quarta-feira, setembro 23, 2009

Fotógrafos XIX - Nick Brandt



Lions head to head, Maasai Mara, 2008



Giraffes and dust devil, Amboseli, 2007



Elephant drinking, Amboseli, 2007



Baboons in profile, Amboseli, 2007



Cheetah and cubs lying on rock, Serengeti, 2007



Lionesses crossing lake, Ngorongoro Crater, 2000



Wildebeest Arc, Maasai Mara, 2006



Elephant with exploding dust, Amboseli 2004



Lion before storm IV, Close-up, Maasai Mara, 2006

segunda-feira, setembro 21, 2009

Do outro lado



Esperava o sinal abrir quando vi as duas na calçada oposta. A mãe esguia, linda, pescoço elevando a cabeça rumo ao céu, cabelos presos num coque lustroso. Pernas longas em meias grossas, calçados com mocassins elegantes e baixos. Saia reta, casaquinho de lã, blusa branca impecável, a bolsa de couro de crocodilo pendurada no braço como se contivesse a cabeça de São João Batista.

Dava a mão à filha. Uns dez anos. Vestida de colant rosa, meias rosas, sapatos boneca. Ainda de tutu de ensaio, os cabelos impecavelmente presos num coque debaixo da rede. Bochechas vermelhas pelo exercício, na mão oposta uma bolsinha branca com letras brilhantes: Je suis une ballerine. E no rosto o embaraço de saber o que todo mundo estava pensando e já cochichava na calçada: "Como uma mãe tão linda e esguia tem uma filha tão gorda e desajeitada?"

Gorda. "Se pelo menos a mãe vestisse a menina de preto..." sussurra um cara atrás de mim. "Credo, como saiu assim?" diz a adolescente ao meu lado, ela mesma numa questionável blusa três números abaixo do seu. E todos olham e comentam com o vizinho o contraste das duas.

Sentia-se o frisson no meio-fio. Todos os olhos em cima da menina, que mirava e remexia os sapatos. A mãozinha gorducha apertada na mão da mãe, que se inclina e fala baixo com ela - e instantaneamente a menina empina o queixo, levanta a cabeça e mira o nada à sua frente. O sinal abre e as duas atravessam. E então eu olhei intensamente a mãe, na esperança que ela retribuísse o meu olhar e eu pudesse falar, sem palavras, como sua filha era linda.

Que bobagem. Ela sabia. Ao nos cruzarmos, banhei-me em dois profundos e claros poços de orgulho e amor.

...

Chove, faz frio. Entreguei o último trabalho e estou à espera que entre mais coisa. Meus pais desceram para me ajudar a por minha vida em ordem. O chuveiro elétrico ainda está em curto, mas já consertei a descarga do banheiro.

Meu cabelo hora está lindo, hora está vergonhosamente maltratado. Idem para as minhas unhas. Ando com uma fome gigantesca e um apetite microscópico. Saudade de alguém que anda logo ali, mas que para mim é como se estivesse a caminho de Andrômeda - comunicações viajarão zilhões de anos para ir e outros zilhões para voltar.

Dias chuvosos não combinam com cancerianos. Preciso de sol.

quinta-feira, setembro 17, 2009

Preliminares




No Monte Verità, o homem olha a estátua. O homem é negro e baixo. A estátua é abstrata (um vazio dentro de um círculo) e foi esculpida muito tempo atrás por um escultor chamado Hans Arp.

Monte Verità é o nome de um hotel localizado na parte italiana da Suíça, em Ascona. Nos jardins do Monte Verità, o homem negro se encosta na estátua abstrata. Pousada em seu braço, uma exuberante arara-verde come biscoitos na palma da sua mão. Faz bastante frio e talvez neve, o que não combina com o homem, muito menos com a arara, mas combina com a estátua. [...]

A arara deve ter emigrado da África, não se sabe fugindo de quê. O home também emigrou da África, mais especificamente de Moçambique, fugindo das sucessivas guerras no seu país. Embora formado em Economia, ele trabalha no hotel como garçom. É o que lhe permitiram. Nos sucessivos congressos que se realizam no estabelecimento, diverte-se falando com os hóspedes na língua de cada um deles: italiano, alemão, francês, espanhol, grego, japonês, mandarim, enfim, português.

Em geral, os estrangeiros primeiro se espantam, quando o garçom se dirige a eles na sua língua, e depois se divertem, como se ouvissem aquela arara falar. [...] Agora têm uma boa história para contar em casa.

...

Manuel gostaria de escrever sobre a filha. Na cidade de Maputo, ele trabalhava tanto, para sustentar a família, e estudava tanto, para realizar seu único sonho, que mal a via em casa quando ela era criança.

Depois, a sua esposa morreu.

Depois, ele precisou fugir de repente, minutos antes de poder pegar a menina na escola.

Todo dia, ele se pergunta até que horas ela o ficou esperando na escola, sentada quietinha numa cadeira baixa na sala da diretora. Quem sabe a diretora, penalizada, lhe teria emprestado lápis de cor para desenhar.[...]

Seus pais nunca brigaram ou gritaram com ela. Até que a mãe, primeiro, a abandonou. Na verdade, a vida é que a abandonou: ela foi assassinada dentro da igreja e caiu para trás largando a mão da menina, que não chorou. A menina apenas olhou para o assassino uniformizado. Por alguma razão, talvez por conta desse olhar mesmo, ele não a matou, contentando-se com os vários corpos bem vestidos, roupa de domingo, que deixou estendidos no chão.

Manuel, em casa, aproveitada o silêncio da hora da missa para estudar Economia. O silêncio foi bruscamente interrompido pelo som sincopado dos tiros no quarteirão próximo. Ele levou alguns segundos para se mover porque imediatamente imaginou o que poderia ter acontecido. Quando o fez, correu para a igreja, desabalado e desesperado. No meio do caminho cruzou com os uniformes que, cínicos, sorriram para ele e para os outros que, como ele, procuravam adiante os parentes.

Na igreja, encontrou viva apenas a filha, ajoelhada ao lado do corpo da mãe. No altar, o padre também estava morto. Como contava a sua mulher, rindo, ele era um padre cético, cheio de dúvidas sobre Deus e sobre a sua vocação. Agora, ele não tinha mais dúvidas, era apenas um padre morto.

Manuel, não sabe como, conseguiu passar por cima dos demais corpos para cair de joelhos e abraçar a menina. Com os olhos secos, ela o olhou e disse, calma: "Papai, Deus chegou atrasado."

Gustavo Bernardo, "Monte Verità"
Editora Rocco, 2009

Tempos modernos

Às vezes quero acreditar que a felicidade está logo ali mas, rapaz, tá difícil. Não consigo ficar tempo suficiente acordada para vê-la passar. Nem que ela bata duas vezes na minha porta. Se eu parar para atender as meninas se atrasam, perdemos o ônibus e elas ficam retidas até as 8h30m.

Reclamo demais. "Bom-dia, vim trocar essa blusa que está manchada". "A senhora deixou de molho?" "Claro, é uma camiseta de criança." "Não podia deixar de molho." "Na etiqueta não diz nada disso". "Mas todo mundo sabe." "Eu sou limítrofe. Pra mim tem que escrever e, se possível, desenhar esquema colorido." "Minha senhora, a indústria da moda não pode se basear em pessoas com deficiências mentais [sic] na hora de fazer as etiquetas, não é?"
Ela não entendeu a ironia. Nem eu escrevendo e desenhando esquema colorido.

Catatau não quer mais ir à escola. "Por que, filha?" "Ah, mãe, não gosto de briga. E todo dia tem briga." E se você pensa que é naquele esquema de "sua chata, feia & bacalhuda"... quem me dera. "Você é uma piranha, e sua mãe também é." "Se eu sou piranha, você é puta, mesmo." "Hahahaha, olhalá o fulano, gay! Gay! Gay!" "Eu não sou gay!" "Hahahahahahaha, gay! Vai esfregar a bunda no muro, hahahahahaha!"
Some-se a isso cenas de pugilato, um menino esbofeteando uma menina, a mesma criturinha sendo salva pela professora de ser esganada por um cordão de sapato, duas meninas se matando e, ao serem apartadas, surrarem a agente educacional e verão o resultado da Semana Antibullying que a escola promoveu - apenas para alunos do Ensino Médio. "Para os menores não precisa; essas briguinhas são coisa de criança!", disse a débil mental que me avisou que o guri descrito no post abaixo "tem problemas, pobrezinho."

Príncipe, tô te esperando, cê num vem? Já mandei pro espaço essa coisa de mulher liberada. Não vou me importar de ser sustentada, paparicada e admirada. Juro. Levo assim numa boa, sem reclamar.

terça-feira, setembro 15, 2009

A fazer

Consertar a descarga do banheiro (que está vazando decalitros de água)

Consertar o chuveiro (que está dando curto e soltando tanta fumaça e lá em cima tá um frio miserável)

Passar pelo menos um dos três baldes de roupa

Levar Zé Colméia à psicopedagoga

Levar Zé Colméia para fazer o ultrassom dos olhos

Comparecer à reunião com a coordenadora pedagógica à procura da resposta à minha reles questã-enquanto-mãe-que-não-é-profissional-de-educação: se minha filha mais velha foi suspensa porque, ao tentar se desvencilhar da agente educacional (aka inspetora do pátio), empurrou a mulher no chão e machucou-a seriamente (mesmo sem a intenção de), por que o garoto da sala da Catatau que literalmente surrou a professora com chutes e socos ao não ter sua vontade atendida continua a desfrutar da companhia das outras crianças civilizadas?
Resposta da direção: "Ele tem problemas, pobrezinho."

Costurar as lantejoulas da roupa da Catatau para a apresentação amanhã de ginástica

Estudar com Zé Colméia para a segunda chamada de português amanhã (eu vou ter que ler pra ela, pois ela vai dilatar a cupila)

Passar no supermercado

Encomendar ração para os cachorros

Encapar os livros do Clubinho de Leitura das meninas (top to do: atraso de três semanas)

Esqueci alguma coisa da lista de hoje?
Ah, sim.
Trabalhar.

Depois meus pais não fazem idéia por que motivo eu pedi um escravinho de aniversário.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Eu confesso...

Que ando tão cansada, mas tão cansada - principalmente a cabeça e não o corpo - que preciso tomar, assim que chego em casa, uma latinha de Red Bull (é, agora tenho sempre na geladeira) pra aguentar o suficiente para botar as meninas na cama, arrumar as coisas para o dia seguinte e desmaiar às 22h - e só recobrar a consciência às 5h30m do dia seguinte.

quinta-feira, setembro 10, 2009

...

Quando a escola das meninas suspendeu as aulas por conta da suspeita de gripe suína, as meninas ficaram doentes logo depois. Febre muito alta, dor de garganta e no corpo. Bom. Pânico mode on. Elas se recuperaram bem, mas mesmo assim fizemos exame de sangue (40 dias pra sair o resultado). E desde então eu sou a maníaca-de-gel-na-bolsa - principalmente porque, como eu não tive nada, posso ser portadora.

Mas eis que Zé Colméia começa a ver mosquinhas. Pontos pretos no campo de visão. Hoje levei-a para fazer a revisão médica da gripe suína-ou-não e depois, consulta no oftalmologista. Ele se surpreendeu, porque essas "mosquinhas" costumam somente aparecer com pessoas de idade avançada. Segundo ele, é benigno, provocado por estresse. Dos brabos.

Na semana que vem ela vai fazer uma tomografia a laser (tá se achando o máximo porque vai sair de óculos escuros) e só então ele vai dar o diagnóstico final. Eu olho pra minha menina que tem a péssima mania de guardar tudo dentro de si - as decepções com o pai relapso, as decepções com a mãe sempre cansada e ocupada, os temores na escola que desde sempre a rotularam como uma criança "difícil". E então eu a abraço e aperto bastante, torcendo para que isso dê a ela, ao menos, a ilusão que o mundo feio e malvado jamais a alcançará.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Wagner & Beethoven















O cânone da Música Erudita Ocidental é pequeno demais para nós dois, cara.

E por falar em Polônia

À leitora de Mountain View, California.
Comente. Não se acanhe.
Obrigada pela preferência.
Volte sempre.

Pronto. Você espantou a criatura. Nunca mais ela volta, coitada.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Selos não incluídos


Eu gosto de escrever cartas. Longas cartas, em que da descrição do caminho que fiz até aqui enveredo por lembranças de quando minha avó era viva, do cheiro da grama cortada e dos pinheiros que me lembrava o exato momento em que entrávamos em Teresópolis, e como nós nos conhecemos. Escrever uma carta é um exercício da memória, em que normalmente tudo o que é de bom aparece, porque nos recusamos a perder tempo escrevendo tudo o que é de mau - pra isso, existe o telefone.

A persistência da memória (expressão que eu adoro usar, e que aprendi com Carl Sagan) é uma coisa útil, porque sempre nos cutuca quando andamos pela rua; quando estamos preparando às pressas o café-com-leite de manhã e ao lermos no jornal que a última loja da Virgin fechou. Eu adoro passar na porta do quartel do Corpo de Bombeiros porque sempre me lembro do meu avô dizendo como as pessoas engolem o "s" dos Bombeiros e dos Correios ("e é TelégrafO, sem s, porque os correios são muitos mas o telégrafo é um só.")

Eu aprecio cada dia mais o amanhecer, porque é outono e esta é uma das minhas estações prediletas - perdendo só para a primavera, mas as duas não precisam brigar: gosto de ambas porque o céu é sempre mais azul, as manhãs mais frias e as noites mais acolhedoras.

Viu? Já viajei num montão de coisas, só para dizer a você que eu gosto de escrever cartas. Quase sempre uso papel, mas cada vez menos. Porque as pessoas não tem a menor noção do que seja uma carta. Não é o tempo perdido de sentar e escrever à mão, dedos doídos pela caneta, a letra meio torta pelo costume do computador. É o tempo ganho pensando em alguém, lembrando de alguém, perguntando por alguém. E, como as pessoas não entendem, elas respondem por e-mail. Ou, pior, perguntam por que a gente não usa MSN.

Heresia.

Eu tenho muitas cartas escritas e não enviadas. Essa, felizmente, eu tive coragem de mandar.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Świat

Uma das coisas que eu mais aprecio tendo um blog é saber que gente de outros países entra aqui e lê sobre minha vidinha sem graça no alto do morro. Pois ontem alguém da Polônia ficou meia hora andando por este Breviário. E não olhou só as gravuras e os esquemas de frutas; botou este que ocupa a vossa tela no translate do Google e leu o que eu escrevi em polonês .

Moja wdzięczność dla Ciebie.

Batendo latinha

Fim da quarentena.
Quase que eu saio só com uma flor no umbigo gritando "Liberdade" pela rua.
Quase.

terça-feira, setembro 01, 2009

Giz apagador

Como Zé Colméia (com a suspensão das aulas da turma dela) levara todos os livros para casa, obviamente acabou esquecendo alguns na escola. Pegamos o que faltava e quando chegou em casa foi direto fazer o dever no livro de Geografia, abandonado no armário do colégio. Já bêbada de sono, miou um "Corrige pra mim, mãe" e foi dormir.

E eu fui lá ver. E fiquei horrorizada, chocada. Eu tento acompanhar os deveres mas - tolinha que sou - com duas professoras regentes de manhã e uma à tarde achei que bastaria ficar em cima pra ela não esquecer de fazer as chamadas APs (avaliações periódicas) que vão para casa na segunda e devem ser entregues uma semana depois (os deveres de casa são feitos durante o estudo dirigido, à tarde), além de auxiliar nas eventuais pesquisas.

Pois bem. O livro é um festival de frases sem sentido nenhum ("Os produtos de Minas Gerais são mais caros do que os de São Paulo porque são mais caros"); erros recorrentes de português ("estensão", mas/mais, "menas"), letras faltando no meio de palavras, inexistência de pontuação - e por aí vai.

O que me deixou mais abismada é que ela passa por TRÊS professoras - três. Que corrijem e dão como certo essas barbaridades. E depois me dizem que eu tenho que fiscalizar os deveres. E TAMBÉM dar uma corrigida básica. E FAZER os deveres com ela - depois das 19h30m, que é quando chegamos em casa.

Ontem de tarde li esse post da Aline. Acompanho diariamente as agruras da Deh em sua inglória luta pelo ensino público. E penso nos R$ 2260 que pago por mês à escola. Na professora da Zé Colméia me dizendo, no meio da festa junina que encerrou o semestre passado, que "ela está perigando repetir de ano" - isso antes de a psicopedagoga sequer ter dado o laudo e, pior, na frente da minha filha.

E sinto uma vontade incontrolável de ir lá e enfiar a mão na cara das três.

segunda-feira, agosto 31, 2009

Lullaby



No início, o novo proprietário finge que jamais olhou para o chão da sala. Não chegou a olhar de verdade. Não da primeira vez que eles examinaram a casa. [...] Então, na primeira manhã, descem, e lá estão as letras rabiscadas no assoalho de carvalho branco:

SAIAM

Alguns dos novos proprietários fingem que aquilo foi uma brincadeira feita por um amigo.[...] Duas noites depois, um bebê começa a chorar dentro da parede norte do quarto principal.
Geralmente é então que eles ligam.
Mas nossa heroína, Helen Hoover Boyle, não quer saber desse novo proprietário ao telefone esta manhã.

Nem desses gemidos e dessa gagueira.

Ela quer mais uma xícara de café e uma palavra de oito letras para "ave". Quer ouvir o que está acontecendo no aparelho de capta a frequência policial do rádio. [...] Assassinatos, suicídios, assassinos compulsivos, overdoses acidentais, não dá para esperar a coisa sair na primeira página do jornal. [...]

É claro, a mensagem apareceu no chão da sala. O estranho é que o bebê só costuma começar a chorar na terceira noite. [...] Se os proprietários ainda resistirem, dali a uma semana estarão ligando para falar a respeito de um rosto que surge refletido na água quando se enche a banheira. Um rosto inchado, cheio de rugas, com dois buracos escuros no lugar dos olhos.

[...] O número 325 de Crestwood Terrace não é uma casa ruim: estilo Tudor, com telhado novo, quatro quartos, três banheiros, um lavabo e uma piscina. Nossa heroína nem precisa consultar a ficha. Vendeu a casa seis vezes nos últimos dois anos.

Uma outra casa em Eton Court, no estilo da Nova Inglaterra: seis quartos, quatro banheiros, vestíbulo revestido em pinho e sangue escorrendo pelas paredes da cozinha. Helen vendeu essa casa oito vezes nos últimos quatro anos. [...]

Dentro de uma hora, ela precisa estar mostrando uma casa em estilo Queen Anne, com cinco quartos, apartamento para a sogra, duas lareiras a gás e o rosto de uma suicida morta por barbitúricos que aparece tarde da noite no espelho da penteadeira. Depois disso, há o rancho com piso em vários níveis; aquecimento, alcova rebaixada e a recorrente aparição dos tiros fantasmagóricos de um homicídio ocorrido há mais de uma década. [...]

- Preciso que você dê uma passada no número... 4673 de Willmont Place. Estilo colonial holandês, quatro quartos, dois banheiros e um homicídio com agravantes. [...] É só fazer o de sempre - diz Helen, escrevendo o endereço num cartão e estendendo-o para [Mona, sua secretária]. - Não tente decifrar nada. Nada de queimar salvas. Não exorcise porra nenhuma.

Mona pega o cartão:
- É só conferir as vibrações?

Helen corta o ar com a mão:
- Não quero ninguém adentrando túneis em direção a uma luz brilhante. Quero que esses monstrinhos fiquem aqui mesmo, neste plano astral, obrigada. [...] Eles têm a eternidade inteira para ficarem mortos. Podem muito bem continuar naquela casa por mais cinquenta anos, chacoalhando correntes. [...] O que você sentiu naquela casa em estilo espanhol ontem?

Mona revira os olhos [...]: - Decididamente há uma energia ali. Uma presença sutil. Mas a planta arquitetônica é maravilhosa.

Nossa heroína diz:
- Caguei para a planta arquitetônica.

[...] O bangalô da rua Elm 521 tem quatro quartos, encanamento original e gritos no sótão. A casa estilo normando francês, no número 7645 de Weston Heights, tem janelas arqueadas, despensa para o mordomo, portas de vidro e um corpo com facadas múltiplas que aparece no corredor do andar superior. [...]

Os corretores as chamam de casas perturbadas. Eram casas que jamais eram vendidas, pois ninguém gostava de vendê-las. [...] Ou então eram casas que eram vendidas e revendidas a cada seis meses porque ninguém conseguia morar nelas. [...] Essa era Helen Hoover Boyle. Nossa heroína. [...] Esse era apenas mais um dia na sua vida. Esse era o estilo de vida dela antes que eu aparecesse. Talvez esta seja uma história de amor, talvez não. [...] Isto é sobre Helen Hoover Boyle.[...]

- Bill Burrows? Você precisa colocar a Emily na extensão, pois encontrei o lar perfeito para vocês dois. Pelo que entendi, os proprietários estão altamente motivados a vender.


Chuck Palahniuk, "Canção de ninar"
Editora Rocco, 2002


Uma palavra: sen-sa-ci-o-nal.

Sala da Justiça

Você sabe que é mãe quando:

- Faz o café da manhã, arruma o cabelo das filhas, troca a água do cachorro e se veste - tudo ao mesmo tempo.

- Faz um sari de cetim charmeuse costurando a mão (incluindo 8 colchetes) em duas horas (porque foi o tempo que durou "Bolt") e todo mundo na festa pergunta [orgulhobesta] "Onde você achou esse sari leeeendo? É importado, né?" [/orgulhobesta]

- Arranja uma fantasia de princesa absolutamente deslumbrante & barata andando pelo centro da cidade às nove da manhã de sábado - porque a fantasia antiga da caçula de oito anos a faz parecer "Miss Suéter Molhado" - e sua filha diz "É mais bonita que as da Barbie!"

BlogDay 2009



O que é o BlogDay?
BlogDay foi criado na convicção de que os bloggers deverão ter um dia dedicado ao conhecimento de novos blogs, de outros países ou áreas de interesse. Nesse dia os bloggers recomendarão novos blogs aos seus visitantes.

O que acontecerá no BlogDay?
Durante o dia 31 de Agosto, bloggers de todo o mundo farão um post a recomendar a visita a novos blogs, de preferência, blogs de cultura, pontos de vista ou atitude diferentes do seu próprio blog. Nesse dia, os leitores de blogs poderão navegar e descobrir blogs desconhecidos, celebrando a descoberta de novas pessoas e novos bloggers.

BlogDay instruções:

1. Liste cinco novos blogs que você ache interessantes.
2. Escreva uma breve descrição dos blogs indicados e adicione o respectivo link.
3. Notifique por email esses cinco bloggers de que serão recomendados por você no BlogDay 2009.
4. Publique no BlogDay (no dia 31 de Agosto) esse post.
5. Junte a tag do BlogDay usando este link:
http://technorati.com/tag/blogday2009 e um link para o site do BlogDay: http://www.blogday.org



1. Viaje a la guerra: conheci pesquisando para um trabalho num site de notícias. Quer saber o que está acontecendo (sem filtro) em áreas de conflito pelo planeta? Hernán Zin conta (e fotografa).

2. Bookslut: Livros, livros, livros. E mais livros.

3. Art Deco: uma seleção mara, preciosidades idem, bom gosto de sobra. Fotos antigas, capas de revistas, ilustrações. Mariana celebra a Era do Jazz como ninguém.

4. Bibliodissey: Antiguidades literárias, ilustrações vintage, mapas-mundi, catálogos. É homem e eu casava. Juro.

5. Bitaites: Marco escreve tão bem, mas tão bem que só indo lá pra ver (e olha que eu não estou falando nada das fotos, nem dos posts sobre astronomia...)

O texto de abertura roubei da Naomi, porque preguiça é universal - e uma vergonha, principalmente porque eu estou lá na lista dela - link indireto é muito bão, viu?

quinta-feira, agosto 27, 2009

Tô dizeno...

"ChantalPorter (Porter505) is now following your tweets on Twitter."

Chantal who?

Ninguém acredita

As meninas ontem trouxeram uma circular na mochila comunicando o primeiro caso de suspeita de gripe suína na escola. Aí, quando digo que parece que eu fiz striptease em cima da mesa da Santa Ceia, ninguém leva fé: a criança é da turma da Zé Colméia. E a irmã dela (obviamente também entrou na quarentena) é colega de sala da Catatau.

E então as duas turmas (e só elas, dentre todas as do colégio) ficarão sem aulas até o dia 3 de setembro.

Já recebi o telefonema do meu contato dizendo que meu passaporte (oi, Cirlene Gerusa Batista, prazer) - já tá pronto. Agora só falta a peruca loura.

quarta-feira, agosto 26, 2009

Vésperas

Cris: cruzes!
esse xarope deve ser o ó!!!

eu: É sim, desce queimando! A gente tosse só de tomar, mas parece que derrete tudo lá por dentro.

Cris: é vc nessa fotinha?

eu: Sim, sou eu. Que tal? Tirei aí em Nikiti, no Parque da Cidade. Láááá em cima.

Cris: linda!

eu: Né não? Quando eu crescer vou ser rica e comprar uma casa em Santa Rosa.

Cris: uai, e precisa ficar rica? muda pra cá, oras...

eu: Ah, preciso sim. Porque eu quero A CASA em Santa Rosa.
Entende?

Cris: vc sempre querendo o ideal...

eu: É, eu sei... :(

Cris: por isso não gosto de platão...

eu: Nem eu. Uma mala sem alça.

Cris: ahuahauhauhauahuhaua!

eu: Puxa, eu estava falando sério. Discutindo filosofia de uma maneira mais leve, mais Mundo de Sofia.
Magoou...

Cris: platão mala se alça foi tudo...

.....

Cris: já encomendei um livro pela amazon. "Wittgenstein: the duty of the genius"
papi me deu dim dim

eu: Uia! Cris tá rica!

Cris: (assim ce vai pensar que eu trabalho na zona)

eu: E ainda inventa presente do papai!

Cris: esse comentário aí em cima foi pra outra janela
a lerda aqui esqueceu de mudar
KKKKKKKKKKKKKKK!

eu: Puxa, não sou exclusiva aí na sua tela?
Que decepção...

Cris: tem uma amiga de fortaleza que sempre aparece nessa hora

eu: Sei. Amiga de Fortaleza. Tá.

Cris: eu tô dizendo pra ela que tá na hora de eu ir dar banho na perseguida pra ir trabalhar
(mas eu não trabalho na zona)
ué, quem haveria de ser?

eu: Num sei. Eu que vou saber? O marido ausente e coisa e tal... E o Demian chegando, e coisa e tal... O garoto é uma gracinha, e coisa e tal... E você agora diz que vai banhar a perseguida, e coisa e tal...

Cris: o pedro é GAY!!!
uma pena, mas é...

eu: So...?

Cris: conheci o puto em sampa

eu: Tá morto, por acaso?

Cris: ahuahauhauahuauaa!

.....

eu: Comigo tudo indo. Quando o nível de problema alcança aqueles níveis insuportáveis eu começo a sublimar...

Cris: haja jack bauer...

eu: Sou mala mas você me ama, eu sei...

Cris: aliás, que inveja.

eu: Por que inveja?

Cris: eu não consegui comprar a rolling stone

eu: Te empresto.

Cris: dei uma olhada rapidinha na revista de um aluno

eu: Tá cheia de spoilers.

Cristiane: nem ligo. (...) o gui quer ter toda a coleção de dvds
só se eu vender um rim
ou o corpinho, que é bem melhor, convenhamos

eu: (...) Eu baixei tudo de Journey, Aerosmith, Sly and the Family Stone, Eric Clapton, High School Musical, The Cheetah Girls... Sem falar nos episódios e longas...
Dá pra ver o quanto eu estou trabalhando...

Cris: tô vendo
surtou?

eu: Como assim, surtou? Quer dizer, além do normal?

Cris: é, além do normal

eu: Tô cansada, Cris. Minha vontade é só bundear. Até minha pequena já aprendeu esse termo. Bundear. Tão anos 70!

Cris: bundear é ótemo
guerreiras também descansam, babe

eu: Não é? Quando eu falei ela perguntou o que era isso. Eu disse: "Ah, filha, bundear é levar a sua bunda da cama pra mesa, da mesa pro sofá, do sofá pra cama de novo... Só quem trabalha é a sua bunda, levantando e sentando e deitando em qualquer lugar da casa. A gente faz isso quando o resto está com preguiça; aí só a bunda trabalha." Ela rachou de tanto rir...

Cris: muito boa definição...
:)
ó, agora a doentinha aqui precisa papar
otília acabou de me chamar

eu: Antes do meio-dia? É ruim quando a terceira idade chega, né?
Vai lá, D. Crisoldina.

Cris: muito.
daqui a pouco vou precisar de alguém pra me levar pro banho de sol.
só que hoje tá chovendo!!!!!
kkkkkkkkkkkkkkkkk!
a gente precisa se falar mais.
você some, desaparece. e eu ainda tô te devendo um chocolate.
aliás, eu não, o coelho. foi ele que inventou aquilo.
depois a gente se fala mais. beijo!

eu: Chovendo? Aqui tá um sol de rachar!

Cris: aqui tá caindo o mó toró!

eu: Vou lá na janela ver.
Holy crap! Niterói sumiu!!!

Às vezes a gente precisa ser lembrada de que já teve um ótimo humor. Que já se divertiu com tão pouco. E que há amizades que estão tão pertinho da gente.

Beijos e obrigada, Cris. Eu estava mesmo precisando disso.

Por que será

Gente estranha e muito esquisita que me adiciona segue no Twitter.
Eu, hein.

terça-feira, agosto 25, 2009

Fotógrafos XVIII - Gerda Taro



Two Republican soldiers with a soldier on a stretcher, Navacerrada Pass, Segovia front, Spain - Late May–early June 1937



Republican dinamiteros, Carabanchel neighborhood of Madrid, Spain, June 1937



The Republican soldiers at Segovia front in Spain, July 1936



Republican militiawoman training on the beach outside Barcelona, Spain, August 1936



Air raid victim in hospital, Valencia, Spain, May 1937



Gerda Taro, Guadalajara front, Spain, July 1937, photographer unknow

Ela só tinha 27 anos quando morreu. Gerda decidira voltar ao front de Batalha em Brunete (uma das mais terríveis da Guerra Civil Espanhola), onde assistiu aos terríveis bombardeios da aviação nacional. Tirou ainda milhares de fotos. O comboio, voltando da frente de batalha (Gerda viajando no estribo do carro do General Walter, membro das Brigadas Internacionais), de repente foi atacado por aviões inimigos que lançaram bombas em rasantes sobre os caminhões e metralhavam quem se movesse no chão, fazendo com que os carros e caminhões começassem a manobrar desordenadamente. Acidentalmente, um tanque republicano acabou por atingir Gerda Taro, derrubando-a do carro e atropelando-a. Ela morreria no dia seguinte - 26 de julho de 1937, a seis dias de completar 27 anos.

Ela e Andre Friedman, um judeu húngaro que tentava ganhar a vida como fotógrafo, criaram a figura mítica de Robert Capa, o intrépido fotógrafo americano. Venderam a publicações centenas de fotos da autoria de ambos, sob a assinatura de Capa. Não são poucos os que dizem que a famosa imagem do miliciano sendo baleado na cabeça é dela, e não de Andre Friedman (que tomou o pseudônimo criado por ambos depois que ela morreu). Ele alcançou a glória na história do fotojornalismo; ela é citada em matérias sobre ele como "a companheira de Capa que morreu jovem".

segunda-feira, agosto 24, 2009

Desencaixe II

UPDATE: Agradeço a força. E sim, eu me amo e me quero bem. Mas, como ser humana, tenho meus dias bons e ruins, quando estou cansada, estressada e lesionada, e me lembro dos tempos em que a única coisa que eu tinha com que me preocupar era se eu chegaria a tempo pra pegar as peças boas na liquidação da Yes, Brazil, ou se ia dar praia no sábado - e como estudar pra prova de citologia se domingo tinha A festa. Eu posso ter odiado minha vida até hoje (o que não é o caso) mas não trocaria nada - nem mesmo a possibilidade de eliminar meu ex antes de ele se tornar marido - pela existência das minhas filhas.

E Anônimo: eu não gosto de comentários anônimos - por favor, identifique-se.

Sai fora

Tem dias em que eu estou com um mau humor apocalíptico (como hoje, com Zé Colméia em casa, depois de o pai levá-la ao jogo do Vasco meia hora depois de ela desmaiar - de fome e gripe - na porta do Maracanã). E nesses dias... bom, Deus (ou o diabo) ajude a humanidade. Porque nada mais irritante do que isso:

- Por favor, gostaria de falar com fulano.
- Quem deseja?
- É Suzana.
- Suzana de onde?

"De Vênus."
"Da esquina."
"Do blog 'Ex-maridos devem morrer castrados'" (uso variantes dessas quando ligo pra redação do dito cujo. E AMO porque o boy entra da brincadeira e berra "Fulano, a editora do blog "Ex-maridos devem morrer castrados" pra você!!!)
"Do site 'Mundo da progesterona'."
"Da revista 'Secretinas intrometidas'" (essa eu mando só quando a secretária é cretina & intrometida).
"Do outro lado da linha telefônica."

sexta-feira, agosto 21, 2009

Desencaixe



Eu não sei o momento exato em que o interior se descolou do exterior. Claro, sempre tem aquela conversinha inútil e fútil do tipo "Mas eu não me sinto com 30/40/50/60 anos!" Mas em algum momento da minha vida passei a viver dois tempos, duas cronologias.

Eu tenho me olhando no espelho de maneira muito cruel, ultimamente. Já fui mais camarada - me lembro como me surpreendi ao me ver extremamente brilhante e bela, os cabelos revoltos, despenteados, a boca muito vermelha de lábios inchados, as maçãs do rosto parecendo cetim rosa depois de ter feito amor durante a madrugada. Hoje, saio do banho e vejo, enrolada na toalha, uma mulher de 43 anos, cabelos compridos e avermelhados, pele branca não tão imaculada como já foi um dia; as rugas se acumulando ao redor dos olhos, mesmo quando não estou sorrindo. O pescoço que já mostra que não será firme por muito tempo, o colo marcado por eu gostar de dormir de lado e não como uma múmia em seu sarcófago, como mandam as revistas mulherzinhas.

Mas o que me dá mais tristeza são minhas mãos. Eu olho as de Zé Colméia e vejo as minhas mãos de 20 anos atrás. Sem as veias saltadas, sem os dedos que começam a engrossar e denunciar a artrite que grassa na minha família e hoje deforma as mãos de minha mãe. Meus dedos continuam longos, mas sem a graça de antigamente.

E eu me pego na rua pensando nos meus 18 anos. Para mim foram ontem; o mundo me diz que já se passaram 25 anos - uma vida, uma geração. Olho para homens que me interessariam, e eles passam sem virar o rosto, porque eu não os interesso. Sou mãe, e como tal, assexuada. Não-desejável.

O eu-de-dentro ainda espera a chance de fazer tudo o que planejou um dia. Sentou e pacientemente aguarda os dias em que poderá, como sempre fez, dormir e acordar sem horário fixo. Comer o que quiser, tomar sol o quanto quiser. Nem chegou à metade da vida. Poderá trocar de namorado quanto tiver vontade, ou entregar-se sem reservas àquele que estará com ela nos próximos 80 anos.

Mas o eu-de-fora não tem mais pela frente 80 anos para viver. E, o que é pior, não se conforma por ter se adiantado na estrada enquanto a outra, roupas descoladas, dinheiro no bolso, pele sem marcas e a vida pela frente, continua querendo diversão - e mantendo-se ainda com esperança inabalável de que ela, finalmente, chegará.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Acaba em pizza

A primeira vez:

-... e aí a Marinete...
- Margareth, filha.
- Ah, tá bom, mãe. Orégano.

A segunda vez:

- Está escrito errado.
- Onde?
- Aqui. É com "z".
- Tá bom, tá bom! Orégano.

A terceira vez:

- É aqui, não ali.
- Tá legal, Orégano.

A última vez:

- As toalhas de prato são aqui.
- *suspiro* Orégano, mãe.
- Mas que diabo você fala tanto orégano?
- Cê não sabe nada de gíria, né mãe? É a mesma coisa que "tanto faz".
- É whatever.
- Tá, mãe. Orégano.

terça-feira, agosto 18, 2009

Agosto

Cano estourado no banheiro
Cadela com conjuntivite
Cadela no cio
Cachorro doidão
Gripe
Bananeira derrubada no terraço
Calor infernal.
Três baldes gigantescos de roupa para passar.
Dois baldes gigantescos de roupas para lavar.
Um trabalho para terminar - até amanhã.
Uma casa imunda.

Um plano de fuga quase pronto. Só falta o passaporte falso e a peruca loura.

Depois de RDB

Isa TKM.
Adultos fingindo que são adolescentes e dialogando como crianças em fase pré-escolar.
Ninguém - nin-guém - merece.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Águas de agosto

Segunda-feira (porque senão depois disso eu saio feio louca pelas ruas, pelada e gritando que é o fim do mundo) as meninas voltam às aulas. E aí eu não vou:

* Saber se a Isa finalmente beijou o Alex, enquanto a Cris Tarântula (que agora está usando o Ray Galã pra acabar com a Isa) se prepara pra lançar sua própria banda - e será que a Marina escapou do processo policial que a Rebecca armou pra ela (que babado essa história dos cheques roubados, não?);

* Ter mais desculpa pra comprar caixa de bombom em promoção nas Lojas Americanas;

* Acordar às 10h todos os dias;

* Dormir às 2h, todos os dias;

* Comer banana com Nescau de lanche;

* Ter duas crianças atazanando a minha vida o dia inteiro, todo o dia, e assim ocupar a minha cabeça pra eu não lembrar como me fazem falta aqueles telefonemas do nada, no meio da manhã e no fim da noite, e o quanto de saudade eu sinto de você.

1975 aC*

- Nossa, mas é muito complicado.
- Tenta aqui, vai.
- Mas é pra rodar aqui, né?
- Acho que sim.
- Mas se eu errar, como faz para tentar de novo?
- Acho que é aqui nessas alavanquinhas.
- Acho melhor perguntar pra mamãe.
- É, é melhor.
- Mamãããããããe, como funciona isso?

Senhoras e senhores, telefone de disco.

* Antes do celular

sábado, agosto 08, 2009

...

Amanhã é um dia muito, muito importante para mim. Um dia que poderá mudar a minha vida - e a das meninas - para muito melhor. E a ansiedade pela chegada dessa data tão importante me faz lembrar de outras datas que marcaram reviravoltas, começos na minha vida.

Todos eles têm uma coisa em comum: ninguém para partilhá-las. Quando passei no primeiro vestibular que fiz (fiquei em quinto entre mais de 200 mil candidatos) estava sozinha no Rio. Vi meu nome na lista e não tinha viv'alma para abraçar. A mesma coisa no segundo vestibular. Na minha formatura. Quando descobri que passara na prova de estágio do maior jornal do Rio, conseguindo uma das sete vagas oferecidas a 600 jornalistas recém-formados.

Amanhã não terei ninguém a me beijar e abraçar, desejando-me boa sorte. Ninguém que me espere por quase cinco intermináveis horas, fumando cigarros imaginários e bebendo cervejas não-tanto-assim. Ninguém consultando o relógio de cinco em cinco minutos. Ninguém pra me abraçar na saída, a quem eu conte como foi, como não foi. Ninguém para rir e comemorar comigo, se tudo for bem, ou me abraçar forte e soprar no meu ouvido "Você deu o melhor de si" se não for assim tão bem.

De novo, ninguém.

UPDATE a quem interessar possa: uma multidão de gente fazendo a prova. Uma questão subjetiva (fui muito bem) e 60 objetivas (errei com certeza 4; em 3 tenho dúvidas). Então é esperar o resultado, né? Beijos pra quem torceu e me mandou energia positiva: funcionou, porque eu estava muito muito muito calma. Obrigada, de coração.

Alvorecer



Somos uma verdadeira multidão. Silenciosamente, levantamos a cada manhã e nos encaminhamos para o alto daquele abismo, onde se ouve apenas o nada. Então, gritamos um "Olá!" com toda a força dos pulmões, recebendo um outro "Olá!" a perder-se entre as escarpas do vazio. Então descemos a montanha e vivemos até o dia seguinte.

Todas as manhãs uma verdadeira multidão grita, daquela ponta do penhasco, seu "Olá!". Então espera, o coração aos pulos, que o eco responda, finalmente, "Como vai você?"

terça-feira, agosto 04, 2009

Fundo do poço

Você de vez em quando topa com uma. Aquela criatura com a cara mais cansada do mundo. Olheiras. A testa meio brilhante. Sem maquiagem, a raiz cinza-rato do cabelo aparecendo. A pele do rosto meio descascando, sem viço. Sapatos que deveriam ter sido aposentados há tempos, e uma roupa que (você jura) deve ter uma etiqueta da grife Exército da Salvação.

É. Euzinha. Oi.
*suspiro*

segunda-feira, agosto 03, 2009

Medo de se apaixonar



Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve.

Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar.

Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue.

Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha.

Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha.


Fabrício Carpinejar, "O amor esquece de começar"
Bertrand Brasil, 2006

sábado, agosto 01, 2009

...

Férias das meninas.
A época do ano em que eu mais trabalho e menos tempo tenho pra mim.
Sorry, people. Dia 10 voltaremos à programação normal.

quarta-feira, julho 22, 2009

Vida



A gente sempre acha que "viúvo" é palavra acompanhante de "meia idade". Mas não é, não. Ela ficou viúva um pouquinho depois dos 30, e na dor brincava que o lugar do marido nas coisas chatas da vida seria ocupado por um cunhado resignado em trocar o chuveiro elétrico e levá-la ao supermercado uma vez por mês.

Ele foi muito querido. Daquelas pessoas que tocam a vida de uns e outros e fazem uns virarem outros e outros virarem uns - o que eu quero dizer? Que ele mudava a existência das pessoas: aD e dD - antes dele e depois dele. E os dois sabiam disso. O cunhado dizia aos amigos que agora era ele o curador do bem mais precioso do irmão - sua viúva. E tanto cuidou que se casou com ela. E ela tanto amou o marido que se casou com o irmão dele.

E ele dizia a quem quisesse ouvir: "Esse bem não divido com ninguém - será a herança que legarei aos nossos filhos."

terça-feira, julho 21, 2009

Hoje




Os Simpsons, 20 anos
Bob Esponja, 10 anos
As Meninas Superpoderosas, 11 anos

Michael Jackson, 50 anos (deceased)
Madonna, 51 anos
Sting, 58 anos

Invasão do Afeganistão, 30 anos
Morte de John Kennedy Jr, 10 anos
Homem na Lua, 40 anos (sim, meninos, eu vi!)
Eu, 43 anos. E confesso que não ando me sentindo muito bem...

segunda-feira, julho 20, 2009

Fotógrafos XVII - Harry Benson (2)



Jack Nicholson, Montana, 1975



Barbra Streisand, Central Park, New York, 1967



Martin Luther King Jr, Mississipi, 1966



Mrs. Martin Luther King and children, Martin Luther King's funeral, Atlanta, Georgia, 1968



Klu Klux Khan meeting, Beaufort, South Carolina, 1965



Grieving father, Washington National Airport, Washington DC, 1971



Francis Ford Coppola, Al Pacino, Diane Keaton, "The Godfather", New York, 1971



Greta Garbo, Antigua, 1976

sexta-feira, julho 17, 2009

Outono

- Dá pra preparar um original de 325 páginas?
- Claro! Pra quando?
- Depois de amanhã?

E assim eu virei duas noites. Obviamente, ainda dormirei mais uns dois dias ao amanhecer, acompanhando bêbados, festeiros e vampiros pela noite. Mas eu gosto da escuridão. O cheiro da noite é especial. Conseguimos ouvir aqueles ruídos encobertos pelo sol, nossas dúvidas, nossos medos e anseios, talvez algumas esperanças.

O sol nasce diretamente sobre a minha cama. Terminei o trabalho às 8h; tomei café-da-manhã e um banho. Às 9h deite-me no sofá, embrulhada ainda no roupão, para "descansar os olhos" - e cochilei.

Pra quem tem insônia: recomendo. Dá pra ter sonhos maravilhosos antes de se espreguiçar e se torcer feito gato ao sol morno e descobrir que é hora de levantar.

sábado, julho 11, 2009

Balão subiu desceu

Jogo de argolas pé-de-moleque canjiquinha pescaria quadrilha grupo I casa da bruxa correio do amor jogo de argolas pescaria pescaria pipoca bolo de milho churrasquinho de carne queijo coalho quadrilha grupo II prisão salsichão com farofa churrasquinho de frango milho verde pamonha queijadinha empadinha salsichão quadrilha grupo III pescaria pescaria quadrilha grupos IV e V pescaria prisão correio do amor panquequinhas maçã do amor pizza na lenha salsichão queijo coalho quadrilha primeiro ano quadrilha segundo ano salsichão sem farofa espetinho de legumes com queijo queijo coalho churrasquinho de carne bolo de amendoim paçoca paçoca uva do amor quadrilha terceiro ano quadrilha quarto ano escorrega sopa de ervilha pula-pula pipoca doce pipoca salgada milho e pra arrematar paçoca salsichão com farofa e arroz doce.

Tô imunda. Tô empanzinada. Tô morta.
Mas tô tão feliz...!

sexta-feira, julho 10, 2009

Orvalho da manhã

Recomeçar a viver é diferente de retomar a vida. Eu estou, depois de retomar minha vida, recomeçando a viver. Preocupando-me com as pequeninas coisas, como porque não fiz as unhas mais cedo ou como meu cabelo pode estar assim tão ressecado.

É, eu sei. Sempre entrei nas discussões de como isso tudo é cobrado da mulher. Superficial. Tem que andar depilada, maquiada, arrumada e outros "adas". Mas eu quase perdi isso. Minha vaidade. "Porque vaidade do outro lado não importa, não? Então não vou gastar assim tanto tempo nesse cabelo que, afinal de contas, vai cair com o tratamento."

Pois voltei à dermatologista para o tratamento que está, aos poucos, fazendo sumir as pequeninas manchas do meu rosto que poderiam um dia tornar-se malignas. Tirei a poeira da esteira e dos pesos. Voltei a olhar vitrines. A sentir frio no estômago. A desejar manhãs de domingo ensolaradas. A brilhar os olhos.

Voltar a ser mulher é um prazer indescritível.

quinta-feira, julho 09, 2009

...

Eu converso temas diversos com meus cachorros. E eles sempre me aconselham o melhor.
Eu tenho altas discussões com pessoas variadas enquanto tomo banho. Nem sempre eu ganho.
Eu me pego interpretando cenas de filmes que gosto enquanto estou limpando o terraço. E, normalmente, mudo o roteiro quando não concordo com os rumos do personagem.
Eu recitava trechos inteiros de "Hamlet" dentro do ônibus. Mas esqueci quase todos, então fico murmurando os que restaram enquanto espero o elevador.

Não, eu não tenho um amigo imaginário.
Não mais.

quarta-feira, julho 08, 2009

Das coisas boas

Acordar, num domingo ensolarado de outono, ao lado de alguém.

Acabano

- Dia das Mães (festa & presentes)
- Inferno astral Zé Colméia
- Aniversário Zé Colméia
- Festa na escola Zé Colméia
- Provas finais
- Obras fachada do apartamento
- Reforma (arrumação/doação)
- Final consultas psicopedagoga (devendo a última; MARCAR!!!)
- Inferno astral Catatau
- Aniversário Catatau
- Festa na escola Catatau
- Obras no telhado de casa
- Festa junina
- Início férias escolares:
* com o pai
* comigo
- Meu inferno astral
- Meu aniversário
- Volta às aulas

Falta pouco. Falta pouco. Falta pouco. Falta pouc...

terça-feira, julho 07, 2009

Fotógrafos XVI - Diego Sandoval Naza



Fragmentos de Pasión - Serie Flamenco 3



Fragmentos de Pasión - Serie Flamenco 5



Fragmentos de Pasión - Serie Flamenco 13



Fragmentos de Pasión - Serie Flamenco 22



Fragmentos de Pasión - Serie Flamenco 29



Fragmentos de Pasión - Serie Flamenco 34



Fragmentos de Pasión - Serie Flamenco 36



Fragmentos de Pasión - Serie Flamenco 49



Fragmentos de Pasión - Serie Flamenco 54

Eu tinha 18 anos. Era tarde da noite, cheia de coisas para estudar. A TV ligada na entrega do Oscar, e eu debruçada sobre meu trabalho de genética para entregar no dia seguinte. Então passaram esse clipe - a categoria era Melhor Filme Estrangeiro. Eu não conseguia desgrudar os olhos da tela. Não fazia idéia do que era flamenco, quem era Antonio Gades e, para mim, Carlos Saura era um diretor que havia feito um filme esquisitão chamado "Cria cuervos" (heresia! :o). No dia seguinte, procurei uma academia. Encontrei zilhares de cursos de flamenco, entupidos de alunas emperequetadas com xales e saias e flores nos cabelos. Dois meses depois, éramos só quatro na aula, e eu já tinha tomado uma advertência do síndico porque meus vizinhos não aguentavam o plec plec plec plec tac! dos meus treinos solitários de castanholas noite adentro.

Logo depois assisti "Bodas de sangue" num cinema poeirento (o hoje Cineclube Estação Botafogo). Uma obra-prima só comparável, para mim, a "O baile", de Ettore Scola. O final de "Bodas de sangue" é uma das cenas mais impressionates que já vi (pra quem não conhece a história: Federido Garcia Lorca leu, um dia, uma notícia num jornal que um casamento havia acabado num duelo trágico. Então escreveu "Bodas de sangre", a história de uma noiva que se casa contra a vontade - e o homem que ama também é casado. No dia das bodas os amantes fogem e são caçados pelo recém-marido-traído. Os dois duelam e morrem.)

No fim daquele ano eu era a única aluna. O curso acabou, mas eu já dançava num grupo. Nossa coreógrafa nos apresentou a Antonio Gades - eu, deslumbrada, só conseguia pensar em como ele tinha belíssimos olhos e era quase tão baixo quanto eu - e que no palco parecia ser muito, muito alto. Fui à Espanha, enchi meu guarda-roupa de vestidos e sapatos e penetas e leques e paixão, tudo empacotado oito anos depois - menos a paixão, que ainda mantenho dentro de mim.

Mais fotos de Diego Sandoval Naza aqui ou em seu site.

segunda-feira, julho 06, 2009

Entardecer



Minha primeira menstruação aconteceu quando eu tinha 11 anos. A lembrança mais forte que eu tenho é a de ter ficado muito assustada, com um tremendo nojo do meu próprio corpo. Eu então tinha uma existência pela frente para viver o constrangimento mensal de me preocupar se está aparecendo, se sujei a roupa, se vai dar tempo de ir àquela festa, se minha barriga está muito inchada, se essa cólica vai passar, se o remédio para enxaqueca vai fazer efeito, se é possível uma espinha crescer (e doer) tanto, se eu vou agüentar isso pelo resto da minha vida.

Não, não vou. Porque hoje, vendo minha filha mais velha desabrochar lentamente, ao me aproximar dos meus 43 anos percebo que o tempo que me resta de fertilidade está terminando. A cada mês que sinto meus seios incharem e minhas pernas tornarem-se pesadas comemoro secretamente mais um ciclo ganho. Não que eu vá ter mais filhos, mesmo desejando-os; não sou ingênua a esse ponto. Sei que a cota que me cabe nesta vida já a preenchi, e sinto-me realizada e agradecida por isso. Mas o pensamento de que um dia não terei mais a opção de gerar uma criança enche-me de uma tristeza amarga. Tornar-me naturalmente estéril é um pensamento que sou incapaz de entender. Ou aceitar.

domingo, julho 05, 2009

Há oito anos



Oito anos pesam. Principalmente quando você agora sabe ler e escrever, e empina o queixinho e fala, com aquele tom de "você está sendo desagradável e inconveniente" que não é mais um bebê. Aí a criatura olha aquelas bochechas adoravelmente roliças, os braços idem, aquela pele que parece creme de leite, o cabelo liso e reluzente, os olhos macios e ri. Because sorry darling, você É um bebê. Da vozinha de taquara rachada à risada soluçante.

Se ano passado ela era a princesa da torre de marfim, de uns tempos para cá não tem se levado muito a sério. Porque a vida é muito mais diversão do que pode sonhar a vã arrumação de cabelos & maquiagem. Principalmente quando se consegue (quase) sempre o que se quer. Seja revirando os olhinhos e virando o botão para jeito gordinho & fofo mode on ou esperando, pacientemente, qual gato no sol. Essa é a sua principal trunfo: a paciência. Deixa a irmã se descabelar. Deixa que eu me esqueça que disse "não". Deixa todo mundo esquecer, o tempo passar, os dias virarem no calendário. Mas ela não esquece. Meu carangueijinho anda para os lados, para trás, sempre de olho naquele dedão gordo do banhista desavisado. Então, quando menos se espera... NHOC!

Não que ela não mereça. É educadíssima, principalmente à mesa - tanto que ninguém nota, com tamanha finesse, que ela já devorou o meu, o seu, o dela e o do vizinho, miando no fim: "Mas como não tem mais? Acabou?" Os cadernos são caprichados, os livros impecáveis. Ela é, obviamente, a preferida da professora - dito pela própria, aos sussurros, na fila de entrada. Pasmem. A professora, redonda como minha filhota, ama Catatau de paixão. Mas quem não ama?

Ela ri e o mundo ri com ela. Ela chora e olhos se enchem de lágrimas ao seu redor. Ela pede colo, e inúmeros se oferecem para acolher aquele querubim cheiroso que despencou das nuvens. Mas que ninguém se engane. Ela é muito, muito esperta. Sabedoria sem maldade, que abre o coração à irmã que quer sentar na janela do ônibus, ou que quer um pedaço de chocolate porque já devorou tudo o que ganhou. Pois Catatau é econômica; guarda para o futuro, para quando porventura precisar, quem sabe, de um pedaço de doce num dia de inverno. Só não economiza o carinho, o afeto, o amor que distribuiu entre aqueles que moram em seu coração - e eu, confesso, sou a dona vitalícia da suíte master com hidromassagem.

Feliz aniversário, minha doce Catatau. Que você consiga abarrotar o seu cofrinho com toda a sorte do mundo.

* E grata, Renata, pela imagem. Porque é a cara da minha filhota :o)

sexta-feira, julho 03, 2009

Aquilo que editas



Zulu (Johannesburg, África do Sul)



Farsi (Teerã, Irã)



Lao (Laos)



Creole (Ilhas Maurício)

Ela tem 175 edições d'O Pequeno Príncipe, uma em cada idioma (incluindo línguas mortas, como latim; inventadas, como esperanto; e pouco faladas, como tirolês do sul) além de cinco em braille.

quinta-feira, julho 02, 2009

Cartesiana

- Mamãe, ralei o tocovelo.
- Cotovelo.
- To-co-ve-lo.
- Não, filha, é cotovelo.
- Mas é claaaaro que não. Cê tá errada.
- Não, não estou. É cotovelo.
- Mãe, você ontem tava falando que a gente pode aprender o que quer dizer uma palavra se desmanchar ela em pedacinhos - que nem "eletro" e "donéstico" [sic]. Pois então: quando a gente tava falando daquele homem na rua que não tinha braço, você disse que o que sobrou era um toco. Então. Eu ralei a ponta do toco. TOCOVELO!

Dois minutos depois:

- Mamãe, me arranja um toconete?

quarta-feira, julho 01, 2009

...

Inferno astral.
Ninguém merece.

Pelo caminho

A melhor coisa de ser amigo virtual é que as aparências não contam. Não importa se o outro é alto, baixo, gordo, magro, não tem braços ou prima pela ausência de orelhas. Você aprende a gostar do outro pelo que ele é, na essência. Mesmo que você tente mentir ou esconder algo, sempre acaba se revelando. Não tem jeito.

*

Puig é agridoce. Aquela literatura de bicha que não tem pudor nenhum de dizer tudo na sua cara. Se incomodou, o problema é seu: resolva-se, queridinho, e não canse a minha beleza. Se você tem problemas para dormir, não o leia à noite - porque vai ser de uma enfiada só, e não vai descansar enquanto não ler os três.

*

Ontem, aqui em casa, aconteceu uma revolta aberta, motim que eu sufoquei com um banho de castigo. As meninas tiraram tudo - TUDO - do lugar e espalharam pelo chão: 30 Pollys com suas roupinhas (herança da irmã mais velha devidamente empurrada para mim pela ex-mulher do ex-marido - tanto ex dá nisso), 7 Barbies, bichos de pelúcia, quebra-cabeças, panelinhas, livros, revistinhas, álbuns de figurinhas etc etc e mais etc.
Comecei a pedir que catassem tudo às 11h. Às três da tarde, já estava mandando; às seis, cada uma tinha levado uma palmada (mas o caldo já estava derramado, depois que Catatau enroscou um boá de plumas rosa-choque no ventilador). Às oito, mandei as duas saírem do quarto, arrumei tudo e decretei toque de recolher: ninguém passearia no domingo, ou veria televisão (que acabei liberando hoje, depois que recolheram os brinquedos que brincaram na varanda) nem comeria ovo de Páscoa.
Sabe, fico horrorizada quando vejo uma mãe socar uma criança na rua, quando ela não faz nada demais. Mas também eu não me reconheço quando, depois de uma semana arrasadora, um calor infernal, quero mais é tomar banho, sair e tomar um chope num Garota-de-Alguma-Coisa e a única coisa que vejo é uma casa intransitável.
A sanidade mental de uma mãe tem que ser elástica. Ela tem que se lembrar de tudo, detalhes, horários, datas, cores, nomes de coleguinhas. Tem que lembrar de expedir convites na data certa, achar o presente certo, o personagem certo. Comprar o tamanho certo, da cor exata e da princesa escolhida - jamais dê algo da Cinderela a uma menina que A-MA a Branca de Neve. É pecado mortal.
Estou muito cansada. Amanhã começa tudo de novo, e eu não fiz nada do meu fim de semana. E isso me deixa muito triste e culpada, porque às vezes eu rezo para chegar segunda-feira e me despedir das meninas na hora da entrada na escola.
É errado isso? Ou será que as mães se sentem assim? Ou será que sou só eu?

*

E-mail é um pouco carta, porque você espera chegar, sente prazer em abrir o envelopinho, se alegra quando a missiva é longa, fica decepcionada quando é curta.

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O que eu gostaria de postar - se o trecho fosse meu: "Disseram-me que as estrelas aparecem com trinta anos de atraso, por isso olhar pro céu é como olhar o passado... Mas nem todas. Em algumas, a luz partiu há milhares de anos. Outras, como o Sol, há 8 minutos. Se ele explodisse – cogitou Sylvia Plath - a gente teria tempo apenas para fumar um cigarro... ou comer um Chicabon!..."

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Porque amigo meu é promessa de amar a vida toda, na alegria e na tristeza, na saúde e na pobreza, na saúde e na doença.


Eu gosto de me lembrar quem eu já fui e de onde vim. Pra ver se ainda sou - e estou.

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Zé Colméia teve um ataque quando um professor a segurou pelo braço. O que mais ela gritava era "Vou chamar a polícia! Homem não pode bater em mulher! Socorro!". Ela nunca fez isso. Fui à diretoria e expliquei para as novas coordenadoras o porquê do comportamento dela. Ela estava, simplesmente, tentando evitar que acontecesse com ela o que aconteceu comigo, por anos.

O pior tipo de violência contra a mulher é quando ela é perpetrada por quem ela mais confia. O estranho, este não sabe quem você é. Como no mito sobre os vampiros - eles só podem entrar na sua casa se você os convidar. E para isso eles cativam você, ganham a sua confiança e depois levam embora a sua vida, a sua essência.

A violência, quando é praticada por marido, acaba com a mulher. Nós não escolhemos pai, irmão, avô, tio. Eles já estavam ali quando nascemos. O padrasto não é escolha nossa, e sim da nossa mãe. Mas no caso do marido, ele passou pelos estágios de conhecido, de namorado, às vezes de noivo. Você aprendeu a confiar nele. Ele é, muitas vezes, o pai dos seus filhos. Você vive ao lado dele. Passou anos conhecendo-o - e um dia ele bate em você. Humilha você sexualmente - seja chamando-a de frígida, seja forçando-a.

Você mostrou a ele todas as suas fraquezas - e ele sabe como usá-las para derrubar o que você tem de forte. E a mulher não consegue sair do círculo vicioso que a vergonha (injustificada) a empurra. Porque ela não pode se queixar - foi ela quem "casou errado". É dela a responsabilidade de garantir o sustento dos filhos e a união da família - mesmo que isso signifique ouvir diariamente "Você é uma inútil" ou receber cusparadas no rosto. Ou, pior, apanhar grávida - e na cabeça, que é pra não deixar marcas.

A mais terrível história de horror é aquela que deixa marcas indeléveis porque não há para onde ir. Quem a atacou foi um estranho? Com cuidado e com o tempo, você vence as barreiras levantadas pelo "estranho" e dá então uma chance àquele cara realmente adorável e digno de confiança. Mas quando quem fez mal à mulher foi um cara adorável digno de confiança - como distinguir? Como confiar novamente, se você já fez isso - namorou o cara por cinco anos, morou junto por três e quando casou e teve filhos começou a viver uma história de horror? Você foi até o fundo do poço - não tem mais como cavar à procura de uma "confiança mais confiável".

E então você vive com medo - de que o próximo cara adorável se mostre, quando você abrir a porta finalmente para ele, o vampiro que vai levar embora sua auto-estima, seu amor-próprio, sua capacidade de confiar num homem, novamente.

Eu já me encolhi de medo quando um amigo de anos, com quem saí uma vez, espantou um mosquito no meio de uma discussão com outra pessoa. Ele disse que nunca vira um olhar tão horrorizado no rosto de alguém. Essa sou eu. Eternamente encolhida, quer se note ou não. E esse sentimento vai e volta, quando eu penso que ele está morto e enterrado. Como agora, quando a única coisa que consigo sentir, depois de anos, é medo e muita, muita vergonha de ver que não fui a única atingida: Zé Colméia também o foi, e por isso, mesmo com terapia, não quer que eu namore de novo, não quer outro homem nas nossas vidas, porque ela não quer mais ver sem sentir o que viu e sentiu.

Vamos, as duas, ter que aprender a confiar novamente.