
- Mamãe, posso comer mais um docinho?
- Só mais um, filha, você comeu três, já. Vai ficar com dor de barriga.
- [...]
- Tia C, posso comer mais um docinho?
- Claro, querida, olha aqui.
- [Nhoc, nhoc, nhoc] Fulana, posso pegar mais um docinho?
- Ué, cadê a sua mãe? Ah, sim, pode sim. Abre a mão.
- [Nhoc, nhoc, nhoc] Por favor, a senhora pode me passar mais um docinho daquele ali?
- Nossa, que gracinha que você é! Toma, abre a mãozinha, assim. Bom, né?
- [Nhoc, nhoc, nhoc] Dá licença de eu pegar mais um doce? Obrigada!
- [Nhoc, nhoc, nhoc] Peraí, moço! Abaixa a bandeja, por favor, que eu não alcanço! Ah, obrigada.
- [Nhoc, nhoc, nhoc] Oi, Beltrano, você pode pedir pra sua mãe mais um docinho? Os que tavam nas bandejas acabaram. Acho que tem mais na cozinha, né?
Alguém tem que ser retirado do recinto: a comida ou Catatau. E ela achou, com aquele jeito gordinho e fofo, uma maneira de, sem que eu veja, conseguir mais um docinho aqui, mais uma comidinha acolá. Mas tudo tem um preço: ela começou a perceber que a gastrite que desenvolveu comendo porcarias na casa do pai cobra um preço alto a cada comilança. Então, o jeito foi tornar-se uma gastrônoma de primeira - só come o que vale a pena ser comido.
Tudo bem que, de vez em quando, aquele amendoim vagabundo tem vez mas... Fazer o quê? A vida é cheia de surpresas, e uma dama não comenta que a irmã ainda tropeça na hora de amarrar o sapato e ela, não. Que a mãe enfia um Sonho de Valsa inteirinho na boca, e ela não. Que ela tinha piolhos - cedidos gentilmente pela amiguinha do lado, que mantém a sangue tipo A um verdadeiro criadouro na cabeça. Fina como ela é, Catatau passa Kwell no cabelo e a inspetora comenta que a cabeça dela está com um delicioso aroma de lavanda. E, pior, está mesmo.
A paixão da hora são fadas. Sininho na cabeça, outras fadas correndo por fora. Porque magia nunca faltará na vida da minha Catatau. Ela é capaz de ver uma luz maravilhosa sobre o pátio da escola quando estamos com os sapatos em estado pré-mingau em plena tempestade. Ou dizer que meu colo é tão quentinho que ela se sente dentro de um ninho, rindo pra ela mesma ao se imaginar um passarinho - mesmo que as entranhas estejam sendo devoradas pela dor da gastrite.
Ela começou a ler e a escrever esse ano. E um novo mundo se abriu para ela. Em seus olhos não existe mais aquela pureza que a ignorância intocada das crianças que ainda não foram alfabetizadas têm. Ela, de um dia para o outro, cresceu. Entrou no mundo civilizado das letras, dos livros, da escrita. Chegou ressabiada, e ainda não se sente confortável para abandonar de vez a risada de bebê que não deixa um cidadão sério no vagão do metrô, ou as mãos cheias de furinhos que passam com maestria o gloss depois do almoço ("Porque mãe, você sabe, quem não tem brilho não tem nada"). Ainda bem.
Eu olho minha caçula e não canso de me lembrar que, pressionada pelo meu ex-marido, quase ela foi-se antes mesmo de chegar. Olho a elegância surpreendente com que ela dá estrelas e maneja a fita como ninguém nos treinos de ginástica rítmica e penso quão acolhedor seria o mundo se cada família tivesse sua Catatau. Se cada casa dispusesse de uma garotinha doce, gulosa, generosa, sorridente, carinhosa - com a luz cálida e imensamente feliz da minha menina.
Feliz aniversário, querida.