terça-feira, janeiro 24, 2006

Tenho, às vezes, saudades do futuro*

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Um dia recebi carta da Bárbara em que ela, a certa altura, dizia: "Acho que tens razão. Amar os pobres é fácil. Não há mesmo outra coisa a fazer quando estamos ao pé deles. Vê lá é como se podem amar os ricos e os poderosos. E já que tens a mania de pensar, pensa nisto: o amor de que fala o Evangelho tem pouco a ver com o que se passa entre um homem e uma mulher. Isso é demasiado fácil para merecer a salvação."

António Calçada Baptista, "O tecido do outono"
Editora Globo, 2001

* Teixeira Pascoaes

segunda-feira, janeiro 23, 2006

...

Quando a gente se machuca pra valer e leva tanto tempo para se recuperar, "paranóia" adquire outro significado: muitas vezes, é o sinônimo de "sobrevivência".

...

O que mais me dói em ficar sem dinheiro não é a falta de cinema, roupas novas, restaurantes, teatro, programas de fim de semana.
É ver a quantidade de livros que eu adoraria ter mas que não posso comprar.

Pra não mudar de canal

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* Pense grande. Voce já ouviu falar de Alexandre o Médio? (3i, consultores de empresas)
* Ruim por ruim, vote em mim! (Alípio Martins, em campanha política)
* Deve. Haver. Uma. Maneira. Mais. Rápida. De. Chegar. Ao. Trabalho. (AM Express Bus, Minneapolis)
* As fitas não são virgens, mas, também, hoje em dia quem é? (Blockbuster)
* Nenhuma mulher quer um homem bom de pia. (Brastemp)
* Brinquedo só no Natal. Bife de fígado toda semana. E depois você se pergunta por que há tanta criança traumatizada no mundo. (Brinquedos Estrela)
* Colocamos nosso nome na traseira de nosso carro, de maneira que os motoristas do Porsche tenham o que ler. (Carro Lexus)
* [Sob uma foto de Fidel Castro]: Economizar no vestuário não significa andar 30 anos com a mesma roupa. (Cartão de Crédito Fashion Clinic)
* Tão fascinante como a Disney. Mas o mouse é mais inteligente. (Computador Presario/Compaq)
* Beba-o com respeito. É provável que ele seja mais velho que você. (Conhaque Martell)
* Ame-os e deixe-os. (Creche em Minneapolis)
* Não servimos almoço. Levamos o dia inteiro para preparar o seu jantar. (D'Amico Cucina)
* Nunca foi tão fácil tirar o doce da crianca. (Escova dental Oral B)
* De ao seu bebê algo que você nao teve na infância. Um bumbum seco. (Fraldas Johnson's)
* Antes de dormir, não esqueca de apagar os insetos. (Inseticida Rodiasol)
* Rico em vitaminas e milionário em proteínas. (Iogurte Danone)
* Quer que ele seja mais homem? Experimente ser mais mulher. (Lingerie Valisère)
* Quando uma menina vira mulher, os homens viram meninos. (Lingerie Valisère)
* Cabem 18 crianças, lógico, se o motorista for surdo. (Van Hi Topic Asia)
* É o mais rápido que você pode ir, sem ser obrigado a comer a comida de bordo. (Porsche)
* Mais valem quatro cabeças de vídeo do que uma bem na sua frente no cinema. (Semp Toshiba)
* A crítica adorou. Mas pode assistir que é bom. (Semp Toshiba)
* Nossos clientes nunca voltaram para reclamar. (Outdoor de uma casa de serviços funerários)
* Não temos música ao vivo. Sorte sua. (Outdoor do Taco Del Maestro, restaurante de comida mexicana)
* Nao beba só uma. Bebavarias. (Cerveja Bavaria)

domingo, janeiro 22, 2006

A soma de todas as palavras

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Alguém, estes dias, me fez lembrar de "Baudolino", de Umberto Eco. Meu livro preferido dele, porém, é "O nome da rosa". Não porque virou filme - até porque o filme nada tem a ver com o livro. O que me interessa é o que todo mundo pulou quando o leu: a eleição do papa, as conferências entre membros das diversas ordens, o poder do Santo Ofício. E, é claro, a biblioteca e seus livros - mas, acima de tudo, a genialidade do autor ao nomear sua obra: a expressão "o nome da rosa" foi usada na Idade Média significando o infinito poder das palavras. A rosa subsiste por seu nome, apenas; mesmo que não esteja presente nem sequer exista.

Eu só bebo raktajino*

Você sabe que o vírus trekker passou à geração seguinte quando sua filha de seis anos, antes de dormir, diz: "Computador, apagar luzes!"

* Pra quem não sabe, é como se chama o café klingon. Se você não sabe o que é klingon, vá para outro blog, pelo amor de Deus, antes que seja tarde.

Eu confesso que...

... a-do-ro carne enlatada. Amo. Sabe aquela latona de Presuntada e Viandada (que nome!) da Perdigão, que vem com aquela chavinha bem anos 70 pra abrir no fundo? Pois é. Sexta comi uma. Inteirinha, e ainda mandei uma garrafa de Gatorade de limão por cima.
Não faz essa cara de nojo, por favor. Você não entende que eu TENHO que viver com isso para o resto da vida. É dureza, viu?

O lápis é cor de pele ou cor de carne?

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Hamilton Naki, um sul-africano negro de 78 anos, morreu no final de maio de 2005. A notícia não rendeu manchetes, mas a história dele é uma das mais extraordinárias do século 20. "The Economist" contou-a em seu obituário desta semana.
Naki era um grande cirurgião. Foi ele quem retirou do corpo da doadora o coração transplantado para o peito de Louis Washkanky em dezembro de 1967, na cidade do Cabo, na África do Sul, na primeira operação de transplante cardíaco humano bem-sucedida.
É um trabalho delicadíssimo. O coração doado tem de ser retirado e preservado com o máximo cuidado. Naki era talvez o segundo homem mais importante na equipe que fez o primeiro transplante cardíaco da história. Mas não podia aparecer porque era negro no país do apartheid.
O cirurgião-chefe do grupo, o branco Christiaan Barnard, tornou-se uma celebridade instantânea. Mas Hamilton Naki não podia nem sair nas fotografias da equipe.
Quando apareceu numa, por descuido, o hospital informou que era um faxineiro. Naki usava jaleco e máscara, mas jamais estudara medicina ou cirurgia.
Tinha largado a escola aos 14 anos. Era jardineiro na Escola de Medicina da Cidade do Cabo. Mas aprendia depressa e era curioso. Tornou-se o faz-tudo na clínica cirúrgica da escola, onde os médicos brancos treinavam as técnicas de transplante em cães e porcos.
Começou limpando os chiqueiros. Aprendeu cirurgia assistindo experiências com animais. Tornou-se um cirurgião excepcional, a tal ponto que Barnard requisitou-o para sua equipe.
Era uma quebra das leis sul-africanas. Naki, negro, não podia operar pacientes nem tocar no sangue de brancos. Mas o hospital abriu uma exceção para ele.
Virou um cirurgião, mas clandestino. Era o melhor, dava aulas aos estudantes brancos, mas ganhava salário de técnico de laboratório, o máximo que o hospital podia pagar a um negro. Vivia num barraco sem luz elétrica nem água corrente, num gueto da periferia.
Hamilton Naki ensinou cirurgia durante 40 anos e aposentou-se com uma pensão de jardineiro, de 275 dólares por mês. Depois que o apartheid acabou, ganhou uma condecoração e um diploma de médico honoris causa. Nunca reclamou das injustiças que sofreu a vida toda.

Armando Mendes, "O cirurgião clandestino"
Capturado em junho de 2005 no blog de Augusto Noblat. Às vezes, eu guardo textos por meses até ter vontade de publicá-los. Esse aí você deve ter lido em outros blogs.

Cansei

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Meu sono deve ter dado uma paradinha na casa de alguém.

sábado, janeiro 21, 2006

Mais um.2

Esclarecendo comentários e e-mails que recebi, declaro para os devidos fins que tenho três cachorros:

- Um golden retriever, que é um lorde de tão educado (é, é sujeira dizer que o bicho é uma lady, principalmente sendo vasectomizado - que, gente, não é o mesmo que castrado: ele continua completamente equipado, mas não turbinado :o);
- Uma boxer, que é uma lady de tão educada;
- Uma labradora, que não é nem lady nem lorde - é mal-educada em qualquer gênero.

Assim posto, já deu para ver que eu sustento cinco bocas - sendo que a última citada come, late e destrói por 14.

...

Saber que uma pessoa que você não conhece leu todo o seu blog de uma vez só é como despir-se no escuro, mesmo depois de ouvir uma respiração desconhecida do outro lado do quarto.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Mais um

Meu vizinho de baixo ganhou um filhote de cachorro. Os problemas:

1 - Ele é macho
2 - Ele é um rotweiller

Explicação:

1 - Sendo macho, será mais um a chorar e a gemer nesse vale de lágrimas que é a época em que as minhas duas cadelas entram no cio.
2 - Se, nessa época, ele resolver dar uma de marcador de território, adivinha quem vai ganhar: ele ou a lady que é o meu golden retriever?
Adendo: meu golden é vasectomizado; o novo inquilino de baixo não o será, segundo o dono.

Gôndolas

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Cultivo um daqueles prazeres bobos da vida com cuidado extremo: fazer supermercado (acompanhada, então, é dos deuses :o). Faço a lista do que falta, procuro ofertas, percorro os corredores numa determinada ordem (pra não parecer barata tonta e ter que ficar indo e voltando) e arrumo o carrinho com capricho. Uma vez, a pessoa que estava fazendo compras comigo virou a cara com aquela expressão de "não faço a menor idéia o que essa neurótica está fazendo" porque eu comecei a travar uma luta surda com o empacotador, que botou no fundo da sacola os pacotes de macarrão e arrumou, por cima, duas latas grandes de Nescau e, por último, as latas de molho de tomate.
Então, eu passo primeiro o material de limpeza, que é mais pesado; depois, o material de higiene; a seguir, lataria e garrafas, sacos de farinha, coisas que amassam (como pão e bolos), coisas que quebram (macarrão e biscoitos) e, por fim, frutas, verduras, ovos e os gelados (que são sempre as últimas coisas que pego antes de ir para o caixa - odeio carrinho pingando de sangue e água de peixe. Irc!)
Ontem, fui ao supermercado fazer aquela comprinha básica antes do feriado (aqui no Rio é dia de São Sebastião, padroeiro da cidade). Filas quilométricas. Tocar na Caaba demoraria menos.
Pois a fila do supermercado é, como no aeroporto, um grande cenário onde se desenrolam inúmeros fragmentos de novelas. Assim sendo, vamos analisar o rapaz três carrinhos à minha frente: perto de 40 anos, nem gordo nem magro, não adepto de praia, bermudão (Osklen), havaianas, camiseta que viu melhores dias (mas era Gap).
Na cesta, uma compra razoável, mas pra quem é solteríssimo e deve ganhar bem: vinho tinto (quatro garrafas, do bom), pão, queijo gorgonzola, conservas importadas, peras portuguesas (aquelas de custam um salário o quilo) e mais alguns itens que desconheço, por não fazerem parte nem do meu orçamento nem da minha vida real.
Por sua vez, na fila ao lado uma mulher dos seus 40 anos implorava, suplicava aos três filhos (uma menina de uns oito anos, um menino de seis e uma meninina, no carrinho, que deveria ter uns dois anos, e a cada três segundos soltava um "Pála com isso!" para os irmãos). Pois a mãe ameaçou, ralhou, brigou, mas sempre com aquele tom de voz de profundo arrependimento - não sei se pela idéia de ter tido três filhos ou de tê-los levado para o supermercado. Ela comprou dois carrinhos cheios, e eu fiquei pensando como ela ia levar aquilo tudo embora.
Muuuuitas velhinhas. Todas com suas respectivas rações de passarinho: uma com um saco com um pão, outra com dois tomates e uma cebola, outra com 300g de peixe, e assim por diante. Mas uma coisa me espantou profundamente: há, logo na entrada, uma fileira de cadeiras para os idosos que queiram descansar (antes ou depois das compras). No rosto da maioria deles (principalmente das mulheres) não se lia cansaço, nem tristeza, nem alegria - apenas um profundo e quase mortal tédio por estar (ainda) vivendo.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

...

Você está me fazendo falta.
Engraçado, não é?

Sangue do meu sangue*

Marianne preferia pensar em como poderia ser pior. Mentalmente, fazia listas enquanto massageava seus clientes. Lucas não incendiava nada, não fugia de casa, não batia nas pessoas com tijolos ou bastões, não estrangulava nem estuprava pessoas, nem torturava animais. Era só um pouco maluco.
“Mas que palavra”, pensou ela. Marianne já havia cruzado com ela muitas vezes – essa palavra e outras. Insano. Anomalia. Psicopata. Agora, elas caíam de sua boca por acidente, como sapos. Ela sentia as palavras escorregando para fora e caindo no chão. [...] Marianne engolia a sensação pantanosa em sua garganta e enchia as palmas das mãos de óleo. [...]

No corredor, Richard preenchia os formulários médicos junto com a enfermeira. Ele parou no bebedouro no caminho de volta para a sala de espera. O jato era fraco, mas foi bom para molhar os lábios. Ele ligou para a Dra. Snow do telefone público, de olho em Lucas, sentado num canto com o rosto afundado numa revista.
- Os remédios não estão funcionando.
- Às vezes isso acontece.
- Ele está ficando pior.
A Dra. Snow suspirou.
- Ataque a irmãos é bastante comum – ela sugerir terapia familiar. Marcou uma sessão para o dia seguinte. Eles deviam ir para casa e descansar. – Peça comida chinesa – aconselhou ela. – Alguma coisa leve.

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Quando o carro estacionou na entrada de carros, Richard viu a vizinha. Ele entendeu que alguma coisa estava errada pelo modo como a blusa dela estava torcida.
- Não sei o que fazer – disse ela enquanto Richard baixava a janela. – Minha gata não quer sair do seu quintal. [...]
- Essa não é uma hora muito boa.
- Está tudo bem – disse Marianne. –Eu a levo – ela pôs as chaves no bolso e tirou Sarah do carro. [...] Um grande curativo branco estava colado na testa de Sarah e Richard podia ver uma seção de careca onde o médico tinha raspado o cabelo da menina. [...]
- E então? – perguntou Richard. – Qual é o problema?
A gata estava no quintal, para em um dos cantos do jardim.
- Lamento muito por isso – disse a vizinha. – Normalmente eu consigo convencê-la a ir para casa – o rosto tremeu um pouco quando ela se aproximou da gata laranja. – Vem agora, querida – a gata sibilou e bateu na mão da mulher, depois correi de volta para o canto. [...]
A barriga vazia da gata balançava, os mamilos se arrastavam no chão. Quando chegou mais perto, Richard viu que seus bigodes tinham sido cortados. Ele sabia que cortar os bigodes era o mesmo que cegar; os animais os usavam para sentir aquilo que seus olhos não podiam ver. Richard deu uma olhada na casa. As cortinas estavam fechadas.
Foi até onde a gata estava sentada e futucou o chão com o pé. O sapato de Richard afundou na terra macia e, quando ele tocou o que tinha sido enterrado ali, sentiu seu ânimo desabando junto com a ponta do seu sapato, um mergulho na tristeza. Ele pensou no que estava surgindo. Havia vermes, ele podia senti-los, e grãos minúsculos abriam caminho, entrando em suas meias.

Hannah Tinti, "Verdadeiros animais"
Editora Rocco, 2004

*São 11 contos, este é o décimo. Em todos, os animais são personagens que correm à margem; se ausentes, porém, não haveria sentido para as histórias. Um livro que eu gostaria de ter escrito. O título em inglês é "Animal crackers", aqueles biscoitinhos em forma de bicho - aliás, foi assim que a editora original fez a divulgação: distribuindo latas desses biscoitinhos para a imprensa junto com o livro.

MM

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Ela malhava um pouco, sim, mas jamais seria, hoje, modelo de beleza (e esse post é um dos melhores que eu já vi; nunca tinha reparado nessa proporção maluca). Quer dizer, modelo de beleza para as mulheres porque, que eu saiba, homem não gosta de mulher (como diz um amigo) 70-70-70. "Tem que ter aquela curvinha meio trava-mão - afinal, a gente tem que saber por onde a mão está andando."
Não há Semana de Moda que derrube a sabedoria dos instintos.

Direita ou esquerda

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Meu sono se perdeu em algum lugar do planeta. Pobrezinho, espero que ache o caminho de volta.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

...

Cheguei de Friburgo, mas poderia ter vindo da original suíça, que o cansaço ia ser o mesmo. E, depois de tudo terminado, o que sobra é a exaustão mental. Que se reflete numa dor nas costas e no pescoço torturante.
É isso, é como uma tortura, em que você assiste e não pode falar ou fazer nada. A não ser tentar refletir, depurar, entender e, no fim das contas, perdoar.

sábado, janeiro 14, 2006

Relembrar para não esquecer jamais*

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Você pode trepar, transar e fazer amor. As duas primeiras requerem apenas conhecimento técnico. Mas a terceira requer algo mais.
Fazer amor é, antes de tudo, conhecer. O jeito de acender um cigarro, a maneira de inclinar a cabeça quando pensa. Os olhos ficam ligeiramente avermelhados quando bate o tesão? Se entrefecham? Há urgência nas mãos? Sim, há de se reparar em todos os detalhes.
Na hora, não se deve pensar muito. Eu sei, é instintivo. Mas também é a maneira de abraçar que faz o coração bater loucamente, sentindo que o desejo cresce e força passagem. As pernas não deixam, prendem o que quer se libertar. Tateia, tenta escapar, encontrar a saída por onde tanto deseja entrar.
Arquear as ancas (sabe o que são as ancas? A parte mais escandalosa, a que mostra à platéia se você está agradando). Passear as mãos pelo corpo, como se procurasse algo, mas feliz por apenas escorregar na pele lisa, sedosa, que se arrepia ao menor toque, seja ele agressivo ou diáfano. E então começa a luta, de uma violência que parece mostrar que ali não há amor, quando amor é o que mais há. "Por favor, não faz isso." Amante é tradutor universal. Isso quer dizer "Vem, eu preciso tanto de você." Escorrega-se, lenta e dolorosamente, para dentro, para um mundo onde minutos podem ser horas e vice-versa. Delicadamente, mas com firmeza. As bocas que se juntam num desencontro que parece não ter fim. Por que não acertam o passo? Porque há mais para acertar. O prazer vem do desacerto, das palavras que não dizem o que querem dizer. Tudo é ao contrário, a dor vira prazer, o prazer é tudo o que há.
As línguas que bebem o suor a escorrer da nuca, a descer pelos ombros. Mãos que buscam embaixo de corpos o que desesperadamente pede para ser tocado – mas que foge ao sentir o toque. Um púbis a escorregar pelas costas, costas a se chocar com pernas. Cabeças a subir por joelhos que não sabem se a ordem é encontro ou separação. Fazer amor é sentir os nós dos dedos dele na palma das mãos, o queixo nas espátulas, o roçar da barba por fazer, o hálito que se procura desesperadamente, como um guia no meio de um nevoeiro.
Pode-se escrever tratados sobre isso – aliás, eles existem, melhor escritos do que aqui.
Fazer amor é, ao final, acariciar sobrancelhas, rosto, mãos. É escutar o ressonar satisfeito, como o de um gato. É ouvir urgência na pergunta: "Aonde você vai?" e tranqüilizar com um "Só beber um copo d'água".

* Que, antes de ser mãe, eu sou uma mulher.

Zé Bonitinho

Enquanto esperamos que o cardiologista que atende meu pai termine de examiná-lo (o homem veio de Itaperuna, seja lá onde isso seja), as meninas, eu e minha mãe ficamos num bar/lanchonete/point/bobódromo de Friburgo. Estou sentada num dos computadores, e as meninas estão fazendo uma farra com sorvetes e as revistas para colorir que minha mãe comprou.
Assim que me sentei aqui e comecei a procurar algumas fotos que sempre deixo em arquivo para postar, um pateta me mandou um olhor 43 "sou-peixe-E-sou-morto" pra cá. O cara era bonitão, uns 40 anos, num chope com amigos. Chope aqui, chope acolá, e eu de saco cheio daquela coisa manjada. É usar a estratégia empata-samba: "Filha, vem aqui ver uma coisa!". Pronto! É tiro & queda: na mesma hora o cara parou de olhar. Deu uma espiada comprida na mesa com as meninas e minha mãe, registrou a falta do componente masculino no quarteto e conclui: "Divorciada".
Sei lá, sem a menor paciência.

Palmas

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- Mamãe, o que você está fazendo?
- Arrumando as malas, filha. Vai dormir.
- Não consigo. Tá calor. O que é isso?
- Nada, ralei a mão no muro quando fui dar o remédio para a [...].
- Ficou feio, né?
- É, mas vai sumir logo.
- Eu amo as suas mãos, mamãe.
- Por que, filha?
- Elas beijam o meu rosto quando você me faz carinho.

Zé Colméia sempre diz isso. E eu jamais me canso de ouvir.

...

Ah, e por último: por favor, escrevam. Depois de tanto tempo sem comentários (praticamente o ano inteiro) se ninguém comentar vou achar que quem me escreve é apenas uma pessoa, com um monte de e-mails diferentes.
Sim, sou carente.
É, eu sei.
Um horror.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Palimpsesto

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Está tanto calor que as meninas foram dormir na rede da varanda, e eu estou acabando de arrumar as malas. E aí, enquanto vou dobrando as roupas, fazendo listas de coisas a providenciar (como alguém para alimentar os cachorros), vou pensando num milhão de coisas.
Faz mais ou menos uns 15 anos que eu, depois de ter a enésima (essa palavra está em alta, hoje :o) crise de choro por causa do ex-namorado que me deixou quase às portas do altar (e que me mandou um e-mail no ano passado, dizendo que se arrepende até hoje, mas isso é oooutra história), resolvi que, na vida, o prazo máximo que eu poderia me dar para sentir pena de mim seria de três dias.
Até hoje, acho que trapaceei umas duas vezes, e fiquei me sentindo a mais miserável das criaturas uma semana ou duas. Sentir pena de si é bom; a gente sempre deve botar a garotinha ou o menininho que temos dentro de si no colo e deixar que reclamem do mundo cruel até que alguém venha chamar para brincar.
Eu agora estou brincando. Mesmo sem emprego (mas com um trabalho à vista, que eu estou torcendo que dê certo, porque vai ser muito divertido e, o mais importante, lucrativo), estou não totalmente feliz (porque as contas continuam chegando) mas tranqüila, depois de quase oito anos sem férias, trabalhando ininterruptamente, dando à luz, me divorciando.
Estou lendo um livro atrás do outro, passeando com as meninas. Ficamos agora sempre, até a hora de dormir (Catatau é a que se rende primeiro), na varanda, contando estrelas e vendo a lua, que anda fantástica. Organizamos os álbuns de fotos, vimos vídeos antigos, conversamos, "namoramos", acordamos juntas, tomamos café da manhã tentando identificar que horas são pelo canto dos passarinhos.
É bom amar a vida.

...

Às vezes, a gente lê que uma pessoa deixou de visitar o pai ou a mãe. Ou internou-os num asilo, ou simplesmente não liga mais. Eu sempre achei isso de uma ingratidão sem par. Ora, são pai e mãe! Às vezes, isso acontece com um filho doente, ou um irmão. Hoje, depois que o Alzheimer levou dez anos para quebrar minha avó e está lentamente apagando a memória do meu pai, penso diferente.
Minha mãe me pediu que eu fosse com ela a Friburgo, onde meus pais moram, porque meu pai vai ter que fazer uma bateria pesada de exames (alguns com internação) e ela precisa de alguém para ajudar.
Quer dizer, não há nenhuma ajuda. Há, sim, duas pessoas para suportar meu pai insistindo em fumar, mesmo dentro do quarto do hospital. Recusando-se a seguir as orientações do médico. Muitas vezes, ele é grosseiro com as atendentes e enfermeiras.
Isso me cansa. Me aborrece, me irrita. Me dá uma exaustão mental acachapante. E então me sinto culpada. Muito. Porque é meu pai, e no fundo o que ele sente é um medo gigantesco de perder a consciência, o que lhe restou da saúde. E, o pior medo, perder sua dignidade.

Nas ondas da web

Eu sempre achei graça quando, abrindo minha caixa postal no Yahoo, lia aquela sandice: "Em cinco minutos, você pode estar namorando!". Ah, sim, é uma sandice.
By the way, um e-mail que chegou ontem de noite me dizia que uma amiga (na verdade, era uma amiga; a distância e o tempo fizeram dela uma conhecida querida) vai se casar em março. Ela namora o dito contra quem vai se unir desde janeiro de 2003. A história do romance: se conheceram numa sala de chat, depois levaram o namoro por seis meses por e-mail, até que se conheceram pessoalmente, quando ela resolveu ir a São Paulo conhecê-lo... e por lá ficou.
Às vezes eu tenho vontade de entrar nessas salas. Tenho vontade de namorar por e-mail. Mas aí eu me lembro de uma experiência muito dolorosa e desagradável, meu lado prático faz uma boca torta de escárnio e diz que é a maior furada do mundo.
Mas o outro lado (eu ia dizer ingênuo, mas pega mal para quem está a seis meses de fazer q* anos) me lembra sempre da minha doce amiga Maria Fabriani, feliz com seu Urso sob a aurora boreal da Suécia. Seu amor veio por e-mail.
E aí a vida segue na incerteza.
E, sim, mesmo com um monte de coisas para fazer na rua, eu estou enrolando para sair.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Extra! Extra! Extra!

Zé Colméia acaba de entrar no quarto com uma exigência peremptória: "Mamãe, você TEM que me ensinar a fazer um bebê!"
Seguida por Catatau: "Eu também quero! Por que só ela pode aprender? Eu também quero!"
- Macaca de imitação!
- Chata!
- Feia!
- Boba!
- Bacalhuda!

Que Deus me perdoe, as duas se engalfinharam e eu estou ignorando ambas solenemente. Assim elas esquecem e eu não tenho que ensinar às duas como se faz um bebê. Até porque eu mesma já quase não me lembro mais.

Últimas horas

Um crítico de um jornal americano escreveu, faz um tempo, algo como "Se você tiver apenas duas horas de vida, esqueça tudo e leia o livro tal". Eu ia morrer num dilema atroz, porque li, ao mesmo tempo, "Quando Nietzsche chorou" e "O mundo segundo Garp". O primeiro é muito bom, mas o segundo... Bom, sabe aquela história, quando todo mundo fala tanto do livro que parece que você já o leu? Pois é: estou quase 30 anos atrasada, mas valeu a pena: é um dos mais geniais romances que eu já li. Como você passar mais de 30 páginas até descobrir, no fim de um capítulo, que um personagem morreu - e você não se deu conta, apesar de todos os sinais. E o autor sabia que você não perceberia.

A vida depois de Garp

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No mundo segundo seu pai, ela sabia que era preciso ter muita energia. A sua famosa avó, Jenny Fields, classificara todos nós como Externos, Órgãos Vitais, Ausentes e Terminais. No mundo segundo Garp, no entanto, somos todos doentes terminais.

John Irving, "O mundo segundo Garp"
Editora Record, 2000

Demasiadamente humano

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Houve uma época em nossas vidas em que estávamos tão próximos que nada parecia obstruir nossa amizade e fraternidade e apenas uma pequena ponte nos separava. Quando você ia subir na ponte, eu lhe perguntei: "Você quer atravessar a ponte até mim?" Imediatamente, você deixou de querê-lo e, quando repeti a pergunta, você ficou silente. Desde então, montanhas, rios torrenciais e o que quer que separe e aliene interpuseram-se entre nós e, mesmo que quiséssemos nos reunir, não conseguiríamos. Agora, ao pensar no pontilhão, você perde as palavras e soluça e se maravilha.

Friedrich Nietzsche, "A gaia ciência"

Trecho citado por
Irvin D. Yolan, em "Quando Nietzsche chorou"
Ediouro, 1995

Sem truques

Já se vão quase dez anos em que eu fiz uma grande viagem pela Europa. Visitei França, Alemanha, Espanha, Itália e Suíça, além de Mônaco. Dessa viagem, uma das coisas que vi sempre me volta à cabeça quando estou passando por um período ruim, e o engraçado é que, na época, eu não dei tanta importância - isso é, eu vi, me admirei, e passei para a atração seguinte.
Foi num museu alemão, numa das muitas cidades alemãs que eu visitei. Era um quadro de um pintor cujo nome não guardei. A pintura se chamava "A alma humana". Quando você olhava pelo rabo do olho, o quadro retratava um monge ajoelhado, rezando, muito compenetrado. Mas, se você se virasse de frente, veria apenas um homem fazendo uma careta de raiva enquanto espremia um limão.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Aquilo que chamam de lar

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Eram duas irmãs que gostavam de brincar. A brincadeira preferida das duas era de casinha.
"Hoje eu vou ser a mamãe e você, a filhinha", disse uma.
As duas deitaram na cama e ela, como boa mamãe, acordou a outra:
"Bom-dia, meu amor! Você dormiu bem?"
"Sim, mamãe. Estou com fome!"
"Então vamos comer!".
E lá foram as duas mexer nas panelinhas.
"Opa!", disse a irmã. "Se eu sou a Filhinha, e você é a Mamãe, quem é o papai?"
"É mesmo; e o papai?"
As duas não sabiam. Quem seria o papai?
"Papai vai ser o Urso!", disse uma delas.
"Então ele vai ser o papai. Mas o que ele faz agora?"
"Não sei", disse a que era a mamãe. E as duas ficaram lá sentadas, pensando o que o papai poderia fazer na brincadeira.
"Já sei!", disse a Mamãe. "A gente acorda, eu dou um beijo no papai porque sou a Mamãe, que é a namorada dele. Você dá um beijo nele, porque você é a Filhinha. Aí ele diz: ‘Bom, vou trabalhar! Até de noite!’ e a gente esconde ele dentro do armário até acabar a brincadeira!"
E assim elas fizeram. ‘Mamãe’ deu um beijo nele porque era a mamãe e a mamãe é a namorada do papai; ‘Filhinha’ deu um beijo nele porque era a filhinha. E deixaram o urso no armário. Afinal, o papai não tinha lugar nessa brincadeira.
E assim brincaram a tarde toda, e em outras tardes. E sempre que podiam, uma era a mamãe, a outra a filhinha, e o papai era o urso – que ia sempre para o fundo do armário, porque não tinha lugar na brincadeira.
Um dia, o papai de verdade não voltou para casa. E elas foram para o quarto procurar o urso no fundo do armário.
"Ele era o papai, né?"
"É, mas agora a gente não precisa mais esconder ele no armário".
"É, não precisa mais".
O urso voltou então para sua cadeirinha. Ele não tinha lugar na brincadeira das duas, mas nenhuma delas sabia por que ele agora, mesmo sem participar daquele jogo de casinha, fazia uma falta danada.

...

Caramba! Esse blog faz, no último dia do mês, um ano de existência. Que mais parece uma década. Tempo é, mesmo, uma questão de perspectiva.

Anjos de cara limpa

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A vida segundo Catatau:

- Sabe, irmã, eu estou pensando de você é linda ou se é cara-de-pau...
- Eu não sou cara-de-pau!!!
- Calma, eu só estou pensando...

- E quando a gente morre, a gente vai pro céu?
- Sim, vamos.
[...]
- [Bem baixinho] Num balão?!

Assim falou Zé Colméia:

- Ih, filha, e agora? Faltou luz! O que a gente vai fazer agora?
- A gente pode ver televisão!
- Sem luz, filha?
- Ai, mãe, acende uma vela!

- Eu quero ter quatro filhas!
- Vai dar um trabalhão, né?
- Não tem problema, mãe: se eu não agüentar, eu devolvo umas duas pra loja.

Juntas para sempre :o)

- Corre, que você vai perder!
- O que é? O que é?
- Ali: a mamãe passa e fica magrinha!
- Que legal!
- O que é tão legal que vocês estão falando aí?
- Ali, mamãe, olha lá na televisão!
- "Chegou o método revolucionário de você diminuir até dois números do seu manequim! Slim Control! Ligue já! Polishop, soluções que facilitam a sua vida!"

- Será que ela tá acordada?
- Pára de tutucar ela!
- Mas ali, tem um mosquito no tocovelo dela!
- Tem mesmo! Acho que vai morder ela. E aí vai ficar coçando e ela vai acordar.
- Ninguém merece...

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Até logo mais

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Que não apenas em 2006, mas sempre, vocês todos possam ter nas mãos o que de mais precioso conquistarem na vida.
Eu, Zé Colméia e Catatau somos gratas pelo carinho, pelas mensagens, pelas tristezas (elas ensinam) e pelas alegrias (elas nos preparam).

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Ressaca de Natal

Emprego que é bom, necas. Mas meu Natal foi, no fim das contas, muito doce. Uma amiga veio ficar conosco, e deu para cada menina um CD-ROM das Princesas. Elas ficaram encantadas e muito emocionadas com a carta que Papai Noel deixou para cada uma. Meu presente de Natal foi também maravilhoso: embrulhado na capacidade que elas têm de me surpreender, ganhei a certeza de que tenho duas filhas maravilhosas, que me amam profundamente e que me ajudarão a construir algo de bom de toda essa situação ruim por que estou passando.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Eu confesso que...

... sou muito curiosa. Desculpe. Mas eu queria muito saber porque você sempre entra aqui pela beira do poço.

O que ele jamais entenderá

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Não sei quando a criança pára
de enxergar anjos ou de cumprimentá-los.
Se acontece por uma obediência natural

ao esquecimento, ou só depois?
Para não sofrer com os acidentes do invisível,
já que é demasiado sofrer

com o que se aprende no visível.
Essa é uma resposta que te devo.
Ficamos juntos alguns dias do mês,

as férias, e fico reparando em teus gestos
para descobrir algo do meu temperamento no teu.
Eu não te eduquei,

não te corrigi em seqüência,
sou o pai que vai voltar tarde.
Tudo o que tento ensinar não tem uma segunda

e uma terça-feira para permanecer.
Esquecemos de continuar, de completar
a frase, o assunto e a partitura.

Nossa convivência é feita de inícios,
com a memória diária de que estou ali
e tu estás ali, como duas crianças

regendo uma tempestade.
Te aproximas de mim
a segurar um objeto antigo.

Um objeto antigo que recorda
a casa que não teve. Não descobri
a forma ideal de convivência,

muito menos o que gritar
para chamar tua atenção.
O que desperta tua confiança:

A ordem ou o sussurro?
O riso contido ou desavergonhado?
O choro de frente ou murmúrio abafado?

Na hora em que me beijas,
viras o rosto lentamente,
a escapar da barba.

Herdaste até o medo da barba de tua mãe.
Herdaste os medos dela com lealdade.
Não herdaste meu medo

de não ser compreendido.
Não posso me defender
dos ataques dela,

do que ela possa dizer de mim.
Porque defender é atacar.
Atacar é destruir a casa

em que moras, a vida que tens,
o mundo que desde sempre
reverencias como teu e indivisível.

Fabrício Carpinejar, "Minha filha sem mim"
"Meu Filho, Minha Filha", inédito

Janelas

Eu não sei como isso acontece. Mas sempre que eu estou passando por dificuldades, começo a evitar olhar dentro de mim, e o resultado é que eu começo a notar cada detalhe à minha volta. Hoje, peguei um ônibus para ir ao banco, que fica no shopping. Por todo o trajeto, não conseguia parar de notar os detalhes da vida, que afinal corre mesmo que a maior das tragédias esteja acontecendo com você. Pois não é assim?
Na Praia de Botafogo, uma mulher entrou com as duas filhas. A de colo era grande, já devia ter um ano. As pernas eram tão tortas que os dedos dos pés se tocavam. A cabeça, ovalada, um olhar vazio. De vez em quando, ela balia, como um cordeiro manso que não entende o que está acontecendo.
Todos os passageiros se remexeram, desconfortáveis. A irmã mais velha, com um casaco de napa três números acima do seu, uma calça jeans que viveu dias melhores e havaianas já rotas, segurava a sacola de bebê mal arrumada. E a mãe de cabeça muito erguida, segurando e beijando com carinho seu bebê e as esperanças que um dia ela teve de que sua prole seria normal e rica.
Uma avó com sua neta - que calçava sandálias de saltos tão altos que faziam seus aparentes oito anos parecerem deslocados. O vendedor de amendoim, que falava "Cooooompre minduim, minduim, miiiiiinduiiiiin". O motorista hipnotizado pelo piercing da mocinha que catava moedas para facilitar o troco.
Um sol de rachar, uma mocinha fresquinha num vestido branco. As carrocinhas da Kibon, que quase não se vêem mais. Biscoito Globo, Geneal, carrocinhas de água de coco. Casa & Vídeo, aberta 24 horas no seu Natal.
Quando sou feliz, ignoro o mundo ao meu redor. Ignorante e feliz. Mas eu sabia.

Carnal

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Como o fogo se muda, ao erguer-se
Por sua forma mesma, que é feita para subir
Lá onde ela mais dura em sua matéria,
Assim a alma apaixonada entra em desejo,
Que é movimento espiritual, e jamais pára
Antes de ter gozado o objeto amado.

Purgatório XVIII, 28-33

Sobre jornalistas e livros

"Pois é... Eu não curti o começo, não... Parecia ser exatamente o que eu temia: americano fazendo roteiro de viagem a país exótico a partir de um fato histórico fas-ci-nan-te, sabe como é?"

"Vou dar uma olhada, mas me parece mais 'denso' do que normalmente damos na coluna. Aliás, agora, cada vez mais pop, sacana, maliciosa, leve - trocamos de Unidade novamente, e o novo diretor tem uma mão mais pop pra cultura, menos sofisticada que o anterior."
(Este é o case José Lins do Rego, vide alguns posts abaixo.)

"O livro é horrivel!!! Quer coisa mais chata, meu Deus? Mas você gostou?"

"Não sei, não. Ele é muito povo que vaga: autor-novo-perdido-em-país-estrangeiro-sem saber-pra-onde-vai-questionando-diretrizes-do-novo-milênio. E, sinceramente? Porque sou tua amiga: que capa horrível, a foto granulada... E a 'geração perdida que se perdeu'? Na orelha? Jesuscristim..."

sábado, dezembro 17, 2005

Espírito da coisa

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Hoje montei a árvore. É um pinheiro muito antigo, foi comprado na década de 60 na Zona Franca pela minha avó, que morava em Manaus. A maioria dos enfeites são de vidro e, depois de muito as meninas insistirem, botei também os passarinhos de chenile que eu tinha receio de usar. A árvore ficou linda.
Sentamos as três e perguntei: "O que vocês querem na ceia?" Zé Colméia disse macarrão com queijo; Catatau escolheu sanduíches. Essa será a ceia de Natal. Ao gosto de cada uma.
Não haverá muitos presentes este ano. Consegui devolver quase tudo o que eu comprara. Guardei apenas uma Barbie para cada uma. Elas tiraram uma foto com Papai Noel num shopping (Catatau suava nas mãos, de tão nervosa que ficou). Guardei as fotos: elas estão em porta-retratos que comprei no Saara, com motivos natalinos.
Na manhã do dia 25, as meninas encontrarão um embrulho para cada uma, um porta-retratos com a foto de cada uma com o Papai Noel e uma cartinha dele, explicando porque elas ganharam apenas um presente.
Do fundo do meu coração, espero que funcione.

...

Hoje minha senhoria veio buscar o cheque do aluguel. E avisou que infelizmente, depois de quatro anos, terá que fazer um reajuste.
Enquanto isso, nada. Ninguém se manifesta, não há vagas em lugar nenhum. As contas continuam a chegar. E o medo que eu sinto cresce a cada minuto, se mexe dentro de mim como um bicho com fome, insone e nervoso. É algo que não descansa, não dá intervalo comercial, não se levanta para ir ao banheiro e "volto já". Está ali, e a cada vez que me lembro de uma despesa meu coração parece que fica suspenso.
Eu estou com muito medo.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

...

Eu não sei o que eu fiz, ou o que eu disse. Mas eu sinto que alguma coisa se partiu entre nós duas, ficou esquecida entre Rio e Florianópolis. Algo se traduziu mal, foi mal esclarecido. Ou subentendido. Não sei. Mas alguma coisa se quebrou, esfriou, perdeu-se, evaporou-se. Sumiu. E me faz uma falta danada.

domingo, dezembro 11, 2005

Dúvida cruel

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Eu fui demitida porque não sou "fashion". Juro que ainda não entendi. Ninguém naquele escritório é fashion. O que é ser fashion? É andar bem-vestida ou andar na moda? É ter roupas diferentes ou usar o que de mais careta houver - e finalizar com um sapato surreal ou um cabelo idem?
O que é ser fashion?
Eu me lembro que, um dia, ofereci a um editor da Veja um livro de autor que tinha sido considerado nos Estados Unidos o novo Fitzgerald. Tudo bem, o cara não era, e o segundo livro dele foi um fracasso. Mas na época ninguém sabia, e o livro era realmente bom. A resposta foi gentil: "Olha, me desculpe, mas estamos dando aqui na revista somente livros que tenham uma levada mais pop". Na semana seguinte, a Veja saiu com a resenha de um livro de José Lins do Rego.
Ignorante era eu, que não sabia que Zé Lins do Rego era pop.

In cena

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Eu queria, este ano, levar as meninas para assistirem ao "Quebra-Nozes" no Municipal do Rio. Este ano não vão apresentar. Em seu lugar, estão acontecendo encenações de "A bela adormecida". Mas de qualquer maneira que você tente conseguir os ingressos, você não encontrará mais nem balcão nobre nem platéia. E eu estou tentando há três semanas. Sempre para as apresentações seguintes. Nunca eles têm ingressos decentes. E o que me dá mais ódio é quem tenta me engabelar:
- Olha, temos ainda balcão simples, primeira fila.
- Que bom. Que cadeiras?
- 55, 57 e 59.
- Que ótimo. A gente fica na frente pra ver os bailarinos saltitando, entrando e saindo das coxias, né?

sexta-feira, dezembro 09, 2005

E já que eu saí...

O Papai Noel de um shopping de Niterói dá aulas de passarela.
Deu pra imaginar? Ligue os pontos: rotundo, perninhas curtas, aulas de passarela.
Muito fashion.

Grand finale, parte 2

Ah, esqueci de contar o motivo da demissão:
Eu não sou fashion o suficiente para o cargo.

Grand finale

Fui demitida. Como cotista, não tenho carteira assinada: sem direito, portanto, a fundo da garantia, indenização, seguro-desemprego. Meu salário do mês e só. A dona da empresa, magnânima, vai me pagar o mês inteiro e mais metade das minhas férias.
E 2005 fecha, com chave de ouro, sua passagem pela minha vida.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Cenas de um shopping

Cena 1: Uma senhora já entrada na casa dos 60 (se não tinha isso, parecia): "Por favor, você sabe onde fica a loja da Gang?". "É ali." "Vamos lá, fulana. Será que eu consigo um jeans bem cachorra para usar em Copacabana no réveillon?"

Cena 2: Papai Noel, sentado em seu trono dourado: "Olha aqui, sua piranha, eu estou trabalhando. Não me encha o saco e pára de ligar pro meu celular!!!. [...] Pois não, qual é o seu nome? Ah, Ana Maria, você foi boazinha durante o ano?"

Cena 3:
- Alô, controle, temos um homem bêbado caído no corredor XX do segundo piso."
- Ah, com licença, esse homem não está bêbado, ele está tendo um ataque epiléptico.
- Controle, retificando: temos um homem "pilético" aqui no corredor XX, em frente à loja TAL, perto do McDonald's.
- Bzz, Fulano, não estou copiando direito. Um homem de pileque, é isso?
- Central, um homem "PILÉTICO".
- Bzz, Fulano, favor encaminhar o homem de pileque à saída.
- Puta que o pariu, Central, o cara tá tendo um ataque!
- Bzz, Fulano, estou mandando reforço. Tente conversar com ele que vou deslocar Sicrano para o local.
- Cara, como vou conversar com ele se o cara tá se babando todo? Isso pega?

domingo, dezembro 04, 2005

Todos perderam. Inclusive eu.

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Faz mais ou menos um mês que eu tive a última discussão com o pai das meninas. A velha história de sempre. Mas, dessa vez, eu tomei uma decisão que, no começo, pesou muito, mas agora eu vejo que não está fazendo muita diferença.
Sempre argumentei que, se ele não queria ser pai - ser PAI, com todas as letras em maiúscula, significando que teria que tomar parte nos deveres e nos direitos - que ele não iria mais ver as meninas. Que fosse no juiz, que reclamasse, que contratasse advogado, que fosse fazer sua chacrinha no tribunal. E ele não fez nada.
As meninas passam agora todos os fins de semana comigo. Ele liga, às vezes, durante a semana, e assim mesmo por brevíssimos minutos. E, surpreendentemente, as meninas até agora não notaram que não vêem o pai há quase um mês. Não perguntaram nada, não reclamaram.
Eu não estou feliz, nem um pouco. Fico profundamente triste em ver quão pouco relevante a figura do pai é para as minhas filhas. Mas eu também sei que isso seria para mim um motivo de amargura eterna ter que ficar com toda a parte dos deveres, trabalhando feito uma insana, pagando contas financeiras e psicológicas, assumindo sozinha toda a criação delas - enquanto ao pai caberia a tarefa de propiciar sempre passeios e viagens maravilhosos, com o dinheiro que deveria ser empregado para, por exemplo, numa reforma do quarto delas, que está com tantas infiltrações que ambas dormem na minha cama há meses.
Sim, elas merecem se divertir e viajar. No fim de outubro, antes de eu receber meu salário, ele foi para Teresópolis e disse que ia levá-las - e eu não deixei. Ele foi sozinho, com o carro repleto de compras de supermercado. E as meninas dividiram, por dois dias, a última comida que eu tinha em casa: quatro pacotes de Miojo. E ele viajou sabendo disso. E não se importou.

Bom-dia com Doriana

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During WW2, butter was somehow needed for munitions manufacture, and a substitute for the American public was needed. Margarine was originally manufactured to fatten turkeys. When it killed the turkeys, the people who had put all the money into the research wanted a payback so they put their heads together to figure out what to do with this product. It was a white substance with no food appeal so they added a yellow coloring and sold it to people to eat. When margarine first came on the market you had to mix in the "color" packet to make it yellowish. It was called ‘butter yellow’ which thru a relatively short period of time, was found to make people sick. This led to beta carotene being substituted, for coloring. If you find people to ask, they will remember the old Butter Yellow, when it was introduced.

Generally, fat increases the absorption of protein, and obviously fat soluble vitamins. Much to both shock and humor of my patients, I have also been telling my patients that they can put the margarine on a plate outside, and come back in 20 years, and it’ll look exactly the same.- barring any heat induced melt factor. No bugs, no mold, no nothing.
Margarine is only ONE MOLECULE away from being PLASTIC...
You can try this little test for yourself:
Purchase a tub of margarine and leave it in your garage or shaded area. Within a couple of days you will note
No flies, not even those pesky fruit flies will go near it (that should tell you something). It does not rot or smell differently because it has no nutritional value; nothing will grow on it.

Lendo esse artigo que ela está traduzindo, me lembrei de um dia em que minha irmã comprou um saco imenso daqueles salgadinhos tipo cheetos para meus sobrinhos comerem. Não era Elma Chips, o mais palatável da família. Ela um salgadinho-tubaína, se é que me entendem. Eu e minha mãe ficamos olhando aquele sacão gordurento até que ela, num daqueles lampejos raros mais saborosos, olhou pra mim e perguntou: "Será que isso pega fogo?" Perguntou e já foi pegando um pratinho. Fez uma pilha de salgadinhos, como uma minifogueira, e ajeitou um fósforo aceso no meio. Acendeu e queimou que foi uma beleza.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Cenas proibidas

Acabo de receber a visita do meu amigo Lee, morador de Los Angeles e frequëntador assíduo da Cidade Perigosa (ex Maravilhosa). Lee sempre procura a maneira mais barata e conveniente para viajar a longa distância entre a Califórnia e o Rio. Dessa vez, veio de Lan Chile.
Primeira classe, ótimos vinhos, vôos contando pontos para sua vultosa conta de milhas AAdvantage, da American Airlines. Viagem aprovada, apesar das paradas em Santiago e Lima no caminho de volta para casa. Sem saber, no entanto, meu caro amigo fora testemunha de um fato que está gerando uma crise diplomática entre o Chile e o Peru.
No trecho de Santiago à Lima, a programação de entretenimento no avião inclui um filme sobre a capital peruana. Na tela, paisagens da cidade mostravam cenas de homens urinando na rua. Para quem mora, ou freqüenta o Brasil, tal ato de desrespeito e falta de educação não choca. No entanto, mostrar no filme não foi boa idéia.
A notícia correu rápido. Chegou aos ouvidos do governo peruano. Segundo a rádio BBC, de Londres, a empresa aérea chilena será processada judicialmente pelo pais vizinho. Com toda essa perturbação no ar, é melhor não ser pego desprevenido. Antes de sair de casa, consulte o site The Bathroom Diaries, que oferece dicas para você encontrar mais de 6 mil banheiros públicos, espalhados por 100 países.

Do blog Mapa Mundi, do Globo, escrito pelo Eduardo Alves. Pena que faz tempo que não é atualizado.

...

Blog é outra coisa. No blog, você queima os navios.

Nei Duclós, jornalista de Santa Catarina

Resoluções

Decidi que vou encontrar alguém em 2006. Já recebi não sei quantos e-mails de ex-divorciadas com filhos que se casaram, ou namoram, ou juntaram, ou sei lá, de novo.
Bom, se as meninas querem que a mãe namore de novo (e não precisa ser o pai delas, graças), quem sou eu pra discordar?

Off juvenil

Do Blue Bus: Howard Stapleton, morador de Barry, no País de Gales, inventou um repelente de adolescentes. Batizou sua criaçao de Mosquito (pequeno e irritante). É uma caixa, com um pequeno alto-falante, que emite um som em alta frequência. É ouvido por quem tem menos de 20, mas dificilmente é percebido por quem tem mais de 30. O público-alvo do equipamento são lojistas interessados em afastar turmas de adolescentes que se reúnem nas calçadas, diante das lojas, perturbando clientes e vendas.

Você sabe que está ficando velha e rabugenta quando quer ver um desse em cada canto da cidade...

Desaparecidos

Não venho aqui há tanto tempo que esqueci a senha do blogger. Digitei um monte até conseguir entrar.
Que isso não se repita, hein? :o)