sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Ver e ouvir



Em minha casa, desde que nasci, sempre o barulho era produzido dentro, e não fora. Infância, adolescência, juventude – minha vida sempre foi silenciosa. Cresci rodeada por centenas, milhares de livros. Jamais tivemos um aparelho de som. Estante de LPs. Discos. O ruído chegava em silêncio, produzido pelo que eu lia. A música, as palavras, os sons da vida entraram pelos olhos.

Este ano fiz 40 anos, e minha vida deu uma cambalhota – o elástico estava por demais torcido, e as pontas não agüentaram mais a tensão. Mudei de carreira, de perspectiva, a maneira de encarar a vida. Para aliviar a tensão, alguns escrevem músicas, livros ou cartas suicidas; há os que costuram, pintam paredes, tomam comprimidos ou cozinham e ouvem música – eu sou um desses últimos.

Há meses decidi retomar o que eu sempre gostei de fazer – andar pela praia, ouvindo música e cantando, me encher de maresia, sentir as pernas desfalecerem pedindo misericórdia à areia molhada. Como eu jamais tive educação para a música (ela nunca foi parte presente em minha vida) comecei a procurar para gravar o que eu gostava na minha juventude - seria a trilha sonora dos meus passeios. Apreciava livros – ouvia música. Há apenas quatro anos descobri Eric Clapton, Santana – e há dois meses mergulhei nas 29 composições de Robert Johnson! Em realidade, um novo mundo se abriu – e eu, que jamais me contentei com um "É só isso" pesquiso, pergunto, escrevo, ouço, experimento versões.

Música e literatura. CDs e livros. Um fio puxa o outro, que puxa a meada, que me mostra o caminho. Delícia de rede.

Índice remissivo



Sexo, queijos e livros de Julio Cortázar.
Minha utópica vida numa ilha (quase) deserta.

Minhas fotos prediletas XI



Madrid, Museo del Prado, 1995, by Elliot Erwitt

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

...



Seus olhos azuis já moram faz tempo no meu coração, Marco. Hoje à noite vou poder, afinal, dormir num campo de flores.

Beijos, obrigada por você existir e fazer, silenciosamente, parte da minha vida.

Minhas fotos prediletas X



9 Foot Sacks - Floyd and Leona, Abbeville, MS 1997, by Bill Steber

...

... e a resposta é que preciso me apaixonar. Tenho dois livros de contos prontos, plenamente esquecíveis, dormindo numa gaveta. Aprendi o inimaginável em edição de imagens. Comecei agora a mexer com vídeos e instalei no computador programas de edição de som. Comecei na web, sem nem saber direito o porquê, outro projeto que me consome, mas que não me satisfaz porque não faço, no fim das contas, para mim, mas para quem o vê. Já me inscrevi para voltar às aulas de canto e quero me envolver até a alma numa nova editora.

Porque ler e escrever - o que sempre me saciou - já não me bastam mais.

Bricabraque



Uma amiga desistiu de um emprego maravilhoso na Gávea, porque ia ficar lá de nove às cinco e, contabilizando o tempo no percurso Santa Teresa/Gávea/Santa Teresa, ela concluiu que "não vou ter vida própria".

E aí eu parei no ar o que estava fazendo: "Mas eu sou assim." É, eu sou assim. Minha vida parou no ar. Trabalho, casa, crianças. Caio morta na cama à noite, me arrasto feito sonâmbula de manhã. Perfeição é encapar livros sem bolhas no Contact. É olhar-me numa vitrine e congratular-me por não estar descabelada. É alegrar-me quando sinto prazer ao sentir minhas próprias mãos deslizando pelas costas - porque não me lembro mais como é sentir mãos alheias.

Aprendi então a emocionar-me através dos olhos, mas sem deixar transparecer. Cortázar descreve, em "O fascínio das palavras", a experiência que vivencio todos os dias:

"[...] Existe isso tão típico de Paris: as pessoas [no metrô] não se olham nos olhos porque é falta de educação. Então, eu olhava o vidro e via nele, refletida, uma moça que estava sentada na minha frente. Em alguns momentos ela também olhava o vidro, e então nos víamos através dele. Mas isso, socialmente, não era repreensível. Ou seja, um homem e uma mulher não podem se olhar nos olhos de frente, mas podem através de um reflexo indireto. Já que não há por que pensar que o outro está percebendo, você também pode olhá-lo, e assim surge um encontro de olhares."

Eu agora procuro, só isso. Procuro alguma coisa, procuro alguém. E escrevo aqui o que se passa lá fora. Como são as crianças brincando na pracinha. O olhar de tédio pelo fim da vida dos velhos no supermercado. A transformação do meu pai de homem duro, seco e rude num menino sofrido, solitário e, por isso mesmo, encantador. A maneira como o abraço do rapaz faz a moça perceber como ela é importante pra ele, naquele momento trivial, escolhendo iogurte num supermercado. A razão de abaixar a cabeça quando um homem interessante olha pra mim no metrô.

Às vezes sinto o quão pouco realizei até agora. Poucos homens significativos passaram pela minha vida. Amei poucos. E talvez aí esteja o erro? Deveria ter amado mais? Escolhido menos? Tido menos medo?

Deveria ter tido mais tempo? Deveria ter largado mais o que agarrei com tanta força e aberto espaço para que outras coisas fizessem parte do meu quebra-cabeças?

Amar contra o relógio. Amar a favor - do que quer que seja.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Leite e mel



A nova forma da canção [árabe] que surgia era diferente. [...] Era dividida em estrofes que eram então "ligadas" de maneira absolutamente surpreendente: por meio de um pequeno refrão que se repetiria ao final de cada estrofe, algo semelhante ao que temos em nossas canções hoje em dia. Esse simples pormenor provocou uma reviravolta total na tradição poética árabe, posto que nada tinha de clássico.

As estrofes principais da canção continuavam a ser em árabe clássico, mas seus ritmos e rimas eram comandados pelo próprio refrão. Ocorre que a voz do refrão era sempre a de uma mulher, e ela cantava em vernáculo.

Além do mais, o refrão dizia coisas que quase sempre revertiam as expectativas e as intenções do resto da canção: enquanto a voz clássica, masculina, falava do amor por meio das elaboradas metáforas e alusões de costume, a voz do refrão dizia, em vernáculo, algo conciso e direto como "Cala a boca e me beija".

María Rosa Menocal, "O ornamento do mundo"
Editora Record, 2004

terça-feira, fevereiro 13, 2007

I'm sorry but... Who are you?



"Mas você se corresponde com gente famosa?" Sim, às vezes. Faz parte do meu trabalho. Algumas famosas, outras nem tanto, algumas muuuuito famosas, outras despontando para o anonimato.

Faz um tempinho, entrei em alguns fóruns de um cantor americano muito famoso. Eu adoro a voz dele, adoro as músicas que ele fez. São únicas. E fico absolutamente passada quando me deparo com temas como "O que você faria com Fulano no Dia dos Namorados". Como assim? Pois você ama o homem? Mas você nem CONHECE o homem! E aí tem declarações de amor rasgadérrimas, constrangedoras, às vezes resvalando no mau gosto (e o pobre já deu mostras que O-DEI-A isso).

Quem sou eu pra criticar? Bom, quando eu comecei a trabalhar em jornal, fui um dia entrevistar Paulo Autran, que ia fazer apresentação única de seu shakespeareano "A tempestade" aqui no Rio, no então Metropolitan. Fiz a entrevista e, obviamente, fiquei para apresentação. Depois, fui à festa, cheia de starlets & imprensa & famosos. E aí conheci um ator que, confesso, sempre foi lindo de babar. Conversa daqui, conversa dali, ele me chamou pra sair. Marcamos e, no dia, eu vi que fama e beleza, senhoras e senhores, mata qualquer deslumbramento.

Ah, sim, eu estava deslumbradérrima. Mas logo depois de ele parar em lugar proibido, humilhar o flanelinha, furar a gigantesca fila do restaurante, passar a noite se achando a bala que matou Kennedy (de tédio) e criar encrenca por causa de R$ 0,50 na conta (que ele tentou empurrar como cortesia na base do "Fulano está aí?"), eu vi que não, não é bem assim.

Porque você diz: "Ai, eu amo o Beltrano!". E faz declarações de amor como se o homem fosse aquela pessoa que esteve com você a vida inteira - o que não é, absolutamente, verdade. Conheço atrizes mentirosas compulsivas; grandes cantores que surravam sistematicamente suas mulheres; escritores que humilham publicamente seus filhos. E, mesmo assim, todos são alvo de amor incondicional. Gente histérica chorando e se desmanchando quando o dito aparece "casualmente" para o grupo de fãs à espera dele na porta do teatro.

Sim, eu baixei todos os vídeos e músicas dele e da banda com que ele cantava antes da carreira solo. Sim, eu adoraria encontrar com ele. Ele me conhece? Não; então como pode me amar? E eu, como posso amar alguém que não sei se é encantador com idosos ou rói as unhas, deixa sua roupa suja pela casa ou limpa as migalhas de pão da mesa? É mesquinho, come do prato dos outros sem pedir e abomina crianças - ou faz parte dos 0,0000726% dos homens inesquecíveis ainda existentes sobre a face da Terra?

Aprecio as músicas, admiro o trabalho, adoro a voz. Mas amar o homem?

Update: Mas que gente curiosa!

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Inesquecível



- Me dá um tesão ver a maneira como você empina os seios quando pica cebola...
- Cara, você só pensa em sexo o dia inteiro?
- O dia inteiro, não. Quando estou transando, em penso em você.

Pra quem perguntou: infelizmente, essa figura hoje mora muuuito longe. E não, não dá para eu apresentar.

Fugindo do trabalho II

5 coisas que quero fazer antes de morrer:

* ver neve
* aprender a dirigir
* conhecer alguém que tenha influenciado minha vida (antes que eu fique sem opções, porque Julio Cortázar, George Duby e Ítalo Calvino já se foram)
* conhecer a Grande Mesquita de Córdoba, a Catedral de Santa Sofia e o Túmulo de Adriano
* escalar uma montanha

5 coisas que eu faço bem:

* cozinhar
* transar (sem modéstia nenhuma, que eu cansei disso - de ser modesta, não de transar :o)
* escrever
* amar (sou canceriana; se não sabe o que uma coisa tem a ver com a outra, recomendo "Seu futuro astrológico", de Linda Goodman)
* descobrir soluções, consertos, saídas estratégicas

5 coisas que eu mais digo:

* "Eu não perguntei se você quer; eu disse que você VAI tomar banho."
* "Mamãe te ama muito."
* "Carácoles!"
* "Como assim?"
* "Deixa que eu faço" (e me arrependo depois)

5 coisas que eu não faço (ou não gosto de fazer):

* Mentir
* Bajular
* Comer mocotó, ostras e rabada
* Dormir sem tomar banho
* Deixar comida no prato

5 coisas que me encantam:

* Dar presentes inesperados
* Olhar pra cima e me surpreender com um céu de tirar o fôlego
* Tomar banho de chuva
* Descobrir livros bacanas em sebos
* Fotografar pessoas quando elas menos esperam - distraídas, concentradas, encantadas com alguma coisa (mas não faço isso quando elas estão dormindo)

5 coisas que eu odeio:

* Acordar com a televisão ligada
* Gente que fala uma coisa e faz outra
* Ver humilhação alheia
* Me enxugar com toalha molhada
* Me sentir impotente

5 pessoas para responder isso:
Na boa, depois que ela me dispensou, quem quiser que copie e responda.

Fugindo do trabalho I

I am nerdier than 72% of all people. Are you nerdier? Click here to find out!

Obrigada, Ana, por me dar taaaanta distração!

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Quem não é assim?

Minha amiga Clara contou-me uma história sobre uma cliente sua, uma menina de oito anos que fizera regime durante dois anos e engordara sete quilos durante esse processo. Desesperada, a mãe consultou Clara e esta lhe perguntou qual era a comida favorita da filha. "Doces", respondeu a mãe.

"Muito bem. Quero que a senhora saia daqui e compre doces suficientes para encher uma fronha. Depois disso, dê a fronha para sua filha e deixe-a comer tanto quanto queira. Assim que estiver acabando, compre mais. Certifique-se que ela tenha sempre uma fronha cheia de doces. Libere-a do regime, deixe-a comer o que quiser quando tiver fome e telefone-me daqui a uma semana."
Após tremer de horror e de ameaçar Clara com um processo caso sua filha engordasse 25 quilos, a mãe saiu do consultório, entrou num supermercado e foi para casa com o pacote de doces.

A menina carregou consigo a fronha com os doces onde quer que fosse, durante oito dias. Dormia com ela, colocava-a ao lado da banheira quando ia tomar banho, deixava-a numa cadeira enquanto assistia televisão. E, naturalmente, servia-se das guloseimas sempre que sentia vontade. Nos primeiros dias isso acontecia com grande freqüência. Depois de a mãe ter comprado mais 1,5 quilo de doces no terceiro dia da experiência, ela estava pronta para processar Clara. Num telefonema histérico, contou-lhe que a filha estava comendo mais doces que nunca, e como ela emagreceria comendo daquele jeito?

Clara tranquilizou-a explicando que a filha estava reagindo aos anos de privação e que, quando ela se convencesse, realmente se convencesse, de que poderia comer o que bem entendesse, e que sua mãe não estaria ali pronta para tirar o pacote das mãos, ela acabaria relaxando e comendo apenas quando tivesse fome de verdade.

No nono dia, a fronha ficou no quarto. Ao final de cinco semanas, sua filha esquecera os doces e emagrecera três quilos.

Geneen Roth, "Carência afetiva e alimentação"
Editora Saraiva, 1993

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Breve retorno a um velho assunto*

O trecho a seguir, retirado do segundo volume do livro "Musashi", de Eiji Yoshikawa (pg. 1719), traduz muito bem, ainda que superficialmente, minha idéia sobre "talento":

"- Não acho que Musashi-sama seja limitado.

- Mas também não nasceu com o dom. Nada nele lembra a displicência do gênio que confia cegamente em seu talento. Mestre Musashi sabe que é homem comum e por isso se empenha incessantemente em polir suas habilidades. A agonia por que passa nesse processo só ele sabe. E quando, em determinado momento, essa habilidade alcançada com tanto custo explode em cores, o povo logo diz que a pessoa tem aptidão natural. Aliás, é a desculpa que os indolentes dão para justificar a própria incapacidade."

*Post do Pedro, a quem eu leio sempre. Agora é só esperar a horda de vikings recém-descongelada após 600 anos de animação suspensa.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

E acabou-se




Três dias sentindo pena de si mesma já está de bom tamanho.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

...



Eu gostaria que alguém me desse um campo de flores, onde eu pudesse me deitar e olhar o céu.

Irretocáveis

O primeiro beijo do meu primeiro namorado - matando aula numa terça-feira, às três da tarde, sentada no chão de um corredor da Faculdade de Filosofia da UFRJ.

Ver a lua cheia através de uma clarabóia, enquanto fazia amor.

Dormir abraçada numa noite de tempestade, e ouvir, quase dormindo: "Você me faz tão feliz", seguido de um abraço apertado.

Deitar ao lado de quem eu amava, ouvindo só sua respiração no escuro e me sentindo plenamente satisfeita e completa.

Acordar com minha filha de dois anos sentada ao meu lado na cama. Com uma mãozinha acariciando minhas mãos e com a outra, tentando sentir a irmã na minha barriga, ela esperava que eu acordasse vendo o sol nascer pela porta da varanda.

Perfeição, hoje: descobrir que encapei os livros das meninas sem deixar nenhuma bolha de ar no Contact.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Bom-dia, mau humor



name of design : punch
design by : cristobal karich from france


This coffee cup reminds you that getting up is hard, you need strong coffee and a good punch in the face to get going. This cup is not for mobsters, gangsters or hooligans, we advice people to use this cup for coffee drinking purposes only. White Ceramic finish for beginners, silver coated for abusive users.



Pesquei aqui e fui ali.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Vou ali

Desenvolvendo um site.
Preparando dois livros.
Organizando dois lançamentos.
Pintando a casa.
Comprando listas de material escolar, uniformes, sapatos.

Volto Deus sabe quando.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Palavra do mundo



O desejo estraga tudo.
Tenho 32 planos.
52 projetos.
30 estruturas perfeitas.
O dia é claro e calmo e tem 24 horas.
De repente chega o desejo e estraga tudo.
O dia fica claro demais.
Calmo de menos.
E já não há 24 horas.
O tempo inteiro concentra-se num ponto.
Aqui. (aponta para o sexo)

Tenho o tempo concentrado aqui.
muitos minutos concentrados no sexo.
O desejo é isto.
Ter órgão a mais para o tempo que faz lá fora.
Lá fora o tempo tem 24 horas.
Cá dentro é bem mais pequeno.
O tempo entra todo pelo sexo e quer deixar de existir.
O esperma é o suicídio do tempo.
O esperma sobe na torre e atira-se lá de cima.
É um suicídio.
Um suicídio do tempo.

O desejo estraga tudo.

Tinha tantos planos racionais para hoje.

Os números eram quase perfeitos

O desejo estraga tudo, tudo.

Gonçalo M. Tavares, "O homem ou é tonto ou é mulher"
Casa da Palavra, 2005

...

Desde que me entendo, sempre quis ser mãe. Minhas amigas diziam que era do signo - Câncer. Aquela que ama, acima de tudo, a família. Aquela que reverencia o passado, as raízes, os que vieram antes.

Me envergonho de dizer que, ultimamente, não tenho me sentido uma mãe. Estou me tornando cada vez mais egoísta. Invento motivos para ficar sozinha. Termino o trabalho no fim da tarde e arranjo pretextos para não ir pra casa. Passo muito tempo olhando pela janela, vendo as pessoas lá embaixo, pensando em como seria se eu não tivesse me casado, tido filhos.

Brinquei outro dia com uma amiga que queria viajar. Eu QUERO viajar. Quero passar um ano fora, estudando, aprendendo. Quero poder juntar dinheiro para mim, para gastar comigo, e não com material escolar ou sapatos ortopédicos.

Quero sair à noite sem hora para voltar. Quero voltar a beber sem me preocupar se vou ter sono pesado ou não. Quero chegar em casa e dormir com a roupa do corpo, sair de manhã cedo sem ter que esperar a empregada chegar. Quero investir em alguém sem me preocupar se ele vai gostar das meninas, se as meninas gostarão dele, a hora certa de apresentar uns e outros. Quero voltar a estudar sem ter que pensar o quão impossível será conciliar a grade de horários com saída da escola e agenda da baby sitter.

Quero ser aquela que era há 15 anos. E o que dói é que eu sei que isso não é possível. Passo agora as madrugadas acordada, numa insônia que só me traz a lembrança de todos aqueles planos que eu sei que jamais vou realizar. A hora deles passou. Não tenho mais tempo, disponibilidade, dinheiro. E, pior, estou ficando sem esperança de realizar os poucos sonhos que ainda me restam.

...

Paz de espírito. Precisa-se urgente.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Eu te amo



"Eu te amo". Essa frase, que quer dizer tanto, caiu em total descrédito. É sério. Porque pra muita gente é tão prático dizer "Eu te amo". "Eu digo pra ele (ou ela) não me pressionar mais", "Digo pra que me deixe em paz", "Falo isso porque não quero ficar só". Sai tão fácil! "Eu te amo". E então quem escuta já não liga muito, e quem fala repete sem parar. Como quando somos pequenos e rezamos o "Pai Nosso". Alguém já REALMENTE prestou atenção em como essa oração é bonita? Claro que não. Sai no automático.

Eu, pessoalmente, já faz tempo que não acredito no "Eu te amo". Acredito, sim, quando o "Eu te amo" vem daquela mão que aperta a minha quando não está trocando a marcha do carro. Quando ela procura a minha sem pensar muito - apenas por procurar. Vendo televisão, lendo jornal, comendo.

Acredito no "Eu te amo" que aparece de manhã, quando o primeiro olhar (a certeza de que eu estou ali, de verdade) é pra mim. O sorriso bobo que diz (pra minha cara toda amassada e marcada) "Você é uma delícia dormindo".

O "Eu te amo" que se preocupa em tirar as migalhas de pão da mesa, depois de recolher a louça. O "Eu te amo" que arruma a gola da camisa, ajeita aquela mecha de cabelo saliente, põe a mão na sua cintura enquanto escolhem o iogurte no supermercado. Aquele que vem no braço esticado para o lado quando o carro freia bruscamente - mesmo que ambos estejam com o cinto de segurança.

O "Eu te amo" na mão estendida para o outro quando atravessam uma rua. O "Eu te amo" das gentilezas que morrem quando o "Eu te amo" precisa subir do coração e sair sem parar pela boca. Como se fosse preciso, repetindo sem cessar, acreditar que realmente ainda amamos.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Distante, muito perto



Na primavera, quando os bosques estão verdecendo,
Tentarei mostrar-lhe o que quero dizer;
No verão, quando os dias são longos,
Talvez você entenda a canção.

Pois este deve ser
Um segredo
Guardado de todo o resto
Entre mim e você.

Enjoy your day :o)



*De Alice no País das Maravilhas.

sábado, janeiro 20, 2007

Mil anos



O Amor, Deus seja louvado, é uma enfermidade
cujo tratamento deve ser de acordo com a aflição.
Deliciosa doença, maravilhoso mal bem-vindo.
Quem dele não sofre não quer ser-lhe imune,
e quem dele sofre não quer vê-lo findo.

Minha doença, os médicos não curam.
Inexorável, arrasta-me à destruição.
Consinto em fazer dela um sacrifício e,
impaciente, bebo o vinho e o veneno.
Minhas noites de amor foram sem pejo.
Minh'alma as amou, porém, acima das paixões.

Ibn Hazm, "O colar no pescoço da pomba"
Córdoba, 1010.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Sendo delicada

Tá bom, retiro o que eu disse.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

The surreal life

"E, aí, a Bela tá melhor?"
"Ah, tá sem febre, mas ainda tá de cama."
"E os meninos?"
"Tudo jóia, mas parece que tudo aconteceu depois que a Bela ficou doente!"
"Credo, que foi?"
"Bom, a empregada não está indo, porque o filho dela está com catapora. Aí eu acordei de manhã com ela ligando dizendo que não podia ir. Tive que acordar os meninos, e descobri que o Antonio estava com dor de ouvido, e o remédio que a gente pinga acabou. Fiz o café da manhã e, enquanto eles comiam botei a roupa pra lavar na máquina porque o balde estava botando roupa pra fora. E a máquina começou a lavar e parou. A Bela me disse pra ligar pra um cara para ele consertar, mas liguei pra ele e ele disse que ia dar uma passada só amanhã, mas nem disse a hora. Então vou ter que ver quem vai esperar o cara o dia inteiro."

"Arrumei os meninos e no carro vi que a blusa do Rui tava furada e ele tinha uma apresentação, e tive que voltar pra casa pra trocar. Pro que a empregada faz essas coisas, tipo, ela não viu que tava furada?"

"Aí chegamos atrasados [vou começar a cortar porque o negócio é longo. Aqui os principais momentos]. E a professora foi falando que era pra vir de camiseta vermelha, mas não estava na agenda isso! [...] Atrasados pra aula de caratê [...] E o Chico emprestou a faixa do quimono e não disse nada, e chorou, mas ficou sem ela pra aula [...] Aí tive que buscar na escola porque estava com febre - deve ser a gripe da Bela [...] ... vi que não tinha almoçado, mas precisava comprar o troço pra excursão de sábado [...] ... e tive que desmarcar e marcar pra amanhã, mas nem sei se vou conseguir levar. [...] E tive que ir a quatro farmácias até achar. [...] ... espalhado pelo play, porque voou da janela e eu esqueci de recolher quando a gente saiu. [...] ... duro, mas tão duro, que nem na panela de pressão - que soltou uma borrachinha e não cozinhou direito, e só tinha um pedaço de rosbife congelado. [...] ... não fez o dever de novo, e a professora pediu uma reunião."

"[...] Colado! Tudo azul! Mas você que é mãe me diz: guache não é lavável? [...] Morto. E a Bela, coitada, ficou sozinha o dia inteiro na casa da mãe, querendo conversar. Ela tá doida pra voltar a trabalhar na semana que vem, e eu só queria botar os meninos pra dormir, fechar a porta e cair duro na cama. Puxa, ainda bem que não é assim todo dia! Porque amanhã como eu vou trabalhar?"
"Você não foi trabalhar hoje?"
"E deu? Não dá pra trabalhar com tudo isso pra fazer!"

Não?
Tolinho.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

...

O evento que eu organizei aconteceu ontem. Saí de lá (Ipanema) às três da manhã. Me deitei às cinco. Acordei às oito, e descobri literalmente mortificada que não tinha açúcar em casa. Como eu me recuso a usar adoçante em qualquer alimento que faça parte dessa dimensão, saí de casa com leite + Nescau. Resultado: estou podre de sono. Mais do que seria normal esperar.
Preciso de uma endovenosa de rubiácea urgentemente.

segunda-feira, janeiro 15, 2007

...



Pertencer de corpo e alma a um homem pode ser o ponto vertiginosamente alto ou dolorosamente baixo na vida de uma mulher.

Faça o que eu digo, não o que eu fiz*



"Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida." Soa meio pomposo: eu prefiro acordar cada dia para uma nova partida de pôquer. Cada manhã uma nova mão, alguns dias, junk, em outros, um full house, e todos os dias o desafio de jogar a próxima rodada para ganhar. Blefar, de acordo com o dicionário, significa "dar mostras de falsa segurança", e é uma habilidade tão valiosa quanto a habilidade de esconder uma grande jogada.

Desanimado porque quem te deu as cartas pode ter roubado? Em 1992 foi publicado o obituário de uma mulher, Katrina Haslip, a quem o The New York Times julgou ser uma pessoa especial, digna de ser lembrada. Katrina Haslip havia morrido de complicações decorrentes da Aids. Ela estava com 33 anos. Era uma ex-interna da prisão estadual de Nova York e tinha sido presa depois de várias condenações como batedora de carteiras. Quando estava na prisão, foi diagnosticada como soropositiva. Procurando ajuda inutilmente, resolveu fundar uma organização na prisão que ajudasse a ela e a outras internas doentes.

Depois que saiu da cadeia, continuou seus esforços para conscientizar as pessoas e levantar recursos para mulheres com Aids. Conforme escreveu o NYT, "Haslip, junto com outras organizações de combate à Aids, [...] lutou para pressionar o governo federal a expandir seus esforços para combater a doença entre as mulheres [...]". Por causa do trabalho de Katrina, dizia o jornal, "os centros federais para controle e prevenção da Aids, [...] um mês antes de sua morte [...], anunciaram os planos para ampliar a definição da síndrome no sentido de incluir mais doenças que afetam mulheres com o vírus [...]."

Quantas centenas - milhares - de vidas podem ter sido facilitadas, aliviadas, mesmo salvas, pela quantidade de dinheiro e informação que resultaram dessa iniciativa?

Katrina Haslip. Uma batedora de carteiras. Provavelmente viciada, possivelmente prostituta. Presa aos 27. Morta aos 33. Como foi possível uma rodada perdida como essa ter sido jogada para fazer do mundo um lugar melhor? E qual é a nossa desculpa?

*De Wendy Reid Crisp
Editora L&PM, 1997

sábado, janeiro 13, 2007

...

Tem vezes que esse sentimento ruim começa como qualquer coisa, uma bobagenzinha à toa, vinda do nada. Mas vai crescendo, e você vai ficando cada vez mais agoniado, porque não sabe o que é nem de onde vem essa sensação ruim. Um pressentimento funesto, um incômodo n'alma que não dá tregüa, sossego, descanso.
Odeio sentir isso.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Cavar e se esconder

Você saiu atrasada de casa para aquele almoço hipersupermegaimportante com aquela pessoa idem (encontro esse em que você chegou quando o juiz estava apitando o início da partida).
Bom, o almoço acaba e, aliviada por tudo ter dado certo, vai no banheiro escovar seus dentes para uma nova e revigorante tarde de trabalho. Olha-se no espelho e descobre que:

* Você saiu de casa com aquela mancha compriiida de pasta de dente no bolso da sua blusa.
* A entrada com pastinha de berinjela e salsa ainda está nos seus dentes.
* Tem condicionador seco na sua orelha.
* Sua blusa está do avesso.
* Você se esqueceu de tirar aquela etiqueta de preço ennnoooorme do seu casaco - e ela ficou pra fora quando você pendurou o dito na cadeira.
* Tem uma bola enorme de rímel preto no canto do seu olho.
* Aquela irritaçãozinha micra que você sentiu no queixo quando entrou no restaurante se transformou em duas horas numa imensa bolha amarela e vermelha - sim, uma enorme e monstruosa *.
* Sua blusa está furada debaixo do braço.

Escolha uma. Todas já foram testadas e aprovadas como a maneira mais simples e rápida de decidir-se pelo suicídio.

Cortem-se as cabeças



Estava lurdo e os macos tavos
Lapavam e tucavam no vabo:
Todos savos estavam os borogravos
E os momos erevos extravabo.*

Quando o mundo real ameaça esmagar a gente, o absurdo torna-se plausível e ir atrás dos sonhos mais doidos, o caminho mais lógico.

* De "Alice no País das Maravilhas".

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Saúde pública



Filmes como "A casa do lago" deveriam trazer uma tarja:

"Pode ser prejudicial à saúde mental e amorosa de pessoas desacompanhadas."

Porque aí você começa a achar que Keanu Reeves é o homem mais fascinante, charmoso, gostoso e necessário de todos os tempos - passados, presentes e futuros.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

...

Você sabe que a sua semana vai ser hardcore quando fica seis horas sem abrir sua caixa de mensagens - e quando vai ver tem 58 mensagens novas (descontados os spams).

sexta-feira, janeiro 05, 2007

...

Adivinhou: estou cansada, sem paciência, irritada, com sono, com calor, de mau humor.
Recolho-me ao meu estado de ignorância civilizatória. Quando melhorar, eu volto.

...

"O Orkut não aceita meu login. O celular caiu na piscina e não posso fazer nenhuma ligação que tenha os números 1, 4 e 7. Eu volto outra hora. Good bye."

Eu achava que ela tinha criado um personagem para escrever no blog. Até descobrir, quando a conheci pessoalmente, que ela é adoravelmente assim.

Pós-qualquer coisa

Depois de esquematizar e organizar um megalançamento, escrever dois pareceres e entregar dois originais revisados - HOJE - estou ouvindo música. Meia hora pra mim. Minha empregada que me desculpe, mas ela hoje sai um tantinho mais tarde (pra quem acha que é escravidão, ela chegou na hora do almoço - e quem fez fui eu). PRECISO disso - música estourando os tímpanos.

Meu Chet Baker chegou. Obrigada, caro.

...

O que mais me irrita, me deixa fora do sério, é a impotência de realizar alguma coisa. Eu sei o início, sei o fim, mas desconheço os meios. Como aqueles labirintos de revistas para crianças, em que você vê o fazendeiro no alto da página, a fazenda com a vaquinha lá embaixo, e um emaranhado de caminhos.

São tantas as variáveis, tantos os meios, e você sequer sabe como fazer para desembaralhar aquela meada. E sem a certeza de que vai conseguir chegar àquele final.

Impotência. Se eu tivesse muito, muito dinheiro, era entrar no avião e ir. Mas como não tenho, fico só olhando aquela confusão de linhas, sem saber como sair daqui e chegar ali.

Porque eu quero chegar ali. Não me pergunte como - não faço (ainda) a menor idéia.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

No meu brasão



I am not a bitch...I am THE bitch...and that's Ms. Bitch to you!

Minhas fotos prediletas IX



Santa Monica, California, by Richard Avedon

Não ofende

perguntar: cadê todo mundo?

Iluminados



Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Chico Buarque, "Pedaço de mim"

sexta-feira, dezembro 29, 2006

...



É como um formigamento que sobe por baixo da pele, e aí começo a sonhar com coisas estranhas, pessoas que jamais encontrei e que, subitamente, durante a noite, tornam-se tão importantes que, quando eu acordo, sinto uma falta enorme, uma saudade completamente inexplicável.

Nessa época, eu evito dormir. Me remexo na cama, chuto os lençóis, tento ler, ouço música, me deito na rede, fico horas na banheira, lembro muito, lamento bastante.

Queria que, um dia, isso não mais acontecesse. Que alguém fizesse com que isso não mais acontecesse. Que isso não fosse mais necessário acontecer.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Minhas fotos prediletas VIII



Truman Capote, by Irving Allen

Além de ser um escritor maravilhoso, é o protagonista de um dos filmes mais hilários de todos os tempos: "Assassinato por morte".

...



Jazz, R & B, Soul. Depois de rock pesado e progressivo, uma pausa pra falar com Deus... e o Diabo.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Chiquerésima



Quando eu saio com amigos, eu me visto... bem, eu me visto como gente. À exceção de um amigo. Ele é muito meu amigo. Ele é rico. E ele é lindo. Mas ele tem um graaaaande defeito: é casado.

Sim, Deus sabe ser cruel às vezes. Retomando: quando eu saio com esse amigo (geralmente pra almoçar), eu sempre capricho no visual. Boto um vestido bonito, minhas lentes de contato, chego às vezes ao requinte de fazer as unhas. Não é porque ele sempre almoça (e paga, que ele é um cavalheiro e não tem dessa de dividir a despesa) em restaurantes muuuito bons. Mas como ele é de fazer cabeças se virarem, eu me sinto meio que em situação inferior.

E não venham com essa história de "Mas que bobagem". Quero ver quem nunca disse "Olha que gato (ou gata) mas a criatura que está com ele... Credo! O que será que ele (ou ela) viu naquilo?".

Pois então: como eu adoro esse meu amigo, eu vou beeeem caprichada, que é pra não fazer feio. Porque ele é lindo. Educadíssimo. Finésimo. Se veste muuuito bem. É canceriano (e não, ele não é gay. Ele só é a criação do imaginário coletivo feminino :o)

Sim, Deus sabe ser cruel às vezes.

Filosofia de cadeirinha

[Catatau, sem parar de tirar a roupa da Barbie nova]:

Um coração é uma bola cheia de sonhos.
Não é, mamãe?

terça-feira, dezembro 26, 2006

666

O nickname do diabo é Download.
Pode crer.

...

Se um gosto, uma cor, um cheiro me definisse nesse momento da minha vida, eu diria que tudo se concentra em... canela.

Não me perguntem o porquê.

Minhas fotos prediletas VII



"Dr. Ceriani with a injured child", by Eugene Smith, 1948

Uma tese romanceada



Não se esqueça, Zeem, os olhos não se limitam a ver, eles faíscam como os dentes. Um cordão de pérolas costuma ser visto como uma fieira de dentes sorrindo. Na linguagem de Homero, em grego jônico, há dois verbos "ver" principais. Um deles é theorein, a palavra de onde veio "teoria", e ainda é usado para significar "ver", em grego moderno. O outro é drakein, do qual os gregos, e nós também, derivamos a palavra "dragão", a criatura mítica lançando chamas, a princípio, dos olhos.

O olho do dragão lança seu ataque ao olho do observador e fixa sua visão admirada, da mesma forma como um tubo de batom capta o olhar enquanto este se depara com a cor fluindo com precisão ao longo da linha cruel do lábio. Ver teoricamente não é em absoluto a mesma coisa que ver dragonicamente, isso é, lançando um lampejo de fogo de seus olhos cheios de seiva, ou de amor.

Uma teoria pode ser a especulação mais ideal, o modo mais fraco de olhar as coisas, mera suposição ou hipótese, como quando você diz: "Eu tenho uma teoria sobre por que John e Helen estão se divorciando." Ou quando você diz: "Eu tenho uma teoria sobre jóias."

Richard Klein, "As jóias falam"
Editora Rocco, 2004

Embaixo da árvore



E eu ganhei, num sorteio promovido pelo Luís Fernando, um CD de Chet Baker. Logo eu, que jamais acertei palpite algum em rifas ou sorteios, recebi um belo presente de Natal :o)

RIP

Já é de praxe: sempre que fico muitos dias sem acessar a internet ou ler jornal ou ver algum noticiário (que eu não vejo nunca - no Cartoon não tem telejornal), um monte de gente morre. Em três dias foram dois: James Brown e Braguinha.

Me lembro um dia em que cheguei na redação e o primeiro ministro de Israel tinha sido morto na frente do mundo inteiro. "Yitzhak Rabin morreu? Hein?". Só soube que Leda Collor tinha passado dessa pra melhor quando bati o olho no anúncio fúnebre. Da missa de um mês. Na redação do jornal todo mundo tinha medo quando eu folgava: "Ai, a Suzana não vem e a gente vai dobrar porque alguém importante vai morrer."

É por isso que não tiro férias faz oito anos.

Moro num país tropical

Eu trabalho de janelas fechadas - a persiana puxada pra dentro, para o sol não bater na tela do computador. Acabei de ter os tímpanos perfurados por um trovão. Fui até a janela da sala - um janelão de vidro, de parede a parede - e olhei à esquerda, e o céu estava limpo, com poucas nuvens. Então, olhei à direita... para descobrir que Niterói tinha sumido no meio da mais cinzenta nuvem de chuva que eu não vejo há tempos.

Juro. A cidade desapareceu. Tem uma parede nebulosa encobrindo a vista da baía e da cidade. O pé d'água que está caindo lá deve ser fenomenal.

Um bote, Cris?

Meu Natal



Como se descreve o barulho que os passos que uma criança fazem? Não dá para ser "tum, tum, tum". Crianças de sete anos são leves (pelo menos, a minha é :o). É um som mais leve, como "tap, tap, tap". Os pés descalços fazendo um ruído delicado. Quase imperceptível.

Não deveria, esse barulho, fazer meu coração disparar. Mas faz. Todo ano. E quando Zé Colméia acorda de manhã cedinho, no dia 25, tropeçando naquela poeirinha de sono que ela ainda não conseguiu soprar dos olhos, eu instantaneamente acordo, mas finjo que não. Meu coração começa a bater cada vez mais forte. E ela passa por dentro do meu quarto, "tap... tap... tap..." Vai meio que dormindo, meio hesitante. E ela chega na sala. "tap... tap... tap... tap." Por segundos ela pára. E eu imagino os olhos crescendo. E aí ela corre - "tap! tap! tap! tap! tap!"

"Mamãe! Acorda! Vem ver o que Papai Noel trouxe! Tem um monte de pacote embaixo da árvore! Ai, vou chamar a [...]!" E sai correndo - "tap! tap! tap! tap! tap!".

Às vezes eu acho que vivo o ano inteirinho só para ouvir isso - os passos cautelosos da minha filha em direção à sala, o momento mágico em que ela vê a árvore iluminada e com a base transbordando de presentes, e a corrida feliz contando pra todo mundo, a voz jorrando de excitação: "Papai Noel trouxe moooontes de presentes! Acorda, mamãe! Acorda!"

E aí tudo vale a pena, o que quer que seja.
Tudo vale a pena.

Seis meses



Julia e José. Poderia ser Maria e Paulo. Eles se amam, mas não é suficiente. Amar não é suficiente, amar complica. Amar exige mais do que dar ou receber. Amar aumenta a fome do silêncio, o silêncio da fome. Há um tempo em que se pede tempo, em que duvidamos do que é mais autêntico, não aceitamos a vida com facilidade, que dar certo pode ser muito errado. Vi muita gente que se deprimiu de felicidade.

Os dois se separaram por amor. Estranho isso. Talvez seja o que nunca foi dito, porque um dos dois pensava que não era necessário. Quando se ama, a gente acredita que não é mais necessário dizer as palavras, mas é tão necessário quanto não dizê-las. Hoje, apartados, ambos se telefonam como cúmplices, pedem conselhos, conversam sobre seus filhos de uma forma que ninguém entende, exceto eles. Nem os filhos entendem o quanto de alegria significa para eles ter filhos. Pureza dos dois, que falam a mesma coisa de um jeito diferente e não se perguntam para não coincidir as respostas. Palavras cruzadas, feitas em dupla, terminam com rapidez e não tem graça.

Os dois querem provar um para o outro quem é mais sensível e de tanto sensibilidade eles não se permitem sentir. A treva não é trégua, o descanso não é paz, a ave não é vidro, o vitral é tão bonito porque já nasce em pedaços. Julia, que poderia ser Maria, quando tem insônia dorme com os filhos. Dormir com os filhotes cura insônia, me diz. O abajur da respiração vai espantando o escuro do medo mais do que o medo do escuro. Julia é afeiçoada aos detalhes e se antecipa antes de sofrer mais. José, que poderia ser Paulo, sofre adiantado para não se antecipar. Ele foi criado em um universo feminino (mãe e avó), derramado entre as palavras de mulher e as mulheres de palavra. Deixa o mundo correr para depois arrumar a sala. Julia não espera o tempo de arrumar a casa, arruma a casa enquanto o mundo corre. Julia não quer esperar, José espera para querer.

Eles se amam e não acreditam que nada pode separá-los, a não ser eles e seu excesso de amor. Eles se amam a ponto de desfrutarem do direito de criar distância. O cansaço não usa disfarces, o ciúme não escuta desculpas, prevenir não é se defender, enlouquecer é atrasar o desencontro, regressar é não ter saído. Julia nunca será ex-mulher de José. José nunca será ex-marido de Julia. Eles não podem ser o que desconhecem, nem deixar de ser o que foram. Os dois se preservam, se protegem, como se o segredo fosse algo que esqueceram e nenhum conta que esqueceu por estar esquecido. Esquecer saliva os olhos. Não entendem o motivo da separação porque não acharam um sentido para a convivência, como se fosse preciso ter sentido. A ausência chama mais atenção.

Eles se dedicaram a inventar um dialeto, mas perderam o contato com o próprio idioma para traduzi-lo. Dividiram a vida para perceber depois que a vida fica dividida. Reconstruir o que não desmoronou não adianta. Julia e José. Poderia ser Maria e Paulo. Os nomes não mudam o que foi doado. Mesmo a árvore mais desatenta cuida da estrada.

Fabrício Carpinejar

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Depois



A gente quer ir pra Paris, Barcelona ou Nova York. Ou, quem sabe, Lisboa e Milão. Quer finalmente deslanchar no inglês, no francês, no italiano. Deseja ter tempo pra ouvir CDs, ler livros finalmente, botar em dia os DVDs que ainda vamos comprar. A gente quer entrar na loja e nem perguntar o preço: "Eu vou levar". Queremos bater os olhos em alguém e sentir aquele friozinho na barriga - e ter certeza que o outro também sentiu. A gente espera que os olhos dos filhos brilhem ao rasgar o papel de presente (sim, eles não são da geração "Não rasga o papel que eu quero guardar!"). Damos todo o crédito a Papai Noel por ter acertado que era AQUELA Barbie, de sapato verde, e não AQUELA Barbie, de sandália vermelha.

Queremos ter certeza que no fim do mês não vem um "menos" na frente do saldo; queremos que todos raspem os pratos - e tenha sempre algo muito bom e gostoso neles. Desejamos de todo o coração que ele (ou ela) abra aquele sorriso luminoso e generoso ao nos olhar (e não apenas ao nos ver). Sonhamos com janeiro e o auge do verão; com fevereiro, e aí vem o carnaval e as aulas começam. Abril já traz aquele vento fresquinho, anunciando junho e julho - e aí você pensa que será que dá para passar um fim de semana na serra, no sítio, em casa abraçado?

Você pensa como será agosto - mês do desgosto, mas quem não aposta que será diferente? Vai ser, sim. Porque setembro tem feriado, outubro também, e novembro, e estamos na primavera, dias lindos de céu claro, sem nuvens, e com aquele calor que esquenta, não incendeia (o que quer que seja).

E dezembro chega, e você suspira - chegamos a mais um fim. Mas não tem fim quando temos amigos que, mesmo sem nunca termos encontrado pessoalmente, nos mandam mensagens engraçadas, animadoras, implicantes, agressivas até (e faz parte de qualquer amizade que pretende durar muito e muito tempo), preocupadas, inquisidoras, amorosas, poéticas.

Amigos que mandam também afeto, carinho, preocupação, desejos, ambições, repreensões, orgulho, preconceitos, amores, culpas, ânimo, alucinações e concretudes.

Eu ganhei muitos e muitos amigos este ano. Ganhei muito mais coisas que poderia sequer desejar ou esperar. Uma parte muito grande do que tenho hoje devo a quem sempre teve uma palavra pra mim, seja ela qual fosse.

A gente espera sempre que os amigos não sumam.
Isso é o que eu desejo de Natal. Por favor, em 2007 não sumam.

De mim, da Zé Colméia e da Catatau, beijos para todos, bom feriado. A gente se vê depois.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Minhas fotos prediletas VI



Their first murder, New York City, October 9, 1941, by Weegee.

Quando a excitação dos espectadores é mais interessante que a cena do homem assassinado.

Plenitudes



Medo de me machucar (de novo, de novo, e de novo) é o que me impede de simplesmente tirar aquela placa de "Fui almoçar. Volte mais tarde. Obrigado" da minha testa. Principalmente agora que consegui, finalmente, me reerguer financeiramente; que estou montando meu negócio; que estou curtindo plenamente minhas filhas, minha casa, minha vida.
Mas o paradoxo é que, sem alguém do meu lado, "curtir a vida" vira uma expressão meio vazia - porque uma das coisas que me dão mais prazer é dividir. E algumas coisas não posso compartilhar com as meninas.

Na próxima encarnação



... além de ter pescoço comprido, eu quero ter olhos verdes e um cabelo nesse tom de vermelho.
Assim mesmo. Cacheado e brilhante.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Programa da Besta

LimeWire: antes eu era apenas viciada em baixar músicas. Agora eu estou completamente dependente dos vídeos. Neste exato momento, além de estar baixando quatro ao mesmo tempo, estou com um DVD inteiro na fila.
Culpa sua.
Mania do diabo, isso sim.

It won't be you



A brincadeira é responder ao questionário com o título de suas músicas preferidas. Como estou vintage, Journey foi a banda escolhida (com aperitivos de autoria de Steve Perry):

Você é homem ou mulher?
I Am.

Descreva-se:
Walks like a lady

O que as pessoas acham de você?
Lady Luck

Como descreveria seu último relacionamento?
Separate ways (Foolish heart)

Descreva sua relação com seu namorado atual ou pretendente:
I stand alone

Onde você queria estar agora?
City of the angels

O que pensa a respeito do amor?
Don't stop believing (For the love of strange medicine)

Como é a sua vida?
Just the same way

Se pudesse ter concedido um desejo, o que pediria?
Open arms - Sweet and simple

Escreva uma frase sábia:
Be good to yourself (you should be happy); listen to your heart.

Agora diga tchau:
Go away

Roubei daqui :o)

terça-feira, dezembro 19, 2006

Bate coração



Ontem de manhã, durante o batizado das meninas, meu pai chorou, pela terceira vez na vida (Catatau também. A madrinha sussurrava: "É de emoção". Ela, no meu colo, soluçava: "Meu vestido tá todo molhado!").
Eu não chorei. Não consegui. Só agradeci por ter tantas pessoas que amam a mim e às minhas filhas, e que estavam lá para desejar, de coração, que elas fossem felizes e abençoadas.

À tarde, na formatura da Zé Colméia, achei que o rosto da minha pequena fosse rachar de tanta felicidade, quando ela foi chamada ao palco para receber o canudo. Vestido e sapatos brancos, com a beca e o capelo azul-escuro. Catatau urrava lá em cima, no balcão do teatro, aplaudindo a irmã, acenando e gritando o nome dela.

Minha pequena estava feliz. E eu, mais ainda.

domingo, dezembro 17, 2006

...

A gente sabe que está começando a ter serenidade quando come apenas uma fileira daquele tablete mega de Alpino.
E só isso basta. Seja em que situação for.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

...

Às vezes, a gente precisa trocar de brincadeira para continuar se divertindo.

Anjinhos :o*



Esse é o padre do mês do meu aniversário, no Calendário Romano 2007.
Agora diz: como o Vaticano vem depois com aquele papo de "não pecar contra a castidade"?
Enche a vitrine de guloseimas e depois tasca aquele cartaz de padaria: "Favor não tocar nos doces"?
Então, tá.

* Dica da Maura.

Trabalho x emprego

- Oi, é a Fulana.
- Diga.
- Ah, é que o texto que você mandou revisado... Você cortou algumas coisas, não é?
- Cortei, sim. O texto tem que ser informativo e jornalístico. Ele vai para a imprensa, que não quer saber que os quartos dos hotéis foram "suntuosamente reformados para oferecer aos hóspedes um período relaxante e prazeiroso durante sua estada na Cidade Maravilhosa, mantendo sempre abertas vias de acesso fáceis para os principais pontos turísticos do Rio de Janeiro."
- Mas era o texto aprovado. Agora o gerente vai ser obrigado a ler tudo de novo porque você modificou.
- Eu não modifiquei, eu cortei. O que sobrou já está aprovado.
- Sim, mas eles agora vão ter que ler tudo e aí vai demorar! Você não deveria ter cortado! Era só pra você REVISAR o português, não CORTAR!

Então é assim: você tem que fazer o trabalho pra ontem e ainda precisa aceitar que passem coisas do tipo "As instituições credenciadas para os profissionais de imprensa são diferentes das instituições indicadas para os profissionais de imprensa porque as instituições credenciadas para os profissionais de imprensa mantêm pontos de ônibus oficiais para os centros de convenções e as instituições indicadas para os profissionais de imprensa não mantêm pontos de ônibus oficiais para os centros de convenções."

Isso em três idiomas (tudo traduzido ao pé da letra), para órgãos de imprensa de 22 países, incluindo Estados Unidos e Canadá.
Entendeu?

E enfim



Já foi tarde!

Horário comercial



Às vezes eu tenho a impressão que existe na minha testa, bem grande, um aviso do meu coração:

"Estou em hora de almoço. Volte mais tarde. Obrigado."

quinta-feira, dezembro 14, 2006

...

Dá uma sensação estranha quando você descobre, por acaso, que seu ex-marido está traindo a mulher. É quase um... vazio existencial.

Eu sou do fog

You Belong in London

A little old fashioned, and a little modern.
A little traditional, and a little bit punk rock.
A unique woman like you needs a city that offers everything.
No wonder you and London will get along so well.

Vivendo perigosamente

Fragmentos de uma conversa com meu amigo e guru Tapa, que entre outras coisas traduz episódios de séries bacanas (mas antes que você o xingue por algum motivo relacionado a legendas ruins, atualmente ele trabalha para a TV aberta). Com a palavra, Tapa:

Agora eu estou traduzindo os CSI loucamente. Tomara que não tenha uma agência do governo espionando minha internet. Olha as minhas últimas pesquisas no Google:

'gbh estupro drogas'
'boa noite cinderela'
'submissão dominação'
'maconha sinônimos'
'cadáver putrefação cheiro'


Do blog Legendado, da Cláudia Croitor (feito sob medida pra quem é fanático por séries).

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Retificando o post abaixo

Faz muito, muito, muito, MUITO tempo que eu não experimento essa sensação: paguei TODAS as contas e sobrou MUITO dinheiro. Comprei os presentes de Natal das meninas - e sobrou MUITO dinheiro. Comprei as roupas e sapatos das meninas para a formatura - e sobrou MUITO DINHEIRO.

Não consigo nem atinar essa idéia: dormir profundamente, sem medo de dívidas, falta de comida na mesa, Natal com as meninas suspirando, até o fim do mês.

É muito bom. Desejo isso a todos vocês. Sempre.

Happy Holiday

A impressão que eu tenho nesse fim de ano é a mesma de quando sou obrigada a enfrentar uma fila monstruosa onde, já na boca do caixa, a multidão se comprime. Pagamentos, formatura, compromissos, ex-marido querendo a festa mas não a fatura, matrícula, uniformes novos, contas, contas, contas.

A vontade que eu tenho é simplesmente passar as tardes baixando músicas na internet.
E o resto que se dane.

...

"A saudade é uma grande vontade de viver tudo de novo."

Do Luis Fernando, que sempre manda 29 beijos para a amiga :o)

terça-feira, dezembro 12, 2006

Grande dia



Semana que vem é a formatura da Zé Colméia. No meu tempo, formatura era coisa para o fim da faculdade - agora, não. Pré-escola tem formatura.
No fim do dia, fomos comprar o vestido branco. Como conheço minha pequena, deixei de lado babados, fitas e apliques e reservei de véspera na loja um meio tubinho branco, em que a parte de cima tem uns poucos apliques de canutinhos, num desenho delicado.
Ela simplesmente a-mou. Os olhos brilharam naquele meio sorriso de quem está absolutamente encantada em imaginar-se subindo ao palco usando um vestido simples, de "brilhinhos" e muitas promessas.
Não tenho nenhum pudor em confessar o quanto eu me orgulho quando acerto - e como fico feliz de, ainda, conseguir adivinhar os desejos, os gostos e os sonhos da minha querida filha.

Papo masculino

- Caneta Bic é o máximo, né?
- Cara, não tem coisa melhor do que a tampa pra tirar cera do ouvido!

sexta-feira, dezembro 08, 2006

25 de março de 2003



"Oi, querida;

Você está, desde sexta, com uma diarréia horrível, e não sei como consegue manter seu bom humor. Está sempre rindo, mesmo quando suja as roupas. Está cheia de assaduras, mas vai em frente estoicamente, sempre com aquele sorriso enchendo suas bochechas.

Nossa, como te amo! E por estes dias lamentei não ter nenhuma imagem, além daquela na minha cabeça (e que peço a Deus jamais o tempo a apague), do dia em que você viu Papai Noel pela primeira vez.

Foi na festa de fim de ano organizada por duas mães de alunos da turminha da Zé Colméia. Foi ali no Flamengo, numa rua que sai na Oswaldo Cruz. Você tinha um ano e meio, e comeu até dizer chega na festa, correu, se divertiu. Teve mágico e muitos bichinhos (como coelhos e ratinhos) mas você passou a apresentação toda levantando do meu colo, comendo e querendo passear. Estava com aquele seu conjuntinho de bermuda de sarja azul e a camisa branca, sem mangas, de algodão branca, com uma flor azul de feltro aplicada. Tão fofa e tão linda!

Quando Papai Noel entrou, você já estava meio que ressabiada da agitação das crianças maiores, que se posicionaram ansiosas. Estávamos sentadas próximas à cadeira onde ele ia se sentar. E Papai Noel entrou arrastando dois sacos de presentes. Um dos primeiros (acho que o segundo ou terceiro a ser entregue) foi o da sua irmã: uma enorme caixa vermelha de papel lustroso. Você já estava ansiosa para abrir algum pacote, ganhar algum presente, e avançou para o embrulho da Zé Colméia, que imediatamente recolheu a caixa. E você olhava em volta, procurando, esperando a sua vez, o seu pacote, o seu presente. E nada. E Papai Noel chamava as outras crianças, entregava outros pacotes.

E você desistiu. Com uma carinha séria de quem sabia que não ia ganhar nada, você se sentou, pequenina e redondinha, do lado do Papai Noel e ficou ali, assistindo à sessão de papéis de presentes rasgados, embrulhos abertos com gritos de alegria, todos correndo para mostrar o que tinham ganho. Pernas esticadas, mãos ao longo do corpo, você desistiu.

Mas o seu pacote estava lá. Foi o último. E no meio daquela gritaria, quando a ajudante de Papai Noel finalmente tirou a sua caixa do saco e gritou seu nome, a princípio você nem ouviu. Quando me viu gritando o seu nome, o Papai Noel cutucando você, a moça chamando, você se levantou daquele jeitinho roliço, cara espantada, já alvoroçada, e recebeu sua caixa!

Seu rostinho, filha, era a pura emoção. "Nossa, ganhei um presente!" E você veio para junto de mim tão feliz, aquela felicidade no meio sorriso, mas com os olhos explodindo de excitação, sem saber direito como abrir aquilo, segurando aquela caixa que não era tão grande, mas parecia ter um mundo de felicidade ali dentro. Sentamos no chão e abrimos: era um peão de alumínio, daqueles que nós, eu e seu pai, tivemos quando criança. A câmera de vídeo que estava sendo usada para gravar a festa já estava com a bateria descarregada, e eu lamentei não ter conseguido gravar aquele momento, que hoje guardo tão cuidadosamente no meu coração.

A sua expressão, minha querida, foi tão doce, tão maravilhosa, tão linda, que até hoje Papai Noel não conseguiu me trazer nenhum presente que supere aquele que eu recebi de você, naquele fim de dia, no meio de um playground já sujo de brigadeiros, no meio de uma algazarra infernal e uma gritaria incessante. No meio daquele caos, você tocou meu coração e o tempo, naquele momento, parou no seu rostinho. Obrigada, querida.
Amor, sempre, da sua

Mamãe"

Fado

Às vezes a gente sonha com umas coisas tão doidas, uns objetivos tão aparentemente inalcansáveis que, de tanto persistir, acaba parecendo simplesmente a conseqüência natural do seu esforço.
Porque, você sabe, no fim quase nada é impossível.

Post cego

Eu estou escrevendo esse post no formulário do blogger, mas há dois dias não consigo acessar o Breviário na net.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

11 de março de 2003



"Minha querida;

Você, na sexta-feira, passara o dia inteiro bebendo mate; era o único suco que tínhamos em casa. Catatau há tempos ressonava na cama, e você aprontando no quarto. Começou "ER". Entra um paciente com prognóstico muito ruim: sofrera um acidente de carro e arrebentara a cabeça, com perda de maça encefálica. Palavreado difícil que você, obviamente, não entendeu nada, e veio o esperado "O que está acontecendo?". "Bom, o moço estava dirigindo sem o cinto e bateu ("Pow!", disse eu, espalmando a minha mão na sua testa) a cabeça. Ele se machucou muito."
E você acompanhando. "E agora?". "Ah, ele não vai acordar mais. Ele foi para o céu. E eles vão tirar o coração dele, o que tem na barriga dele, para dar para outras pessoas". Silêncio... "É assim: o moço foi para o céu, e não vai acordar mais. Em outro lugar, tem uma pessoa que está com o coração muito doente. Então, eles vão tirar o coração desse moço – já que ele está no céu e não vai acordar mais – e dar para o moço que está doente."

Mais silêncio, e você aconpanhando a perícia e as besteiras de Peter Benton, o cirurgião que estava metido na história. Começa a retirada dos órgãos. "Olha, agora eles estão tirando o coração dele". "O que é aquela bolsa?" "É onde o coração vai; eles botam bastante gelo, e botam o coração ali". "Ele vai embora?". "Não, ele vai levar a bolsa com o coração dentro até o helicóptero, está vendo? E o helicóptero vai levar o coração até o outro moço que está doente". E lá se vai o helicóptero levando o coração para ser doado, enquanto Peter Benton assume, no alto do prédio do hospital, aquele ar de heróis que cumpriram sua missão.

Acaba o filme. E você suspira, abre o maior sorriso e diz, sem desgrudar o olhar da tela: "Gostei dessa história." E seu rosto dizia que você tinha entendido perfeitamente o que tinha acontecido ali.

Televisão desligada, você me pediu que eu deitasse com você. Nos ajeitamos na cama, sua irmã dormindo profundamente, você pega minhas mãos e diz: "Não quero ir para o céu." "Ih, vai demorar muito para você ir pro céu." "Não quero que você vá para o céu." "Por quê?" "Porque aí eu não vou mais ver você." "Ah, mas vai demorar muito ainda. Olha, você não diz que fala com a vovó [...]? Então, ela já foi pro céu. E não é assim: as coisas acontecem de uma maneira certa. As suas outras vovós vão primeiro pro céu, e esperam a mamãe e o papai. Quando eu for, eu vou te esperar lá." "Ah, não quero que você vá, mamãe! E eu também não quero ir!" "Então, é isso que eu estou falando! Ainda falta muito! Você ainda vai crescer, aprender a ler, a escrever (maior sorriso: "É???!"), vai namorar, ter um filhinho, seu filhinho vai ter um filhinho... Vai demorar muito, ainda." "Vai, mamãe?", "Vai, filha, vai demorar. E a gente diz que não quer ir pro céu mas e se for uma coisa maravilhosa, linda? Com um monte de cachorros, flores, e um lugar pra gente desenhar e pintar ("É, e se for assim?", você diz), um lugar muito legal? A gente não sabe, né?"

E foi pensando nisso que você dormiu. E eu tive certeza que, essa noite, você entendeu, melhor do que ninguém, todo o amplo significado da morte: perda, saudade, dor no coração, aquele vazio horrível que a gente sente ante a perspectiva de não ter alguém querido por perto. Ter que esperar a sua vez de ir. Mas também que ela pode ser uma bênção, algo desconhecido. Você entendeu o grande enigma que a morte é para todos nós.

Amor sempre da sua,

Mamãe"

terça-feira, dezembro 05, 2006

...



Às vezes - nem sempre - o prazer vem em pequenas ondas.

Dias de cão

Algumas coisas, por ingenuidade, até, eu não consigo literalmente realizar. Do tipo: uma criatura faz coisas que acha muito natural, mas não admite que o outro faça. Outro fala coisas de uma barbaridade aterradora ("A sinceridade é tudo"), mas quando você começa a dizer certas coisas bate com o telefone na sua cara.
Quer dizer, você pode mentir, enganar, ser dono da verdade, mas o outro não? Você pode agir irresponsavelmente, a hora que quiser, mas o outro não?
A recíproca nunca é verdadeira?
Mas que confortável.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Foolish heart



I need a love that grows
I don't want it unless I've known
That each passing night
She'll want somehow
We'll be there ready to share

I need a love that's strong
I'm so tired of being alone
But will my lonely heart
Play the part of the fool again
Before I begin

Foolish heart
Hear me calling
Stop before you stop falling
Foolish heart
Heed my longing
You've been wrong before
Don't be wrong anymore

Feeling that feeling again
I'm playing a game I can't win
There's knockin' at the door
My heart wants more
Think I'll let her in before I begin

Foolish heart
Hear me calling
Stop before you stop falling
Foolish heart
Heed my longing
You've been wrong before
Don't be wrong anymore

Foolish heart
Foolish foolish heart
You've been wrong before

Foolish heart
Hear me calling
Stop before you stop falling
Foolish heart
Heed my longing
You've been wrong before
Don't be wrong anymore

Foolish heart
Oh, foolish foolish heart
You've been wrong before
Foolish foolish heart

Who's crying now



It's been a mystery and still they try to see
Why somethin' good can hurt so bad
Caught on a one-way street, the taste of bittersweet
Love will survive somehow, some way

One love feeds the fire
One heart burns desire
I wonder, who's cryin' now
Two hearts born to run
Who'll be the lonely one
I wonder, who's cryin' now

So many stormy nights, so many wrongs or rights
Neither could change their headstrong ways
And in a lover's rage, they tore another page
The fightin' is worth the love they save...

One love feeds the fire
One heart burns desire
I wonder, who's cryin' now
Two hearts born to run
Who'll be the lonely one
I wonder, who's cryin' now

Only so many tears you can cry
'Til the heartache is over
And now you can say your love
Will never die

One love feeds the fire
One heart burns desire
I wonder, who's cryin' now
Two hearts born to run
Who'll be the lonely one
I wonder, who's cryin' now