domingo, dezembro 11, 2005

In cena

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Eu queria, este ano, levar as meninas para assistirem ao "Quebra-Nozes" no Municipal do Rio. Este ano não vão apresentar. Em seu lugar, estão acontecendo encenações de "A bela adormecida". Mas de qualquer maneira que você tente conseguir os ingressos, você não encontrará mais nem balcão nobre nem platéia. E eu estou tentando há três semanas. Sempre para as apresentações seguintes. Nunca eles têm ingressos decentes. E o que me dá mais ódio é quem tenta me engabelar:
- Olha, temos ainda balcão simples, primeira fila.
- Que bom. Que cadeiras?
- 55, 57 e 59.
- Que ótimo. A gente fica na frente pra ver os bailarinos saltitando, entrando e saindo das coxias, né?

sexta-feira, dezembro 09, 2005

E já que eu saí...

O Papai Noel de um shopping de Niterói dá aulas de passarela.
Deu pra imaginar? Ligue os pontos: rotundo, perninhas curtas, aulas de passarela.
Muito fashion.

Grand finale, parte 2

Ah, esqueci de contar o motivo da demissão:
Eu não sou fashion o suficiente para o cargo.

Grand finale

Fui demitida. Como cotista, não tenho carteira assinada: sem direito, portanto, a fundo da garantia, indenização, seguro-desemprego. Meu salário do mês e só. A dona da empresa, magnânima, vai me pagar o mês inteiro e mais metade das minhas férias.
E 2005 fecha, com chave de ouro, sua passagem pela minha vida.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Cenas de um shopping

Cena 1: Uma senhora já entrada na casa dos 60 (se não tinha isso, parecia): "Por favor, você sabe onde fica a loja da Gang?". "É ali." "Vamos lá, fulana. Será que eu consigo um jeans bem cachorra para usar em Copacabana no réveillon?"

Cena 2: Papai Noel, sentado em seu trono dourado: "Olha aqui, sua piranha, eu estou trabalhando. Não me encha o saco e pára de ligar pro meu celular!!!. [...] Pois não, qual é o seu nome? Ah, Ana Maria, você foi boazinha durante o ano?"

Cena 3:
- Alô, controle, temos um homem bêbado caído no corredor XX do segundo piso."
- Ah, com licença, esse homem não está bêbado, ele está tendo um ataque epiléptico.
- Controle, retificando: temos um homem "pilético" aqui no corredor XX, em frente à loja TAL, perto do McDonald's.
- Bzz, Fulano, não estou copiando direito. Um homem de pileque, é isso?
- Central, um homem "PILÉTICO".
- Bzz, Fulano, favor encaminhar o homem de pileque à saída.
- Puta que o pariu, Central, o cara tá tendo um ataque!
- Bzz, Fulano, estou mandando reforço. Tente conversar com ele que vou deslocar Sicrano para o local.
- Cara, como vou conversar com ele se o cara tá se babando todo? Isso pega?

domingo, dezembro 04, 2005

Todos perderam. Inclusive eu.

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Faz mais ou menos um mês que eu tive a última discussão com o pai das meninas. A velha história de sempre. Mas, dessa vez, eu tomei uma decisão que, no começo, pesou muito, mas agora eu vejo que não está fazendo muita diferença.
Sempre argumentei que, se ele não queria ser pai - ser PAI, com todas as letras em maiúscula, significando que teria que tomar parte nos deveres e nos direitos - que ele não iria mais ver as meninas. Que fosse no juiz, que reclamasse, que contratasse advogado, que fosse fazer sua chacrinha no tribunal. E ele não fez nada.
As meninas passam agora todos os fins de semana comigo. Ele liga, às vezes, durante a semana, e assim mesmo por brevíssimos minutos. E, surpreendentemente, as meninas até agora não notaram que não vêem o pai há quase um mês. Não perguntaram nada, não reclamaram.
Eu não estou feliz, nem um pouco. Fico profundamente triste em ver quão pouco relevante a figura do pai é para as minhas filhas. Mas eu também sei que isso seria para mim um motivo de amargura eterna ter que ficar com toda a parte dos deveres, trabalhando feito uma insana, pagando contas financeiras e psicológicas, assumindo sozinha toda a criação delas - enquanto ao pai caberia a tarefa de propiciar sempre passeios e viagens maravilhosos, com o dinheiro que deveria ser empregado para, por exemplo, numa reforma do quarto delas, que está com tantas infiltrações que ambas dormem na minha cama há meses.
Sim, elas merecem se divertir e viajar. No fim de outubro, antes de eu receber meu salário, ele foi para Teresópolis e disse que ia levá-las - e eu não deixei. Ele foi sozinho, com o carro repleto de compras de supermercado. E as meninas dividiram, por dois dias, a última comida que eu tinha em casa: quatro pacotes de Miojo. E ele viajou sabendo disso. E não se importou.

Bom-dia com Doriana

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During WW2, butter was somehow needed for munitions manufacture, and a substitute for the American public was needed. Margarine was originally manufactured to fatten turkeys. When it killed the turkeys, the people who had put all the money into the research wanted a payback so they put their heads together to figure out what to do with this product. It was a white substance with no food appeal so they added a yellow coloring and sold it to people to eat. When margarine first came on the market you had to mix in the "color" packet to make it yellowish. It was called ‘butter yellow’ which thru a relatively short period of time, was found to make people sick. This led to beta carotene being substituted, for coloring. If you find people to ask, they will remember the old Butter Yellow, when it was introduced.

Generally, fat increases the absorption of protein, and obviously fat soluble vitamins. Much to both shock and humor of my patients, I have also been telling my patients that they can put the margarine on a plate outside, and come back in 20 years, and it’ll look exactly the same.- barring any heat induced melt factor. No bugs, no mold, no nothing.
Margarine is only ONE MOLECULE away from being PLASTIC...
You can try this little test for yourself:
Purchase a tub of margarine and leave it in your garage or shaded area. Within a couple of days you will note
No flies, not even those pesky fruit flies will go near it (that should tell you something). It does not rot or smell differently because it has no nutritional value; nothing will grow on it.

Lendo esse artigo que ela está traduzindo, me lembrei de um dia em que minha irmã comprou um saco imenso daqueles salgadinhos tipo cheetos para meus sobrinhos comerem. Não era Elma Chips, o mais palatável da família. Ela um salgadinho-tubaína, se é que me entendem. Eu e minha mãe ficamos olhando aquele sacão gordurento até que ela, num daqueles lampejos raros mais saborosos, olhou pra mim e perguntou: "Será que isso pega fogo?" Perguntou e já foi pegando um pratinho. Fez uma pilha de salgadinhos, como uma minifogueira, e ajeitou um fósforo aceso no meio. Acendeu e queimou que foi uma beleza.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Cenas proibidas

Acabo de receber a visita do meu amigo Lee, morador de Los Angeles e frequëntador assíduo da Cidade Perigosa (ex Maravilhosa). Lee sempre procura a maneira mais barata e conveniente para viajar a longa distância entre a Califórnia e o Rio. Dessa vez, veio de Lan Chile.
Primeira classe, ótimos vinhos, vôos contando pontos para sua vultosa conta de milhas AAdvantage, da American Airlines. Viagem aprovada, apesar das paradas em Santiago e Lima no caminho de volta para casa. Sem saber, no entanto, meu caro amigo fora testemunha de um fato que está gerando uma crise diplomática entre o Chile e o Peru.
No trecho de Santiago à Lima, a programação de entretenimento no avião inclui um filme sobre a capital peruana. Na tela, paisagens da cidade mostravam cenas de homens urinando na rua. Para quem mora, ou freqüenta o Brasil, tal ato de desrespeito e falta de educação não choca. No entanto, mostrar no filme não foi boa idéia.
A notícia correu rápido. Chegou aos ouvidos do governo peruano. Segundo a rádio BBC, de Londres, a empresa aérea chilena será processada judicialmente pelo pais vizinho. Com toda essa perturbação no ar, é melhor não ser pego desprevenido. Antes de sair de casa, consulte o site The Bathroom Diaries, que oferece dicas para você encontrar mais de 6 mil banheiros públicos, espalhados por 100 países.

Do blog Mapa Mundi, do Globo, escrito pelo Eduardo Alves. Pena que faz tempo que não é atualizado.

...

Blog é outra coisa. No blog, você queima os navios.

Nei Duclós, jornalista de Santa Catarina

Resoluções

Decidi que vou encontrar alguém em 2006. Já recebi não sei quantos e-mails de ex-divorciadas com filhos que se casaram, ou namoram, ou juntaram, ou sei lá, de novo.
Bom, se as meninas querem que a mãe namore de novo (e não precisa ser o pai delas, graças), quem sou eu pra discordar?

Off juvenil

Do Blue Bus: Howard Stapleton, morador de Barry, no País de Gales, inventou um repelente de adolescentes. Batizou sua criaçao de Mosquito (pequeno e irritante). É uma caixa, com um pequeno alto-falante, que emite um som em alta frequência. É ouvido por quem tem menos de 20, mas dificilmente é percebido por quem tem mais de 30. O público-alvo do equipamento são lojistas interessados em afastar turmas de adolescentes que se reúnem nas calçadas, diante das lojas, perturbando clientes e vendas.

Você sabe que está ficando velha e rabugenta quando quer ver um desse em cada canto da cidade...

Desaparecidos

Não venho aqui há tanto tempo que esqueci a senha do blogger. Digitei um monte até conseguir entrar.
Que isso não se repita, hein? :o)

sexta-feira, novembro 11, 2005

Eu confesso que...

... entro em lojas de produtos naturais, que vendem grãos naqueles sacos imensos de juta, só para enterrar meu braço até o cotovelo em feijão, lentilha ou arroz - lentilhas e arroz são deliciosamente friozinhos!
É tara, mesmo. Incurável.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Palavras sobre o nada

Häagen Dazs não quer dizer nada. Foi criado em Nova York pela família Mattus para soar como algo dinamarquês.
Kodak não quer dizer nada. É um nome que pode ser dito claramente em qualquer língua.
Kangoo não quer dizer nada. Foi um computador que misturou letras e criou o nome do carro da Renault.
E depois tem gente que acha esquisito quando, no IMDB, encontra páginas em klingon.

...

Todo dia eu leio coisas somente pelo prazer de me irritar.
Vá entender...

terça-feira, novembro 08, 2005

Morte cerebral

Estou viciada em palavras cruzadas. Não consigo parar de jogar. Comprei das mais simples às mais difíceis - isso porque as meninas reclamaram que eu não deixava nenhuma das duas jogar no computador, e o CD-ROM é delas.
As curvas do meu cérebro estão sumindo. Pra trabalhar aqui, só fazendo chapinha japonesa mental. Não sei se vou sobreviver a isso.

sábado, novembro 05, 2005

Você achou?

Lendo o que escrevi em posts muito antigos, sinto falta daquela Suzana que tinha tempo e disposição para olhar pela janela do ônibus.
Eu a perdi em algum ponto da estrada. Estou sentindo saudades dela.
Acho que vou voltar no caminho para ver se consigo encontrá-la. Está fazendo uma baita falta por aqui.

50%

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Tenho me perguntando insistentemente nos últimos tempos se é possível amar alguém sem sentir paixão. Ou o que é melhor: viver uma paixão que se apresenta e que, com certeza, não tem futuro, ou ficar com o amor que será para sempre, mas eternamente sem paixão?
O que é melhor? Não sei. Estou naquela fase da vida em que a pergunta não é essa, e sim "O que dói menos?"

Echar de menos

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Do outro lado da cordilheira, já vi que você veio dar uma espiadela. Saudades, moço :o)

Franjas do destino

Isso é uma brincadeira que aprendi com ela. Digite "seu nome + needs", assim mesmo, entre aspas, na caixa de busca do Google e anote os 10 primeiros resultados.

Com "Suzana precisa", achei só duas coisas:

Suzana precisa de você!
Suzana precisa é enfrentar a si mesma, desligar o computador e sair a campo para descobrir temores e limitações ao vivo e a cores.

E depois tem gente que ri quando alguém diz que o Google é o oráculo dos tempos modernos... :o)

À beira do poço

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A pior coisa que se pode experimentar é a insatisfação. Sentimento que tenho à exaustão esses últimos meses.
Sim, estou no emprego errado. E provavelmente muita coisa anda errada na minha vida, mas mudar como? Pedindo demissão e vivendo de seguro-desemprego (e por quatro meses, somente)? E para quê?
Ontem a diretora do escritório me chamou (e eu fiquei boba, porque não entendi o porquê) para uma reunião via telefone com a nossa matriz em Chicago e mais o vice-presidente de uma empresa que começou contrato conosco na segunda passada. Fiquei ouvindo (dizer o quê?) e, terminada a reunião, recebi um calhamaço de informações confidenciais sobre os planos da empresa pelos próximos dois anos (incluindo fechamento e abertura de unidades, no Brasil e no mundo).
Sinto falta dos meus livros. Sinto falta de ficar hora e meia conversando fiado e literatura por telefone com autores e jornalistas de cultura. Sinto falta de fuçar livrarias, sebos, as estantes de escritores. Sinto falta.
Mesmo ganhando mais, o salário não compensa. Não paga essa paralisia mental que anda me atormentando e que me faz ler as revistas semanais de trás para a frente. Que me fez chorar durante o trajeto de volta do Riocentro, porque eu havia estado lá não por causa de uma bienal, mas em razão de uma feira de turismo.
Sempre achei que trabalharia em qualquer coisa e tiraria prazer de todo emprego em que eu estivesse.
Erro meu.

...

Levo as meninas para a escola às 7h, todos os dias. E vejo que tem gente bebendo a essa hora da manhã. Não digo os rotulados pinguços, que viram cachaça e conhaque vagabundo nem bem acordam. Falo da cerveja como café da manhã.
Sinto um desprezo sem tamanho, que Deus me perdoe.
Odeio gente bêbada.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Caríssima

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Há muito tempo (parecem anos, mas foi a menos de seis meses), eu disse aqui que invejava quem conseguira conservar seus amigos de infância. Eu tenho poucos amigos, nenhum da minha infância. Meus amigos conto-os nos dedos das mãos. Diferentemente do que muita gente acha, considero amigo aquela pessoa que liga sem avisar, pergunta como você está, desliga e vai viver a vida, sabendo que você faz parte dela. Seja num estado no extremo do país, numa reserva africana, no Brooklin ou na casa vizinha, aquela pessoa está ali, do outro lado da porta, do telefone ou do terminal.
Amigos são aqueles com quem você jamais tomou um chope, mas sabe a quantas anda seu medo de dormir no escuro. Das suas preocupações com o futuro dos filhos. Da tristeza da separação da mãe ou do esquecimento do pai. É aquele e-mail que pinga na sua caixa postal não porque é seu aniversário e o protocolo pede ao menos um "Felicidades!", mas porque "Eu estava aqui navegando e me lembrei que você gosta de café com leite".
Eu sei que você está ocupada, trabalhando demais, batalhando como sempre fez. Eu também estou assim, e a gente acaba sabendo uma da outra pelos nossos blogs.
Então, por isso eu escrevo aqui: saudades de você, querida. Muita. Se cuida, tá?

À mesa

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Roubei essa foto dela: pra mim, é a exata tradução de um prato perfeito.

Defaut

Eu não vinha aqui há tempos não por falta do que dizer. As meninas andam filosofando furiosamente em suas cadeirinhas de carro, principalmente depois que contei a elas que, antes de me casar com o pai, eu era uma feiticeira que tinha cabelos compridos, voava numa vassoura e fazia bruxarias (aliás, fiz algumas poções com elas, como chá de erva-doce para dormir e camomila para deixar o cabelo de ambas douradinhos :o)
É que uma enxurrada de problemas desembocou na minha porta, de uma dívida de R$ 20 mil até uma dor crônica nas costas, passando pelo agravamento do Alzheimer do meu pai, enxugamento no escritório onde trabalho (e, conseqüentemente, mais trabalho para quem teve a sorte de garantir seu emprego) e uma crise interna que me fez perguntar "Mas que merda, o que eu estou com a minha vida?"
Mas eu aprendi que, quando a gente chega num limite, as coisas se encaixam naturalmente nos lugares ou tomam um rumo que você não tem como determinar. Descem junto com a correnteza e vão embora para um destino, para uma solução que você não tem o poder de evitar ou mudar.
Eu não tenho R$ 20 mil. Então, por mais que eu me desespere, não tenho como resolver. Resolvido está? Não, isso vai levar tempo, mais trabalho. Mas vai ser resolvido. O amanhã não será adiado porque simplesmente eu quero que assim seja. Tudo o mais vai pelo mesmo caminho. Existe um limite para a minha ação. Minhas prioridades são minhas filhas. Mais do que isso: elas são a única certeza que tenho na vida. Aconteça o que acontecer, elas serão minhas filhas.
O resto... é o resto. Vai passar.

Once upon a time

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Procura-se uma moça
que seja tão delicada,
que seja quase uma rosa,
que seja quase uma fada,
como uma flor de lis,
para casar com o princês
e ser pra sempre feliz!

Eu tive que chegar às portas dos 40 anos para saber de todo o prazer que é namorar no portão de casa. :o)

Traças

Há muito eu procuro um livro do Cortázar chamado "Os autonautas da cosmopista". Editado pela Brasiliense na década de 80, virou artigo raríssimo. A dona de um sebo onde eu deixava um terço do meu salário me disse que, em 14 anos, teve um exemplar em mãos apenas uma vez. Bom, achei uma loja que promete o impossível: achar livros esgotados, raros, sumidos. Chama-se Livros Difíceis. A loja fica na Barra da Tijuca, aqui no Rio, mas eles aceitam encomendas pela internet.
Ah, sim, já pedi seis títulos. Além do livro do Cortázar.

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

"Havia coisas esquisitas, como acordar com Pagu (Patrícia Galvão) ou Mário Pedrosa dormindo no sofá verde da biblioteca, depois da soirée regada à vinho nos salões da rua Guadelupe. Ou vê-los serem despertados com a chegada da gorda Odette, a chapeleira francesa de minha avó. Se, por um lado, eu não gostava de beijá-la por causa do cheiro de suor misturado com o perfume de seus extravagantes vestidos de pura seda ou crepe Georgete, por outro lado adorava vê-la pregar e arrumar as pétalas de uma flor de tecido, contar anedotas ou falar de maneira ligeira sobre moda. Ela dizia que as mulheres, depois de uma certa idade, deveriam sempre usar algo imponente: "Quando você usa um grande laço, colar, broche ou chapéu, ninguém repara no tamanho do seu traseiro!" afirmava a sábia e espalhafatosa Odette sacolejando os grandes seios com a explosão de suas gargalhadas."

Credo! Se inveja matasse meu passamento já estaria há muito na lista das missas de mês.

sexta-feira, outubro 21, 2005

By the way

Muitas reviravoltas, coisas atropelantes e acachapantes. Tantas, em tal quantidade, que eu resolvi sair do palco e sentar na platéia até o roteiro voltar a ser inteligível.
Quando todos pararem de gritar e eu conseguir me fazer ouvir, eu volto.

quinta-feira, outubro 13, 2005

12 de outubro

O dia começou ontem num bom café da manhã com pratos de louça estalando de novos da Hello Kitty e copos idem. Emendamos com uma sessão de "Barbie e o cavalo alado", versão em 3D (com óculos especiais). Pausa para um almoço pra lá de trash (com muito hambúrguer e batata frita, e sorvete de sobremesa) e emendamos com uma tarde desembaraçando e fazendo cachos nos cabelos de todas as princesas Barbie, uma hora de Clube das Winx, um desfile de modas da Polly, concurso de quebra-cabeças e entardecer abraçadinhas na varanda.
Banho cedo, jantar-lanche com festival de biscoitos de chocolate, arrumação das fantasias para usar hoje na escola e cama, nós três emboladas assistindo "Robôs".
Um Dia das Crianças completa e absolutamente sem dinheiro, mas muitíssimo feliz.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Pense como quiser

Foram três vezes:
1 - Quando eu tinha dez anos, fui morar numa cidade do interior de São Paulo. Foram dois anos em Mogi das Cruzes, numa casa modesta mas muito bonita. Tivemos nosso primeiro cachorro, a cidade tinha uma rua principal, chamada de "Rua dos Bancos". Um hotel bom, duas escolas (uma pública e uma particular), a igreja matriz na praça principal.
Na turma da minha irmã, havia um moleque chamado Rodrigo. Digo moleque porque ele era muito, muito levado, daqueles moleques do interior, que gostava de jogar bola de gude, subir em árvore, vivia de joelho ralado, rosto sujo. A mãe era a professora de artes plásticas, uma japonesa micra, delicadinha. O pai era dono de uma lojinha de uniformes.
Um dia, o Rodrigo não foi à aula. Resolveu pular a janela do quarto dele à noite para ir buscar, junto com o irmão mais velho, uma porção de garrafas que estava no lixo do Mogi Tênis Clube, depois de uma daquelas festas de debutantes tão comuns. O pai deu-lhe um tiro, achando que fosse um assaltante. Era um homem de bem. Rodrigo tinha 13 anos.
2 - Aos 12 anos, fui morar em Salvador. Morávamos numa bela casa, num bairro só de condomínios chamado Caminho das Árvores. A nossa casa tinha piscina, dois andares, muitas varandas e até uma horta. Meu pai, que começou a ficar paranóico com seqüestros e assaltos, não satisfeito com dois filas que compramos, ainda incrementou o arsenal com dois revólveres e uma espingarda. Ensinou a mim e à minha irmã a atirar (meu irmão já sabia, pois seguiu carreira militar).
Em 12 anos, nossa casa foi assaltada uma única vez, no dia da formatura da minha irmã: presumimos que fora um garoto que entrara pela janela do banheiro, muito pequena, e acabara encurralado no quarto dos meus pais, pois nossa dálmata dormia dentro de casa. Ele levou as armas do meu pai. Da espingarda nunca mais ouvimos falar, mas os revólveres apareceram logo depois: um foi apreendido numa batida numa favela, o outro foi usado para fuzilar o dono de uma lotérica. Até hoje tenho o recorte do jornal A Tarde: deixou dois filhos e mulher. Meu pai chegou a conhecê-la, porque foi chamado à delegacia para mostrar o registro da arma.
Meu pai é um homem de bem, e continua com armas dentro de casa: uma pistola e dois revólveres.
3 - Eu estava grávida da Catatau, Zé Colméia dormindo na cadeirinha. Estávamos no centro da cidade, quando um carro saiu do nada e nos fechou. O motorista devia ter uns 40 anos. Havia uma mulher no carona e atrás, também uma criança, dos seus três anos. O carro, uma Blazer branca. Meu ex-marido reclamou, num ato reflexo. A Blazer emparelhou e nos jogou para um posto de gasolina ali na Praça da Bandeira. O cara saltou, braço pra baixo, e encostou na janela do motorista. Arma na mão, só disse isso: "Seu babaca, agora reclama, vai". A arma encostada no vidro, o cara olhando para Zé Colméia atrás. E quando um frentista se aproximou, ele abaixou o braço, encostou a arma no corpo e foi embora. Ele parecia um homem de bem.

Quando eu trabalhava em jornal, um policial civil (que perdera o filho num assalto, quando ele tentou reagir) me disse que o maior problema é o freio moral: "Quem tem arma hesita milésimos de segundo, o suficiente para o cara que está assaltando você te desarmar ou matar alguém. Ele não tem nada a perder. Você tem." Eu sou a favor do desarmamento E de uma polícia eficiente. Achar que o certo é viver em Dodge City é acabar como na Flórida, onde foi aprovada uma lei em que você pode atirar primeiro e perguntar depois.

domingo, outubro 02, 2005

Salvo na base

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E por falar em beisebol, há muito tempo eu estava assistindo a um filme que nem me lembro mais qual era. Estava um saco, porque era todo baseado nas regras do beisebol, e parece que ninguém entende aquele jogo, a não ser americano. Então, eu resolvi que ia entender de beisebol. E aprendi as regras, os recordes, os nomes mais famosos, até o apelido do campo, chamado de "diamante".
Fiz isso também com futebol americano (que acabei aprendendo a gostar), com pôquer e estava tentando aprender bridge. Mas, como o inglês é o americano com PhD, desisti. É muuuuuuuuuiiiiiiiiito chato...

The magazine for men

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A Revista Esquire está disponibilizando todas as as suas capas, desde 1933. É um passeio muito legal. A revista aí de cima é a do mês do meu nascimento. Vale a visita ver a evolução das capas, cada uma mais legal do que a outra.

Corações em pedaços

No próximo dia 8, as meninas vão participar de um evento na escola. Ambas vão apresentar números de dança, com suas respectivas turmas. Sintam os dramas.

Drama nº 1:
- Olha, mamãe, olha no papel o meu vestido qual é!!!
- Calma, Catatau, vamos ver... Aqui diz: "Short e camiseta cinzas".
- ...
- Que foi, filha?
- Eu vou... dançar... com o uniforme da escola?

Drama nº 2:
- O que está escrito aqui, mamãe?
- Peraí! Deixa eu ver! Hummm... "Adereços: cabelos cacheados."
- Oba! Vou dançar de peruca!

Drama nº 3:
Catatau vai ser um elefantinho :o) Bom, no dia seguinte, já estava com todos os argumentos enfileirados para discutir com a professora porque minha pequena ia dançar com uma roupa cinza parecendo o uniforme do colégio quando vi que tinha que pegar a senha: já havia uma horda de mães ensandecidas questionando a mesma coisa. A professora, diplomática, liberou uma difusa "roupa cinza", que entreguei nas mãos de fada de D. Gilda, a dona de uma lojinha de roupas infantis que aceita encomendas. Ela desenhou um vestido cinza-mescla com babadinhos cor-de-rosa por baixo. Completam o figurino meia-calça rosa e sapatilhas da mesma cor.

O drama nº 3, aliás, não era esse: isso é só uma parte. O verdadeiro drama à la Glória Magadan é que, enquanto a roupa de uma parecia uniforme, na agenda da Zé Colméia, que vai dançar uma valsa, dizia: "Vestido de baile, luvas, meias e sapatos (excetuando-se tênis)."

sexta-feira, setembro 30, 2005

Africae

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[Suzana], querida;

[...] Entre gnus e rinocerontes, sobrevivo só pensando que, em algum lugar deste planeta, não chove. Aqui há verdadeiras torrentes que inundam tudo. Só para depois descer um calor insuportável e subir um nevoeiro que, pelo menos, espanta os mosquitos.
Tudo bem? Cintia e Roberto vieram ao acampamento há duas semanas. Hoje estou na casa do administrador do parque, e quase não acreditei quando encontrei minha caixa postal com a capacidade quase estourada. Digo isso para te pedir um favor: liga para a minha mãe. Como é aquela história? "Quando Deus se deu conta que realmente não poderia estar em todos os lugares, inventou a mãe judia". É isso. Ela está à morte, achando que vou ser comido por um leão.
Por falar nisso, assim que cheguei aqui tive a oportunidade de tratar de um. Ou melhor, não consegui fazer nada: o bicho estava tão mal que só pudemos sacrificá-lo. É duro ver o quanto se é impotente no meio dessa terra. Aliás, esqueci de dizer. Se parar de chover ao menos três dias, no fim aparecem aquelas florzinhas redondas (tá muito gay essa conversa ;-) e o vento sopra e a impressão que se tem é de que está nevando. [...]
Saudades, moça. Se Deus quiser estou aí em dezembro.
Do teu Daktari de araque, beijoca nas três meninas
Felipe

Já me disseram

Eu estou no emprego errado.
Tô sabendo.

Adieu, mes enfants

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Se eles não empregarem mais ninguém, se as contas continuarem a migrar para o escritório de São Paulo, enfim, se tudo der errado, em fins de novembro eu vou pra lá.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Mais uma que amarelou

Mudei eu ou mudou ele, sei lá.
Mas o bolinho Ana Maria nunca mais teve o sabor que eu amei na minha infância. Hoje tem gosto de bolo industrial, meio azedo, meio amargo.
Me lembro que, quando lançaram o Ana Maria no mercado, meses depois fizeram uma promoção: quem encontrasse um cupom dentro do bolo ganhava não-me-lembro-mais-o-quê. Só sei que era um prêmio valioso, tipo viagem a Paris. Andando de mão dada com minha mãe, me lembro de ver dezenas de bolinhos abertos, esmigalhados, literalmente estripados. As pessoas destroçavam os bolinhos, muito macios, à procura do tal cupom. E então eu guardei na memória uma das máximas do meu pai, horrorizado com aquela literal destruição de comida:
"A educação de um povo se revela no supermercado".

Eu confesso que...

... fiquei viciada. É a novela mais interessante e palpitante que já li. Me lembra Suzana Flag :o)

quarta-feira, setembro 28, 2005

E antes que eu me esqueça

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Para duas doidas que jamais me esquecem, e que sempre me fazem sorrir.
Obrigada por ambas existirem :o)

Grey's Anatomy, again

E por falar em médicos:

"Quer subir na vida? Consulte um urologista"

Esse era o texto de um outdoor instalado na Lapa, ao lado da ACM, em comemoração ao dia do urologista. Eu...err... não entendi.
Alguém me explica?
Um urologista, talvez?

...

Manhã muito chuvosa, fria. Sentadas as três no táxi, Catatau entretida descabelando sua boneca num penteado interminável. Virei-me e vi Zé Colméia olhando pela janela. Mãozinha apoiando a cabeça. "O que você está pensando, filha?" "Nada, mamãe".
Mas os olhos dela vieram cheios de uma melancolia profunda, uma tristeza doída. E eu abracei minha pequena e senti aquele corpinho magro, e só pensei o quanto daquela tristeza fui eu, no fim das contas, que ajudei a cimentar no seu coraçãozinho.

Grey's Anatomy

A partir das 8h, foram quatro consultas médicas diferentes: oftalmologista, dermatologista, alergista, otorrino. Até às 10h, quando corri de volta para deixar as meninas na escola (Zé Colméia tinha um aniversário, nas palavras dela, "importantíssimo"). Mal cheguei ao escritório, meu celular toca: "A senhora pode confirmar a consulta de [...] para as 16h30m?" "Que consulta?" "A consulta que seu marido marcou para ela. Confirma?"
Ódio. Ódio, ódio, óóóóóódio. O "marido" (MUNDO!!!!!!! EU ESTOU SEPARADA HÁ DOIS ANOS!!!!!!!!) marcou a consulta e se pirulitou para Teresópolis.
"Sim, pode confirmar". E lá fui eu inventar desculpa para o quinto médico: odontopediatra. Catatau tinha que tirar molde para fazer uma plaquinha que ajuda a criança a largar o hábito de chupar o dedo. Eu disse "tinha" porque ela não tirou: quase vomitou duas vezes, com aquela gosma quase na garganta. Nem Cristo descendo numa nuvem faria aquela criatura tirar as mãozinhas da boca. A salvação eterna não valia a pena, se o preço era enfiar aquela geleca verde de novo na boca.

Sua moda veste mulheres grandes?*

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Moda e gordura não combinam. Cheguei a fazer até 46, mas estou parando, porque o que vendo mais é 38 e 40. É uma opção de trabalho - quem faz moda não pode fazer roupa para mulheres gordas. São mercados diferentes. Se a Maria Bonita começasse a fazer roupas grandes, sei que haveria fila na porta, mas não é essa a minha intenção.

Candida Sarmento, da Maria Bonita

* Pesquisa realizada pela Revista Marie Claire para a edição de outubro de 1998. Atente-se ao detalhe que a pergunta era "Sua moda veste mulheres GRANDES?", e não "mulheres GORDAS".

domingo, setembro 25, 2005

O que eu ainda não vi

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O monte Saint-Michel é um ilhote rochoso na embocadura do Couesnon, no departamento da Mancha, na França, onde foi construído um santuário em homenagem ao arcanjo São Miguel. Seu antigo nome é "monte Saint-Michel em perigo do mar" (Mons Sancti Michaeli in periculo mari)
A arquitetura prodigiosa do monte Saint-Michel e sua baía constituem o ponto turístico mais freqüentado da Normandia e um dos primeiros da França, com cerca de 3,2 milhões de visitantes por ano. Uma estátua de São Miguel erguida no topo da igreja abacial culmina a 170 metros de altura.
A Abadia foi construída a partir do século X num areal à beira mar, local da segunda maré mais alta do mundo (o desnível chega a 15 metros). Duas vezes ao dia, a maré sobe a uma grande velocidade, e transforma a cidadela numa ilha. Na maré baixa, a distância entre o monte e a beira-mar chega a atingir 18 quilômetros, fazendo desse areal uma paisagem surreal mas também perigosa, devido à presença de areias movediças.
Dia a lenda que, em 708, Auberto, bispo da cidade de Avranches, teve um sonho em que o arcanjo Miguel punha o pé sobre a grande pedra e ordenava a construção de uma igreja no local. Obediente, Auberto ergueu um oratório. Depois vieram a abadia e um claustro. Uma grande igreja começou a ser construída em 1023. O ano de 1154 marcou o início de um período de esplendor em Saint-Michel. O abade Robert de Torigni, homem de vasta cultura, fez da abadia a "cidade dos livros" ao construir uma biblioteca, que se tornou uma das mais importantes da França.

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Em quase 1300 anos, a abadia do Monte Saint-Michel testemunhou e participou da história da França. Cercado por muralhas, o edifício transformou-se em fortaleza durante a guerra dos Cem Anos (1337-1453) contra os ingleses. Viveu seus piores dias após a Revolução Francesa (1789), quando foi usada como prisão. A cada incêndio e destruição, a abadia foi sendo reconstruída ainda com mais vigor. O resultado é uma mistura harmoniosa de estilos, que a torna única. Em 1966, um monge beneditino decidiu viver confinado em Saint-Michel, resgatando a missão da abadia como a casa de oração, determinada por São Miguel ao bispo de Avranches.
Diversos prédios e habitações do sítio são, a título individual, classificados como monumentos históricos (a igreja paroquial desde 1909, por exemplo) ou inscritos no inventário suplementar de monumentos históricos.
Classificado monumento histórico em 1987, o sítio figura desde 1979 na lista do Patrimônio Mundial da Unesco.

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Desculpem a noça falha

Tá lá no menu da DirecTV:

"Adam & Eve: um reality sem sensura"

É nessas horas que eu dou graças por minhas filhas ainda não saberem ler.

Libris

Suzana,
como presente de grego, em estrita e absoluta confiança, e para Vc. matar saudades, se tiver um tempinho, e, em segredo, eis "[...]" como será entregue à editora. Pena que meus originais de "[...]" ficaram para publicar em 2006. Mas este romance, a meu ver, tinha que sair na frente.
Bjs.

Ele já lançou três livros, pela maior editora do país - romance e contos. Esse é o seu quarto título. E ele me mandou por e-mail, para que eu o lesse - miolo e orelhas. É nessas horas em que eu vejo:
O quanto sinto falta de trabalhar com livros;
Como fiz bons amigos entre os melhores escritores do país;
Como eles me têm em consideração;
O que eu daria para não ter que pensar em dinheiro quando me levanto todos os dias para ir trabalhar.

Devaneios

Os minutos antes de eu pegar no sono são aqueles em que as maiores besteiras, as melhores idéias, o óbvio e o não tão evidente aparecem. Pois eu estava distraída sentindo as mãozinhas da Zé Colméia do meu braço quando me toquei que nada, absolutamente nada mudou na vida do meu ex-marido: ele voltou a ter sua vida de solteiro, morando com a mãe no mesmo quarto, fazendo os mesmos programas, viajando com a namorada. Até a parcela do que ele gasta com pensão alimentícia com as filhas (nossas e a do primeiro casamento) é a mesma, porque ele teve dois aumentos.
Eu? Eu vivo como uma viúva. Aquela que não tem mais aquele com quem dividir as despesas, que é pai e mãe ao mesmo tempo e se desdobra em muitas para dar conta de tudo.
A vantagem? Muito pouca coisa nessa vida, hoje, é capaz de me quebrar. E eu me orgulho de, apesar das crises, do choro, do cansaço, de tudo o que me dobra às vezes, eu sempre me levanto no dia seguinte.

Você inventa o amor, eu invento a solidão*

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É fácil encantar com conversas baratas no meio do bar. Tomar cerveja, inclinar os peitos, fazer cara de malvada, simular trejeitos, soltar a fumaça do cigarro com uma simples pressão dos lábios, cruzar as pernas direitinho, dar risadas debochadas, levantar e ir embora como um sonho bom.

Difícil mesmo é ser amada por quem bem te conhece. Quem acorda de manhã e agüenta o mau humor, a espinha gigantesca na testa e a insegurança das manhãs de domingo. Parece impossível amar quem a gente não queria, chora-se por tentar encaixar a realidade numa ilusão de outrora. Lidar com a realidade foge do padrão onírico dos contos de fada. Porque amor não dá as respostas certas na hora que a gente quer. É o único momento na vida em que o corpo quer rumar para um lugar incerto enquanto a alma precisa de chá, bolachas e cafuné no sofá.

*Post do blog Garrafas ao Mar, da Lígia, com quem ainda não tive o prazer de disputar, numa mesa de bar, quem inclina os peitos melhor :o)

sábado, setembro 24, 2005

Pequeno Príncipe

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Deitada na cama do hotel. Uma lua fantástica, o vento nos coqueirais (não deu pra resistir :o), um céu estreladíssimo, tudo de bom. Andei, virei, fiquei um tempão na varanda, e o sono, nada. Aí liguei a televisão.
RAI, concurso de miss Itália. A candidata de número 23 exibe-se com uma fita - sabe?, aqueles movimentos de ginástica rítmica. Zé Colméia faz igual (pra não dizer melhor). Ela, coitada, não teve chance quando a candidata 58 mostrou seu talento com o arco & flecha. Acertou na mosca na segunda tentativa - tudo bem que quando ela soltava a flecha a bunda dela dava um tremelique e os juízes iam ao céus.
Imagine se isso interferiu no julgamento deles. Não mesmo.

Voltei

Cheguei da Bahia na segunda, mas o trabalho acumulado era inenarrável. A pilha já estava três andares acima. As meninas, depois de duas semanas em casa, doentes, trouxeram cada uma outra pilha de circulares, deveres (sim, Zé Colméia tem dever de casa), pedidos, esclarecimentos, informes & advertências.
Só voltei a ser gente ontem de manhã - quando levei as duas meninas ao dermatologista e decobri que a consulta é quarta-feira.
Ou seja, tudo voltou ao normal. É bom estar de volta :o)

sexta-feira, setembro 16, 2005

Primeira noite

Acabei de jantar com um marroquino e com um francês. As mesas postas num imenso coqueiral, a lua cheia batendo no mar, logo ali. As outras duas mulheres da mesa suspiravam de prazer. E eu, de saudades.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Últimas notícias

Depois de duas semanas doente, Zé Colméia se recuperou. A febre cedeu, a alergia foi embora, o nariz secou. Já dá para dormir deitada, sem roncar nem vomitar no meio da noite.
Eu? Estou um bagaço. Amanhã viajo para Salvador e só volto domingo.
As meninas ficam com o pai. Seja do que Deus quiser.
Até a volta.

domingo, setembro 11, 2005

Lutetia*

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Conheci a cidade de Paris em 1995 - ou seja, já se vão dez anos. Muita coisa estava em obras de restauração: Notre Dame, o Louvre. Mas Paris sempre me encantou não por ser Paris, não por ser chique. Um dos meus sonhos não realizados era fazer uma pós-graduação em História medieval, e a França é um dos poucos (se não for o único) países com uma história linear, onde se pode traçar uma reta dos dias de hoje até Carlos Magno. O reino franco, suas tradições, alianças. Seus santos (Luís, rei da França, foi feito santo; dele descende Felipe, o Belo, que inicia a saga Os Reis Malditos, de Maurice Druon), a sua construção, suas catedrais, seu envolvimento nas Cruzadas, seu poder de eleger papas (ou tirá-los do poder). A catedral de Reims (na cidade de mesmo nome) onde os reis era coroados; Cluny, a abadia mais poderosa que já se ouviu falar; os inúmeros castelos, fortalezas, universidades, claustros. A História do Homem pode ser resumida na França. O maior medievalista era francês, George Duby.

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Em Paris, o Louvre, em seu subsolo, teve suas paredes evisceradas, e pode-se ver como ele foi, antes de toda a perfumaria e maquiagem por que passou, uma fortaleza rude e construída em 1190 para deter as invasões vikings. Os prédios do século XVIII de pedras acinzentadas - uma cor indefinida, que lembra prata antiga - e que foram retiradas do chão da própria Paris. Escadarias, igrejas, monumentos. O conjunto de pontes. Notre Dame com sua rosácea tão característica da época em que foi construída, suas gárgulas (uma delas, de chapéu, é considerada, em tom de piada, como a padroeira das sogras :o), seus santos no portal (um deles, São João Batista, aparece degolado). Os túmulos pelo chão, alguns com inscrições tão gastas que a única coisa que se pode divisar é a cruz no escudo, o que mostra que ele foi um cruzado.
Eu gostaria de morar, sim, em Paris. Se pudesse ter uma casa na Itália, então, estaria realizada. Túmulo de Adriano, Coliseu, as termas, os templos. As praças, os palácios, o Vaticano. Mas isso é para outra vida, assunto para outro post.

* O primeiro nome de Paris. Os primeiros habitantes das imediações do Rio Sena chegaram à região cerca de 4.500 aC. Em 300 aC, a tribo celta dos Parisii se instalou em uma área conhecida por Lutécia. Em 55 aC, quando os romanos conquistaram a Gália (França), fortificaram a região e estenderam a aldeia até a margem esquerda do Sena. O nome Paris foi dado pelos francos, quando estes chegaram a região, fazendo da aldeia a capital do seu reino.

sábado, setembro 10, 2005

Origem

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Era o século dos estrangeiros, morenos, amarelos e brancos. Era o século do grande experimento imigrante. Só assim tarde do dia, ao entrar num playground, a gente topa com Isaac Leung ao lado do tanque de peixes, Danny Rahman no gol do futebol, Quang O’Rourke jogando basquete e Irie Jones cantarolando uma canção. Crianças com o nome e o sobrenome num conflito direto. Nomes que ocultam em si um êxodo em massa, navios e aviões apinhados, desembarques mal recebidos, exames médicos. Só assim tarde do dia, [...] a gente encontra as melhores amigas, Sita e Sharon, constantemente confundidas uma com a outra, porque Sita é branca (a mãe gostou do nome) e Sharon é paquistanesa (a mãe achou que era o melhor nome – menos problema). No entanto, apesar de toda a confusão, [...] ainda é difícil aceitar que não haja alguém mais indiano do que o inglês. Ainda há jovens brancos que se irritam com isso, que sairão às ruas mal iluminadas, na hora em que os bares fecham, com uma faca de cozinha disfarçada na mão cerrada.
Mas provoca risos no imigrante ouvir os temores do nacionalista, com medo de infecção, penetração, mestiçagem, quando isso não é nada, quando isso é mixaria, comparado ao que o imigrante teme – dissolução, desaparecimento. Mesmo a imperturbável Alsana Iqbal normalmente aordava numa poça de suor depois de uma noite em que era assediada por visões de Millat (geneticamente, BB, em que B representa bengali-dade), casando com uma moça chamada Sarah (aa, em que "a" representa ariana), resultando num filho chamado Michael (Ba), que, por sua vez, casa com uma moça chamada Lucy (aa), deixando Alsana com um legado de bisnetos irreconhecíveis (Aaaaaaa!), a bengali-dade da família totalmente diluída, o genótipo oculto pelo fenótipo.
[...] Mas com Irie e Clara a questão era, na maioria das vezes, tácita, pois Clara sabia que não se encontrava numa posição de pregar. Mesmo assim, não procurava disfarçar a decepção ou a dolorosa tristeza. Do santuário de ídolos hollywoodianos de olhos verdes no quarto de Irie até o bando de amigos brancos que com freqüência nele entravam e saíam, Clara via um oceano de peles róseas cercando a filha e receava a maré que a levaria embora.

Zadie Smith, "Dentes brancos"
Companhia das Letras, 2003

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Luz

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As meninas estão doentes desde o feriado. Minha chefe tira, a partir de segunda, dez dias de férias. Eu viajo para Salvador a trabalho na próxima sexta - e por isso vou perder a feira de artes das meninas (elas trabalharam quase dois meses, com afinco, preparando os trabalhinhos que serão expostos somente no sábado dia 17).
Faz três noites que eu não durmo direito - sentada na cama, revezando no meu colo quem está tossindo mais. Então, o que eu mais gostaria nessas noites de muito cansaço é sentir a mão de alguém nas minhas costas para me dar certeza que existe alguém mais respirando, além de mim, na escuridão.