj din vadiya lagoogaa

Visão divina

Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Hoje o dia será, sem dúvida, maravilhoso
Hoje vai ser maravilhoso
Hoje vai ser maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença esta manhã
Hoje o dia será, sem dúvida, maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença esta manhã
Vendo o seu lindo rosto
O meu coração ficou absolutamente louco; uno minhas mãos e digo
Venha e viva no meu coração
Algum homem de sorte será seu escolhido
Vendo o seu lindo rosto, meu coração ficou absolutamente louco; uno minhas mãos e digo
Venha e viva no meu coração
Algum homem de sorte será o seu escolhido
Quem se tingirá com as cores do seu amor?
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Às vezes você baixa os olhos e ri e, ao rir, rouba um instante do tempo
Enquanto você ri rouba um instante do tempo
O jeito de caminhar sem pressa e suavemente sobre as pontas de seus dedos
Sobre as pontas de seus dedos
Às vezes você baixa os olhos e ri e, ao rir, rouba um instante do tempo
O jeito de caminhar sem pressa e suavemente sobre as pontas de seus dedos
Com a sua atitude quem sabe quantas pessoas ele vai matar
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Se você deixar de fazer falsas promessas e aprender a manter sua palavra
Se você aprender a manter sua palavra
Então ele a seguirá menina, Jagraj vai olhar para você
Jagraj vai olhar para você
Se você deixar de fazer falsas promessas e aprender a manter sua palavra
Se você aprender a manter sua palavra
Então ele a seguirá menina, Jagraj vai olhar para você
Jagraj vai olhar para você
Como aquele que te ama, de Deus; vou pedir apenas para você
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso
Menina, eu percebi a sua presença, esta manhã; hoje será um dia maravilhoso


terça-feira, novembro 18, 2008

Saldos de primavera

Contabilizando a tempestade de ontem:

* Três ralos entupidos com minigoiabas & carlotinhas
* Dois ralos entupidos com pêlos & folhas
* 3,7 toneladas de cocô de cachorro derretido
* Três cachorros fedendo (e dormindo cada um num canto do terraço - pra ver como tá feia a coisa)
* Dois quartos externos inundados
* Dois sacos de carvão transmutados em lama negra
* Dois panos de chão desaparecidos
* Uma pitangueira careca
* Uma bananeira tombada
* Duas novas goteiras

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos - não temos notícias de corpinhos de camundongos à deriva (vide post antigo que eu estou com preguiça de procurar).

Fotógrafos IX - Bruno Mercier



Ocean dream, Havre de Portbail, 2006




La Potinière - Plage de la Potinière, Carteret, 2008




Dielette - Phare sur le port de Dielette, 2006




Green is the light - Chateau des Ravaler, 2007

Arca perdida



As pessoas fazem listas de desejos, como visitar a terra dos pais ou tirar uma foto no topo da Torre Eiffel. Eu tenho desejos mais sensoriais. Por exemplo, vi "Sonhos", de Akira Kurosawa, e uma das partes do filme chama-se "Pomar de pêssegos". Como deve ser o cheiro de um pomar de pessegueiros quando as árvores florescem? Queria saber. Ou de um pomar de cerejeiras - dá pra sentir o pretenso perfume nas fotos.

Um campo de tulipas. Ou aqueles prados cheios de lavanda que se vê em fotos da Provença. Consegue imaginar o perfume no ar?

"Lições de francês", um livro do gastrônomo e enólogo Peter Mayle, fala de uma viagem em busca de belas refeições pelo interior da França. Ele descreve uma tarde de outono numa cidadezinha ao sul, copo de vinho na mão, o calorzinho do sol se pondo. Ouvindo as colinas sussurrarem. Eu queria isso para mim.

Um grande compositor brasileiro chamado Henrique Oswald acabara de compôr sua mais famosa obra para piano quando perguntou à mulher que nome dar a ela. Estava escurecendo sobre Paris e nevava. Ela olhou pela janela e disse: "Il neige". Quero ouvir a neve cair sobre Paris.

Viajando pelo interior da Itália, estávamos nos aproximando de Assis. E o sol caía esplendidamente sobre o vale. Lembrando-me agora, parecia como o brilho do sol atravessando o azeite - já reparou como é de um tom dourado estranho, puxando para o verde? Era exatamente essa cor. Mas cada vez que tento me lembrar daquele momento sinto que a imagem vai ficando cada vez mais desbotada. A hora é errada, a cor está diferente, o silêncio não é igual. Quero refrescar a minha memória e regravar aquele tom de dourado novamente nas minhas lembranças.

Fechar os olhos e ouvir ao vivo Wynton Marsalis dividir o palco com seu irmão Branford. Acampar à noite e contar estrelas. Ter uma casa onde eu possa dormir ouvindo o mar. Ter desejos secretos, ainda por realizar.

* Obrigada, amigo.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Boing boing



Tem certos fins de semana em que eu, realmente, sinto uma certa falta das festas que eu dava.
*Suspiro*

Descendente I

A maturidade traz momentos de sensatez e serenidade, como comer de uma vez só, inteirinho - e raspando aquele papel encerado com a colher pra não perder nem um gruminho - um Chocotonne. Maxi. De um quilo.

E depois ficar pensando como explicar às suas filhas de onde apareceu ("Ah? Onde? Ali? Ali, onde? Ah, isso? Não, não sei como isso foi parar aí. Não") aquele papai noel de brinde.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Por baixo da ponte



Minha mãe visitando a sede do Ministério da Cultura. Aí ela se lembra de quando foi lá registrar seu diploma de professora - os dados eram copiados à mão, numa letra de escriba medieval, por senhorinhas acomodadas no último andar do prédio.

- Olá, pode me dar uma informação? - pergunta ela a um guardinha no saguão. - Ainda existem aquelas velhinhas numa salinha lá no último andar preenchendo os diplomas do Instituto de Educação à mão?

Ao ouvir o "velhinhas", o guardinha automaticamente olha os cabelos alvos e fofos de minha mãe, o leque de rugas em volta dos olhos verdes e brilhantes num rosto corado e redondinho - e meio engasgado, responde:

- Vel...hinhas? Sim, senhora. Elas ainda trabalham lá.

E minha mãe, mais engasgada ainda, liga o sinal de "Velhice é uma merda" e vai embora - entrando na fila dos idosos rumo ao elevador até o último andar.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Descendente



A maturidade traz momentos de sensatez e serenidade, como passar horas fuçando ferozmente lojas de sapatos atrás daquele modelo perfeito - que, obviamente, ainda não desceu do Mundo das Idéias.

November 4, 2008



Patrick Moberg

terça-feira, novembro 04, 2008

Caderno de notas



Ignorava quase tudo dessas mulheres; a parte que entregavam das suas vidas cabia entre duas portas entreabertas. Seu amor, do qual falavam sem cessar, parecia-me por vezes tão leve quanto uma de suas guirlandas, como uma jóia da moda, um ornamento caro e frágil. Imaginava-as ataviando-se com sua paixão tal como usavam o carmim ou colocavam seus colares. [...] Acabei por compreender que o espírito do jogo exigia esses perpétuos disfarces, esses excessos nas confidências e nas queixas, esse prazer ora aparente, ora dissimulado, esses encontros planejados como os passos de uma dança. Mesmo nas disputas esperavam de mim uma réplica antecipadamente calculada, e a bela mulher desfeita em lágrimas torcia as mãos como num palco.

Tenho pensado freqüentemente que os amantes apaixonados pelas mulheres se prendem ao templo e aos acessórios do culto tanto, pelo menos, quanto à sua própria deusa. Deleitam-se com os dedos tintos pela alcana vermelha, com os perfumes na pele, com os mil artifícios que realçam a beleza e, por vezes, fabricam-na por completo. [...] Dificilmente se poderia dissociá-las da doçura febril de certas noites de Antioquia, da excitação das manhãs de Roma, dos nomes famosos que usavam, do ambiente de luxo em que o maior requinte era mostrarem-se nuas, mas jamais sem seus adereços.

Eu teria ambicionado muito mais: queria a criatura humana despojada de tudo, sozinha consigo mesma, como teria sido forçoso que estivesse algumas vezes na doença, ou depois da morte do primeiro filho recém-nascido, ou frente a uma primeira ruga adiante do espelho. Um homem que lê, pensa ou calcula pertence à espécie e não ao sexo; nos seus melhores momentos ele escapa inclusive ao humano. No entanto, minhas amantes pareciam vangloriar-se de não pensar senão como mulheres; o espírito ou a alma que eu buscava ainda não era mais que um perfume.


Marguerite Yourcenar, "Memórias de Adriano"
Tradução de Martha Calderaro
Editora Nova Fronteira, 1980.

A cada vez que encontro alguém sempre me cobram os adereços; estou ainda a esperar aquele que queira apenas a "criatura humana despojada de tudo, sozinha consigo mesma".

segunda-feira, novembro 03, 2008

Moviola



David Lynch and Isabela Rosselini, by Helmut Newton

...

Preparar um original ruim deve ser como fingir orgasmo.
Muito esforço pra nada - uma total perda de tempo.

Actor's Studio

The key to acting in long scenes is finding a comfortable place for your character to sit. (A chave para interpretar longas cenas é achar um lugar confortável para seu personagem se sentar.)

David Hewlett

Bichinhos de jardim



Mais aqui.

sexta-feira, outubro 31, 2008

... ninguém acredita



Já tem quase 25 anos que eu conheci um cara lindo, muito charmoso e interessante. Eu e Felipe nos encontramos na faculdade, quando fazíamos biologia. Ele queria se especializar em zoologia e eu, em biologia marinha. Jamais rolou nada entre nós. Mas a amizade nasceu mesmo foi com o advento do e-mail. Eu larguei a faculdade e fiz comunicação; ele seguiu em frente, fez ainda veterinária e foi estudar fora, na Inglaterra. E se no começo era uma carta por mês, quando o e-mail chegou para ficar minha caixa de entrada pingava ao menos um e-mail longo por dia.

Primeiro ele se especializou em grandes animais - cavalos e vacas. Depois, inventou de, nas férias, ser voluntário no Parque Nacional Kruger, na África do Sul. E de lá não voltou (minto; voltou para buscar a mudança e o companheiro, um cartógrafo escocês maluco chamado William que adora vir ao Brasil para poder lotar a mala de porcarias tipo Guaraná Antarctica e Catupiry).

Pois hoje recebi um e-mail do William dizendo que meu amado amigo levou uma chifrada de um gnu. O bicho ia ser sacrificado (e William se deleitou descrevendo a extensão da ferida cheia de moscas varejeiras) e não gostou. A mãe do Felipe é uma velhinha judia, e eu sempre sou a porta-voz das coisas ruins ("Felipe não vem para o Hanukah"; "Felipe quebrou o braço", "Felipe está com malária", "Felipe foi abduzido no meio do Serengueti").

Enfim. É onde ele está hoje, no Parque Nacional do Serengueti, na Tanzânia. Ou estava, antes de ser levado para um hospital no Quênia com as costelas quebradas e um buraco no peito. Mas ele adora isso. E eu vou ter que contar pra mãe dele. E acho que dessa vez não vou ganhar nem um fluden.

quinta-feira, outubro 30, 2008

...

Lendo meus antigos posts, começo a achar que ou eu tenho que levar muuuuuita porrada do destino ou estar absolutamente encantada com a minha própria existência para então escrever alguma coisa que preste.
Uma vida mais ou menos não dá samba.
Sorry.

Fotógrafos VIII - Hiroshi Watanabe



Loiawannai Lesumante, Samburu, Kenya, 1997



Edison Pastillo 1, Ecuador, 2000



Shikami 1, Naito Clan



Azusa Tukamoto as Osome Matsuo Kabuki

quarta-feira, outubro 29, 2008

...

Eu disse isso um dia, e é a mais pura verdade.
Muitas vezes, o que queima por debaixo da pele deveria ficar por lá.

terça-feira, outubro 28, 2008

Vamos combinar

Tem dias em que nem PAGANDO a gente deveria sair da cama.

segunda-feira, outubro 27, 2008

O que importa



Achei que esse dia jamais de apresentaria de novo mas... bom, estou sentindo falta de ter alguém. Das profundezas dos meus loucos dias, sinto a falta de alguém. De um bom beijo na boca, de um não-vamos-fazer-nada, de um ah-vamos-fazer-sim.

E aí um pensamento puxa outro e lembrei da listinha da Catatau. E fiz, mentalmente, a lista dos meus namorados/marido/casos/trelelê. E fiquei assim meio perdida.

Porque eu já namorei de tudo um pouco. De um cara 14 anos mais novo a um 17 anos mais velho. Gordo, magrelo, meio careca, meio cabeludo. Sarado e largado. Troglô e quase do lado de lá.

Então, qual o meu tipo? Tinha um cara na redação do jornal onde trabalhei que era, nas palavras da meninas, o filho mais bonito e melhorado do Hugh Grant. Pois eu não suportava a criatura. E então me dei conta que me sinto atraída por aquele em quem eu mergulho dentro dos olhos. E eu sei que há grandes possibilidades de isso acontecer se ele tem mãos que me dizem alguma coisa.

Eu já me apaixonei por um cara gordinho, um estrangeiro que falava engraçado e que por quem ninguém dava nada porque tinha feito luta greco-romana quando mais jovem. Mas que tinha um par de olhos azuis, encimado pelas sobrancelhas negras mais gloriosas que eu já vi, que me engolia inteirinha. E as mãos dele acompanhavam os olhos.

Olhos e mãos. Mergulho nos olhos, observo as mãos; não têm um formato específico, uma cor determinada. Têm que me dizer alguma coisa. Têm que me acender de uma certa maneira. Têm que despertar em mim o desejo de vê-los em mim. De senti-los na minha pele. De serem meus, afinal.

quinta-feira, outubro 23, 2008

...

Hoje, na reunião na escola das meninas, conversando com a professora vimos, eu e ela, com lágrimas nos olhos e aperto no coração, como Catatau, silenciosa e desesperadamente, deseja um pai.

...

Ando tão cansada que minhas sobrancelhas pinicam e minhas gengivas coçam.

terça-feira, outubro 21, 2008

E se...



Tem amiga que me pergunta "Mas o que você viu nele?". Eu vi tudo. Eu não apenas vi como ouvi e senti o cheiro de alguém morno, tempestuoso, altivo, risonho, rebelde, fiel, teimoso, sonhador, palhaço, crianção, responsável, sério e triste na alegria mais desenfreada. Assim como eu sou.

Nem me lembro mais como se deu essa entrada triunfal na minha vida, sem tambores nem bandeiras. Foi como naquela piadinha "Meu amor e eu fomos feitos um para o outro; só falta alguém nos apresentar." O encaixe foi perfeito, confidências e desentendimentos idem. Mas eu não acredito em cara-metade, a outra parte da laranja. Se não veio somar, PT Saudacoes. Mas você extrapolou. Transbordou.

Agüentando as crises de três mulheres/duas cadelas/um cachorro. Sabendo bater em retirada quando a coisa fica feia, emudecendo num silêncio ofendido de quem se viu magoado sem razão. Desculpe. É o estresse/a gripe/o excesso de trabalho/a conjunção astral. Vai passar.

Vezes sem conta peguei você me olhando enquanto durmo, mesmo sabendo o quanto eu detesto isso. Contornar suas sobrancelhas, observar o seu perfil de quem já deixou a juventude para trás mas ainda guarda alguma coisinha espalhada entre as rugas nos cantos dos olhos. Entender que eu choro quando vejo móvel bonito feito à mão, assisto "Fantasia" ou penso em quantas vezes eu disse "Te amo" a quem não merecia e silenciei meus sentimentos para tantas pessoas e agora elas se foram e eu não posso mais fazer isso. Você entende por que eu ainda não consigo dizer "Amo você". Mas eu vou conseguir. Prometo.

Você fica sabiamente calado quando eu roubo as suas camisas porque estou me achando gorda - eu ouvi quando você disse "gostosa" mas sorry, eu não acredito. Eu não gosto dos meus pés e não adianta ficar apalpando os dedos. Eu não gosto, ponto final. Mas adoro ser posta sobre a bancada da pia da cozinha e ali cometer crime duplamente qualificado - sexo por motivo fútil e sem chance de defesa.

Você ama meus cabelos, eu adoro as suas mãos. Nós dois gostamos de andar num fim de tarde pela Lagoa, de frio agasalhado, de acordar de madrugada para conversar na cozinha enquanto as meninas dormem, de roubar beijos na escada rolante do shopping. De andar de mãos dadas. De perder-se numa livraria, de procurar ansioso pelo outro na multidão. De passar a tarde longe - cada um com seus amigos - pra sentir saudade depois. De pegar minha mão enquanto você dirige (sim, você vai ser meu eterno motorista porque eu jamais vou aprender a dirigir). De levar a caneca de café na cama, de ficar no escuro ouvindo os trovões explodirem entre as montanhas de granito do Rio de Janeiro.

E a verdade é tão clichê que quase tenho vergonha de dizer que esperei minha vida inteira por você.

Para aquele que, espero, ainda está por vir.

sábado, outubro 18, 2008

...

Estou eu aqui sozinha no apartamento dos meus pais. As meninas estão com o pai. No fone de ouvido, Dinah Washington (tocando exatamente nesse momento "Destination Moon", uma das mais deliciosas músicas que eu jamais ouvi na minha vida). Enfim. Estou sentindo uma profunda vergonha como efeito retardado do que aconteceu de manhã.

As meninas tiveram inúmeras apresentações na escola. Eu ajudei a bolar e fazer os figurinos. Então, estava lá atrás ajudando a maquiar todo mundo. Só que as professoras resolveram inverter a ordem das apresentações e pintar o rosto das crianças logo no início para poupar trabalho depois. E eu, vergonhosamente, dei um piti. Disse que o pancake ia manchar a roupa das crianças, que elas deveriam ter avisado antes etc e tal. Como eu disse, lamentável. Tanto que me enche de vergonha e meus olhos de lágrimas mesmo agora, horas depois.

Por que eu fiz isso? Estresse? Gripe? Cansaço? Todo mundo junto e você também? Não sei. Pedi desculpas às professoras depois, mas até agora me pergunto o que me levou a esse comportamento que eu nunca - NUNCA - tive na minha vida.

E, sabe, estou ficando cansada de ter que me fazer esse tipo de pergunta. E de não conseguir respostas mais convincentes do que os convenientes estresse, gripe e cansaço.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Num só dia

- Bom-dia, sou da firma de cobrança e estou ligando referente a uma dívida de R$ 790 que a senhora mantém no banco C.
- Eu não sou cliente desse banco desde 2005.
- Mas há um saldo devedor.
- Se existisse saldo devedor eu não poderia ter encerrado a conta.
- Bom, então a senhora tem que ligar para o banco.
- Vocês me ligam três vezes ao ano, e três vezes ao ano eu ligo ou vou à agência do banco e eles me dizem que eu não devo nada. Vocês têm que ligar para lá e...
- Não senhora; nós, não. A senhora.

(Reações adversas: atendentes ignorantes de firmas idem provocam cefaléia, ânsias de vômito, alterações bruscas de humor e personalidade e, em casos mais graves, gestos violentos e comportamento hostil).

- Mãe, tô com a garganta ardendo tanto!
- Ô, filha, vai passar. Você tomou o remédio e vai ver que não deve piorar.
- Ai, vou espirrr... ATCHIM - TUM!

(O Ministério da Saúde adverte: se no "AAATT" você joga a cabeça pra trás, cuidado com o rebote pra frente no "TTTCHIM!" - principalmente se sua cabeça estiver só um pouco acima do nível do tampo de mármore da mesa.)

- Corre, filha! O elevador chegou!
- Peraí, mamãe! Eu não posso correr senão estraga a maquetinha que eu fiz da princesa portuguesa! Minha professora disse que amanhã é o último dia pra entregar e eu não vou conseguir fazer outra e por isso não pode amassar nad...

(Perigo: ao entrar no elevador segure com firmeza papéis e objetos pequenos. Eles são propensos a escaparem da sua mão, caírem no vão entre o andar e o elevador e só pararem láááááá no poço, de onde nenhuma alma viva jamais retornou.)

Cara de tacho

- Filha, se você não gostou põe no cantinho do prato.
- *suspiro* Mãe, o prato é redondo. Como vai ter cantinho num prato redondo?

terça-feira, outubro 14, 2008

This is not an option

- O que ela tem?
- Dor de garganta. A pediatra mandou passar aquele spray. Ela já tá melhor.
- Faz um gargarejo com sal.
- Nem pensar.
- Você sempre ficava boa com isso, quando era pequena.
- Ela não sabe gargarejar. Vai engolir a metade da água com sal. Aí vai ficar com dor de barriga e vomitar. E, sabe, infelizmente não rola ficar doente no meio da semana. Não nessa casa. Não no meu turno. Não se eu puder evitar.

Bem-vindo ao meu mundo.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Ajuda aí

Gentem, estou concorrendo (pela primeira vez na vida) a uma promoção. Escrevi uma frase falando sobre o que uma criança pode nos ensinar lá no blog da Patrícia, o Vida sem Manual. Então, é só escolher a minha frase (a de número 6) pra Zé Colméia e a Catatau ganharem os mimos que a Patrícia fez.

Ajudaí, vai.
Plizi.

quarta-feira, outubro 01, 2008

O que eu já soube de cor



Carmina Burana - Cantiones profanae cantoribus et choris cantandae comitantibus instrumentis atque imaginibus magicis (Canções seculares para cantores e coro para serem recitadas em conjunto com instrumentos e imagens mágicas)

E me lembro que, sempre que cantava rota tu volubilis mandava um volAbilis. E minha professora de canto jogava em cima de mim o que estivesse à mão: a partitura, uma almofada. Uma vez ela quase mandou um dos zilhões de filhotes de gato que subiam no colo dela durante a aula. Quase.

O Fortuna (Chorus) O Fortune
Fortune plango vulnera


O Fortuna Ó Fortuna,
velut luna És como a Lua
statu variabilis, Mutável,
semper crescis Sempre aumentas
aut decrescis; Ou diminuis;
vita detestabilis A detestável vida
nunc obdurat Ora oprime
et tunc curat E ora cura
ludo mentis aciem Para brincar com a mente
egestatem, Miséria
potestatem Poder
dissolvit ut glaciem. Ela os dissolve como gelo.

Sors immanis Sorte imensa
et inanis, e vazia
rota tu volubilis, Tu, roda volúvel
status malus, é má
vana salus Vã é a felicidade
semper dissolubilis, sempre dissolúvel
obumbrata nebulosa
et velata e velada.
michi quoque niteris; Também a mim contagias;
nunc per ludum Agora por brincadeira
dorsum nudum O dorso nu
fero tui sceleris. entrego à tua perversidade.

Sors salutis A sorte na saúde
et virtutis e virtude
michi nunc contraria, agora me é contrária
est affectus e Dá
et defectus e tira
semper in angaria. Mantendo sempre escravizado
Hac in hora esta hora
sine mora sem demora
corde pulsum tangite; Tange a corda vibrante;
quod per sortem porque a sorte
sternit fortem, abate o forte,
mecum omnes plangite! Chorai todos comigo!

Fortune plango vulnera Lamento as feridas da Fortuna
stillantibus ocellis pranto em meus olhos,
quod sua michi munera para os dons que ela me deu
subtrahit rebellis. perversamente ela tira.
Verum est, quod legitur, Em verdade está escrito
fronte capillata, que ela tem cabelos na fronte,
sed plerumque sequitur mas, quando deixarmos que ela passe
Occasio calvata. sua nuca é calva.

In Fortune solio No trono da Fortuna
sederam elatus, Costumava sentar-me,
prosperitatis vario muitas e coloridas da prosperidade;
flore coronatus; com flores fui coroado
quicquid enim florui embora possa ter prosperado
felix et beatus, feliz e abençoado
nunc a summo corrui, agora caio do alto
gloria privatus. privado de glória.

Fortune rota volvitur: A roda da fortuna gira:
descendo minoratus; Eu desço, arrasado
alter in altum tollitur; enquanto outro é elevado;
nimis exaltatus ; e bem lá no alto
rex sedet in vertice senta-se o rei no topo
caveat ruinam! Deixe que o medo o derrube!
nam sub axe legimus Escrito abaixo do eixo da roda
Hecubam reginam. Rainha Hécuba.