Gente, o Papel Pobre acabou.
Como eu vou viver sem a sabedoria de Katylenny Beezmarck?
Como???
sexta-feira, agosto 31, 2007
Até que a morte...
Estava eu contando para uma amiga que, nos dias em que a faxineira vem ao apartamento dos meus pais eu não consigo trabalhar porque ela fala sem parar. E disse a ela que estava com saudades dos meus pais se engalfinhando em silêncio. "Ah? Explica, amiga". Então:
Minha mãe tá costurando na sala com tudo espalhado na mesa. Vem meu pai, estica o braço e empurra tudo prum canto só. Ela pára, olha e empurra de volta. Ele pega coisa por coisa e vai botando num canto. Ela vai botando de volta no lugar. Ele suspira, levanta e vai na cozinha. Ela volta a costurar. Ele acende um cigarro sabendo que a fumaça vai pra sala. Ela levanta com cara de nojo e abre a janela. Ele volta e abre o jornal por cima das coisas dela. Ela rapidamente começa a tirar as coisas de debaixo do jornal e vai botando num canto da mesa. Ele vai pegando e botando de volta no lugar onde estavam. Ela suspira, deixa a costura na mesa e vai pra outra sala. Ele abre o jornal todo pra ler em cima da mesa. Ela abre o janelão da sala. O vento carrega o jornal dele. Ele desiste e dobra o jornal e vai ler no quarto.
Só quem treina quase 50 anos consegue começar e terminar uma briga cheia de picuinhas e implicâncias no mais absoluto silêncio.
Minha mãe tá costurando na sala com tudo espalhado na mesa. Vem meu pai, estica o braço e empurra tudo prum canto só. Ela pára, olha e empurra de volta. Ele pega coisa por coisa e vai botando num canto. Ela vai botando de volta no lugar. Ele suspira, levanta e vai na cozinha. Ela volta a costurar. Ele acende um cigarro sabendo que a fumaça vai pra sala. Ela levanta com cara de nojo e abre a janela. Ele volta e abre o jornal por cima das coisas dela. Ela rapidamente começa a tirar as coisas de debaixo do jornal e vai botando num canto da mesa. Ele vai pegando e botando de volta no lugar onde estavam. Ela suspira, deixa a costura na mesa e vai pra outra sala. Ele abre o jornal todo pra ler em cima da mesa. Ela abre o janelão da sala. O vento carrega o jornal dele. Ele desiste e dobra o jornal e vai ler no quarto.
Só quem treina quase 50 anos consegue começar e terminar uma briga cheia de picuinhas e implicâncias no mais absoluto silêncio.
Em outra dimensão do tempo/espaço
Da Folha Online:
"Antonio Fagundes, que não queria fazer novela tão cedo, foi convencido pela Globo a entrar em "Duas Caras", que substituirá "Paraíso Tropical". De bigode e com tatuagem (falsa) no braço, o ator será líder de uma favela."
"Antonio Fagundes, que não queria fazer novela tão cedo, foi convencido pela Globo a entrar em "Duas Caras", que substituirá "Paraíso Tropical". De bigode e com tatuagem (falsa) no braço, o ator será líder de uma favela."
terça-feira, agosto 28, 2007
...
Poucas das minhas virgindades deixaram saudades - mas uma me faz uma falta danada: a do meu cabelo.
sexta-feira, agosto 24, 2007
Terceira infância
- Pra que você tirou da mesa? Eu disse que ia usar!
- Disse nada! Não falou nada disso!
- Falei, sim! Falei, sim!
- ...
- Carácoles, vocês não podem ficar um minuto sem discutir e brigar?
- Não tenho nada pra fazer.
- Vai ler um livro - tem tantos aqui...
- Ah, não quero. Eu tô é com vontade de comer um doce, um chocolate...
- Mas não encheu o chocolate depois do almoço? Não dá pra comer toda hora, né?
- Mas eu não tenho nada pra fazer...
- Mas criatura pra que você mexeu nisso? Eu acabei - A-CA-BEI! - de arrumar!
- Mas eu não estava achando as minhas revistas...
- Sabe, eu PRECISO trabalhar e não dá pra ficar arrumando essa mesa toda santa hora!
As meninas? Ah, tão na escola. Mas meus pais não sossegam UM MINUTO!
- Disse nada! Não falou nada disso!
- Falei, sim! Falei, sim!
- ...
- Carácoles, vocês não podem ficar um minuto sem discutir e brigar?
- Não tenho nada pra fazer.
- Vai ler um livro - tem tantos aqui...
- Ah, não quero. Eu tô é com vontade de comer um doce, um chocolate...
- Mas não encheu o chocolate depois do almoço? Não dá pra comer toda hora, né?
- Mas eu não tenho nada pra fazer...
- Mas criatura pra que você mexeu nisso? Eu acabei - A-CA-BEI! - de arrumar!
- Mas eu não estava achando as minhas revistas...
- Sabe, eu PRECISO trabalhar e não dá pra ficar arrumando essa mesa toda santa hora!
As meninas? Ah, tão na escola. Mas meus pais não sossegam UM MINUTO!
Nelson Rodrigues ever
Se inveja matasse seria um sururu ali na Glória, por volta das 18h, quando eu caísse preta e dura no meio das mesinhas do Amarelinho.
Sem dar um pio. Sem nem um ai. É ver as tulipas suando e póf!
Morri.
Sem dar um pio. Sem nem um ai. É ver as tulipas suando e póf!
Morri.
...
É impressionante como as pessoas são doces ao telefone quando querem um contato importante - e com que rapidez batem o telefone na sua cara quando finalmente você fornece o número.
Voltando
Hoje eu botei uma das minhas 54.638.575.837.575 saias e uma blusinha branca basiquinha. Aí tô eu no elevador subindo e reparando o quão descabelada eu ando pela rua quando notei. Lá, debaixo do sutiã. Ele. O pneu, a dobra maldita, o acolchoado do demo.
E me peguei pensando no tempo em que eu lavava, à falta de xampu esquecido de ser reposto, meu cabelo com o ODD maçã verde da pia da cozinha e como minhas melenas ficavam macias e ma-ra-vi-lho-sas. Quando eu ensaboava o rosto com sabonete vagabundo do banheiro da faculdade e minha cútis brilhava sedosamente digna de um comercial da Clinique. Quando eu fumava, comia gordura, açúcar, refinados, dormia sem escovar os dentes às cinco da manhã vinda da noite em algum antro, tomava sol feito uma demente e era a gostosa do Posto 9 em Ipanema.
E me olhando ali, de frente ao espelho do elevador, 41 anos na cara e no corpo, só consegui ouvir a voz do Marlin, em "Procurando Nemo": "Você acha que pode fazer todas essas coisas mas você NÃO PODE, Nemo!"
Adeus, banana com Nescau.
E me peguei pensando no tempo em que eu lavava, à falta de xampu esquecido de ser reposto, meu cabelo com o ODD maçã verde da pia da cozinha e como minhas melenas ficavam macias e ma-ra-vi-lho-sas. Quando eu ensaboava o rosto com sabonete vagabundo do banheiro da faculdade e minha cútis brilhava sedosamente digna de um comercial da Clinique. Quando eu fumava, comia gordura, açúcar, refinados, dormia sem escovar os dentes às cinco da manhã vinda da noite em algum antro, tomava sol feito uma demente e era a gostosa do Posto 9 em Ipanema.
E me olhando ali, de frente ao espelho do elevador, 41 anos na cara e no corpo, só consegui ouvir a voz do Marlin, em "Procurando Nemo": "Você acha que pode fazer todas essas coisas mas você NÃO PODE, Nemo!"
Adeus, banana com Nescau.
quarta-feira, agosto 15, 2007
Por aí
Como eu não recebi, parei de trabalhar. Achei um pacote de Miojo (validade: janeiro 2007 - pelo menos é deste ano) e estou navegando pela net enquanto o Financeiro não me liga pra dizer que o depósito doi feito.
Ontem à noite, já com aquela megainsônia instalada e sem computador em casa, o jeito foi passear via controle remoto. E não é que você encontra umas coisas assim, super? Então:
- O cara mais macho naquele clipe de "Bad" é o Michael Jackson. Palavra.
- Tudo de delicious ver filmes velhos, como "Cinco dias de um verão", com o "o-asilo-de-idosos-é-aqui-em-casa" Sean Connery ou filmes desconhecidos, como "Relatives Values", com o Colin Firth e a Julie Andrews.
- Não se deixe enganar em "Caçadores de fantasmas", no SciFi. Eles trabalham no Roto-Rooters (sim, no primeiro, único e legítimo Roto-Rooters!) de manhã, mas à noite eles integram a Taps (não sei o que quer dizer a sigla), caçando fantasmas, manifestações paranormais & que tais com a aparelhagem mais modernosa que eu já vi. Ontem o chefão tava reclamando que um técnico perdeu um dos tripés de uma das quatro câmeras - reclamava e guardava os laptops da equipe (só num dos casos eles eram oito). Então tá.
- Gentem, clipe do Eurythmics com participação especial do John Malkovich e do Hugh Laurie é muito pro meu coraçãozinho.
- Gene Simmons. Em "Rock School" o homem ensinou meia dúzia de inglesinhos, alunos de uma escola de música eruditérrima, a formarem uma banda heavy metal (e ele ainda diz no começo que usa mais maquiagem e saltos mais altos que sua mamy :o). E "Family Jewels" é de cho-rar de rir. Muito.
- O canal FoxFashion é o mais longo e chato desfile de moda que eu já assisti. Ninguém fala, ninguém comenta, ninguém nada. Entre um desfile e outro, anúncio de cruzeiros marítimos com uma mulher sussurrando ao fundo. Mas eu aprendi quem é RoccoBarocco. As roupas dele são leeeendas - não todas. As da coleção do próximo verão. Que eu só vou poder vestir numa próxima encarnação.
- As legendas do canal Multipremier são com uma fonte parecida com as de uma máquina de escrever. Corpo 6. Pra assistir só com leitura dinâmica e nariz colado no visor.
- A sobremesa: o que foi Robert Downley, Jr no "Inside the Actor's Studio"? Foi ....................... (preencham vocês. O moço falou de tudo: das drogas que cheirou/injetou/comeu/queimou/passou no cabelo até ao que é interpretar. Póf, morri, Dita).
Ontem à noite, já com aquela megainsônia instalada e sem computador em casa, o jeito foi passear via controle remoto. E não é que você encontra umas coisas assim, super? Então:
- O cara mais macho naquele clipe de "Bad" é o Michael Jackson. Palavra.
- Tudo de delicious ver filmes velhos, como "Cinco dias de um verão", com o "o-asilo-de-idosos-é-aqui-em-casa" Sean Connery ou filmes desconhecidos, como "Relatives Values", com o Colin Firth e a Julie Andrews.
- Não se deixe enganar em "Caçadores de fantasmas", no SciFi. Eles trabalham no Roto-Rooters (sim, no primeiro, único e legítimo Roto-Rooters!) de manhã, mas à noite eles integram a Taps (não sei o que quer dizer a sigla), caçando fantasmas, manifestações paranormais & que tais com a aparelhagem mais modernosa que eu já vi. Ontem o chefão tava reclamando que um técnico perdeu um dos tripés de uma das quatro câmeras - reclamava e guardava os laptops da equipe (só num dos casos eles eram oito). Então tá.
- Gentem, clipe do Eurythmics com participação especial do John Malkovich e do Hugh Laurie é muito pro meu coraçãozinho.
- Gene Simmons. Em "Rock School" o homem ensinou meia dúzia de inglesinhos, alunos de uma escola de música eruditérrima, a formarem uma banda heavy metal (e ele ainda diz no começo que usa mais maquiagem e saltos mais altos que sua mamy :o). E "Family Jewels" é de cho-rar de rir. Muito.
- O canal FoxFashion é o mais longo e chato desfile de moda que eu já assisti. Ninguém fala, ninguém comenta, ninguém nada. Entre um desfile e outro, anúncio de cruzeiros marítimos com uma mulher sussurrando ao fundo. Mas eu aprendi quem é RoccoBarocco. As roupas dele são leeeendas - não todas. As da coleção do próximo verão. Que eu só vou poder vestir numa próxima encarnação.
- As legendas do canal Multipremier são com uma fonte parecida com as de uma máquina de escrever. Corpo 6. Pra assistir só com leitura dinâmica e nariz colado no visor.
- A sobremesa: o que foi Robert Downley, Jr no "Inside the Actor's Studio"? Foi ....................... (preencham vocês. O moço falou de tudo: das drogas que cheirou/injetou/comeu/queimou/passou no cabelo até ao que é interpretar. Póf, morri, Dita).
terça-feira, agosto 14, 2007
...
Você é chamada pra fazer um trabalho por quatro meses, superbacana. Manda a proposta, a criatura regateia, você tira mil reais, ele topa, você manda de novo, e lá tá bem claro: "mais encargos".
A data de pagamento é dia 5. No dia 10, o cara te chama pra mais uma reunião, te enche de pedidos, e você discretamente pede que ele acerte (depois de fazer isso por e-mail umas três vezes). Então ele manda um e-mail pro cara do financeiro, que não responde até que você liga pra ele - e ele não acerta seu nome nem por decreto.
Depois de mandar uma ficha pra você preencher num PDF que você não pode mexer e finalmente dizer que você pode mandar o recibo via fax (que está permanentemente ocupado) você manda sua RPA devidamente preenchida, com o líquido indicando o que você combinou - o X mais encargos. Aí você descobre que não é nada disso, que não havia "encargos" e, pior, você não pode receber porque você é pessoa física, não pessoa jurídica, e como o trabalho é tocado via patrocínio pessoas físicas não podem ser contratadas - e pagas. Somente pessoas jurídicas.
Enquanto isso você recebe todos os avisos possíveis e imaginários de corte de serviços, sua empregada está em casa com a filha sem fraldas, você está übergripada e economizando suas quatro aspirinas porque sua carteira avisou que R$ 4,85 é tudo o que você tem no momento.
Alguém tem um emprego sobrando por aí? Porque, na boa, não agüento mais me humilhar pra receber o que eu suo tanto por merecer.
A data de pagamento é dia 5. No dia 10, o cara te chama pra mais uma reunião, te enche de pedidos, e você discretamente pede que ele acerte (depois de fazer isso por e-mail umas três vezes). Então ele manda um e-mail pro cara do financeiro, que não responde até que você liga pra ele - e ele não acerta seu nome nem por decreto.
Depois de mandar uma ficha pra você preencher num PDF que você não pode mexer e finalmente dizer que você pode mandar o recibo via fax (que está permanentemente ocupado) você manda sua RPA devidamente preenchida, com o líquido indicando o que você combinou - o X mais encargos. Aí você descobre que não é nada disso, que não havia "encargos" e, pior, você não pode receber porque você é pessoa física, não pessoa jurídica, e como o trabalho é tocado via patrocínio pessoas físicas não podem ser contratadas - e pagas. Somente pessoas jurídicas.
Enquanto isso você recebe todos os avisos possíveis e imaginários de corte de serviços, sua empregada está em casa com a filha sem fraldas, você está übergripada e economizando suas quatro aspirinas porque sua carteira avisou que R$ 4,85 é tudo o que você tem no momento.
Alguém tem um emprego sobrando por aí? Porque, na boa, não agüento mais me humilhar pra receber o que eu suo tanto por merecer.
segunda-feira, agosto 13, 2007
Berço
É nessas horas de febre, garganta inflamada, dores nas costas e nas juntas, que eu quero minha mamãe.
segunda-feira, agosto 06, 2007
Eu confesso que...
Depois que as meninas dormem eu vou pra cozinha, escondida, comer banana com Nescau - enfiando a dita na lata do cujo.
Mais ogro, impossível.
Mais ogro, impossível.
quarta-feira, agosto 01, 2007
Página 35, duas linhas
Um dos blogs que eu freqüento é o do Mizarela. Lendo este post comecei a pensar numa prática muito comum em jornais e revistas como saída para o "E se não foi assim?".
Tipo: você acompanha a PM numa Operação Asfixia (que é como eles chamam aquela presepada de cercar a favela e subir o morro atirando). Então. Você vai, fica lá esperando o tiroteio terminar (porque quem tem que ir lá são os fotógrafos e cinegrafistas). Aí depois que a fumaça desce você cola no comandante do batalhão (aprende aí: quando entrar em morro depois de invasão da PM vira a sombra do tenente-coronel ou do coronel: traficantes não atiram nessa figura. Dá muita merda depois, se fizerem o moço de alvo).
Enfim, você cola nele e acompanha quando vem os PMs darem relatório. "Pegaram quantos?" "Uns oito, coronel. Tudo traficante, avião." E aí vêm descendo os soldados do Bope (pra quem não sabe, Batalhão de Operações Especiais - aquela divisão da PM que tem como símbolo uma caveira com uma adaga enterrada bem em cima) carregando os corpos, trilhas de sangue pra tudo quanto é lado, fuzil pra cima.
A família chora, você conversa com eles e começa a ouvir coisas do tipo "Ele tava na laje fumando escondido de mim, porque sabe que eu não gosto, a polícia chegou gritando "Perdeu! Perdeu!" e ele nem teve tempo de dizer nada: tava agachado, levantou, levou um tiro no meio do peito. Mas olha aqui a carteira dele: ele trabalha, estuda!" E coisas do tipo.
E você volta e bate a matéria, falando dos dois lados. E no dia seguinte abre e tá lá: "Segundo a PM, os mortos SERIAM traficantes a mando do gerente Fulano. Eles TERIAM atirado contra a polícia. Eles ESTARIAM envolvidos numa disputa por áreas de drogas." Sobre o que as famílias disseram, nem uma palavra.
Se não for traficante a família vai processar? Não. Alguma ONG? Quem sabe? "Mas o jornal não escreveu que era certeza; eles SERIAM traficantes". Do começo ao fim, futuro do pretérito: não apenas o tempo verbal, mas uma certeza, se não tivesse ficado pra sempre no passado: "Morto durante a invasão da favela pela polícia, estava estudando para fazer o vestibular e tentar uma vaga numa faculdade"; "Tinha começado a trabalhar num escritório como contínuo, mas queria mesmo era estagiar na área de informática".
Você lê isso no dia seguinte, nos jornais?
Eu nunca li.
Tipo: você acompanha a PM numa Operação Asfixia (que é como eles chamam aquela presepada de cercar a favela e subir o morro atirando). Então. Você vai, fica lá esperando o tiroteio terminar (porque quem tem que ir lá são os fotógrafos e cinegrafistas). Aí depois que a fumaça desce você cola no comandante do batalhão (aprende aí: quando entrar em morro depois de invasão da PM vira a sombra do tenente-coronel ou do coronel: traficantes não atiram nessa figura. Dá muita merda depois, se fizerem o moço de alvo).
Enfim, você cola nele e acompanha quando vem os PMs darem relatório. "Pegaram quantos?" "Uns oito, coronel. Tudo traficante, avião." E aí vêm descendo os soldados do Bope (pra quem não sabe, Batalhão de Operações Especiais - aquela divisão da PM que tem como símbolo uma caveira com uma adaga enterrada bem em cima) carregando os corpos, trilhas de sangue pra tudo quanto é lado, fuzil pra cima.
A família chora, você conversa com eles e começa a ouvir coisas do tipo "Ele tava na laje fumando escondido de mim, porque sabe que eu não gosto, a polícia chegou gritando "Perdeu! Perdeu!" e ele nem teve tempo de dizer nada: tava agachado, levantou, levou um tiro no meio do peito. Mas olha aqui a carteira dele: ele trabalha, estuda!" E coisas do tipo.
E você volta e bate a matéria, falando dos dois lados. E no dia seguinte abre e tá lá: "Segundo a PM, os mortos SERIAM traficantes a mando do gerente Fulano. Eles TERIAM atirado contra a polícia. Eles ESTARIAM envolvidos numa disputa por áreas de drogas." Sobre o que as famílias disseram, nem uma palavra.
Se não for traficante a família vai processar? Não. Alguma ONG? Quem sabe? "Mas o jornal não escreveu que era certeza; eles SERIAM traficantes". Do começo ao fim, futuro do pretérito: não apenas o tempo verbal, mas uma certeza, se não tivesse ficado pra sempre no passado: "Morto durante a invasão da favela pela polícia, estava estudando para fazer o vestibular e tentar uma vaga numa faculdade"; "Tinha começado a trabalhar num escritório como contínuo, mas queria mesmo era estagiar na área de informática".
Você lê isso no dia seguinte, nos jornais?
Eu nunca li.
terça-feira, julho 31, 2007
Eu confesso que...
Com esse frio o que eu tenho comido de chocolate é, obviamente, obsceno. Se fizer exame o médico me manda internar numa clínica de viciados em sexo - o nível de sei-lá-o-quê no sangue deve estar igualzinho.
Uniforme
No frio, pra você ser gata prest'enção: botas, calça jeans de cintura baixa, blusa de manga comprida (ATENÇÃO: TEM QUE FICAR UNS TRÊS DEDOS DE BARRIGA APARECENDO, OK?), jaqueta curta de brim e cachecol. Rabo-de-cavalo, brinco de argola e óculos escuros. Captou?
Então.
Pra você, gato: tênis sem meia, bermudão Richard's, blusa de mangas compridas, mochila nas costas e óculos escuros.
Eu me sinto uma velha na rua...
Então.
Pra você, gato: tênis sem meia, bermudão Richard's, blusa de mangas compridas, mochila nas costas e óculos escuros.
Eu me sinto uma velha na rua...
sábado, julho 28, 2007
Conflito nº 12764949/23e
Credo, que mochilas i-mun-das. O que é isso, chocolate? Meu Deus... Bom, vamos ver como se lava isso. Peraí... Na etiqueta tá escrito... Como assim? "Não lavar"? Não lavar COMO? Como alguém fabrica uma mochila pra crianças e manda NÃO LAVAR?
E agora? E se eu botar de molho só em água? Mas e se for justamente a água que estraga a mochila? Será que tem que lavar a seco? Mas que coisa idiota: não chove? E isso aqui é nylon - isso não é lavável a seco.
E se eu lavar só as alças? Mas e esse LAGO de chocolate na mochila da Catatau? Eow, isso é brigadeiro. Ela SENTOU numa bandeja de brigadeiros? R$ 200 em mochilas... E se estragar? Lavo ou não? Eu vou mergulhar quase R$ 200 em mochilas nessa água com sabão e Vanish? Vou ou não vou? Vou ou não vou? Vou ou não vou? Foda-se: vou.
Acho, do fundo da minha alminha atormentada de mãe, que resolver conflitos no Oriente Médio deve dar menos dor de cabeça que isso.
E agora? E se eu botar de molho só em água? Mas e se for justamente a água que estraga a mochila? Será que tem que lavar a seco? Mas que coisa idiota: não chove? E isso aqui é nylon - isso não é lavável a seco.
E se eu lavar só as alças? Mas e esse LAGO de chocolate na mochila da Catatau? Eow, isso é brigadeiro. Ela SENTOU numa bandeja de brigadeiros? R$ 200 em mochilas... E se estragar? Lavo ou não? Eu vou mergulhar quase R$ 200 em mochilas nessa água com sabão e Vanish? Vou ou não vou? Vou ou não vou? Vou ou não vou? Foda-se: vou.
Acho, do fundo da minha alminha atormentada de mãe, que resolver conflitos no Oriente Médio deve dar menos dor de cabeça que isso.
sexta-feira, julho 27, 2007
Arroubos
Eu queria alguém com quem discutir, até o beiço dobrar o corredor e chegar à cozinha, se Richie Sambora é melhor guitarrista que Neil Schon, Syd Barrett ou Glenn Frey - e ganhar juras de ódio eterno quando citar o nome de Carlos Santana.
Eu queria alguém a quem cutucar às duas da madrugada pra contar que "Rapaz, Peter Singer consegue fazer a gente achar infanticídio uma prática razoável! Escuta esse trecho aqui... Escuta!!!!!"
Eu queria alguém pra roubar o último gole de vinho - e lamber a borda antes de ser pega no flagra.
Eu queria alguém pra quem guardar a última fatia de bolo.
Eu queria alguém pra desvirar o colarinho da camisa e arrumar o que o vento descabelou.
Eu queria alguém pra servir o macarrão segurando os talheres que nem garçom, destrinchar o frango que nem o homem da padaria.
Eu queria alguém com quem brigar pelo controle remoto da televisão - e decidir democraticamente que a midseason tá uma merda e melhor mesmo a gente se beijar até dar cãimbra e transar nesse frio, né?
Eu queria alguém pra compartilhar meu amor pelos livros e meu orgulho pelo que eu conquisto.
Eu queria alguém pra presentear com os CDs e DVDs piratas que eu aprendi a baixar da internet.
Eu queria alguém - modo intransitivo do verbo "não tenho".
Eu queria alguém a quem cutucar às duas da madrugada pra contar que "Rapaz, Peter Singer consegue fazer a gente achar infanticídio uma prática razoável! Escuta esse trecho aqui... Escuta!!!!!"
Eu queria alguém pra roubar o último gole de vinho - e lamber a borda antes de ser pega no flagra.
Eu queria alguém pra quem guardar a última fatia de bolo.
Eu queria alguém pra desvirar o colarinho da camisa e arrumar o que o vento descabelou.
Eu queria alguém pra servir o macarrão segurando os talheres que nem garçom, destrinchar o frango que nem o homem da padaria.
Eu queria alguém com quem brigar pelo controle remoto da televisão - e decidir democraticamente que a midseason tá uma merda e melhor mesmo a gente se beijar até dar cãimbra e transar nesse frio, né?
Eu queria alguém pra compartilhar meu amor pelos livros e meu orgulho pelo que eu conquisto.
Eu queria alguém pra presentear com os CDs e DVDs piratas que eu aprendi a baixar da internet.
Eu queria alguém - modo intransitivo do verbo "não tenho".
quinta-feira, julho 26, 2007
A vida secreta dos blogs
Eu tenho uma vida secreta. Quer dizer, tenho uma vida secreta dentro da minha vida secreta.
Sou Suzana porque meu ex não alcança o universo da Suzana - e para mim é ter um jardim secreto. Mas como uns e outros resolveram espiar por uma rachadura no muro que cerca esse meu jardim, criei outra vida secreta, em inglês - e ela acaba de ser incluída num site que mostra os bastidores dos melhores e mais interessantes blogs & blogueiros da web.
Se eu estou orgulhosa?
Claro, né - que pergunta boba :o)
Sou Suzana porque meu ex não alcança o universo da Suzana - e para mim é ter um jardim secreto. Mas como uns e outros resolveram espiar por uma rachadura no muro que cerca esse meu jardim, criei outra vida secreta, em inglês - e ela acaba de ser incluída num site que mostra os bastidores dos melhores e mais interessantes blogs & blogueiros da web.
Se eu estou orgulhosa?
Claro, né - que pergunta boba :o)
Ai, listas...
Que livro você está lendo?
Três ao mesmo tempo: "Vida ética", Peter Singer; "Exortação aos crocodilos", António Lobo Antunes; "O negócio dos livros - Como as grandes corporações decidem o que você lê", André Schiffrin.
Lembra do seu primeiro livro?
Falando em livro de verdade - capa legal, miolo idem - e que eu tenha lido sozinha, sem mamãe ou papai ajudando nas palavras difíceis:: "Reinações de Narizinho" & Cia Monteiro Lobato; "Contos e lendas dos irmãos Grimm"; e "Os reis malditos" (trancada no banheiro, depois que me pai botou os seis volumes dessa coleção láááá em cima da estante porque ele dizia que aquilo não era "literatura pra criança").
No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?
Dois por semana.
Você tem um gênero favorito? Qual?
Não-ficção, principalmente o que envolva a História de civilizações.
Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como “seres superiores” por alguns leitores. Você tem ídolos escritores?
Não tiveram a delicadeza de se manterem vivos para que eu os conhecesse: Julio Cortázar, Ítalo Calvino, George Duby.
Você distingue o escritor pelo gênero - poesia, conto, romance, etc - ou acredita que escritor é escritor e ponto?
Escritor é, num modo bem clichê, artesão da palavra. Sabe escrever de lista de supermercado à história do seu país - romanceada ou não.
A internet pode se transformar em uma ameaça para a leitura de livros?
Internet não transmite o cheiro do livro.
Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?
Aprendi que o livro é só um objeto inanimado, mas se você apresenta à criança uma pessoa e diz "Olha, ele escreveu esse livro" ou "Sabe quem é essa? Ela desenhou essas ilustrações" o livro passa a ser um ser vivo que cresceu com a ajuda de muitos: alguém PENSOU a história, alguém IMAGINOU as ilustrações. Alguém COSTUROU o livro, DESENHOU a capa. O livro é um quebra-cabeças, um trabalho em equipe, um livro é uma história que não está contada entre a capa e a contracapa. E as crianças aprendem a amar seus livros pela vida que eles têm - assim como têm vida seus carrinhos e suas bonecas.
José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre seus valores, ou pode mudar de opinião?
[Faço minhas as palavras da Cris] Ué, ele pode ser o que quiser. Aliás, ele e qualquer um. Eu já mudei de religião umas dez vezes na vida. Já mudei de marido [eu ainda não, Crisolda. Tô na entressafra]. Só o Saramago é que tem que morrer comunista? Coitado.
Uma frase para o Dia do Escritor:
"Acariciai longamente tua frase e ela terminará por sorrir" (Alfred de Musset)
Três ao mesmo tempo: "Vida ética", Peter Singer; "Exortação aos crocodilos", António Lobo Antunes; "O negócio dos livros - Como as grandes corporações decidem o que você lê", André Schiffrin.
Lembra do seu primeiro livro?
Falando em livro de verdade - capa legal, miolo idem - e que eu tenha lido sozinha, sem mamãe ou papai ajudando nas palavras difíceis:: "Reinações de Narizinho" & Cia Monteiro Lobato; "Contos e lendas dos irmãos Grimm"; e "Os reis malditos" (trancada no banheiro, depois que me pai botou os seis volumes dessa coleção láááá em cima da estante porque ele dizia que aquilo não era "literatura pra criança").
No Brasil, sabemos que a leitura não é um hábito da população em geral. Quantos livros, em média, você lê por mês?
Dois por semana.
Você tem um gênero favorito? Qual?
Não-ficção, principalmente o que envolva a História de civilizações.
Alguns escritores, além de grandes artistas, são vistos como “seres superiores” por alguns leitores. Você tem ídolos escritores?
Não tiveram a delicadeza de se manterem vivos para que eu os conhecesse: Julio Cortázar, Ítalo Calvino, George Duby.
Você distingue o escritor pelo gênero - poesia, conto, romance, etc - ou acredita que escritor é escritor e ponto?
Escritor é, num modo bem clichê, artesão da palavra. Sabe escrever de lista de supermercado à história do seu país - romanceada ou não.
A internet pode se transformar em uma ameaça para a leitura de livros?
Internet não transmite o cheiro do livro.
Se você pudesse, como acabaria com o analfabetismo no Brasil e como implantaria o hábito de leitura?
Aprendi que o livro é só um objeto inanimado, mas se você apresenta à criança uma pessoa e diz "Olha, ele escreveu esse livro" ou "Sabe quem é essa? Ela desenhou essas ilustrações" o livro passa a ser um ser vivo que cresceu com a ajuda de muitos: alguém PENSOU a história, alguém IMAGINOU as ilustrações. Alguém COSTUROU o livro, DESENHOU a capa. O livro é um quebra-cabeças, um trabalho em equipe, um livro é uma história que não está contada entre a capa e a contracapa. E as crianças aprendem a amar seus livros pela vida que eles têm - assim como têm vida seus carrinhos e suas bonecas.
José Saramago declarou recentemente que sempre será comunista, embora saiba que este é um assunto ultrapassado. Um escritor deve manter para sempre seus valores, ou pode mudar de opinião?
[Faço minhas as palavras da Cris] Ué, ele pode ser o que quiser. Aliás, ele e qualquer um. Eu já mudei de religião umas dez vezes na vida. Já mudei de marido [eu ainda não, Crisolda. Tô na entressafra]. Só o Saramago é que tem que morrer comunista? Coitado.
Uma frase para o Dia do Escritor:
"Acariciai longamente tua frase e ela terminará por sorrir" (Alfred de Musset)
segunda-feira, julho 23, 2007
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Na semana passada eu perdi um amigo que viajava no avião que se espatifou em Congonhas. Eu o conhecia desde 1998. Depois de quase dez anos, nós não nos falávamos muito, ultimamente. Vocês sabem como é, não? A gente se promete a toda hora: "Puxa, hoje vou mandar pelo menos um e-mail pro Fulano, faz tanto tempo que a gente não se fala!" E de noite, eu me lembrava: "Não mandei o e-mail pro Fulano. Amanhã de manhã eu mando, sem falta!"
Amanhã, amanhã e amanhã. Na próxima semana, depois que eu terminar esse trabalho imenso, no próximo fim de semana, nas férias, depois, depois, depois - e eu tenho certeza que ele fazia a mesma coisa. Agora ele morreu e eu finalmente não preciso mais me preocupar em mandar nada pra ele, nem ligar nem me lembrar dele. Só da tristeza abissal por ter desperdiçado tanta coisa boa que poderíamos ter compartilhado.
Se você gosta de alguém perca um tempo para escrever um e-mail, dar um telefonema, lembrar de lembrar-se dessa pessoa. É tão fácil, simples e tão importante.
Amanhã, amanhã e amanhã. Na próxima semana, depois que eu terminar esse trabalho imenso, no próximo fim de semana, nas férias, depois, depois, depois - e eu tenho certeza que ele fazia a mesma coisa. Agora ele morreu e eu finalmente não preciso mais me preocupar em mandar nada pra ele, nem ligar nem me lembrar dele. Só da tristeza abissal por ter desperdiçado tanta coisa boa que poderíamos ter compartilhado.
Se você gosta de alguém perca um tempo para escrever um e-mail, dar um telefonema, lembrar de lembrar-se dessa pessoa. É tão fácil, simples e tão importante.
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